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41 Curas em massa na região de Genesaré, Mc 6.53-56

Curas em massa na região de Genesaré, Mc 6.53-56
(Mt 14.34-36)

53-56 Estando já no outro lado, chegaram a terra, em Genesaré, onde aportaram. Saindo eles do barco, logo o povo reconheceu Jesus; e, percorrendo toda aquela região, traziam em leitos os enfermos, para onde ouviam que ele estava. Onde quer que ele entrasse nas aldeias, cidades ou campos, punham os enfermos nas praças, rogando-lhe que os deixasse tocar ao menos na orla da sua veste; e quantos a tocavam saíam curados.

Em relação à tradução
   
a
     Genesaré é a forma longa de Genesar, nome judaico de uma planície costeira entre Cafarnaum e
Tiberíades, de 5 km de comprimento e com até 1,5 km de largura, que naquela época era muito fértil e
densamente habitada. O nome pode ter relação com o Quinerete do AT (Js 19.35), um povoado que desde o
século IX ou VIII a.C. estava deserto. Dali vem o nome da região e do lago (“lago de Genesaré” está no NT
apenas em Lc 5.1).
   
b
     Os judeus rigorosos na obediência à lei traziam borlas nas quatro pontas da veste superior, franjas com
quatro fios brancos e azuis de lã, geralmente amarrados com seis nós, deixando as pontas sair pelo último nó
– quanto mais comprido, mais espiritual (Mt 23.5). Estes cordões de lã lembram o israelita constantemente
dos mandamentos de Deus, de acordo com Nm 15.37ss.
   
c
     Marcos usa três termos diferentes para a cura de doentes, e falta-lhe um quarto, hygiainein. O termo
próprio, clínico para “curar”, iasthai, ele usa somente em 5.29, com relação direta com a doença. Mais
comum é therapeuein, que encontramos cinco vezes (1.34; 3.2,10; 6.5,13), sempre em resumos. Com maior
freqüência, inclusive aqui, ele usa sozein. Esta palavra tem o espectro mais amplo de significado. Nas
seguintes passagens ela tem o sentido de salvação no julgamento final: 8.35; 10.26; 13.13,20; cf. 16.16. Mas
também quando tem a vida física de doentes em vista, podemos traduzi-la por “salvar” e não só “curar”, pois
nunca se restringe à perspectiva físico-clínica. Dignos de nota são o contraste salvar – matar (3.4; cf. 15.30s),
o paralelo salvar – viver (5.23) e a relação salvar – crer (5.34; 10.52). Trata-se sempre, portanto, de ajuda
para a vida em si, de uma experiência de toda a pessoa, de redenção para salvação. Esta nuança deveria ser
visível também nas traduções.
Observações preliminares
1. Contexto. A mudança de cenário é total: do lago passa-se para a terra, do barco para a estrada, do círculo
íntimo dos discípulos para a exposição plena ao público. Uma coisa, porém, continua: a impressão deixada
pelo poder de Jesus. Esta não é menos impressionante aqui nas cidades e aldeias do que fora no lago. Esta
visão geral dos acontecimentos em Genesaré também deve promover a compreensão cristológica. Mais uma
vez, não está em questão a glória de Jesus em si, como numa torre de marfim, mas a relação com as pessoas
que vivem na sombra da morte. O Deus da Bíblia é o contrário de apático. Ele está arrebatado pela
necessidade de ajuda das suas criaturas.
2. Mal-entendidos. Os expositores se admiram que aqui Jesus passa “mudo” (Dehn), “em silêncio”
(Grundmann) pela multidão, “estranhamente sem se envolver”, “sem responder aos pedidos das pessoas com
uma palavra sequer” (Gnilka), “deixando que tudo aconteça com ele” (Lohmeyer). Estes são alguns bons
exemplos de exageros na interpretação. Não se levou em conta a singularidade da descrição. Relatos de
resumo como este sempre se concentram em determinado tema. Se não, poderíamos concluir de 1.14,15 que
na Galiléia Jesus só falou, de 1.32-34 que ele só se apresentou como milagreiro sem apontar para o reinado
próximo de Deus, de 1.39 que só expulsou demônios além de pregar, e de 3.7-12 que parou de pregar.
Schweizer trai outro mal-entendido ao sobrescrever o parágrafo com: “A Corrida Atrás de Milagres”. Ele
não encontra nenhuma declaração cristológica importante, só cegueira e ânsia por milagres. Talvez ele esteja
formulando o que, na Era do Iluminismo, todo leitor sente diante destes versículos. Acontece que nós olhamos
com certa arrogância para aquelas épocas escuras cheias de superstição, talvez sem perceber que nossa própria
cultura há muito está com seus frutos sobre a balança e se tornou totalmente questionável para os despertos e
sábios. Nós que somos tão impotentes diante dos problemas psicológicos, físicos e espirituais do nosso tempo,
nós que estamos sendo criticados, gostamos de criticar. Marcos somente relata o que borbulha da emoção das
pessoas à volta de Jesus, sem polemizar. Ele tem a fé dos primeiros cristãos, e transmite também a crítica de
Jesus à ganância por milagres (1.35-38; 6.5,31; 8.11s; 13.22; 14.36; 15.29-32,35s). Mas ele não desfere seus
golpes a cada momento, também pode deixar passar algo. Abre espaço para estes acontecimentos para
testificar da disposição poderosa de Deus para ajudar na pessoa de Jesus.
     53     Estando já no outro lado, chegaram a terra, em Genesaré, onde aportaram. Só aqui termina a
travessia do v. 45, e parece que não no alvo original, Betsaida. Desviados para longe da sua rota e
totalmente exaustos (v. 47s), eles aportam no primeiro trapiche que encontram. Ao nascer do sol (v.
48b) eles se descobrem na costa populosa de Genesaré. Com isto também penetram nos domínios do
perigoso Herodes Antipas; Betsaida ficava nas terras do bondoso Filipe. O ajuntamento descrito a
seguir certamente foi um evento político e deve ter apressado as medidas contra Jesus (3.6; 7.1).
Mesmo assim Jesus se deteve muitas vezes para atender aos pedintes. Com cada cura ele abria mão
de um pedaço de segurança pessoal.
     54,55     Saindo eles do barco, logo o povo reconheceu Jesus; e, percorrendo toda aquela região,
traziam em leitos os enfermos, para onde ouviam que ele estava. Como um fogo no campo a
notícia se espalhou, transformando toda a região numa colmeia extremamente agitada. Em todos os
lugares começa-se a carregar os que lit. “estavam mal” em sua direção e atrás dele. É só pensar no
sentido imediato da palavra “mal”, e já chegamos ao tema ao qual nosso parágrafo responde com sua
última palavra: curado, salvo! Jesus se apresenta aqui como salvador da morte e do inferno. Aí se
abre diante dele toda a miséria que costuma mofar resignada em segredo.
     56     Onde quer que ele entrasse nas aldeias, cidades ou campos, punham os enfermos nas praças,
rogando-lhe que os deixasse tocar ao menos na orla da sua veste; e quantos a tocavam saíam
curados. Constatamos uma diferença com as pessoas de At 5.15; 19.12, que não objetivavam mais
um encontro pessoal. Aqui a cura não era agarrada, mas suplicada como em 1.40; 5.23; 6.56; 7.32.
Talvez também o gesto de tocar as franjas significava a oração (Bill. I, 520). Além disso, ao toque
correspondia sempre o ser tocado. Assim, temos aqui a fé e sua resposta.
Em tudo isto podemos ver um primitivismo tocante. Entretanto, quando estamos na maior
dificuldade e deixamos uma vez transparecer de verdade o nosso sofrimento, todos nos tornamos
primitivos. Nossa fé também não precisa ser superespiritual, tremenda ou perfeita, como se
tivéssemos de crer na nossa fé. Decisivo é em quem nós cremos, e esta fé temos de pôr realmente em
ação, tocar Jesus com a ponta dos dedos em oração. Para levar um choque elétrico não é preciso ter
contato com uma superfície ampla, só encostar. Por isso para Marcos a última frase é um retrato forte
do evangelho: “Quantos a tocavam ficaram curados”, eram salvos.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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