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37 O que o povo e seu rei dizem de Jesus, Mc 6.14-16

O que o povo e seu rei dizem de Jesus, Mc 6.14-16
(Mt 14.1,2; Lc 9.7-9; cf. Mt 16.13,14; Mc 8.27,28; Lc 9.18,19)

14-16 Chegou isto aos ouvidos do rei Herodes, porque o nome de Jesus já se tornara notório; e alguns diziam: João Batista ressuscitou dentre os mortos, e, por isso, nele operam forças miraculosas. Outros diziam: É Elias; ainda outros: É profeta como um dos profetas. Herodes, porém, ouvindo isto, disse: É João, a quem eu mandei decapitar, que ressurgiu.

Em relação à tradução
     a
     Herodes Antipas assumiu, depois da morte do seu mal-afamado pai Herodes o Grande no ano 4 a.C.,
com dezesseis anos de idade, o reino parcial de Galiléia e Peréia. Assim, ele era o governante de Jesus e, nos primeiros tempos, residia a apenas 6 km de distância de Nazaré, em Séforis. Entretanto, somente pouco antes
da execução de Jesus aconteceu o encontro pessoal dos dois (Lc 23.6ss). Neste entretempo, Herodes
preparara a magnífica cidade de Tiberíades, às margens do lago da Galiléia, como nova sede de governo.
Como esta cidade, além de ter influência pagã, ter sido construída no lugar de um antigo cemitério, judeus
conservadores a consideravam impura e jamais entravam nela. Parece que Jesus também nunca foi até lá. Os romanos tinham conferido a Herodes apenas o título de “tetrarca” (“governador de uma quarta parte”, cf. Mt
14.1), denominação comum para governantes de pouca importância. Em vão Herodes tentou no ano 35 obter
o título pleno de rei, e em 39 ele foi deposto e exilado. O povo não fazia diferença entre os títulos oficiais e
falava do “rei” Herodes (cf. v. 22-23,25-27). No fundo não faz diferença que Herodes não fosse benquisto
por seus súditos, ele representava a Galiléia mesmo assim.
     b
     Cf 1.4n.
Observações preliminares
1. Contexto. O processo do estranhamento crescente do povo de Jesus e a continuação imperturbável e
paciente da sua atuação em palavra e ação foi tratado o suficiente (cf. opr a 3.7–6.29). Agora é hora de fazer as
contas. Quem era Jesus para seu povo e o rei deste? Este tema é levantado mais uma vez em 8.27, porém de modo abreviado e somente como pano de fundo contrastante para a declaração dos discípulos. A explanação mostrará que nosso parágrafo não olha só para trás, mas dá também um passo decisivo em direção ao tema do sofrimento, ampliando-o totalmente com a inserção do martírio de João Batista. Com freqüência nossa
pequena unidade é unida ao relato do fim de João. Com isto, porém, ela perde sua importância peculiar. Além
disso, a circunstância de que os v. 14-16 têm uma história diferente de tradição do que os v. 17-29, recomenda um tratamento separado.
2. Elias na religião judaica. Os evangelhos falam tantas vezes do Elias do AT, que só deste fato já se pode
pressupor uma grande familiaridade do judaísmo da época com este tema. Em Marcos as passagens são 6.15;
8.28; 9.4,5,11,12,13; 15.35s. Trechos com uma relação clara são 1.6; 5.21-43. É verdade que nenhum outro
nome da Antiga Aliança, nem Abraão nem Moisés, deu tantas asas à imaginação dos judeus, excedendo em
muito a única passagem com Elias no penúltimo versículo do AT (Ml 4.5). De acordo com isso, os discípulos não perguntam em 9.11: O que a Escritura diz sobre Elias? mas: “Por que dizem os escribas ser necessário que
Elias venha primeiro?” Bill. IV, 764-798 traz páginas de testemunhos da especulação judaica sobre Elias.
Pedra de toque inesgotável era 2Rs 2.11, que diz que Elias foi o único ser humano (além de Enoque) que não morreu, mas foi arrebatado. Portanto, ele ainda existe, e sua atuação continua. Ele intercede por seu povo
diante de Deus, e na terra age como bom espírito e auxiliador de Israel. Acima de tudo ele voltará no fim dos tempos como precursor do Messias e restaurará irresistivelmente a aliança do Sinai em todos os seus detalhes e protegerá Israel da ira vindoura. Para isto recorria-se a Ml 3.1 e, é claro, 4.5. Segundo Lc 1.17 a passagem não se cumpre com o retorno literal de Elias, mas com João Batista que se apresenta “no espírito e poder de
Elias”. Mc 9.11-13 mostra a reserva que Jesus tinha em relação às expectativas dos judeus e como as corrigiu
com determinação.
     14     Chegou isto aos ouvidos do rei Herodes, porque o nome de Jesus já se tornara notório. Este
alto grau de conhecimento obrigava todas as partes a classificar Jesus. Por diferentes que sejam as
respostas mencionadas, todas o chamam de profeta e nenhuma de Messias. Isto constitui um
insucesso, a medir pela reivindicação que Jesus levantou capítulo após capítulo. A multidão já se
decepcionara com várias expectativas maiores. Abaixo desta posição mediana havia ainda outras
vozes: Ele é um lunático (3.21), um possesso (3.30; cf. 6.3). No extremo oposto estava uma pequena
minoria que sentia em relação a Jesus um último pressentimento e confiança. Entre estes devem-se
contar os discípulos, pessoas curadas como em 1.40-45; 5.18-20 ou as duas pessoas em 5.34,35, cuja
“fé” Jesus atestou expressamente; talvez também testemunhas dos seus atos como em 2.12. Voltamo-nos agora para as opiniões majoritárias:
E alguns diziam: João Batista ressuscitou dentre os mortos, e, por isso, nele operam forças
miraculosas. A pressuposição desta crença popular era em primeiro lugar a atuação de João Batista
como verdadeiro profeta, que atingia as consciências (11.32). Seu assassinato a mando de Herodes
era considerado um martírio santo, diante do qual Deus não ficaria calado. Em uma pré-ressurreição,
Deus o trouxera para si. João, porém, podia sair da sua existência celestial e reaparecer, oculto em
uma forma humana (Berger, Auferstehung, p 22). A idéia portanto não é que Jesus, por assim dizer,
desde o nascimento era João; isto não seria possível, já que tinham a mesma idade. Decisiva é a
seqüência na atuação pública dos dois homens. De acordo com 1.14 Jesus começou na Galiléia
depois que João tinha saído de cena. Além disso, fortes fatores em comum favoreciam a equiparação.
Ambos anunciavam a proximidade do reinado de Deus segundo Isaías, convocavam todo o Israel e o
conduziam à conversão. Mas Jesus, indiscutivelmente, era João elevado a alguma potência. Isto
indicavam seus atos especiais de poder. Como alguém que tinha derrotado a morte, “João” estava
agora cheio do poder de Deus e levava uma vida rica em milagres. Mais detalhes sobre o sentido do
seu retorno, veja no v. 16.
     15     Outros diziam: É Elias. Estes deixaram João Batista de fora, mas acreditavam de modo
semelhante em uma encarnação em Jesus, desta vez de Elias (cf. opr 2). Disseram ainda outros: É
profeta como um dos profetas. O grau em que estes o classificam também não é pequeno. Um
profeta, naquela época em Israel, era tudo menos comum. Oficialmente o espírito profético estava
apagado (Meyer, ThWNT VI, 817ss). A época de Moisés, Elias ou Jeremias era uma lembrança do
passado, como um paraíso perdido. É verdade que sempre de novo algum carismático se apresentava,
mas em Jesus via-se uma conduta diferente: como um dos profetas, dos antigos profetas da
Escritura. Isto era um anúncio do tempo do fim. Deus voltava a dedicar-se a seu povo, que ele
castigara com silêncio por tanto tempo.
     16     Herodes, porém, ouvindo isto, disse: É João, a quem eu mandei decapitar, que ressurgiu. É
claro que o assassino de João está predisposto para esta explicação. No “eu” enfático a consciência
maligna e inquieta se trai (Lc 9.7). A opinião pública sobre a maneira como lidara com João já o
mantinha sob pressão. Em uma derrota pesada diante do rei dos nabateus muitos viram a vingança
divina pela morte de João (Bill. I, 679). Agora ele se arrepia ao ouvir estas interpretações. Nesta
altura pode-se pensar no sentido específico da aparição de um mártir. Ela objetivava antes de tudo o
assassino. Agora ele enfrentava o tribunal, diante do ultimato de reconhecer sua culpa e arrepender-se. Também podemos comparar a afirmação de Herodes com expressões típicas dos Atos (2.23s,36;
3.15; 4.10,27; 5.30; 7.35; 10.39s; 13.28-30). O estilo de acusação é o mais duro possível. Assim,
Herodes está sob a acusação da sua consciência. Mas, apesar da “ressurreição” de João e dos atos de
poder de Jesus, Herodes se endurece. E nada é mais perigoso que uma consciência pesada sem
arrependimento. A situação de Jesus se torna ameaçadora. No momento em que Herodes não se
arrepende, antes continua teimoso em seu caminho, assim como fez no caso de João, pende sobre
Jesus o mesmo destino. Herodes temia um segundo movimento popular incontrolável como fora o de
João, que traria consigo uma segunda intervenção dos romanos (cf. Jo 11.48). Ele decide reagir
contra este Jesus da mesma forma como contra seu antecessor.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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