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42 Condenação da religiosidade humana dos professores da lei, Mc 7.1-13

Condenação da religiosidade humana dos professores da lei, Mc 7.1-13 
(Mt 15.1-9; cf. Lc 11.37-41)

1-13 Ora, reuniram-se a Jesus os fariseus e alguns escribas, vindos de Jerusalém. E, vendo que alguns dos discípulos dele comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar (pois os fariseus e todos os judeus, observando a tradição dos anciãos, não comem sem lavar cuidadosamente as mãosquando voltam da praça, não comem sem se aspergirem; e há muitas outras coisas que receberam para observar, como a lavagem de copos, jarros e vasos de metal [e camas]),      interpelaram-no os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos de conformidade com a tradição dos anciãos, mas comem com as mãos por lavar? Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição. Pois Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte. Vós, porém, dizeis: Se um homem disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã, isto é, oferta para o Senhor, então, o dispensais de fazer qualquer coisa em favor de seu pai ou de sua mãeinvalidando a palavra de Deus pela vossa própria tradição, que vós mesmos transmitistes; e fazeis muitas outras coisas semelhantes.

Em relação à tradução
   
a
     Tempo presente, denotando um hábito mais que uma ocasião específica.
   
b
     “Comer os pães” ou simplesmente “comer pão” refere-se à refeição principal, o que inclui também
outros alimentos (já em Gn 3.19), que eram enrolados no pão que tinha forma de panqueca, e levados à boca.
   
c
     Naturalmente não no sentido de sujeira, falta de higiene ou desinfeção; cf. 1.40 e opr 2 lá e aqui opr 3.
– a frase interrompida é continuada no v. 5.
   
d
     presbyteroi não são aqui os membros leigos do Conselho Superior, mencionados em 8.31; 11.27;
14.43,53; 15.1, mas professores da lei de tempos antigos que tinham alcançado uma posição de dignidade
especial. De certa forma eram os “pais da igreja” do judaísmo, representantes da tradição de ensino
normativa. RC e BJ traduzem por “tradição dos antigos”.
   
e
     pygme, “punho”, causou dificuldades neste texto já aos copistas antigos, de modo que alguns
recorreram a uma pequena alteração, escrevendo pykna, “cuidadosamente” (RA, BLH), “muitas vezes” (RC),
ou simplesmente deixando fora a palavra. K. L. Schmidt (ThWNT VI, 915), retraduzindo a palavra para o
aramaico, chega ao sentido “em uma bacia”; outros ao sentido “nunca”, do que fazem uma frase explicativa:
“Nunca comem sem…” Outros expositores, querendo preservar a terminologia grega “com o punho”,
imaginam que os judeus esfregavam o punho de uma mão na palma da outra enquanto se lavavam, indicando
aqui só simbolicamente, sem água, o processo da ablução. As prescrições exatas, porém, não mencionam
isso (Bill. II, 13s; cf. I, 695-721; IV, 611-639). Depois de muitas idas e vindas, a explicação de M. Hengel
ainda é a que encontra mais receptividade (ZNW 60, 1969, p 182-198): trata-se aqui de um dos latinismos
freqüentes em Marcos, que leitores de fundo latino entendiam sem problemas (Mateus o omite!). É que, em
latim, “punho” também é uma medida: a medida de um punho (para nós: uma concha de mão cheia), que
aqui se refere a quantidade de água. Isto está de acordo com a prescrição judaica de que era preciso usar pelo
menos ¼ de lug (0,137 litros) (Bill. I, 698).
   
f
     Acrescentado por alguns manuscritos, para completar o sentido.
   
g
     baptisontai é traduzido com freqüência por “aspergir-se” (RA, BJ) ou “lavar-se” (RC, NVI, BV), mas
com isto perde-se a diferença com a lavagem das mãos do v. 3 (phipsontai). niptein é usado para a lavagem
parcial de pessoas vivas, louein ou baptizein para lavagem completa, plynein para a lavagem de objetos.
Aqui a referência é ou a judeus muito rigorosos que, depois dos contatos inevitáveis no mercado, logo
mergulham o corpo todo – no caso dos essênios está comprovado um banho completo antes de cada almoço
(Goppelt, ThWNT VIII, 320), e os arqueólogos descobriram em Qumran tanques espaçosos. Ou pensa-se no
mergulho completo pelo menos da mão inteira. Isto eliminava a possibilidade de a água só derramada por
cima deixar alguns lugares impuros. Em todo caso deve-se pensar em algo além da lavagem de mãos comum
(v. 3).
   
h
     hypokrites, tão comum em Mateus, em Marcos aparece só aqui. O termo tinha originalmente o sentido
de alguém que fazia uso da palavra para dar uma informação. Um orador e expositor por excelência era, na
Antigüidade, o ator de teatro. Só raras vezes o termo era usado para uma pessoa falsa, fingida. No AT, por
sua vez, hypocritai são sempre pessoas do povo de Deus que não são honestos diante dele e arriscam,
atrevidos, transgredir seus mandamentos. Levam uma vida mentirosa, com um nome espiritual. Esta
contradição existencial é que o NT tem em mente com este termo.
   
i
     Outros bons manuscritos têm, em lugar de teresete (“para guardardes”), stesete (“para estabelecerdes”,
NVIn). A decisão é difícil. Provavelmente a expressão corriqueira “guardar os mandamentos de Deus” fluiu
para a pena de alguns copistas (com Aland).
   
j
     “seja punido de morte” é mais enfático que o simples “morra”, na maneira de falar do AT.
   
l
     A posição de “de seu pai ou de sua mãe” no fim da frase indica o horror.
Observações preliminares
1. Contexto e tema. 7.1-23 é o segundo discurso longo em Marcos. Como o primeiro em 4.1-34 (cf. opr 1 a
4.1,2), ele é composto de palavras que Jesus pode ter dito em ocasiões diferentes: duas afirmações em relação
aos fariseus e professores da lei (v. 1-8 e 9-13), uma pregação para a multidão (v. 14s) e uma porção de ensino
dos discípulos (v. 17-23). A ligação entre estes trechos, portanto, não é necessariamente de tempo ou lugar,
mas de conteúdo. A palavra-chave “puro e impuro” em relação aos três grupos de ouvintes efetua a união (v.
2,5,15,18,19,20,23). Por que razão, porém, este tema recebe tanto destaque? Assim como o primeiro discurso
em 4.1-34 apontou para as três histórias de milagres que seguiram (cf. opr 2 a 4.35-41), também temos a
mesma coisa aqui. O rompimento da barreira das prescrições sobre alimentos prepara as três revelações
seguintes de Jesus em terras pagãs (7.24-30,31-37; 8.1-9). Podemos lembrar que também nos Atos a passagem
decisiva para a missão aos pagãos teve seu caminho preparado por uma instrução divina sobre puro e impuro.
Em Jope, Pedro recebeu uma lição detalhada, com o ponto culminante: “Ao que Deus purificou não consideres
comum” (10.15). O quanto este passo foi importante para a primeira igreja pode-se ver na repetição detalhada
no cap. 11 e a lembrança ainda no cap. 15.9-14. O problema deve ter sido renitente, pois migrou para a missão
aos pagãos. Na Ásia Menor, o debate sobre puro e impuro se repete (Gl 2.11-21), e a questão é controvertida
também na Itália (Rm 14.14-20). Em Cl 2.16-23 ela igualmente é conhecida (cf. 1Tm 4.3; Tt 1.15; Hb 13.9;
também opr 2 a 7.24-30). Estas linhas são uma advertência para nós, para não acharmos que nosso parágrafo é
de somenos importância. O assunto em debate é essencial. A missão de Deus tem o preço de uma condenação
da religiosidade humana, que aqui é debatida no exemplo dos escribas judaicos. Paulo refletiu a fundo sobre
estas coisas em Rm 9–11: “Pela sua (dos judeus) transgressão, veio a salvação aos gentios” (Rm 11.11). A
condenação dos professores da lei também se vê no fato de que eles não recebem instruções libertadoras,
como o povo e os discípulos. Isto não quer dizer que para eles não houvesse nenhum caminho para a vida. A
linguagem do julgamento, por mais dura que seja, ainda é um chamado ao arrependimento.
2. Tradição dos antigos. “Tradição” (paradosis, Lutero: “preceitos”) é, neste caso, um termo técnico
importante dos judeus para as regulamentações orais da Torá escrita de Moisés, que os escribas tinham
produzido com o passar dos séculos e transmitido com uma dedicação inigualada de geração a geração. Só no
fim do século II começaram a ser redigidas, levando à formação do Talmude – uma rede imensa de decisões
racionais (cf. p ex opr 3 a 2.23-28 e opr 3 abaixo). Que todo este empreendimento era necessário, devemos
reconhecer. A época de Moisés estava muito atrás no tempo e as circunstâncias da vida tinham mudado tanto
que uma aplicação direta da Escritura muitas vezes não era mais possível. Esta “tradição dos antigos”, porém,
começou a ter um peso cada vez maior no judaísmo, até ter mais valor que a própria Escritura (Bill. I, 691s).
Começou com a atribuição da sua origem ao próprio Moisés. A Torá escrita não era mais antiga que a
“transmissão” oral, Moisés só a manteve oculta no começo. No fim chegou-se ao ponto de dizer que o próprio
Deus estava ocupado no céu recitando com movimentos da cabeça as sabedorias rabínicas (Bill. IV, 777). A
“tradição dos antigos” tinha-se tornado o alicerce inatacável do judaísmo, e o farisaísmo era seu guardião
especial.
3. As leis cerimoniais judaicas. Com a perda da independência política e a dispersão crescente entre outros
povos, a preocupação de Israel de manter-se puro do paganismo tinha de tornar-se central. No topo da sua
escala de valores não estava justo-injusto, mas puro-impuro. O AT tinha só relativamente poucas prescrições
de pureza, limitadas acima de tudo aos sacerdotes e freqüentadores do culto no templo, mas seus princípios
agora foram ampliados e estendidos a todo verdadeiro israelita. A idéia grandiosa, mesmo que equivocada, da santificação da vida diária de todo o povo passou a dominar os ânimos: “Vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa” (Êx 19.6). P ex, cada refeição foi transformada em um culto com liturgia de louvor e ação de
graças, e estava sujeita às exigências da pureza levítica. A palavra traduzida por “impuro” nos v. 2,5,25,18,20
(koinos) na verdade significa “comum”. O culto precisa destacar-se do que é comum, p ex não se podia usar as mãos em sua condição comum. Por isso cada refeição tinha de ser precedida pelo ritual da lavagem das mãos (cf. Êx 30.19). Em casas religiosas havia jarros de pedra preparados para a água da purificação, muito grandes
(Jo 2.6), para não serem usados para fins comuns. Para a execução da ablução havia prescrições nos mínimos
detalhes. Para segui-las sozinho corria-se o risco de deslocar algum membro, segurando o jarro entre os
joelhos, inclinando-se para o lado e deixando a água escorrer sobre as mãos. Neste momento era importante observar que a mão já pura não fosse contaminada novamente pela que ainda não estava. A mão também não podia conter nada que cobrisse uma parte da pele e impedisse sua purificação. O melhor era ter um criado à
mão, que ajudava a todos em volta da mesa, começando com o mais importante. Um macaco amestrado
também podia ser treinado para isso. Um após outro deixava a água escorrer da ponta dos dedos até o pulso,
virando a mão para que a água pingasse novamente da ponta dos dedos. As explicações complicadas sobre o
tipo do utensílio, a posição das mãos ao derramar a água e como esta tinha que escorrer e ser recolhida só nos
cansam. Entretanto, quem entre os judeus desprezasse a lavagem das mãos, era excluído do convívio e
rebaixado à altura das prostitutas. Segundo uma explicação do ano 300, isto dava motivo para o cônjuge
divorciar-se (Bill. I, 702s). Um rabino que foi encarcerado pelos romanos, em vez de beber a água que lhe
traziam, preferiu usá-la para as abluções rituais, o que fez com que quase morresse de sede (Bill. I, 702).
4. A disposição do corbã. O judaísmo conhecia o juramento de retenção “corbã” (do hebr. “aquilo que foi
oferecido, sacrificado”) em vários contextos (Bill. I, 711-717; Rengstorf, ThWNT 860ss). Ele era pronunciado
quando alguma coisa devia assumir o caráter de uma oferta de sacrifício. É preciso prestar atenção: o objeto só
assumia o caráter de sacrifício, mas não precisava ser realmente entregue no templo e sacrificado. O efeito
prático era que o uso previsto originalmente não estava mais em cogitação. A limitação negativa, porém,
ficava sem compensação positiva. Para compreender o uso deste juramento em desavenças familiares, só
precisamos lembrar da dignidade que o 4º Mandamento tinha no judaísmo. Honrar pai e mãe na velhice
significava, entre outras coisas, realmente “dar-lhe comida e bebida, roupa e cobertor, levá-lo e trazê-lo e
lavar-lhe rosto, mãos e pés”. Havia regras específicas sobre a parte que deviam receber de cereais, vinho e dos
demais rendimentos. Em troca, o filho herdaria o paraíso (Bill. I, 706s). Apesar disso, um filho podia subtrair-se a essas obrigações, sem perder a fama de fiel seguidor da lei nem ir para o inferno, desde que dissesse o
juramento. Segundo Nm 30.4, porém, juramento é juramento. Em tom de lamento ele podia explicar então ao seu pai: “Eu gostaria muito de sustentar vocês mas, o senhor sabe, Deus tem preferência!” Podemos muito
bem imaginar que uma coisa dessas já exacerbava os ânimos naquela época. Diante dos rabinos apareciam
pais desesperados ou também filhos arrependidos para apresentar seu caso (cf. comentário).
5. “todos os judeus” no v. 3. Contra a explicação inserida nos v. 2b-4 tem sido levantado que o costume da
lavagem ritual das mãos (ainda) não era geral (Lohmeyer, p 245; Haenchen, p 263). Em primeiro lugar, a
existência do costume no século I está comprovada (Bill. I, 696; Pesch I, 371). O que se pode dizer sobre o grau de aceitação? Com certeza Marcos sabia de amplas camadas da população judaica que não adotavam as prescrições dos fariseus e viviam à margem da lei. Os saduceus também não aceitavam a “tradição dos
antigos”. Por outro lado, Marcos aqui também não está fazendo uma constatação aplicada a todos os membros
da raça judaica. Nem uma vez ele ou os outros sinóticos chamaram a multidão em volta de Jesus de “judeus”.
A palavra deve ser entendida aqui em seu contexto: “os fariseus e todos os judeus”, ou seja, todos os judeus
que podiam ser mencionados junto com os fariseus, sentindo-se comprometidos com os ideais deles e viviam
fiéis à lei. De fato, devemos acrescentar que o ideal dos fariseus e professores da lei cada vez mais
representava o judaísmo naquela época. Neste sentido Marcos nos informa nos v. 2b-4 com precisão sobre
uma parte da prática da lei no judaísmo.
     1,2     Ora, reuniram-se a Jesus os fariseus e alguns escribas, vindos de Jerusalém. Esta vinda da
capital certamente tem um caráter oficial. As investigações no âmbito de um processo de cassação
dos direitos ao ensino estão em andamento (cf. 2.6). E, vendo que alguns dos discípulos dele
comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar – a frase continua no v. 5. “Alguns dos seus
discípulos” não deve ser forçado no sentido de que fosse uma exceção. De acordo com o v. 5, os
investigadores estavam questionando todos os discípulos, em Lc 11.38 Jesus colocou estes rituais de
lado também no que tange à sua pessoa. Ao alimentar a multidão no deserto em 6.41s e 8.6, ao tocar
em doentes e ao comer na casa de cobradores de impostos, ele mostrou sempre de novo que não se
impressionava com as prescrições dos fariseus (para detalhes, veja as notas à tradução e as opr). – No
v. 2b já se manifesta o escritor que pensa em leitores cristãos que não são de origem judaica, não
viviam em contato com judeus fiéis à lei e, por isso, não entendem o que está acontecendo. Para estes
inserem-se mais algumas frases:
     3,4     (Pois os fariseus e todos os judeus, observando a tradição dos anciãos, não comem sem lavar
cuidadosamente as mãos; quando voltam da praça, não comem sem se aspergirem; e há muitas
outras coisas que receberam para observar, como a lavagem de copos, jarros e vasos de metal
[e camas]). Além da parte informativa, pode-se perceber alguns outros detalhes. Duas vezes ouve-se
a expressão quase autodestrutiva “não comem” – sob nenhuma circunstância. Antes morrer de fome!
E quando comem, sua refeição é bastante trabalhosa. Marcos está evidenciando o que há de negação,
de anti-humano nesta religião. Ele indica uma quantidade opressiva de determinações. É só um
ratinho passar por um prato ou um osso cair numa bacia e já há um parágrafo que precisa ser
observado. Enquanto celebra, cumpre e obedece, a pessoa suspira. Com isto o ato de comer está em
contraste gritante com o banquete de Jesus com os 5.000 no deserto, do qual se falou há pouco (6.30-44; cf. parte final da opr 4 a 2.13-17).
     5     Muitas pessoas na Palestina não se importavam com a pureza dos fariseus, sem que o Conselho
Superior tomasse qualquer medida contra elas. Este caso, porém, era totalmente diferente. Este Jesus
alegava estar falando como enviado de Deus, reunia seguidores, convocava todo o Israel à conversão
e se baseava na Escritura para tanto. Além disso Jesus era religioso, mas diferente da religiosidade
dos professores da lei. Esta era a questão chave. Eles não estavam interferindo por motivos formais,
já que tinham a responsabilidade de zelar pelo ensino correto, mas porque compreendiam: ele ou
nós? Jesus estava abalando os alicerces do judaísmo, a “tradição dos antigos”. Interpelaram-no os
fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos de conformidade com a tradição
dos anciãos, mas comem com as mãos por lavar? Não nos deixemos iludir pela forma da pergunta.
Eles não estão pedindo uma informação, nem propondo um debate da questão. Eles exigem em tom
inquisitório que ele se submeta à “tradição dos antigos”. Esta é a questão central – cinco vezes ela é
mencionada nestes versículos. A lavagem ritual das mãos só serve de ensejo.
     6,7     A resposta está na mesma altura. O ensejo externo pode ficar de lado. Então: Quem se curva a
quem? Do lado de quem realmente está a Escritura, fazendo com que a religiosidade do outro na
verdade seja apostasia? No v. 10 Jesus toma para si uma palavra da Torá de Moisés, aqui outra dos
profetas (Is 23.13), requisitando para si toda a Escritura, para sair a campo contra eles: Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me
com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas
que são preceitos de homens. Nenhuma variação do texto hebr. Ou da LXX sugerem que Jesus tenha
usado aqui uma versão aramaica que não conhecemos (cf. 2.26). O sentido do que Jesus está
lançando no rosto dos judeus é: A vocês falta exatamente o principal de todos os mandamentos.
Vocês adoram a Deus em alto e bom som, mas só de boca e com o coração distanciado, não “de todo
o coração” (cf. 12.30). Isto, porém, faz com que toda a religiosidade de vocês esteja construída sobre
areia! Em seguida, Jesus, com a palavra de Isaías, reforça a expressão. Ele não os acusa de
insuficiência e superficialidade somente, mas de flagrante religiosidade contrária. Ele detecta
desobediência consciente e distorção de conteúdo: vontade humana em lugar do mandamento de
Deus. A única coisa que permite suportar este estado de coisas terrível é o fato de que ele representa
cumprimento da Escritura. Deus vem também através dos vales. Assim, Jesus não se desvia do
problema, mas o formula com todas as letras:
     8     Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. Neste ponto também
fica claro por que ele os chamou de “hipócritas” no v. 6 (cf. v. 6n). Os judeus viviam em contradição
interna. Por um lado eram povo de Deus, e queriam sê-lo. Só Deus deve reinar sobre eles. Também
acreditavam que isto se concretizava quando eles seguiam suas tradições; tanto nas suas tradições
como na Torá manifestava-se o único Deus (12.32). Mas Jesus pronuncia a condenação deles: Nas
tradições de vocês Deus foi abandonado e a autoridade dos homens passou a vigorar.
     9     Para uma acusação tão grave, Jesus não fica devendo a prova. “Jeitosamente”, no início da
comprovação, é a mesma palavra que “bem” no v. 6, mas desta vez não é um elogio, pelo contrário,
está cheia de tristeza amarga (cf. 2Co 11.4). De início Jesus repete o que disse no fim do v. 8. Ele
quer a acusação de infidelidade e até hostilidade contra os mandamentos de Deus ilustrar. Com
freqüência Jesus se faz de defensor dos mandamentos (10.5,19; 12.28,31). E disse-lhes ainda:
Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição.
     10     Como prova, Jesus seleciona textos ligados ao 4º Mandamento, citando-o antes, de acordo com Êx
20.12; 21.17; Lv 10.9; Dt 5.16: Pois Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem
maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte.
     11,12     Ao lado disso, ele coloca agora a prática vergonhosa dos professores da lei: Vós, porém, dizeis:
Se um homem disser a seu pai ou a sua mãe: Aquilo que poderias aproveitar de mim é Corbã,
isto é, oferta para o Senhor, então, o dispensais de fazer qualquer coisa em favor de seu pai ou
de sua mãe. A opr 4 descreveu a instituição judaica do corbã. Em nosso contexto, os professores da
lei são questionados como mestres (v. 7), não necessariamente como praticantes. O v. 12 também
fala do que eles dispensam outros de fazer, não o que eles mesmos estivessem praticando em
relação aos seus pais. Podemos, portanto, partir da suposição de que um caso difícil destes lhes tinha
sido proposto para solução. Os implicados estão pedindo aos especialistas da lei que os liberassem do
corbã e não permitissem que os pais ficassem sem sustento. Os sábios de Israel, contudo, se lembram
de Nm 30.4 e começam: É preciso obedecer mais a Deus do que às pessoas, inclusive os pais
queridos… É claro que eles sabiam que muitos juramentos eram imorais, mas eles estavam
emaranhados em sua tradição que, uma vez “estabelecida” (v. 9,13), agora tinha de ser “guardada”
(v. 3,5,9). Como a imagem de um ídolo ela reinava sobre eles e, protegida por ela – não quebrada
pela Palavra de Deus – reinava a maldade do coração de muitos filhos e filhas. Certamente os
professores da lei amealhavam para o seu sistema este ou aquele versículo, mas quem interpreta e
põe a Escritura a seu serviço, contra o amor de Deus, está anulando a Palavra de Deus. Se Deus não
existe mais para as pessoas, ele deixa de ser divino, para tornar-se um ídolo.
     13     Pela terceira e última vez (v. 8,9,13) Jesus pronuncia uma acusação fulminante contra aqueles que
se consideravam guardiães da Torá e se tinham colocado como juízes dele: invalidando a palavra
de Deus pela vossa própria tradição, que vós mesmos transmitistes; e fazeis muitas outras
coisas semelhantes. Na passagem paralela de Mt 15.13s, Jesus nega diretamente que a motivação
deles tenha qualquer origem divina. Por isso Deus haveria de exterminá-los. A seus discípulos ele
ordena que se separem radicalmente deles. No fundo da cena pode-se ver a figura do tentador para a
apostasia de Dn 7.15, cuja principal característica é a anulação dos mandamentos de Deus. Emoção
semelhante, à beira da explosão, constatamos no missionário Paulo quando encontra tendências
judaizantes nas igrejas (Gl 1.6-9; 2.5,14; 3.1; 4.16-20; Fp 3.2). Legalismo e missões combinam como
fogo e água.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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