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39 O retorno dos doze e a alimentação dos cinco mil, Mc 6.30-44

O retorno dos doze e a alimentação dos cinco mil, Mc 6.30-44 
(Mt 14.13-21; Lc 9.10-17; Jo 6.1-15; cf. Mc 8.1-9; Mt 15.32-39)

30-44 Voltaram os apóstolos à presença de Jesus e lhe relataram tudo quanto haviam feito e ensinado. E ele lhes disse: Vinde repousar um pouco, à parte, num lugar deserto; porque eles não 
tinham tempo nem para comer, visto serem numerosos os que iam e vinham. Então, foram sós no barco para um lugar solitário. Muitos, porém, os viram partir e, reconhecendo-os, correram para lá, a pé, de todas as cidades, e chegaram antes delesAo desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisasEm declinando a tarde, vieram os discípulos a Jesus e lhe disseram: É deserto este lugar, e já avançada a horadespede-os para que, passando pelos campos ao redor e pelas aldeias, comprem para si o que comer. Porém ele lhes respondeu: Dai-lhes vós mesmos de comer. Disseram-lhe: Iremos comprar duzentos denários de pão para lhes dar de comer? E ele lhes disse: Quantos pães tendes? Ide ver! E, sabendo-o eles, responderam: Cinco pães e dois peixes.      Então, Jesus lhes ordenou que todos se assentassem, em grupos, sobre a relva verdeE o fizeram, repartindo-se em grupos de cem em cem e de cinqüenta em cinqüenta. Tomando ele os cinco pães e os dois peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou; e, partindo os pães, deu-os aos discípulos para que os distribuíssem; e por todos repartiu também os dois peixes. Todos comeram e se fartaram; e ainda recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão e de peixe. Os que comeram dos pães eram cinco mil homens. 

Em relação à tradução
     a
     Só aqui Marcos usa apostolos, ainda não no sentido do título posterior, razão pela qual deve-se preferir
o sentido literal “enviado”. O termo se refere à tarefa como mensageiros, limitada no tempo e no espaço no
v. 7, que aqui foi executada e se extingue.
     b
     A expressão (deute) geralmente serve de palavra de ânimo em todos os contextos possíveis. Como aqui
não há outro verbo, é preciso voltar ao sentido básico: (venham) aqui. Veja por extenso em 1.17: Vinde após mim!
     c
     anapauesthai denota, aqui como p ex em 14.41, o descanso físico com a interrupção da atividade. O
comentário terá de avaliar se o contexto sugere um sentido adicional.
     d
     Cf 1.35n. Que não se deve pensar em um deserto de areia, já mostra o v. 39. Há fazendas e aldeias em
volta (v. 36), mas não cidades como no v. 33.
     e
     O termo grego (eukaireo) dá uma impressão séria. No Sl 104.27 fica claro que se trata de um tempo
para comer do qual o ser humano tem necessidade e que, portanto, é da vontade de Deus, “tempo certo”,
portanto.
     f
     O barco que já conhecemos, mencionado em 3.9; 4.1,36; 5.2,18,21.
     g
     Seria apressado acusar Marcos de incoerências geográficas (contra Joh. Schreiber). Quando houvesse
uma calmaria ou ventos contrários, ou nem fosse o caso de uma travessia mas só de contornar uma península da costa setentrional (cf. Lc 9.10), realmente chegava-se mais rápido por terra. Marcos segue um relato antigo, que não dá a impressão de ser uma composição uniforme, mas resultado de testemunhas oculares.
     h
     O termo original bastante grosseiro (“as entranhas se contorcem”) não deve induzir especulações
psicológicas. No NT ele nunca descreve sentimentos humanos, mas sempre a atitude de Deus (em Marcos
ainda em 1.41; 8.2; 9.22). A palavra substituiu no judaísmo o termo oiktiro, compadecer-se, costumeiro
ainda na LXX (Köster, ThWNT VII, 552).
     i
     Jesus não ensinou muitas coisas diferentes, mas “muito” no sentido de intensivo e detalhado; cf. 1.45n.
     j
     A noite só chega no v. 47. Aqui devemos pensar no fim da tarde.
     l
     O denário de prata romano (cf. 12.14n) correspondia, segundo Mt 20.2, ao salário diário de um
camponês, suficiente para manter uma família por um dia. Jeremias calcula que seria possível alimentar a
multidão com a quantia mencionada (Jerusalém, p 138).
     m
     symposion no sentido de comunhão de refeição só se encontra aqui, na Bíblia.
     n
     chortos é, p ex em Mt 6.30, a erva daninha em oposição à planta cultivada. Pouco depois da época das
chuvas, portanto em abril, toda a terra na Palestina fica verde, até que o sol logo volta a queimar tudo.
     o
     prasia, “canteiro”, usado às vezes no judaísmo como figura de grupo: “Quando os alunos estão
sentados como canteiros e se ocupam da Torá, então desço até eles” (diz Deus) (Bill. II, 13).
     p
          eulogein sem objeto tinha entre os judeus o sentido específico de “dar graças pela refeição”. A
resposta coletiva era: “Louvado seja”.
     q
     De onde saíram os cestos não deve nos confundir. O cesto fazia parte do equipamento normal de um
judeu e era tão típico especialmente para os viajantes, que os romanos zombavam deles (Pesch 404).
     r
     As mulheres em boa parte ficavam excluídas da vida pública e não eram contadas, o que não excluía a
presença de um grupo de mulheres e crianças (cf. Mt 14.21). Além disso, “homens” podia ter o sentido geral
de “pessoas” (p ex Mt 12.41; 14.35).
Observações preliminares
1. Peculiaridade. O conteúdo dos seis relatos da multiplicação dos pães nos evangelhos facilmente se
funde para o leitor da Bíblia, de modo a não aperceber-se mais das peculiaridades de cada história. Em nosso
relato já no v. 30 se apresenta a palavra-chave “ensinar”, para retornar com grande peso no v. 34, como
expressão do cuidado do pastor. Em prol da cristologia do trecho, é necessário ir atrás disto. Acima de tudo,
do começo ao fim a história é eclesiológica. Ela faz parte da série de ensinos internos dos discípulos. Para isto
já chama a atenção o “à parte” no v. 31, repetido como “sós” no v. 32 (cf. 4.34n). É verdade que uma grande
multidão está presente, mas só como um pano de fundo, e Jesus não se relaciona diretamente com ela. Com
tanto mais destaque ele chama os discípulos para preparar, executar e recolher os restos da multiplicação dos
pães. Com certeza o papel destacado dos discípulos é uma das chaves para o sentido.
2. O milagre. Que o v. 41, decisivo, envolva em silêncio absoluto o milagre em si, instigou em muito a
fantasia dos expositores. A discrição nem sempre é correspondida com discrição. Quero apresentar quatro
interpretações:
a. Um milagre social! Lamsa (p 384s) investiga esta interpretação de modo interessante. Até hoje um
oriental nunca se põe a caminho sem prover-se de pão e outros alimentos. Para que a reserva dure bastante, ele
desaparece nas dobras das vestes e nos bolsos profundos, e com freqüência é negado diante dos outros. Todos
dizem que não têm nada consigo. Aqui, porém, quando as pessoas viram como um dentre eles, inspirado pelo
ensino de Jesus, repartiu com generosidade seus cinco pães e dois peixes, os egoístas foram convertidos à
doação altruísta. Um após outro buscou suas provisões e ofereceu-as aos famintos, que realmente nada tinham
consigo. No fim, todos atribuem a satisfação a Deus. Esta explicação ainda pode adquirir um traço
revolucionário: sob Jesus chega-se a uma distribuição justa dos bens desta terra. A multiplicação nem é
necessária. – O v. 36, porém, pressupõe exatamente que as disposições normais de abastecimento fossem
suficientes. Não se fala de um problema sem solução, com agitação social.
b. Um milagre carismático! Entre os mais novos, Grundmann adotou esta interpretação (Geschichte, p 276;
Markus p 182). No estilo das pessoas com carisma, Jesus recorreu à aptidão de abençoar muitos com pouca
comida, acalmando seus nervos gástricos. Suas palavras e sua oração, e talvez um bocado de pão que passou
por suas mãos, fizeram esquecer toda a fome. Para apoiar isto cita-se um escrito fantasioso e romanesco de
círculos gnósticos do século III, os Atos de João (em Hennecke II, 152). De acordo com estes, Jesus, quando
era convidado com seus discípulos e cada um já tinha seu pão no prato, costumava chocar o hospedeiro com a
seguinte brincadeira: tomava o seu pão, abençoava-o e o distribuía entre todos, “e daquele pouquinho todos
nós ficávamos saciados”. Os pães que cada um tinha no prato podiam ser recolhidos novamente. Esta
historinha sem graça deveria ficar fora de questão aqui. É óbvio que esta idéia descarta os v. 42,43.
Grundmann, porém, considera estes versículos uma ampliação posterior do processo original e do relato mais
antigo. Tudo isto, todavia, é fantasioso. A saciedade por comida de verdade está ancorada firmemente em
todos os seis relatos (Mc 6.42; 8.8; Mt 14.20; 15.37; Lc 9.17; Jo 6.12).
c. Um milagre eucarístico! Um grande número de expositores vê transparecer aqui um relato da celebração
da ceia posterior à Páscoa, transposto para a vida terrena de Jesus. A literatura se sermões católica ensina que
o v. 41 fala das pequenas hóstias brancas que os sacerdotes passam ao povo da igreja em missas incontáveis
por todo o mundo. Dizem que os grupos do v. 39 representam as comunidades locais da igreja universal, os
doze cestos do v. 43 a continuidade do milagre do pão em qualquer tempo e lugar em que a igreja esteja
reunida à volta do altar. O armário de pão da santa eucaristia nunca fica vazio. – Com razão, outros
expositores católicos como Schürmann, Pesch e Gnilka rejeitam esta interpretação. Por que Marcos, quando
fala em “partir” no v. 41, não usa o termo exato dos textos litúrgicos (klao em vez de kataklao)? Por que, por
ocasião da distribuição no v. 41, não há nenhuma palavra de explicação, nenhuma indicação da sua morte,
nenhuma ordem para repetição? Por que não há uma referência ao cálice e ao vinho festivo? A situação no
deserto teria sido uma ocasião para mencionar também a bebida. Qual o sentido dos peixes, mencionados três
vezes nos v. 38,41, se o símbolo do peixe para Jesus só surgiu no século II? A terminologia do v. 41, que é
decisivo, não serve para nada a não ser descrever uma refeição judaica comum (cf. At 27.35). As referências
ao evento, em 6.52; 8.14-21, também não apresentam traços eucarísticos (para esta questão, cf. Roloff, p
244ss).
d. Não houve milagre! De acordo com um grupo considerável de expositores, nossa história se baseia
somente em textos. Eles alegam que a idéia de uma distribuição miraculosa de comida, que existia no
paganismo, no judaísmo e no AT, se infiltrou também no cristianismo e foi atribuída a Jesus. Para isto, porém,
as semelhanças com textos pagãos e judeus são muito banais. E o que dizer dos textos do AT?
No que tange aos milagres de alimentação em 1Rs 17.8-16 (Elias) e 2Rs 4.1-7 (Eliseu), não há nenhuma
ligação literária com nosso trecho, mas, isto sim, uma dificuldade de conteúdo. No testemunho dos primeiros
cristãos, Elias não era Jesus (contra a opinião popular em 6.15; 8.28), mas João Batista. A alimentação por
maná, na época de Moisés, é bastante explicada a partir de Jo 6.31, mas está totalmente ausente das histórias
da multiplicação dos pães nos evangelhos. Somente chamam a atenção várias ligações literárias com 2Rs 4.42-44. Mesmo assim, não devemos nos deixar levar demais por estas semelhanças formais. O sentido e o contexto
das histórias são muito divergentes. No fim só fica o que já se disse na opr 2 a 6.30–8.26: Nossa história faz
parte do tema fome-comida-alimentação, que está em toda a Bíblia. A partir dali é possível ver várias
expressões e idéias comparáveis. Mas não cabe explicar estas semelhanças no sentido de que a lenda de um
milagre tenha sido atribuída aos vários profetas e, por fim, a Jesus.
É recomendável buscar a chave para a interpretação deste testemunho de Marcos não na história da
religião, no AT, na história da igreja antiga ou em outros textos do NT, mas no livro do próprio Marcos.
Paralelos aproximados com muita pressa facilmente encobrem a vida própria do trecho.
     30     Para a compreensão da multiplicação dos pães, a introdução abrangente dos v. 30-34 é significativa.
Ele quer nos ajudar a tornar-nos receptivos para o sentido cristológico e eclesiológico do que segue.
Voltaram os apóstolos à presença de Jesus e lhe relataram. Faz parte da tarefa de um mensageiro
que ele preste relatório depois da execução. Só depois a tarefa é considerada concluída. O relato
precisa ser minucioso e abrangente: tudo quanto haviam feito e ensinado. O uso do termo
“ensinar” para alguém diferente de Jesus é único em Marcos. Jesus substitui todo o negócio judaico
de ensino, por ser equivocado (opr 2 a 1.21-28). O próprio Deus começou a ensinar seu povo – na
pessoa de Jesus. Olhando com atenção, nossa passagem não é uma exceção disto, apenas faz valer a
regra de que o emissário é como aquele que o enviou. “Quem vos der ouvidos ouve-me a mim” (Lc
10.16). Na pessoa dos doze, portanto, a terra da Galiléia encontrara o mestre messiânico.
     31     E ele lhes disse: Vinde, à parte, num lugar deserto. Encerrada a missão, Jesus renova o chamado
imperioso ao discipulado (1.17) e para estar com ele (3.14), como ele valia antes do envio de 6.7.
Para este estar-com-ele Marcos desenvolveu um sentido especial (cf. opr 1). Sempre de novo os
discípulos, separados do povo, receberam revelações especiais sobre o “mistério do reinado de
Deus”, sobre a pessoa de Jesus (4.10,34). A mesma coisa se anuncia aqui. O campo cristológico se
abre. O lugar deserto, como lugar pouco habitado, serve de quadro para isto.
A partir daqui a seqüência também ganha seu sentido decisivo: Vinde repousar um pouco. A
convivência, como mostra o fim do versículo, também incluía refeições conjuntas. Comer com Jesus
(1.31; 2.15), porém, era, muito distante de um banquete massificado, uma degustação da salvação (cf.
1.31). Com isto o “repousar” adquire um sentido pleno. Com certeza ele não objetiva simplesmente
parar com alguma coisa, ficar sem movimento, também não afundar em si mesmo. Passagens como
Mt 11.28; At 3.20; 7.49; 2Ts 1.7; Hb 3.7–4.13; Ap 14.13; Gn 2.2; Sl 95.11; Is 63.14; Jr 6.16; 31.2
retratam um descanso que demonstra a participação na salvação de Deus. “Entrar no descanso” está
em paralelo com “entrar no reino de Deus”. Acima de tudo, o que mostra o caminho e “dá descanso”
(Lutero: refrigera) é a revelação da vontade de Deus em sua Palavra. Evidentemente este é o contexto
em Mt 11.28; 1Co 16.18; Fm 7; Hb 3.7. Portanto, devemos entender o descanso em nosso texto de
modo tão pouco destacado como a comida. O objetivo é a restauração da pessoa toda em corpo, alma
e espírito, com Jesus, o mestre divino. É verdade: Descansem um pouco! O que gozamos ainda é o
“pequeno” descanso, um prelúdio antes do grande concerto final. Este “pouco” de Deus, todavia,
sempre é algo grande para nós, ou seja, a ajuda decisiva.
A frase seguinte descreve a situação que motivou a ordem de Jesus: porque eles não tinham
tempo nem para comer, visto serem numerosos os que iam e vinham. O movimento era fruto das
curas que Jesus efetuava, como mostra o v. 56. Assim como em 1.38, surgiram pressões que
entravam em conflito com a vontade de Deus. O Senhor, porém, retoma a iniciativa da ação.
     32     Então, foram sós no barco para um lugar solitário. Portanto, eles embarcaram para, no
isolamento, “descansar” e “comer”, ou seja, estamos diante de um trecho típico com os doze e a
identidade de Jesus no centro, bem como a dos seus discípulos. O resultado de fato é este, apesar dos
contratempos iniciais e das circunstâncias incomuns no fim. Uma multidão enorme é incluída desta
vez no descanso (v. 39s) e na refeição (v. 42).
     33,34     Muitos, porém, os viram partir e, reconhecendo-os, correram para lá, a pé, de todas as
cidades, e chegaram antes deles. Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e
compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. Jesus já vira muitas vezes
o afluir de grandes multidões. Desta vez, como estavam à margem antes da chegada dele, como se
posicionadas por Deus, a cena provocou os sentimentos de Jesus. As testemunhas constataram sua
emoção carismática. Era como se o pastor reencontrasse seu rebanho há muito procurado e aflito.
Como que caído do céu, aí está ele à sua frente. É claro que estas pessoas não tinham fugido dele,
mas ele delas. Mas a ele não pareceu assim. Para ele a presença destas pessoas não representou um
incômodo, mas fazia parte do isolamento ansiado, no qual elas foram incluídas por Jesus. Este
rebanho provocou sua manifestação como pastor.
No Antigo Oriente gostava-se de chamar os reis de “pastores” e seu povo de “rebanho”. O pastor e
rei de Israel era, com ênfase, o próprio Deus (Gn 48.15; Sl 23.1; 95.7; 100.3; Jr 13.17; Mq 7.14; Zc
10.3). Como pastores subordinados tinham sido instituídos os oficiais israelitas, especialmente os
sacerdotes, que anunciavam a vontade de Deus. Neste contexto, o grandioso capítulo dos pastores,
em Ez 34, é significativo. Ali se diz que os pastores subordinados tinham explorado o rebanho de
Deus em vez de cuidar dele. Eles “apascentaram” a si mesmos. Por isso Deus diz: “Porei termo no
seu pastoreio. […] Eis que eu mesmo procurarei as minhas ovelhas e as buscarei. Como o pastor
busca o seu rebanho, no dia em que encontra ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas;
livrá-las-ei, […] apascentá-las-ei, […] suscitarei para elas um só pastor, e ele as apascentará e […]
lhes servirá de pastor. Eu, o Senhor, lhes serei por Deus.” (Ez 34.10-24; cf. Nm 27.17; Is 40.11; Jr
23.3s; 31.10). Jesus é este “próprio Deus” de Ez 34, este “um só pastor”, no qual a misericórdia
escatológica de Deus está presente. Com isto está ligada uma indireta contra os líderes judeus, que às
vezes eram chamados de “pastores” (Bill. II, 537).
A continuação mostrará que o fator motivador da compaixão não era a carência material da
multidão reunida, mas exatamente sua carência de pastoreio. Neste contexto a pequena frase
adicional merece atenção: E passou a ensinar-lhes muitas coisas. Ele conduziu o rebanho para o
pastoreio do ensino, no sentido da mensagem de 1.14s. É claro que a ênfase não está neste processo
que durou horas, mas na alimentação como ponto alto do dia. Para este relato, por sua vez, a
introdução dos v. 35-40 e o epílogo dos v. 42-44 é chave. Esta moldura faz do milagre do v. 41 uma
lição objetiva específica para os discípulos. Por isso este diálogo longo de Jesus com eles, no qual ele
os guia de um degrau a outro, até lhes revelar sua glória (cf. Jo 2.11). O povo, com seus sentimentos
e motivações (diferente de Jo 6.14s), fica de fora. Marcos relata da perspectiva de um ensino do
círculo interno dos discípulos.
     35,36     Em declinando a tarde, vieram os discípulos a Jesus e lhe disseram: É deserto este lugar, e
já avançada a hora; despede-os para que, passando pelos campos ao redor e pelas aldeias,
comprem para si o que comer. Este primeiro diálogo entre Jesus e os seus discípulos que Marcos
relata é iniciado pelos discípulos. Não demora, porém, para ser Jesus quem age, sabe, ordena e recebe
como anfitrião, enquanto eles são os ajudantes e testemunhas que ele requisita, corrige e conduz.
     37     Porém ele lhes respondeu: Dai-lhes vós mesmos de comer. Ao “comprem para si” da proposta
dos discípulos no v. 36 Jesus contrapõe um “dai-lhes vós mesmos”. Tudo parece recair sobre eles.
Eles precisam alimentar as pessoas com suas provisões. A resposta deles não é nem atrevida
(Klostermann) nem burra (Schreiber, p 205). Disseram-lhe: Iremos comprar duzentos denários de
pão para lhes dar de comer? Não é que eles já estejam prontos para ir fazer compras. Não pode ser
que eles, com quem o Senhor fizera questão de ficar sozinho (v. 31), devem ir embora, e não as
pessoas (v. 36). Mas que outro sentido podia ter a ordem do Senhor? O que tinha ele em mente? No
diálogo durante a aula, o aluno faz perguntas para levar o professor a dizer mais, se as palavras que
disse até o momento ainda lhe são obscuras. Ele queria que eles dessem de comer à multidão, mas
sem que fossem fazer compras. Mas então, como?
     38     A comparação com o milagre do vinho em Jo 2.1-11, proposta por Lohmeyer, é sugestiva: os
companheiros de Jesus chamam sua atenção para o que falta. Ele não recusa a requisição dirigida a
ele, deixando margem à esperança. Seus companheiros se sujeitam a ele. Como se esperasse por isso,
ele lhes disse: Quantos pães tendes? Ide ver! E, sabendo-o eles, responderam: Cinco pães e dois
peixes. Como em Jo 2.6, segue o inventário das provisões. Pão de cevada e peixes grelhados ou
salgados para acompanhar eram a refeição comum da população galiléia em volta do lago. Quando
em viagem, os orientais sempre trazem alguma coisa consigo. Chamava a atenção quando isto não
acontecia (8.14). Nenhum detalhe, nem pão nem peixe nem seu número, tem aqui algum significado
misterioso. Jesus parte expressamente da realidade presente.
Os v. 39,40 demonstram o interesse que há em gestos. Jesus proporciona uma das suas ações
simbólicas proféticas. A dificuldade das pessoas, em vista das possibilidades normais de
abastecimento, não era premente (como em 8.3). Em volta havia um círculo de povoações humanas
(v. 36).
     39,40     Então, Jesus lhes ordenou que todos se assentassem, em grupos, sobre a relva verde. E o
fizeram, repartindo-se em grupos de cem em cem e de cinqüenta em cinqüenta. As pessoas
comuns comiam de pé, sentadas ou de cócoras. Se aqui se insiste duas vezes na ordem de acomodar-se de modo organizado, é porque se trata de algo mais do que somente dar de comer a uma multidão.
Como hospedeiro real (“pastor”), Jesus convida para a comunhão festiva à mesa, determina a ordem
à mesa e fornece a título de “almofadas” a relva verde. Mesmo que fragmentária, sugere-se a ordem
do acampamento do antigo Israel em Êx 18.21,25. Um amontoado solto de pessoas se organiza em
comunidade do povo como um sinal, e Jesus se mostra como recriador de Israel.
     41     Finalmente, depois de um preparo minucioso, e garantido o significado, um único versículo narra
de modo muito simples o que aconteceu. Mesmo este versículo, porém, não é uma descrição do
milagre, mas uma descrição de Jesus como dono da casa. Tomando ele os cinco pães e os dois
peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou; e, partindo os pães, deu-os aos discípulos para
que os distribuíssem; e por todos repartiu também os dois peixes. Todo dono de casa judeu dava
início a uma refeição solene erguendo-se de sua posição reclinada, levantando o pão e dizendo as
graças. Para isto prescrevia-se o olhar para baixo (Beyer, ThWNT II, 758,760). Olhar para o céu
parece ter pertencido a uma prática mais antiga e, por isso, mais solene (Bill. I, 685; II, 246). Para
Jesus, era típico olhar para cima (7.34; Jo 11.41; 17.1), de modo que os discípulos de Emaús podem
tê-lo reconhecido por isso (Lc 24.30). Depois da oração, o dono da casa quebrava para cada conviva
um pedaço do pão em forma de disco, com 20 cm de diâmetro e 1 cm de espessura. Em um grupo
pequeno, o dono da casa podia entregar cada pedaço pessoalmente, nos outros casos ele os deixava
passar de mão em mão. Aqui os discípulos são necessários como intermediários.
     42-44     Exatamente no momento que seria ideal para dizer algo sobre o milagre, o narrador se cala. Os
ecos são indiretos. Todos comeram e se fartaram; Uma segunda evidência da multiplicação é a
coleta obrigatória dos restos. Como o pão era escasso e nada podia ser perdido, as sobras sempre
eram recolhidas com cuidado (Bill. I, 686). E ainda recolheram doze cestos cheios de pedaços de
pão e de peixe. O número doze para os cestos provavelmente tem a ver com o fato de que, como em
8.19, foram os doze discípulos que recolheram as sobras. Por último, o número mencionado no
último versículo também dá a dimensão do milagre: Os que comeram dos pães eram cinco mil
homens. Números elevados sempre são estimativas. Mas cidades como Betsaida e Cafarnaum
tinham, naquela época, entre dois e três mil habitantes.
Com este sinal, Jesus se revelou como mestre messiânico (v. 30,34), pastor (v. 34a), rei (v. 39s) e
pai (v. 41). À sua volta o futuro se torna visível: um Israel renovado e, no fim das contas, um rebanho
humano que abrange o mundo todo, organizado, apaziguado e festivo. Sua missão universal
transparece na quantidade de “todos, grande, muitos” (v. 31,33,34,39,42). Entre o Único e os muitos,
porém, estão “seus discípulos” (v. 35,41), expressão sempre importante em Marcos. Eles fruem da
intimidade do pastor e rei e participam da sua ação até o fim. Isto não acontece, porém, sem que
antes a ação deles tenha sido levada ao seu limite. O começo disto foi no v. 31. Depois do seu
relatório, que nada mais continha além do que Jesus fizera por meio deles, a frase é significativa:
Descansem um pouco! Ele precisa agir – neles e só depois por meio deles (v. 37). Da sua mão todos
ficam satisfeitos, no fim das contas; é claro que pelas mãos deles e sob os seus olhos.
Deste modo obtemos as bases da eclesiologia. Os discípulos não ascendem lentamente à condição
de senhores, mas continuam discípulos. Eles não precisam representar a Cristo, pois ele está presente
pessoalmente. Na pessoa dele, o próprio Deus se dedica ao seu rebanho. Eles, por sua vez, lhe dão
uma mão e testemunham sua ação milagrosa (para a avaliação desta história, cf. opr 1 a 6.45-52 e
6.52).
Quanto ao conteúdo do ensino, é importante aqui poder ser percebido no fato de que o trecho,
diferente de p ex Jo 6.14,15, termina sem investigar a reação da multidão e dos discípulos (mas veja
o v. 52).

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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