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41 As parábolas do grão de mostarda e do fermento, Mt 13.31-35

As parábolas do grão de mostarda e do fermento, Mt 13.31-35
(Mc 4.30-32; Lc 13.18s)


Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, e, crescida, é maior do que as hortaliças, e se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos.



A parábola do grão de mostarda consta em todos os autores sinóticos, a saber, também em Mc
8.30-32 e Lc 13.18s.
Diz-se do grão de mostarda que ele é a menor de todas as sementes. Isso não é verdadeiro
literalmente, mas sim proverbialmente. Quando se queria designar algo como muito pequeno, falava -se, em forma de adágio popular, da “sementinha de mostarda”. Depois que essa sementinha de
mostarda havia crescido até ser uma árvore, formava um arbusto de 3 a 4 metros de altura, o qual até
hoje é denominado de “árvore de mostarda” pelos árabes. Ainda em tempos atuais essas imponent es
árvores de mostarda crescem às margens do rio Jordão.
Qual é o sentido dessa parábola? Quem vê somente diante de si a semente de mostarda, não
consegue imaginar que dessa sementinha insignificante poderia surgir uma árvore que supera todas
as hortaliças em altura e magnitude. O contraste entre a insignificância da sementinha e a grandeza
da árvore, em cuja sombra os pássaros se abrigam, com certeza constitui o  elemento básico dessa
parábola. A partir desse contraste poderíamos deduzir que o reino de Deus seria pequeno e modesto
somente no início de seu surgimento, para depois, no fim, brilhar com poder e resplendor. O reino de
Deus seria idêntico a um reino terreno que começou pequeno e se tornou um império mundial!
Interpretações como estas poderiam ser imaginadas.
Contudo, temos de rejeitá-las. Em seu desenvolvimento, o reino de Deus é totalmente diferente do
desenvolvimento de reinos e poderes da terra. Não foram prometidas à comunidade de Jesus na terra
tempos de poder esplendoroso. Sem dúvida lhe foram dadas as maiores promessas, contudo num
sentido bem diferente, que não tem nada a ver com a grandeza e o brilho terrenos. À comunidade de
Jesus foi prometido que as portas do reino dos mortos (o hades) não prevalecerão contra ela (Mt
16.18). Entretanto, seu caminho aqui na terra não será o caminho do poder e da grandeza, mas sim o
caminho do serviço, do sacrifício, da subordinação. E o fato de se falar das aves do céu, que
encontrarão sombra e abrigo nos imponentes galhos da árvore de mostarda, não deve ser interpretado
no sentido dos povos pagãos, que agora vêm à comunidade de Jesus para poderem, junto dela, ter
uma “vida de paz e sossego”. Não, a comunidade não oferece desfrute aos que são acolhidos por ela,
e sim o já mencionado compromisso de servir e sacrificar-se! A comunidade de Jesus sem dúvida
oferece a todos que vêm a ela a verdadeira paz do coração, a “paz que supera todo o entendimento”
(Fp 4.7), mas não qualquer comodidade e paz exterior.
Sintetizando: Não se pode interpretar a parábola do grão de mostarda, quanto à sua relação com o
reino de Deus, como se ele se desenvolvesse assim como poderes e reinos terrenos, mas sim no
sentido de que é preciso ver a construção do reino de Deus a partir do alvo escatológico, do alvo
eterno. O alvo eterno, no “fim dos tempos”, será incomparavelmente glorioso. Todos os reinos
terrenos se desfarão em nada diante desse reino eterno. Aqui na terra, considerada como nada devido
à sua fraqueza e pobreza, a comunidade de Jesus será, então, “configurada como uma comunidade
que é gloriosa, que não possui mancha nem ruga nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito”
(Ef 5.27).
Talvez a parábola do grão de mostarda ainda possa ser alvo de uma segunda interpretação, a saber,
quanto à “palavra do reino”. É como opina Michaelis em Es ging ein Säemann zu sähen einen
Samen. A “palavra do reino” seria, então, como uma semente de mostarda, mais precisamente,  como
o menor dos grãos da terra. É uma palavra frágil e pequena ao lado das palavras fortes e
estrondosas que preenchem o mundo. É uma palavra pregada “com fraqueza”, ainda que aconteça
“em demonstração do Espírito e do poder” (1Co 2.4). Quem seria capaz de tirar uma conclusão, a
partir dessa palavra, sobre a grandeza e força que reside nela? Não obstante, permanece de pé a
promessa: “Céus e terra passarão. Mas as minhas palavras não passarão!” (Mt 24.35; cf. 2Pe 3.13).
Michaelis mencionou ainda uma terceira  interpretação da parábola. A parábola do grão de
mostarda aponta para a vida do próprio Jesus, a saber, para a humildade de sua trajetória na terra e
para a glória de sua aparição no futuro (2Ts 1.10)!
Poderemos pensar na pobreza de sua vida na terra a partir da sua palavra: “As raposas têm seus
covis e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8.20).
Não obstante, o grão de mostarda se transforma numa árvore, em cujos ramos os pássaros do céu
podem fazer ninhos. “A pedra que os construtores rejeitaram veio a ser a pedra angular. Isso
procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos” (Sl 118.22s; Mt 21.42). Também essa
interpretação asseguraria a relação com o reino de Deus. Pois a glória do Filho do Homem é a glória
do reino de Deus (Lc 6.26s).


33 Disse-lhes outra parábola: O reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou 
e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado.



A parábola do fermento soma-se plenamente à parábola do grão de mostarda. Também ela mostra
o contraste entre o início e o fim, a pequenez inicial e a grandeza final.
Não está subentendido um efeito nocivo do fermento sobre a farinha. A figura do fermento,
mesmo nas demais passagens do Novo Testamento, não é usada em sentido negativo, sendo que em
todas elas trata-se da grande força de fermentação. O próprio fermento deve ser visto como neutro.
Mas seu incrível poder de penetração é que ocupa o campo de visão da parábola e também das
demais passagens bíblicas do NT: “Não sabeis que um pouco de fermento levada a massa toda?” (1Co
5.6). “Um pouco de fermento leveda toda a massa” (Gl 5.9). “Vede e acautelai-vos do fermento dos
fariseus” (Mt 16.6).
Todos esses textos falam da imensa força de fermentação do fermento. Essa  metáfora gozava de
uma popularidade proverbial. Também entre os rabinos se encontrava esse provérbio. Dizia -se que
uma ocorrência aparentemente insignificante poderia adquirir importância para o conjunto.
É o que Jesus também quer dizer com a parábola do fermento.
As três medidas de farinha (no texto original saton = medida hebraica para cereais. 1 sat = 13
litros; em Mt 5.15 o termo é médios, um latinismo, aprox. 9 litros de acordo com Mc 4.21 e Lc
11.23) totalizam cerca de 40 litros, que são aproximadamente 20 quilos de farinha. Ou seja, é uma
quantia grande de farinha que é penetrada por uma pequena porção de fermento.
A parábola está expressando a incrível força transformadora da “palavra do reino”. Foi a fé nessa
força de dinamite e energia inerente à palavra de Deus que sempre de novo deu aos mensageiros de
Jesus em todos os tempos a coragem para se oporem a todo um mundo de poderes hostis!
“Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas
do mundo para envergonhar os fortes. E Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as
desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são. A fim de que ninguém se
vanglorie na presença de Deus” (1Co 1.27-29).



34,35  Todas estas coisas disse Jesus às  multidões por parábolas e sem parábolas nada lhes dizia; 
para que se cumprisse o que foi dito por intermédio do profeta: Abrirei em parábolas a minha 
boca; publicarei coisas ocultas desde a criação [do mundo].


Mateus quer dizer nestes versículos o quanto Jesus, o mais poderoso pregador de todos os tempos,
comunicou ao povo através dessas parábolas. Como os israelitas seriam enriquecidos se o tivessem
aceito! Como é seu costume, o evangelista fundamenta por que o Senhor passou a anunciar ao povo
somente parábolas (cf. Mt 21.28). Mateus fundamenta esse modo de discursar de Jesus com o  AT. É
ao Sl 78 que ele recorre. Neste salmo, Asafe fornece uma retrospectiva da história de Israel desde a
saída do Egito até Davi e Salomão. A intenção de Asafe era dar um ensino ilustrado ao povo de Israel
para que, da desobediência de tempos antigos, aprendesse para o presente. Por isso Asafe diz no
intróito do salmo que ele quer falar em parábolas e palavras enigmáticas. Mateus, por sua vez, traz
aquele versículo introdutório, numa tradução intencionalmente livre, para indicar com toda a clareza
como o salmista, nesse seu método didático, é um bom exemplo de Cristo. Enquanto Asafe recorre
somente a figuras da história passada de seu povo, a fim de instruí-lo para o tempo atual, Jesus
retoma em suas parábolas mistérios que estavam ocultos nos planos divinos de salvação desde a
fundação do mundo. São as parábolas do reino de Deus. O nome Asafe não foi citado por Mateus.
Ele diz apenas “a palavra do profeta”. Alguns manuscritos antigos, p. ex. o Sinaítico, inserem aqui
“Isaías” como sendo o profeta. A edição grega de Nestle (1950, bem como edições anteriores)
retiraram esse nome.
Admitimos que nem em Mateus nem em outro lugar do Novo Testamento se confere, numa
citação do AT, ao cantor de um salmo o título de profeta. Será que não existe um engano por parte de
Mateus? Strack-Billerbeck nos dá a resposta (p. 670): “A designação profeta podia ser dada a
qualquer pessoa pela qual falava o Espírito Santo. Por isso já em 2Cr 29.30 o mesmo Asafe é
chamado de “profeta”.
Portanto, Mateus justifica o modo de Jesus falar com exemplos da Escritura. “Isso constitui
novamente um traço da humildade de Jesus, que Mateus ilustra com o argumento de que Israel não
foi receptivo para a sua palavra e Jesus não podia falar  abertamente com Israel sobre o plano de
salvação de Deus, mas tinha de ocultar sua palavra” (Schlatter).
Deve ser apontado não apenas para o caráter punitivo dessa forma de parábola, mas também para
o último chamado à decisão: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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