Pessoas que gostam deste blog

39 A explicação da parábola do semeador, ou: os quatro tipos de solo, Mt 13.18-23


A explicação da parábola do semeador,
ou: os quatro tipos de solo, Mt 13.18-23

Atendei vós, pois, à parábola do semeador. A todos os que ouvem a palavra do reino e não a compreendem, vem o maligno e arrebata o que lhes foi semeado no coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho. O que foi semeado em solo rochoso, esse é o que ouve a palavra e a recebe logo, com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, sendo, antes, de pouca duração; em lhe chegando a angústia ou a perseguição por causa da palavra, logo se escandaliza. O que foi semeado entre os espinhos é o que ouve a palavra, porém os cuidados do mundo e a fascinação das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera. Mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende; este frutifica e produz a cem, a sessenta e a trinta por um.

a. A primeira explicação da parábola
Jesus denomina a parábola dos quatro tipos de solo também de “parábola do semeador”. Com isto
ele dá uma “dica” uma importante para a exegese, ou seja, de interpretarmos a parábola não a partir do solo e, sim, do semeador.

Ocorre que o semeador nos serve de lição. No seu trabalho de semear, ele contabiliza muitos
insucessos. Três quartos da semente espalhada se perdem! As propriedades do solo da Galiléia e a
singularidade de seu cultivo forçam o semeador a contar com o fato inevitável de que somente
poucas sementes encontrarão terra fértil. Contudo, o fato de que o semeador não permite que nenhum
insucesso, por maior que seja, influencie de forma alguma sua dedicação e sua fidelidade no trabalho, 
torna-o grande para nós e o coloca como exemplo. O semeador não desanima nem se torna 


amargurado com o insucesso; ele não pensa nos numerosos impedimentos e adversidades que
esperam a semente que lançou. Ele conta com a colheita. Como pessoa sóbria e realista, ele sabe dos
perigos e das decepções. Não as menospreza. Os pássaros e o solo rochoso, os espinhos e o calor
darão trabalho às sementes que ele espalhou. O semeador não despreza os perigos, nem tampouco os
superestima. Não é nem pessimista nem otimista, mas realista. Não encara os impedimentos e as
dificuldades como mais importantes do que devem ser considerados. Ele não vê tudo negativo, mas
com toda a calma e fidelidade desempenha, dedicada e persistentemente, o seu dever.
Por outro lado, o sucesso também não o transtorna, a ponto de tornar-se vaidoso e orgulhoso. Em
nenhum sentido deixa-se arrastar por expectativas falsas. Não se abala com nada. O que constitui o
lema de todas as suas ações e faz dele um exemplo para nós, o que o define como verdadeiramente
“bom semeador”, é o propósito de cumprir fielmente a sua tarefa, com responsabilidade integral em
servir e disposição séria de dar o máximo de si.
Será Jesus o semeador? Ou, em outras palavras: É possível que Jesus se referia a si próprio
quando falava do semeador? Muitos intérpretes responderam a essa questão afirmativamente,
declarando que a parábola mostra “como Jesus pensava sobre o sucesso do seu trabalho, como ele se
consolava pelos esforços vãos, como se alegrava com o sucesso”.


Acreditamos que não é possível concordar com essa interpretação.
Pensamos que, nessa parábola, Jesus não explanou suas mágoas e suas alegrias diante dos
discípulos, ainda mais em forma de parábola. Isso ele fez em outra ocasião, sem falar por parábolas.
Temos em mente passagens como: “Naquela hora exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou:
Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra porque ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos e
as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Lc 10.21). Ou: “Naquela 


ocasião, Jesus tomou a palavra e disse: Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, por teres ocultado
isso aos sábios e aos inteligentes e por tê-lo revelado aos pequenino s. Sim, Pai, foi assim que
dispuseste na tua benevolência” (Mt 1.25s).
Segundo o nosso entendimento, cremos que na parábola do semeador Jesus não pensou  em si, mas
em primeira linha nos discípulos, e nem somente nos doze, mas em todos aqueles que até hoje estão
seguindo ao Senhor. Pois o dever de anunciar o reino de Deus não é restrito unicamente aos doze,
nem é atribuição reservada ao ministério da pregação. Mas para cada um que veio até Jesus, vale o
chamado: “Vá e anuncia o reino de Deus!” O lugar é lá onde você está: na família, entre os parentes,
no círculo de colegas, na sua cidade. Cada cristão que crê é semeador, é pregador do evangelho, e
não somente pela palavra, mas primeiro pela ação, e depois pela palavra. Sim, no próprio Senhor
acontece primeiro a ação, e depois a palavra.
Veja At 1.1: “Escrevi o primeiro relato, querido Teófilo, acerca de tudo que Jesus fez e ensinou
desde o início…” Está sendo citada, pois, primeiro a ação de Jesus e depois a sua palavra.
Sim, o Novo Testamento até registra um anúncio da palavra sem palavras: Vós igualmente,
mulheres, sede submissas aos vossos maridos, para que, se houver alguns que se recusam a crer na
palavra, sejam conquistados, sem palavras, pelo procedimento de suas mulheres” (1Pe 3.1).
Ademais, aos olhos de Deus o “amor sem palavras” é mais precioso que “palavras sem amor”.
Vida de fé genuína é vida de semeador, caracterizando-se por um constante compromisso. O
cristão sabe-se sempre devedor diante dos outros. Confira para isso palavras como a do sal e da luz
[Mt 5.14ss]. Paulo diz: “Sou devedor aos gregos como aos bárbaros, às pessoas cultas como às
ignorantes” (Rm 1.14).
No trabalho de semeador temos de tomar sempre como exemplo o bom semeador da parábola,
com sua persistência e fidelidade, seu esforço e seriedade, bem como sua permanente disposição de
se empenhar integralmente. Por nada podemos nos deixar desanimar. Mesmo quando a fidelidade e
disposição de servir, espírito de sacrifício e amor não encontram eco, mas so mente recebem
ingratidão e desprezo, e até rejeição, os seguidores de Cristo sabem com toda a certeza: “A sua
palavra não retornará vazia, mas concretizará aquilo para o que foi enviada” (cf. Is 55.11).
A isso se acrescenta: O discípulo de Jesus, do mesmo modo como o próprio Jesus, não é apenas
semeador, mas também – e isso deve ser acrescentado como interpretação – semente. Pois todo o que
crê em Jesus deve ser não apenas anunciador da palavra no agir e no falar, mas profunda e 


essencialmente também a própria palavra.
Sobre a explicação de que os discípulos devem ser eles próprios “palavra” de Deus, veremos
agora mais detalhes ao tratarmos da segunda interpretação da parábola.


b. A segunda explicação da parábola
A segunda explicação refere-se à palavra dos muitos tipos de solo. É esta que queremos estudar
agora.
Eram quatro os tipos de solo descritos na parábola. Esses quatro solos diferentes são exemplos de
quatro maneiras diferentes com que as pessoas recebem a palavra de Deus. A parábola dos diversos
solos não trata daqueles que nunca ouviram a palavra de Deus, mas daqueles que repetidas vezes
escutaram a pregação da palavra. Eles se assemelham ao solo endurecido pelas pisadas, ao solo
rochoso, à terra cheia de espinhos, e à terra fértil. A todos os quatro tipos de solo  foi dado em
abundância a semente da palavra de Deus.
Agora a parábola descreve como são as reações do coração humano à plenitude da palavra de
Deus. – Os ouvintes da palavra não são por natureza “caminho endurecido”, “chão pedregoso” ou
“solo cheio de ervas daninhas”. Eles tornam-se tais tipos de solo conforme se posicionam em relação
à palavra de Deus. Dito de outra forma: Os quatro tipos de solo não significam que o coração é
constituído de maneiras diferentes, e sim denotam atitudes diferentes diante da palavra de Deus.
Quanto ao primeiro tipo: Talvez alguém imagine que o caminho duro são aqueles aos quais a
pregação sequer consegue chegar. Nós, porém, somos da opinião de que os endurecidos, os de
ouvidos moucos e corações insensíveis são aqueles que a palavra de Deus não consegue atingir,
apesar de a terem ouvido incessantemente. Com ouvidos saudáveis, não ouvem. Onde podemos ver
isto? Em sua atitude em relação ao próximo. Sua atitude diante da p alavra de Deus será igual. Assim
como me relaciono com o meu próximo, me posiciono diante da palavra de Deus: “Quem não ama
seu irmão a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?” (1Jo 4.20).  – Será que o outro
realmente pode achegar-se a mim, ou permaneço frio, fechado, rígido e orgulhoso diante dele? Tenho
ressentimentos contra ele? Estou amargurado? Deixo -o simplesmente de lado? Existimos para nos
ferirmos mutuamente ou para nos fazermos o bem? Para promovermos o próximo ou para impedi-lo?
Para sermos duros ou solícitos com o irmão? Para sermos sinais de orientação, ou obstáculos sobre os
quais o outro tropeça? Para livrarmos do peso ou impor cargas? Dificultar ou aliviar a vida uns dos
outros? – O que importa é como agimos! É assim que se mede como a pessoa ouve.
Quanto ao segundo tipo de solo: A figura é do chão rochoso. O Senhor diz na explicação:  A
palavra é acolhida com alegria! Também nós aceitamos a palavra com alegria, saímos
entusiasmados de uma pregação. Porém, tão logo chegam as tentações, adversidades e dificuldades
do cotidiano, acaba aquele entusiasmo pela palavra ouvida. Com isso, constatamos que o entusiasmo
não tem lugar na casa de Deus. A palavra de Deus não entusiasma. A palavra de Deus mata.  A
palavra de Deus é um martelo que pulveriza rochas (Jr 23.29). A palavra de Deus é uma espada de
dois gumes (Hb 4.12) – mas também é bálsamo de Gileade (Jr 8.22). Porém não causa entusiasmo!
O lugar do entusiasmo é a reunião do partido, onde devemos ser entusiasmados pelos programas
partidários. Quem é atingido pela palavra de Deus torna-se sóbrio. Todas as ilusões são postas de
lado, em particular as ilusões sobre si mesmo, sobre a própria capacidade e religiosidade. Também é
integralmente destruída a ilusão sobre o mundo e todos os seus programa s. A palavra de Deus me
torna sóbrio e diz que sem Cristo sou maldito. Aí acaba de vez qualquer entusiasmo. Aí existe
somente a submissão e prostração diante da majestade sagrada!
O entusiasmado é uma pessoa do momento. Seu entusiasmo não persiste. Quantas vezes basta
uma pequena coisa para que fique desanimado, indisposto, resmungão, amargurado, irritado. A força
de resistência de uma árvore contra ventos e tempestades corresponde à profundeza de suas raízes.
Nossa força para resistirmos às adversidades e injustiças depende de estarmos enraizados na palavra.
O modo como agimos no dia-a-dia, na situação concreta, constitui a medida para verificar se estamos
enraizados na palavra ou se ouvimos de modo apenas superficial, se o coração é apenas solo rochoso.
A terceira variedade de solo é o chão cheio de espinhos e inço. Espinhos e ervas daninhas são as
dificuldades pessoais do caráter, as disposições hereditárias do temperamento, a predisposição para a
ira, para a depressão, para o melindre, a inveja e o desâni mo. Pela manhã, em oração, nos entregamos
firmemente na mão do Senhor para o dia todo. Contudo, muito em breve aquilo que falamos com
Deus de manhã no silêncio fica encoberto pelas dificuldades e pelos afazeres do dia. E, quanto mais o
dia progride, tanto mais nos afastamos de Deus e da sua palavra.
O peso do cotidiano esmaga e destrói a palavra de Deus em nossos corações, de modo que a
semente acaba sufocada.
Qual é a causa disso?
É que não fizemos o que qualquer jardineiro faria, a saber, exterminar o inço. É preciso arrancar,
com a força do alto, todas as ervas daninhas das nossas falhas de temperamento e deficiências, numa
luta de fé, colocando depois a palavra de Deus de tal maneira no nosso dia-a-dia que predominem
não mais as predisposições hereditárias mas a palavra de Deus, determinando o temperamento e o
caráter. O modo como agimos é que importa!
Quanto ao quarto tipo de solo: Jesus diz acerca da terra produtiva: “Bem-aventurados os que
ouvem e guardam e dão frutos” (Lc 11.28; Jo 15.2,6,16). Afirma-se, portanto, três coisas daqueles
que se igualam à boa terra: Ouvir corretamente é prestar atenção e obedecer; guardar significa levar
a palavra para dentro do cotidiano, deixar-se configurar por ela; dar frutos é “tornar-se pessoalmente
palavra de Deus”, ser uma carta de Cristo, escrita não com tinta, mas com o Espírito Santo (2Co 3.3).
Chegamos ao fim dessa segunda explicação da parábola do semeador. Destaca-se sua extrema
seriedade. Dentre os que ouviram a palavra de Deus, somente a quarta parte é bem-sucedida. Ou seja:
A linha divisória, da qual falamos no início, passa bem no meio dos ouvintes da palavra. A seriedade
da situação nos faz recordar a pergunta dos discípulos: “Sendo assim, quem pode ser salvo?” (Mt
19.25).
É precisamente essa a grande carência da comunidade de Jesus, ou seja, que é tão triste a
discrepância entre a pregação que se ouve e a pregação que resulta em ação, em outras palavras, entre
ensino e vida, entre palavra e ação.


c. A terceira explicação da parábola
A terceira explicação da parábola é a interpretação evangelística, amplamente difundida. Constitui
um chamado para que acordem aqueles que ainda estão “do lado de fora”, o chamado de Deus às
pessoas de nossos arredores, cujos corações se assemelham aos quatro tipos de terra.
Quatro são os chãos da fé –
Amigo, e o seu, qual é?



Fonte: Mateus - Comentário Esperança






Nenhum comentário:

Postar um comentário

Online