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40 A revelação de Jesus no lago, Mc 6.45-52

A revelação de Jesus no lago, Mc 6.45-52 
(Mt 14.22,23; Jo 6.16-21)

45-52 Logo a seguir, compeliu Jesus os seus discípulos a embarcar e passar adiante para o outro lado, a Betsaida, enquanto ele despedia a multidão. E, tendo-os despedido, subiu ao monte  para orar. Ao cair da tarde, estava o barco no meio do mar, e ele, sozinho em terra. E, vendo-os em dificuldade a remar, porque o vento lhes era contrário, por volta da quarta vigília da noite, veio ter com eles, andando por sobre o mar; e queria tomar-lhes a dianteira. Eles, porém, vendo-o andar sobre o mar, pensaram tratar-se de um fantasma e gritaram. Pois todos ficaram aterrados à vista dele. Mas logo lhes falou e disse: Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais! E subiu para o barco para estar com eles, e o vento cessou. Ficaram entre si atônitos, porque não haviam compreendido o milagre dos pães; antes, o seu coração estava endurecido.

Em relação à tradução
   
a
     Betsaida (cf. 8.22) fica a leste da foz do Jordão no lago, na margem norte, portanto. Mesmo assim não
é preciso concluir que o ponto de partida da travessia tenha sido a margem sul. Há exemplos de que “passar
para o outro lado” pode ser usado até para uma viagem de uma cidade para outra na mesma margem (EWNT
I, 516). Portanto, muitas possibilidades estão em aberto aqui. De acordo com o v. 53, eles não chegaram a
desembarcar no local pretendido.
   
b
     Dentro do fluxo da narrativa, esta despedida (cf. 4.36n) só pode referir-se ao povo. Segundo o v. 45b
ela ainda faltava, enquanto a separação dos discípulos, de acordo com o v. 45a, já tinha acontecido.
   
c
     Não é só o plural “montes” que pode ter o sentido de “cadeia de montanhas” (p ex 13.14), mas também
o singular, como aqui (p ex também 5.11). Assim traduzem p ex BV e BJ. Para a perspectiva geográfica e
teológica, cf. 3.13.
   
d
     A “tarde”, se já for o caso de pensar nas vigílias da noite aqui (cf. a “quarta vigília” no v. 48), o
período entre 18 e 21 horas (13.35), em sentido mais geral o tempo do pôr-do-sol (cf. 1.32n).
   
e
     basanizomenous também pode ser entendido como voz passiva: “ser premido (pelo vento), à deriva”.
Na prática, porém, a situação era que os homens queriam remar contra o vento e tinham de fazer muito
esforço.
   
f
     Ela abrangia o período entre 3 e 6 horas, chamada de “manhã” em 13.35 (cf. 1.35; 11.20; 15.1; 16.2,9).
   
g
     phantasma, palavra grega para aparições de espíritos ou em sonhos. Na Bíblia, só no texto paralelo de
Mt 14.26 e em uma variante de Lc 24.37. Ali também fica claro o sentido negativo: uma miragem do Senhor,
não o próprio Senhor.
Observações preliminares
1. Contexto. A nova história está ligada diretamente à multiplicação dos pães, sem mencionar Jesus
novamente pelo nome, e a continuação também é de conteúdo. O tema “Jesus e seus discípulos” é levado
adiante e desemboca no v. 52 numa referência expressa ao milagre da alimentação. O que ficou sem ser dito
depois daquele milagre, é esclarecido agora: os discípulos (e ainda mais o povo) “não haviam compreendido”
aquele sinal, razão pela qual também não estiveram à altura da nova situação. O nível elevado do milagre da
multiplicação se confirma (cf. opr 2 a 6.30–8.26). Ele é crucial para entender ou não entender. Lá os
discípulos não conseguiram captar o sentido, o que os levou a fracassar aqui. A observação complementar do
v. 52 também fornece o ângulo de visão que a exposição deve manter a cada versículo. O sentido completo
será visível no v. 52, em retrospectiva.
Outra circunstância une a alimentação no deserto e a aparição no lago. Nos dois casos Jesus revelou ser
muito mais do que as pessoas à sua volta precisavam no momento. A multidão no deserto não necessitava de
uma provisão milagrosa, pois não estava morrendo de fome, pelo contrário, dispunha das opções normais de
abastecimento (v. 36). Os discípulos no lago não estavam se afogando, pois não estavam no meio de uma
tempestade que ameaçasse a sua vida, também não nos textos paralelos. É claro que não falamos de uma
“superfície lisa” do lago como Schmithals, mas o barco não estava a ponto de afundar, como em 4.37. Não
havia um lago furioso que pudesse simbolizar o poder da morte, não houve um grito por socorro nem uma
ordem de Jesus e, no fim, não se testificou do seu poder sobre as ondas. Não estamos diante de uma história de
salvação física, mas de uma revelação da divindade de Jesus ao grupo dos discípulos, que tinham perdido a
ligação com Jesus e esquecido a identidade dele.
Por fim, há também uma diferença com a história da multiplicação dos pães. Lá Jesus se revelou a partir de
um contexto totalmente terreno. Comportou-se como um dono de casa humano. Aqui ele aparece de modo
sobrenatural, do além, aterrorizante. É um vislumbre do outro Jesus, estranho, divino, como p ex em 9.2s.
2. Interpretação alegórica. É compreensível que, diante de um texto tão cheio de mistérios, a alegoria cedo
tenha sido um refúgio. Isto não é diferente hoje em dia. Vemos a mesma coisa p ex em Grob, com insistência
em Schreiber. Marcos, em todos os seus textos e também neste, não tinha a intenção de registrar fatos
históricos, mas teria tratado dela só “em termos gerais”, “de modo alegórico-simbólico”. Não se pode
interpretá-lo diferentemente (Pesch I, p 21; cf. p 95,98,204). As decifrações são mais ou menos as seguintes: a
separação de Jesus e seus discípulos é o Getsêmani, o Gólgota ou a ascensão; o barco é a igreja, a noite é a do
julgamento, Cristo no monte é exaltado à direita do Pai, sua oração ali é a intercessão por nós, o lago é o mar
de povos, o vento a perseguição, o tormento dos discípulos é seu trabalho missionário que enfrenta resistência
demoníaca, a quarta vigília da noite é a oração litúrgica matinal, a caminhada sobre a água é a realidade oculta
do ressurreto, sua passagem adiante é sua precedência na missão ou sua presença no Espírito Santo e
especialmente na eucaristia, o não reconhecimento pelos discípulos é a tentação da igreja de viver de uma
ficção, a entrada de Jesus no barco é a humildade terrena do Filho e, por fim, o temor dos discípulos é a
dúvida na ressurreição.
A alegoria, usada dentro de certos limites, pode ser um instrumento poderoso de aplicação para a época
contemporânea. A partir do AT também podem-se discernir várias camadas profundas. Somente é questionável
se o expositor pode adotar este método como princípio. Indícios de recordação autêntica impedem o refúgio
completo no simbolismo. Com toda certeza o texto parte de um acontecimento único e irrepetível e o
conhecimento de “Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e
sinais” (At 2.22) não se pode perder. A palavra da cruz se torna sem propósito se não se diz mais que e como
aquele que foi crucificado viveu de Deus, com Deus e para Deus.
     45     Logo a seguir, compeliu Jesus os seus discípulos a embarcar e passar adiante para o outro
lado, a Betsaida, enquanto ele despedia a multidão. Em estilo resumido, sem qualquer explicação,
uma situação dramática se descortina perante os nossos olhos. Por que Jesus separou os doze da
multidão com tanta pressa e os mandou embora através do lago, para só depois dispersar sozinho a
multidão? Para isto só temos suposições. Será que foi o preparo para uma nova revelação como em
9.2, na qual Jesus também isolou os escolhidos? Mas esta explicação dificilmente é suficiente para
um texto tão intenso. É evidente que a permanência dos discípulos é prejudicial para eles e a causa de
Jesus. Aqui é proveitoso olhar para o v. 52, onde Marcos observa que a multiplicação maravilhosa
tinha deixado os discípulos sem entender. Sua separação forçada do povo deixa entrever ambições
conflitantes no grupo. Alguma coisa neles não harmonizava mais com Jesus, só com o povo. A
solução para este caso vem de Jo 6.14ss,66: o povo via em Jesus um líder carismático e queria elevá-lo a rei messiânico. Quando Jesus se negou, isto causou um grande estrago entre seus adeptos. Em
vista destes acontecimentos, a insistência de Jesus faz sentido como uma luta pelos doze. Sua obra
seria inimaginável se não pudesse reconquistá-los. Para que ficassem “com ele” (3.14), aqui ele tinha
de separar-se deles.
     46     É neste quadro que se insere a seqüência: E, tendo-os despedido, subiu ao monte para orar.
Diferente de Lucas, Marcos menciona só raramente a oração de Jesus. Mas cada vez são horas de
oração, durante a noite. Como aqui, nas duas outras ocasiões Jesus também ora separado dos seus
discípulos (1.35; 14.32-42). Em todas as vezes trata-se de combater tentações satânicas e reorientar
sua missão.
     47     O v. 47 demora-se nos resultados dos eventos: Ao cair da tarde, estava o barco no meio do mar,
e ele, sozinho em terra. Jesus sozinho, sem “estarem com ele” os que pertenciam a ele; do outro
lado os doze, interior e exteriormente à deriva. No meio do mar significa que tinham-se afastado de
Betsaida. O versículo seguinte explica, com uma observação posterior típica, que um vento forte os
empurrara para o sul. Deste modo o quadro da separação se intensifica.
     48     E, vendo-os em dificuldade a remar, porque o vento lhes era contrário – por causa da escuridão
e da distância, não se cogita de visão física. A visão é da oração, como em 1.10 (cf. Lc 3.21). A
participação na visão de Deus permite ver o que está oculto (Mt 6.4,6,8). Quem vê com Deus, porém,
não pode ficar só olhando, mas se preocupa, se aproxima e fica junto (Gn 16.13; Sl 139.3). Por volta
da quarta vigília da noite, veio ter com eles, andando por sobre o mar. Ao contrário dos ídolos
mortos, Deus “anda” em meio ao seu povo (peripatein: Gn 3.8,10; Lv 26.12; Dt 23.15; 2Sm 7.6; 1Cr
17.6; Ap 2.1) – expressão de comunhão viva.
Difícil de compreender é a pequena frase: e queria tomar-lhes a dianteira. Esta expressão talvez
também possa ser explicada pela linguagem da revelação antiga. Sua intenção não é de negar-se, mas
exatamente de estar presente com seu consolo, mesmo que preservando sua majestade. Quando Deus
aceitou dar um sinal para Moisés de que continuaria seguindo com seu povo, ele disse: “Farei passar
toda a minha bondade diante de ti”; e de modo semelhante a Elias: “Eis que passava o Senhor” (Êx
33.19,22; 1Rs 19.11).
Assim o quadro se fecha. O ponto de partida é a existência de Jesus na oração, no espírito e em
Deus. Naturalmente esta existência também inclui os discípulos, por mais que estejam à deriva. Com
força carismática Jesus vai até eles. Neste momento, água e terra não fazem diferença. De forma
simbólica, Jesus afirma sua graça sustentadora a eles, que se esgotaram na multidão de descaminhos
(Is 57.10).
     49,50     Eles, porém, vendo-o andar sobre o mar, pensaram tratar-se de um fantasma e gritaram.
Mais uma vez eles não entendem nada. Eles pensaram em tudo, até em uma miragem satânica de
semelhança enganosa como em 2Co 11.14, só não nele mesmo. Jesus está muito longe para eles,
ficou para trás, está em outro lugar. Eles registraram erradamente os sinais da sua presença divina.
Em vez de gritar para ele, eles gritam seu medo um na cara do outro. Pois todos ficaram aterrados
à vista dele. A aparição que devia resgatar e fundamentar de novo sua condição de discípulos os
abala totalmente.
A reação adversa inesperada dos discípulos fez Jesus mudar sua intenção de passar por eles. O
“logo” indica um novo começo da ação: Mas logo lhes falou e disse: Tende bom ânimo! Sou eu.
Não temais! Jesus deixa o simbolismo e se identifica pessoalmente: Sou eu mesmo! Não é uma
miragem. A propósito, esta pequena frase intermediária é destacada, pelas palavras de consolo antes
e depois, como é característico de revelações de Deus em toda a Bíblia, bem além de uma
apresentação pessoal. É um ser pleno de que ele fala. Não diz somente que é ele mesmo, mas também
como ele é mesmo: tudo o que ele tem, dá, pode, quer, promete e faz. Jesus reativa uma promessa de
consolo de Deus no AT (Êx 3.14; Dt 32.39; Is 41.4,13; 43.10,13; 47.8,10). O sentido sempre foi: eu
sou para você! Sua intenção não era esmagar a criatura, mas criar condições para um diálogo. Pode-se falar com Deus e ouvi-lo, o ser humano pode reviver na sua presença.
     51,52     E subiu para o barco para estar com eles, e o vento cessou. Ficaram entre si atônitos.
Marcos escolhe, para a primeira reação dos discípulos, um termo que, para ele, expressa o horror de
estar na presença de Deus (ainda em 2.12; 5.42), e depois se interrompe. Em seguida, porém, a título
de esclarecimento, ele anuncia o sinal sob o qual ele preservou toda a história. Com uma franqueza
quase brutal ele diz: porque não haviam compreendido o milagre dos pães; antes, o seu coração
estava endurecido. Toda a história a partir do v. 45 teria sido desnecessária se não tivesse faltado
aos discípulos a compreensão cristológica e, com isso, a dissociação definitiva da esperança
messiânico-política dos judeus. Os judeus não tinham uma expectativa grande demais, mas pequena
demais. Sua noção do inimigo era pequena demais, seu anseio por salvação era muito tímido, seus
alvos muito pouco radicais. Tudo isto colidiu com a mensagem do reinado de Deus que se
aproximou, proclamada por Jesus. Então, eles não deixavam Deus ser Deus, e sempre de novo se
incomodavam com Jesus.
Fica a pergunta se os doze, pelo fato de lhes ser atribuída a mesma incompreensão dos “de fora”
de 4.10s e o mesmo coração endurecido dos inimigos de Jesus em 3.5, estão totalmente integrados no
Israel descrente. A pergunta terá de ser tratada mais uma vez em 8.14-21. Mas depois desta história
já podemos dizer que ninguém pensará nisto a sério (cf. 4.13). O grupo dos doze continuou sendo
especial, por causa das qualidades elevadas e vitoriosas do seu senhor. O mato no coração deles,
porém, ainda era alto e fechado. Também a aparição grandiosa sobre a água tinha seus limites, como
todos os milagres de Jesus. Estes só foram rompidos pela cruz de Jesus. O Gólgota foi o ponto
culminante da sua revelação. Ali também soou finalmente a confissão completa da boca de um
homem (15.39).

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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