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36 O envio dos doze, Mc 6.6b-13

O envio dos doze, Mc 6.6b-13 
(Mt 9.35; 10.1,7-11,14; Lc 9.1-6; cf. 10.1-12)

6b-13 Contudo, percorria as aldeias circunvizinhas, a ensinar. Chamou Jesus os doze e passou a enviá-los de dois a dois, dando-lhes autoridade sobre os espíritos imundos. Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, exceto um bordão; nem pão, nem alforjenem dinheiroque fossem calçados de sandálias e não usassem duas túnicasE recomendou-lhes: Quando entrardes nalguma casa, permanecei aí até vos retirardes do lugar. Se nalgum lugar não vos receberem nem vos ouvirem, ao sairdes dali, sacudi o pó dos pésem testemunho contra eles. Então, saindo eles, pregavam ao povo que se arrependesse; expeliam muitos demônios e curavam numerosos enfermos, ungindo-os com óleo. 

Em relação à tradução
     a
     Para este “passou” a nota a 1.45 é importante. Não se faz diferença aqui entre o início e uma
continuação posterior do envio. Jesus não envio os doze mais nem uma vez, antes da Páscoa. Trata-se de um processo único, mas que é introduzido solenemente: “Jesus se pôs a…”
     b
     Com freqüência do couro de uma cabra, inteiro, fazia-se uma bolsa bastante grande. Era carregada
sobre o quadril esquerdo, por uma tira de couro que passava sobre o ombro direito. Os camponeses traziam galinhas e cordeirinhos dentro dela para a feira, pastores e viajantes a usavam para levar provisões.
     c
     Lit. “cobre”. Moedas de valor, de ouro ou prata, nem entravam em cogitação. As moedas de cobre
eram cunhadas principalmente por cidades e províncias, para uso local. Moedas de metais nobres, cunhadas
por reis e pelo imperador, tinham circulação mais ampla. O envio dos discípulos por Jesus limitou-se,
portanto, à região interiorana da Galiléia.
     d
     O texto grego diz que o dinheiro era colocado “no cinto”. Para o uso variado do cinto, cf. 1.6. Aqui se
pensa em uma tira de pano larga, dobrada várias vezes, que era enrolada no corpo e era o lugar mais seguro
para guardar o dinheiro.
     e
     O chiton era um tipo de camisolão, em sua forma mais simples como um saco com aberturas para os
braços e a cabeça. Deve ser diferenciado da túnica que se vestia por cima, mencionada mais vezes (himation, cf. 10.50n).
     f
     Quando um israelita, depois de uma viagem por terras pagãs, novamente chegava à fronteira da Terra
Santa, purificava com cuidado o calçado e a roupa do pó que trazia. Na opinião dos rabinos esta poeira podia tornar os objetos ritualmente impuros, inadequados para o culto a Deus.
     g
     Não testemunho de salvação, mas testemunho de acusação, “contra eles”, como Lc 9.5 também
esclarece (cf. 1.44n).
Observações preliminares
1. Contexto. Sem citar Jesus novamente pelo nome, Marcos continua a narrativa, e dá sentido à observação
do v. 1, de que seus discípulos o seguiam, que estava meio no ar. No fim está a expulsão dos “muitos”
demônios e a cura dos “numerosos” enfermos (v. 13; para os doentes, arrostoi, como no v. 5), em contraste
intencional com a cura de “uns poucos” em Nazaré. De uma maneira típica para Marcos, as duas histórias
estão relacionadas. Elas fornecem um novo exemplo de como do sofrimento brota a salvação. Pois com o
envio, o rejeitado multiplica sua oferta de graça. Rejeitado por Israel, ele retorna duodecuplicado. Já o
chamado dos doze em 3.13 queria ser visto contra o pano de fundo da decisão de matá-lo, em 3.6. Da
Decápolis ele foi intimado a sair, mas deixou na pessoa do homem curado uma testemunha da misericórdia
(5.19s). Sempre de novo a rejeição provoca novas investidas da graça. Deus não abandona seus filhos
perdidos. Eles se afastam dele, mas ele não deles. É isto que dá à obra de Marcos um tom tão cheio de
esperança alegre. Onde o pecado transborda, a graça transborda mais ainda. O ponto alto é Mc 14.22-25: no momento em que a noite estava mais escura, Judas o trai, Pedro o nega, todos o abandonam, Jesus proclama a nova aliança de Deus com todos.
2. O propósito do envio dos doze. O retorno dos que foram enviados, em 6.30, parece ser o fecho normal,
esperado. Desde o princípio, portanto, o empreendimento está limitado no espaço (cf. Mt 10.5s) como também
no tempo. Execução e término são descritos sem qualquer indício de desapontamento, apesar de não
ocorrerem conversões em massa nem fundações de igrejas. Qual, então, era o propósito da ação?
Acompanhamos Schürmann ao falar de uma ação simbólica profética de Jesus (Schürmann, Das Geheimnis
Jesus, p 74ss). Jesus não falou somente em parábolas, mas também – como os profetas do AT – representou
parábolas. Uma destas ações parabólicas já fora o chamado do grupo dos doze, e devemos pensar também nos
banquetes com os cobradores de impostos, a multiplicação dos pães no deserto, a entrada em Jerusalém
montado em um jumento e, acima de tudo, a última ceia na noite da Páscoa. Cada uma destas ações
ultrapassou o sentido imediato e continha um sentido a mais, que apontava para a frente e só se cumpriu mais
tarde, ou ainda está por se cumprir. No caso do envio, Jesus reivindicou a messianidade exatamente na
rejeição. Os doze anunciaram esta reivindicação a Israel.
3. Transmissão. Não pode deixar de ser dito que os cristãos que transmitiram este relato não se ocuparam
deste envio somente em termos históricos, já que não eram cronistas, mas missionários. Por isso esta história
os tocou profundamente. Esta é a explicação mais simples para as divergências entre os textos paralelos. A
identificação intensa deixou suas marcas. Muitos detalhes de interesse do historiador foram omitidos
(indicações de ponto de partida, região visitada e conteúdo da mensagem da missão). O v. 7, p ex, em sentido
literal tem o sentido de que os discípulos foram enviados somente com a tarefa de expulsar demônios. Que
também deviam pregar, temos de concluir do v. 12; 3.14 e outras passagens. Evidências de retoques
encontramos no v. 11, onde se explica o sentido de sacudir o pó, para os desinformados; na segunda metade do
v. 9, onde há um resto de discurso direto; ou o recomeço no v. 10. No entanto, não seguimos a idéia de vários
expositores, de que toda a história do envio é uma montagem, e que orientações para o trabalho missionário
posteriores à Páscoa tenham sido aplicadas ao tempo terreno de Jesus. Uma montagem pelos primeiros
cristãos teria outra forma, linguagem mais fluente e conteúdo mais em sintonia com a prática dos primeiros
cristãos. De acordo com as fontes que temos (as cartas de Paulo e o livros dos Atos), o trabalho missionário
dos primeiros cristãos formava um quadro totalmente diferente. Eles não saem de dois em dois, de casa em
casa, mas geralmente formam equipes maiores, que se apresentam em sinagogas e salões. Pedro e outros
viajavam com suas esposas (1Co 9.4s). A unção com óleo não tinha o papel como no v. 13. A pregação era
cristológica, a vinculação com a igreja era forte e freqüente. O batismo tinha um papel óbvio. Seja como for, a rejeição da historicidade deste trecho não pode ser explicada a partir do próprio texto.
     6b     Jesus não se deixou dissuadir da sua atividade por seus insucessos. Ele continua sendo o bom
semeador de 4.2-9. Contudo, percorria as aldeias circunvizinhas, a ensinar. O tempo presente, “a
ensinar”, descreve a continuidade, como pano de fundo para o que segue. A atuação dos discípulos é
sustentada e cercada pela atuação dele. É significativo que, no contexto deste envio, encontramos
aqui em Marcos a única passagem que diz que, além de Jesus, mais alguém ensinou (6.30; cf. opr 2 a
1.21-28). Na verdade Jesus é o único mestre e, até hoje, quem ouve os discípulos ouve o próprio
Jesus.
     7     Chamou Jesus os doze, num gesto soberano, como em 3.14. A mensagem deles flui do domínio
dele e, naturalmente, está a serviço do reinado de Deus. Isto já se pode sentir aqui. Por isto, em vista
da brevidade do relato, a ordem e o conteúdo da missão podem ser omitidos. Só no v. 12 se diz de
passagem que eles também pregavam. Assim, simplesmente se diz em tom solene: e passou a enviá-los. Todavia, o envio em duplas também é indício de ministério da palavra: de dois a dois.
Dificilmente este detalhe deve ser entendido com base em Ec 4.9-12, ou seja, tendo em vista a
vantagem pessoal mútua. Em primeiro lugar está o significado jurídico de duas testemunhas em
interrogatórios. Naquela época, uma testemunha valia tanto quanto nenhuma: “Uma só testemunha
não se levantará contra alguém; […] pelo depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o
fato” (Dt 19.15; cf. Mc 14.59). Passagens como Mt 18.19; Jo 8.17; Hb 6.18; 1Jo 5.7, porém, mostram
que esta regra não valia só em processos criminais. Em termos gerais ela servia para determinar a
veracidade de fatos a que não mais se tinha acesso direto. Também nestes casos o testemunho se
tornaria legal e eficaz com a presença de duas pessoas. Dois mensageiros juntos conferem qualidade
à sua mensagem.
Mais uma vez Marcos destaca a expulsão dos demônios (opr 4 a 1.21-28): dando-lhes autoridade
sobre os espíritos imundos. O reinado de Deus não estava penetrando em um vácuo de poder. Por
isso, o outro lado das boas novas sempre é a luta (cf. 3.15). Todo missionário que quer “conquistar”
pessoas para Deus precisa dominar o “espaço aéreo” sobre a “fortaleza” (Ef 6.12; Rm 15.19; 2Co
10.4-6). Por esta razão, em 1.39; 3.14s e aqui, “anunciar” está ligado a exorcismos.
     8     Um contraste estranho com a capacitação espiritual parece formar o equipamento exterior escasso
dos mensageiros. Mesmo assim, os v. 8 e 9 não mostram um ascetismo desumano. A comparação
com 10.28-31 mostra que os discípulos não devem ter falta do necessário. Contudo, nada deve ser
obstáculo à mensagem. Por isso a ênfase está em deixar fora.
Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, exceto um bordão; nem pão, nem alforje,
nem dinheiro. De acordo com Lc 22.36; Mt 26.51, podia-se pensar em levar uma espada, pensando
nos salteadores de estrada. O mínimo para levar, porém, era um cajado, inclusive para os mais pobres
(Gn 32.11). Os mensageiros deveriam apresentar-se em simplicidade desarmada. Ninguém deveria
temê-los, nem eles a ninguém (Mt 10.28). Eles não iriam morrer, mas viver e anunciar as obras do
Senhor (Sl 118.17).
O fato de não levarem mantimentos (“pão”), além de não mendigarem como pregadores
itinerantes cínicos, de modo a deixarem a bolsa de viagem em casa, não os condenava a passar fome,
mas os fazia depender das possibilidades comuns no caminho. Para o consumo pessoal podiam
colher grãos ou uvas (Dt 23.25s; Mc 2.23). Segundo Bill. II, 644, todo viajante judeu podia
apresentar-se em qualquer povoado e receber alimento de fundos públicos. O que fosse necessário
era recolhido diariamente das casas e distribuído aos que tinham direito para receber. Um fundo
específico também provia roupas. Para o pernoite, o viajante não era obrigado a recorrer a
hospedarias, que na verdade somente existiam em regiões desabitadas, mas só precisava ficar de pé
na praça central de um povoado até que um morador do lugar o recolhesse e levasse para a sua casa
(Jz 19.15-20). A hospitalidade era uma das obras de caridade mais meritórias, e era tida em alta
consideração. O hospedeiro contava com grandes bênçãos, até perdão de pecados e intercessão junto
a Deus. A recusa da hospitalidade excluía a pessoa de Israel. Até inimigos eram recolhidos, a
negativa representava uma ofensa grave. Da hospitalidade faziam parte a saudação, lavar os pés,
oferecer comida, proteger e acompanhar na despedida. – Os mensageiros de Jesus deviam contar com
estas disposições de boa consciência, como desejadas e preparadas por Deus (Mt 10.10b). Lc 22.35
mostra que eles agiram assim e deste modo tiveram seu sustento.
A ordem para não levarem dinheiro tinha a mesma intenção. Dificilmente o sentido era ideológico
como entre os essênios e os filósofos gregos, que louvavam a falta de dinheiro como sinal
característico dos tempos paradisíacos primitivos. A propósito, a melhor maneira de estar a salvo de
assaltantes no Oriente é não levar dinheiro.
     9     Mas que fossem calçados de sandálias. De pés descalços andavam no máximo pessoas de luto e em
jejum, não mensageiros de boas notícias. Viagens mais longas, além disso, eram impensáveis sem
proteção para os pés, e o que era normal, também o era para os discípulos. Não deviam chamar a
atenção para si como faquires indianos, mas também não levar um par sobressalente.
E não usassem duas túnicas. No Oriente, em boa parte a riqueza e a posição social podiam ser
vistas na vestimenta (At 20.33). Josefo testifica o hábito de pessoas abastadas de usar várias camisas
uma sobre a outra (Antigüidades XVII 5.7; cf. Bill. I, 566). Lamsa escreve na p 126: “Um pobre tem
somente uma camisa. Um rico usa ao mesmo tempo até uma dúzia de camisas e várias túnicas.
Viajantes muitas vezes vestem várias camisas, para impressionar e ser bem recebidos nas cidades.
[…] Em termos gerais, os salteadores só assaltam pessoas que possuem mais de uma camisa.” Da
mesma forma como ninguém deveria temer os mensageiros de Jesus, ninguém também deveria
invejá-los. Tudo o que é exterior deve ser modesto e despreocupado, sem distorcer a mensagem de
um ou outro modo. Na Antigüidade, pregadores itinerantes eram comuns. Com freqüência estavam
mais interessados na pele das ovelhinhas do que na vida delas. Sabiam fazer da religiosidade uma
fonte de renda. Paulo se esforçava ao máximo para distanciar-se desta praga e conservar a
credibilidade do evangelho (1Co 9.12-15; 2Co 12.14s; 1Ts 2.1-10).
     10     E recomendou-lhes: Quando entrardes nalguma casa, permanecei aí até vos retirardes do
lugar. A digna obrigação da hospitalidade naturalmente era protegida no judaísmo por instruções
específicas para o hóspede, no sentido de não transgredir contra os bons costumes. Uma destas
advertências era não trocar o alojamento por outro melhor (Bill. IV, 569; I, 569). Os discípulos não
deveriam ser diferentes, muito menos com justificativa “espiritual”. Por isso, expressamente: não só
espirituais, mas também com boa educação!
     11     Se nalgum lugar não vos receberem. Para o contexto da época, recusar a hospitalidade era
inadmissível. Mas a idéia é explanada melhor: nem vos ouvirem, isto é, a sua mensagem e, com
isso, aqueles que os enviara, Jesus. Como os nazarenos no v. 6, eles podiam recusar-se a crer em
Jesus para seguir a propaganda rabínica de que ele era um tentador e instrumento do inferno. O
israelita que pensasse assim estava até proibido de receber seus emissários. Escrúpulos humanos
passavam a segundo plano. Os discípulos tinham de ser tratados como desertores, como não-israelitas. A mensagem deles, porém, não era tão inocente que aceitá-la ou rejeitá-la não faria
diferença. Por isso eles não podiam receber a rejeição “com humildade” mas, ao sairdes dali, sacudi
o pó dos pés. Com este gesto (cf. nota à tradução) eles declaravam o lugar como terra pagã. Com
isso eles também deixavam bem claro em que consistia o seu ministério: em testemunho contra
eles. “A palavra não volta vazia” (Is 55.11).
     12     O v. 12 confirma que a pregação dos doze tratava de nada menos que salvação e perdição. Então,
saindo eles, pregavam ao povo que se arrependesse.
     13     O v. 13 testifica que os mensageiros também tiveram boas acolhidas. Expeliam muitos demônios.
Claramente foi uma situação excepcional, vinculada à intenção de Jesus de fazer sinais em Israel,
pois os mesmos discípulos não dão conta de uma tarefa semelhante em 9.18. E curavam numerosos
enfermos, ungindo-os com óleo. Nem no próprio Jesus nem no livro dos Atos (cf. também Mc
16.18) vemos a unção regular para cura de doentes. Isto coloca mais uma vez o processo sob a luz da
exceção e do destaque intencional.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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