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35 A rejeição de Jesus em seu povoado natal, Mc 6.1-6a

A rejeição de Jesus em seu povoado natal, Mc 6.1-6a 
(Mt 13.53-58; Lc 4.16-30; cf. Jo 7.15; 6.42; 4.44; 10.39)

1-6a Tendo Jesus partido dali, foi para a sua terra, e os seus discípulos o acompanharam.      Chegando o sábado, passou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-o, se maravilhavam, dizendo: Donde vêm a este estas coisas? Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos? Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E não vivem aqui entre nós suas irmãs? E escandalizavam-se nele. Jesus, porém, lhes disse: Não há profeta sem honra, senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa.      Não pôde fazer ali nenhum milagre, senão curar uns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos.      Admirou-se da incredulidade deles.

Em relação à tradução
     a
     patris em Jo 4.44 é “pátria”, pensando na Galiléia, como aqui no v. 4. No v. 1, porém, pensa-se no
povoado natal de Jesus, Nazaré (cf. 1.9n). Devemos ter em mente que o lugar era uma povoação
insignificante de camponeses, miserável, sem qualquer tradição, sem menção nos textos antigos, porém
contando com uma sinagoga, donde se pode concluir que os moradores eram de religiosidade judaica rígida.
A cidade atual de Nazaré, com seus 25.000 habitantes, não reflete as condições daquela época.
     b
     Cf 1.45n.
     c
     O contexto pressupõe um acontecimento coletivo, e não se pensa que uma parte dos espectadores tenha
ficado impassível. A Bíblia viva captou a idéia, ao parafrasear: “O povo estava admirado”. Certamente
“muitos” deve ser entendido aqui contra o pano de fundo semita (Jeremias, ThWNT VI, 541) e significa
“todos”, como Lucas 4.22 também registra.
     d
     “Este”, três vezes nos v. 3 e 4, cria distância e passa para um tom de desprezo. Uma pessoa respeitada
não é apontada como “aquele ali” (cf. 14.71).
     e
     tekton, na verdade “fabricante”, portanto não uma identificação profissional clara como “carpinteiro”
dá a entender. O termo abrange um grande espectro de profissionais modernos que se ocupam com madeira,
pedra, metal ou até chifre. Is 44.13-17 mostra como o próprio “carpinteiro” planta e derruba árvores, fornece
lenha e também molda, esculpe e forma. É sempre o contexto que decide. Jesus atuava em um ambiente
totalmente rural. Ele fabricava carroças e consertava arados, entalhava bacias, colheres ou enxadas, construía baús, bancos, camas, levantava parreirais e galpões, cobria e consertava telhados. Tudo isto em um grupo de pessoas que se conheciam e em um degrau de civilização em que cada um faz sozinho tudo o que pode. Bem
cedo os pagãos já zombavam da profissão comum de Jesus (Celso), e não tardaram as tentativas dos cristãos
de fazer de Jesus alguém “mais elevado” (Ambrósio). Mas falar de uma “construtora” ou de Jesus como
“arquiteto” é muito exagerado.
     f
     Os quatro nomes têm um tom antigo, patriota e religioso. Com certeza não foram dados de maneira
superficial.
     g
     arrostos para doentes, só aqui, no v. 13 e em 16.18. Nas outras passagens Marcos usa termos como “os que estavam mal, sofriam” (1.32,34; 2.17) ou “estavam fracos” (6.56).
Observação preliminar
Contexto. Esta história tinha muita importância para Marcos. Isto vale em primeiro lugar para o contexto
mais próximo. O tema da fé, dos v. 34,36, é levado adiante, como mostra o v. 6. Mas depois dos dois grandes
testemunhos da fé e das suas experiências com o poder de Jesus, Marcos destaca de modo quase brutal o
desafio que era crer em Jesus como carpinteiro de aldeia. Ele podia ter omitido e suprimido esta informação.
Ela serviu com freqüência aos inimigos da igreja antiga como material para gracejos. Contudo, a pequenez e a rejeição do Nazareno fazem parte do evangelho de Jesus Cristo. Nós realmente cremos em coisas incríveis. A fé está muito próxima da possibilidade de descrença e decepção (v. 5). Os ouvintes do evangelho precisam
saber isto. Seu cristianismo não deve consistir em ambição de glória, sem digerir um pouco sequer o mistério
da cruz de Jesus, ou pelo menos tomar conhecimento.
Em outro sentido, este trecho e o próximo colocam um ponto final para toda a subdivisão desde 3.7, que
tratou da separação de povo e discípulos (cf. opr à subdivisão). A história de Nazaré mostra com destaque e em resumo o rompimento entre o Servo de Deus e a “pátria” (v. 1 e 4), “parentela” e “casa” (v. 4). É a mesma escalada de renúncia e sacrifício como com Abraão em Gn 12.1. Ela está, porém, sob a mesma promessa de
bênção incomensurável como Abraão. Deus faz sair algo novo para todo o mundo desta separação amarga. A menção dos discípulos que o seguem, no v. 1b, contém um indício disso. Jesus, ao ser rejeitado, já tem
consigo o alicerce do novo. Acima de tudo cabe observar que Jesus faz um gesto profético exatamente no
contexto da sua rejeição, que é o envio dos discípulos para terem uma antecipação das coisas futuras (6.6b-13).
     1,2     Continuando seu trabalho itinerante (1.38), que nesta fase também já era trabalho de um fugitivo
procurado, tendo Jesus partido dali, foi para a sua terra. Intencionalmente Marcos não menciona
o nome da localidade geográfica, Nazaré, mas desde o começo chama a atenção para a relação
pessoal de Jesus com este povoado (v. 1 e 4). Aqui Jesus tinha suas raízes naturais, onde crescera e se
formara e passara quase toda a vida. Aqui viviam seus parentes e era sua casa – sinônimos de
aconchego. Jo 1.11 vale aqui duas e três vezes: “Veio para o que era seu”, para “os seus”. Só que ele
não veio como se fora; os seus discípulos o acompanharam. Eles com ele – isto tinha significado
não só para eles, mas também para ele. O fato de eles o seguiram era reflexo do reinado de Deus que
se aproximava, em cuja proclamação consistia a sua vida. Este reinado de Deus reivindicava agora
também sua aldeia natal. O Espírito Santo invadiu a mentalidade desta sociedade judaica de aldeia. A
visita, portanto, não era familiar, também não era a busca de asilo de um fugitivo, mas a chegada de
alguém que tem uma missão. Chegando o sábado, passou a ensinar na sinagoga. O programa
costumeiro de um culto judaico permitia a qualquer israelita, com a permissão do presidente da
sinagoga (cf. 5.22n), fazer uma exposição livre de um texto bíblico à sua escolha (Bill. IV, 153ss).
Enquanto, porém, em Cafarnaum nenhuma sinagoga abria mais as portas para Jesus (cf. 3.7), aqui
suas relações familiares podem ter mais uma vez aberto o caminho para ele. E muitos, ouvindo-o, se
maravilhavam. A princípio ninguém conseguiu fugir da impressão da verdade e grandeza de Jesus
(cf. a passagem semelhante em 1.22). Existem experiências coletivas como estas. Mas isto não
significa que coletivamente se chega à fé. Pelo contrário, esta perplexidade ainda está em aberto para
os dois lados, para a fé e a descrença. A enxurrada dos próximos cinco dias já mostra como o
pêndulo se moveu para o lado negativo.
Donde vêm a este estas coisas? Eles tomam distância duas vezes, primeiro “deste” (cf. nota da
tradução), depois do que há de carismático nele, que eles resumem como “estas coisas”. “Estas
coisas” lhes são estranhas. “Estas coisas” ele não tinha de Nazaré, do que eles puderam lhe dar. Nem
escola rabínica ele freqüentara (Jo 7.15). A segunda pergunta diz respeito ao seu ensino: Que
sabedoria é esta que lhe foi dada? A terceira pergunta se refere aos milagres: E como se fazem tais
maravilhas por suas mãos? A “sabedoria” do ensino com autoridade e “obras de poder” salvador
como há pouco em 5.34,41 são, na Bíblia, sinais de unção do Espírito (Is 11.1-4; cf. 1Co 1.24). A
primeira eles recém tinham experimentado, das outras tinham ouvido (1.45; 3.7s; 6.14,53s), mas de
modo inequívoco. De modo que estavam diante de todo o evangelho. Por outro lado, o judaísmo
como um todo nunca duvidou da realidade dos milagres de Jesus, mas da sua origem divina. De
modo sistemático alimentavam a suspeita de que ele estivesse possesso (3.22,30). Aqui os nazarenos
ainda deixam a questão em aberto, estão apenas perguntando. Mas perguntas, especialmente sua
seqüência insistente, pode estar expressando ceticismo, o que é o caso aqui, como mostra a
continuação.
     3     Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E não vivem
aqui entre nós suas irmãs? Assim eles levantaram muros para se defender do Espírito Santo. Estas
perguntas não eram mais autênticas, com abertura para o que fosse novo, mas intencionais e
preconcebidas. Com elas os nazarenos já diziam para si mesmo: Com certeza ele não é o Messias!
Pois a doutrina do Messias era: “Quando vier o Cristo, ninguém saberá donde ele é” (Jo 7.27).
Distante do cotidiano das pessoas, ele se prepararia na solidão e se mostraria com a auréola de quem
foi separado. Isto lhes faltava em Jesus. Ele era muito um dos seus, muito nazareno, muitas vezes
irmão, humanamente muito próximo. No fundo se irritaram exatamente com aquilo que haveria de
lhes resultar em bem: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14), “Assumindo a forma de
servo, tornando-se em semelhança de homens” (Fp 2.7). Estes sinais graciosos de igualdade lhes
serviram de armadilha.
Provavelmente, no entanto, havia mais em sua descrição da pessoa dele, isto é, um pouco de
difamação. Da expressão filho de Maria geralmente não se deduz mais do que a suposição de que
José, o marido de Maria, deve ter falecido cedo. Senão ele dificilmente poderia ter faltado em uma
narrativa tão detalhada (cf. também 3.31). Mas já no próprio fato de um filho ser chamado por sua
mãe e não por seu pai, vivo ou falecido, havia algo de ofensivo. Falava-se assim quando o pai não era
conhecido. Quem era chamado por sua mãe era um “discreto” (um filho ilegítimo; Stauffer, Jesus, p
23; Jerusalém, p 117s). Nestes filhos também esperava-se uma tendência nefasta à rebeldia e
blasfêmia. Assim, “filho de Maria” tem um tom suspeito em relação à religiosidade de Jesus; a
possessão não parecia fora de questão. Xingar Jesus como filho de uma prostituta ou adúltera, pelo
menos, teve um papel preponderante na literatura rabínica posterior, inclusive no Corão.
Que estas perguntas já continham a recusa à fé, o fim do versículo confirma: E escandalizavam-se nele. O tempo imperfeito retrata como o processo tomou volume e amadureceu, cobrindo a alma, a
consciência e a vontade. O v. 6, por fim, fala da sua “incredulidade”.
     4     Nesta altura uma palavra de Jesus levanta um pouco a cortina escura. Jesus, porém, lhes disse: Não
há profeta sem honra, senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa. Não se trata de
uma citação bíblica. Jesus faz uso de um provérbio popular, que se encontra, com variações, em
textos judaicos e gregos. Todavia, o uso de três termos para descrever os que o desprezam – “terra,
parentes e casa (= família)” – chama a atenção e estabelece uma relação com a ordem de Deus para
Abraão para que saísse da sua terra (cf. opr). Deste modo, Jesus fala aqui do seu sofrimento, ainda
bem discreto, não “claramente”, como a partir de 8.32). No entanto, ele suporta esta experiência pela
vontade de Deus e das profundezas da história da salvação.
     5     Não pôde fazer ali nenhum milagre. Esta incapacidade é prova de alguma limitação? Será que
apenas a atitude positiva do público lhe conferia a força necessária? O que significa este “Jesus não
pôde”? Ele não podia querer, nestas circunstâncias. Mc 14.58 sugere esta conclusão, pois ali falta
este “não pôde”. Ele também não devia. Isto é Lc 4.26 que mostra, no contexto. Neste caso faltou a
Jesus, como a Elias, a comissão divina. Pois onde se rejeita o doador, a dádiva é sem sentido, talvez
até prejudicial. Por isso o semáforo mudou para vermelho (cf. 8.12). Jesus não devia, e por isso
também não queria. Neste sentido não podia.
A frase, porém, ainda não terminou: senão curar uns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos
(cf. 7.32). Naturalmente este fim de frase está em conflito com o que se disse antes. Quer dizer que
em alguns casos ele pôde. Esta contradição, porém, tem uma lógica bíblica. Ela pode ser vista, p ex,
também no texto paralelo, quanto ao assunto, de Jo 1.11,12. Ali conjugou-se da mesma maneira
direta que os seus não o receberam, mas que depois alguns acabaram recebendo-o. À constatação
geral negativa acaba seguindo uma constatação positiva jubilosa. Deus conquista terreno exatamente
ali onde não há lugar para ele. Por esta razão a igreja sempre existe como algo que não existe – como
milagre. Assim, Jesus não saiu desta Nazaré que o rejeitou sem antes dar início ao bom reinado de
Deus.
     6a     Admirou-se da incredulidade deles. Seus patrícios admiraram-se da sua palavra de graça, ele com
o coração duro e incrédulo deles. Não deveria a fé ser tão normal como abrir uma veneziana para a
luz do sol, ou como aproveitar e comer quando o faminto é colocado diante de uma mesa posta? Esta
despedida perplexa de Jesus da sua terra natal deixa mais uma indicação indireta da clareza e
bondade da sua causa.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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