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38 A morte de João Batista como presságio da paixão de Jesus, Mc 6.17-29

A morte de João Batista como presságio da paixão de Jesus, Mc 6.17-29
(Mt 14.3-12; cf. Lc 3.19,20)

17-29 Porque o mesmo Herodes, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe (porquanto Herodes se casara com ela), mandara prender a João e atá-lo no cárcere. Pois João lhe dizia: Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão. E Herodias o odiava, querendo matá-lo, e não podia.      Porque Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo, e o tinha em segurança. E, quando o ouvia, ficava perplexo, escutando-o de boa mente. E, chegando um dia favorável, em que Herodes no seu aniversário natalício dera um banquete aos seus dignitários, aos oficiais militares e aos principais da Galiléiaentrou a filha de Herodias e, dançando, agradou a Herodes e aos seus convivas. Então, disse o rei à jovem: Pede-me o que quiseres, e eu to darei. E jurou-lhe: Se pedires mesmo que seja a metade do meu reino, eu ta darei. Saindo ela, perguntou a sua mãe: Que pedirei? Esta respondeu: A cabeça de João Batista. No mesmo instante, voltando apressadamente para junto do rei, disse: Quero que, sem demora, me dês num prato a cabeça de João Batista. Entristeceu-se profundamente o rei; mas, por causa do juramento e dos que estavam com ele à mesa, não lha quis negar. E, enviando logo o executor, mandou que lhe trouxessem a cabeça de João. Ele foi, e o decapitou no cárcere, e, trazendo a cabeça num prato, a entregou à jovem, e esta, por sua vez, a sua mãe. Os discípulos de João, logo que souberam disto, vieram, levaram-lhe o corpo e o depositaram no túmulo.

Em relação à tradução
     a
     Com certeza não se trata do tetrarca Filipe; este casou com a filha de Herodias (Salomé). Se fosse ele,
seu título seria mencionado. Antes, devemos pensar em outro meio-irmão, que vivia em Roma por conta
própria. Os assuntos familiares do pai eram difíceis de acompanhar, naquela época tanto quanto hoje.
Herodes o Grande casou dez vezes e teve muitos filhos. Alguns nomes se repetem, e vários do clã tinham
orgulho de denominar-se Herodes.
     b
     As circunstâncias eram especialmente condenáveis. Ele fez uma proposta de casamento a Herodias na
casa do marido dela, expulsou sua esposa e casou-se com a nova que, por sua vez, se divorciara de Filipe.
     c
     Expressão de advertência dos judeus fiéis à lei: cf. 2.24 e 3.4.
     d
     Não está dito aqui que Herodes mudou de atitude e relaxou o regime duro de prisão do v. 17 para algo
mais brando. Mas impediu os atentados à sua vida. De acordo com Mt 11.2, João Batista podia receber
visitas dos seus discípulos.
     e
     A tradução que o autor usou contorna o plural genesia com o dativo temporal.
     f
     A relação contém as eminências civis e militares do estado e a aristocracia da região.
     g
     De acordo com Josefo, ela se chamava Salomé.
     h
     Aqui e no v. 28 korasion, como a filha de Jairo em 5.41.
     i
     De acordo com o v. 26, ele a cobriu de juramentos: não conhecia limites.
     j
     Para a tradução de basileia em termos de espaço físico neste caso, veja 1.15n.
     l
     A palavra é tradução de ex autes tes horas, na mesma hora.
Observações preliminares
1. Contexto e tema. Formalmente, nossa história é uma informação complementar. Em 1.14 Marcos já
aludira à morte de João Batista, em 6.14 se pressupõe que ela já tenha ocorrido há algum tempo. Agora está na
hora de os leitores receberem maiores detalhes. Contudo, entenderíamos Marcos mal se víssemos atendido
aqui somente nosso anseio por dados históricos. Também não se deve falar de material para preencher o tempo
entre o envio e o retorno dos discípulos. Marcos deixa muitas lacunas e muitas vezes salta períodos históricos.
Antes, a narrativa têm o mesmo interesse cristológico dos v. 14-16, apesar de parecer passar ao largo de Jesus
e seus discípulos. Quem é Jesus? é a pergunta que está no ar, ainda mais depois das respostas erradas do povo.
Para chegarmos à resposta certa, seu precursor nós é mostrado em tamanho ampliado, especificamente a sua
morte. Esta é descrita com mais vagar que sua atuação em 1.4-8. Ele preparou o caminho para o Senhor não só
por meio do seu ministério mas, de modo ainda mais decisivo, por meio do seu sofrimento. Tudo neste
homem, também seu martírio, era uma mensagem sobre “aquele que é mais poderoso” (1.7) que viria depois
dele. No seu Senhor o sofrimento também assumiria formas superdimensionadas (“sofresse muitas coisas”,
8.31), a ponto de a história dos seus sofrimentos praticamente engolir a história da sua vida (cf. qi 8e). Esta
orientação pelo sofrimento de João Batista mostrava-se já no próprio Jesus (9.11-13).
2. Exemplo. A referência à morte de Jesus é sustentada por uma série de palavras-chave, que reaparecem
nos capítulos da paixão: “Herodes, herodianos” (3.6; 12.13; Lc 23.6ss), “prender” (14.44,46,49), “atar” (15.1),
“querer matar” (14.1; 15.9-13), “temer” o prisioneiro (Jo 19.8; cf. Mc 15.5,14), espreita do momento
“apropriado” (14.11), “discípulos” corajosos (cf. 15.43), “corpo” (15.45) e “depositar no túmulo” (15.46). Da
mesma maneira pode-se verificar propósitos em comum: o recurso a intrigas, a queda do poderoso e o
sofrimento calado do inocente.
3. Transmissão. Em vista do conteúdo, não podemos contar aqui com as mesmas testemunhas a quem
Marcos deve a tradição de Jesus. Podemos supor que este trecho tenha sido uma contribuição dos discípulos
de João Batista. Eles mantiveram o contato com seu mestre até o fim (Mt 11.2ss; Lc 7.18ss). A fonte diferente
também explica o estilo diferente. Às frases curtas que começam com “e” juntam-se agora frases longas e
coordenadas. O tempo presente da narrativa, tão freqüente em Marcos, falta, verbos no tempo imperfeito, bem
colocados, chamam a atenção, bem como várias ligações elegantes de particípios. Sem que o pano de fundo
aramaico desapareça, formou-se uma narrativa magistral em grego de alto nível.
Na introdução, chama a atenção o “porque” repetido três vezes. Cada um remonta no tempo para antes do
evento anterior: o v. 17 aconteceu antes do v. 16, o v. 18 antes do v. 17 e o v. 20 antes do v. 19. A descrição,
portanto, se dá de trás para frente, até que o narrador chegue ao momento que lhe interessa. Deste modo ele
nos informou sobre um contexto preliminar complicado. O trecho principal nos v. 21-26 destaca-se pelos
pormenores, o discurso direto e a menção das paixões das pessoas. A partir do v. 27 tudo corre em frases
lapidares para o fim (oito frases que começam com “e”, cada vez mais curtas). O trecho principal recebe
agilidade pelos particípios “entrou” (v. 22), “saindo” (v. 24), “voltando” (v. 25) e “foi” (v. 27). O conteúdo
central não é o sofrimento de João Batista, mas a luta vergonhosa das duas mulheres com o homem miserável,
até que conseguem vencê-lo.
     17     Porque o mesmo Herodes, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe
(porquanto Herodes se casara com ela), mandara prender a João e atá-lo no cárcere. De acordo
com 1.4, João atuou “no deserto”, de acordo com Jo 3.22-26 no deserto da Judéia do outro lado do
Jordão, portanto na Peréia, que pertencia aos domínios de Herodes Antipas. Ali este pôde prendê-lo e
mandar encarcerar em Maquero, sua fortaleza nas montanhas a leste do mar Morto (Josefo,
Antigüidades XVIII, 119). Não que sua esposa o tenha motivado para isso, mas tinha a ver com ela.
O próximo versículo traz a explicação.
     18     Pois João lhe dizia: Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão. Os detalhes de
como se deu este encontro não são importantes. O que João formulou era, a princípio, uma acusação
de incesto nos termos de Lv 18.16; 20.21, mas que incluía naturalmente a de adultério (veja nota à
tradução). O verdadeiro profeta não exclui ninguém do chamado ao arrependimento. O governante
também precisa obedecer à Torá. Da mesma forma Natã já enfrentara Davi (2Sm 12). Só que
Herodes não era Davi. Antes, ele se parecia mais com o rei Acabe, que respondeu à recriminação
pelo profeta Elias com perseguição (instigado por sua esposa Jezabel, 1Rs 19.2s).
Atacar a desobediência atrevida de um soberano à lei torna-se logo um fato político. Desta
maneira João acabou no papel de um agitador perigoso, pois o povo suportava o regime da força com
a mesma indisposição. Mt 14.4 confirma esta conclusão, e Josefo conta que Herodes agiu por razões
políticas.
     19     E Herodias o odiava, João Batista que estava encarcerado, querendo matá-lo, e não
podia, por mais que tentasse (tempo imperfeito!). A mulher com sede de vingança, no entanto, não
sossegou. Seu ódio a impelia dia e noite. Não houve pensamento repugnante que não passasse por
sua mente.
     20     Por que suas intenções assassinas malogravam? Porque Herodes temia a João, sabendo
que era homem justo e santo, e o tinha em segurança. E, quando o ouvia, ficava perplexo (cf. Lc
9.7: o mesmo termo), escutando-o de boa mente. “Temor” Marcos usa quase só para a reação
humana a impressões sobre-humanas. Homens duros e insensíveis também podem ser tomados por
ele (Jo 19.8; At 24.24,25). Sentimentos os mais santos e os mais depravados arrastam-nos de um lado
para outro.
     21-23     E, chegando um dia favorável, em que Herodes no seu aniversário natalício dera
um banquete aos seus dignitários, aos oficiais militares e aos principais da Galiléia, entrou a
filha de Herodias e, dançando, agradou a Herodes e aos seus convivas. Aqui, no êxtase dos
homens, a construção da frase termina. Era previsível que Herodes não deixaria de realizar suas
festas com os homens. No círculo dos seus protegidos, a música e abundância de comida e vinho
relaxavam as inibições. Agora, que entre a Salomé! Ela entra (v. 22), sai (v. 24) e entra de novo (v.
25) – a mãe está manipulando perceptivelmente dos bastidores. Salomé age expressamente como sua
filha. E o homem reage como ela calculara. Então, disse o rei à jovem: Pede-me o que quiseres, e
eu to darei. E jurou-lhe: Se pedires mesmo que seja a metade do meu reino, eu ta darei.
Bêbados gostam de repetir-se, e tudo o que é real lhes escapa. Em meio a isto é digno de nota que
Herodes, a partir de agora que está bêbado e sua esposa comanda a ação, é chamado sempre de “rei”
(v. 22,23,25,27). Talvez a história esteja com isto sendo aproximada deliberadamente de um modelo
do AT, o do rei instável Acabe e sua esposa Jezabel, a assassina de profetas (1Rs 16–22).
     24     Saindo ela, perguntou a sua mãe: Que pedirei? Esta respondeu: A cabeça de João
Batista. Mesmo que se fale três vezes do desejo da filha (v. 22,23,25), acontece inapelavelmente o
que quer a mãe.
     25     No mesmo instante, voltando apressadamente para junto do rei, disse: Quero que,
sem demora, me dês num prato a cabeça de João Batista. Ela não hesita nem um segundo.
Obedece tintim por tintim, sem deixar nada se intrometer.
     26,27     Entristeceu-se profundamente o rei; mas, por causa do juramento e dos que
estavam com ele à mesa, não lha quis negar. A mudança de humor cai na vista. Por alguns
segundos Herodes parece ter ficado sóbrio. Mas ele não se pode dar ao luxo de ficar sóbrio por muito
tempo. Rapidamente ele se refugia de novo no papel de “rei”: manter a palavra, dar ordens, ir e
executar, voltar e trazer voltam a ocupar a cena. E, enviando logo o executor, mandou que lhe
trouxessem a cabeça de João. Ele foi, e o decapitou no cárcere. João aqui só faz o papel daquele
que estica o seu pescoço. Esta é “a hora e o poder das trevas” (Lc 22.53). Eles “fizeram com ele tudo
o que quiseram” (9.13).
     28     E, trazendo a cabeça num prato, a entregou à jovem, e esta, por sua vez, a sua mãe. Com
isto a ação retorna ao lugar onde começou, onde tivera início no v. 19, a mãe.
     29     Este versículo é um ponto final bonito: João Batista é sepultado com dignidade. Os
discípulos de João, logo que souberam disto, vieram, levaram-lhe o corpo e o depositaram no túmulo.
Requerer o corpo do mestre sob tais circunstâncias é prova de grande coragem. A mesma coisa
“arriscou” José de Arimatéia em 15.43.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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