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42 Explicação da parábola da erva daninha no meio do trigo, Mt 13.36-43

Explicação da parábola da erva daninha no meio do trigo, Mt 13.36-43


Então, despedindo as multidões, foi Jesus para casa. E, chegando-se a ele os seus discípulos, disseram: Explica-nos a parábola do joio do campo. E ele respondeu: O que semeia a boa semente é o Filho do Homem; o campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; o joio são os filhos do maligno; o inimigo que o semeou é o diabo; a ceifa é a consumação do século, e os ceifeiros são os anjos. Pois, assim como o joio é colhido e lançado ao fogo, assim será na consumação do século.
Mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniqüidade e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes. Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça!



A explicação da parábola subdivide-se em duas partes.
A primeira parte são os v. 36-39. Ela faz uma interpretação alegórica dos diversos elementos da
parábola. A segunda parte é formada pelos v. 40-43, onde se descreve a “colheita”.

a. A primeira parte: Explicação dos diversos elementos
Não se interpreta quem são os empregados do fazendeiro, o fato de dormirem e o seu diálogo
com o patrão. Causa estranheza que os empregados não são identificados. Se, apesar disso,
quisermos recuperar essa interpretação por nossa conta, resta-nos somente explicar os empregados
como os discípulos de Jesus. Isso significaria que são os  discípulos de Jesus que vêem o mato e de
imediato querem arrancá-lo. Pela parábola, no entanto, eles são instruídos pelo Senhor em favor de
uma solução melhor. – Talvez os discípulos se reconheceram como os empregados, e por isso não
havia necessidade de o Senhor identificá-los como tais.
O homem que semeia a boa semente é o próprio Jesus. Ele fala de si na terceira pessoa,
designando-se como o Filho do Homem. Mateus utilizou sete vezes essa autodesignação do Senhor,
incluída esta parábola. O título “Filho do Homem” aparece pela primeira vez em 8.20, onde o Senhor
afirma: “As raposas têm covis […] mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”. Em
seguida o termo aparece em 9.6; 11.19; 12.8; 12.32; 12.40 e aqui. Os discípulos já conheciam a
expressão e sabiam que Jesus se referia a si pessoalmente, e não somente em vista do fim dos tempos,
mas também para o tempo presente! Na presente parábola o termo “Filho do Homem” deve ser
entendido em relação à sua atividade atual (v. 37) e simultaneamente para o tempo da colheita no fim
dos tempos (v. 41).
Nesta parábola a semente é interpretada de forma diferente que na parábola dos diversos tipos de
solo. Lá a boa semente era a “palavra do reino”, aqui as sementes boas são os filhos do reino! Para
diferenciá-la da semente designada expressamente como  boa, a semente ruim da erva denominada
joio, uma planta especialmente daninha, é contraposta à semente boa nesta parábola. Na parábola
anterior, naturalmente, não havia necessidade dessa contraposição.
Esta semente daninha designa os filhos do maligno.
Como semeador dessa variedade especialmente maligna de inço é citado o diabo. A erva daninha
não cresceu por si, mas é lançada de propósito e à noite entre o trigo recém-semeado! Os filhos do
maligno são a semeadura dele.
A boa semente e o joio mau são os dois grupos em que se divide a humanidade. De acordo com
essa parábola, não existe um terceiro grupo de pessoas. Os “filhos do reino” são os qu e no final da
parábola são chamados de “justos” (v. 43). E no fim da história os “filhos do maligno” são
denominados de “escândalos” e “praticantes da iniqüidade”. Se lembrarmos Mt 5.45,
reencontraremos os justos e injustos de lá aqui como os filhos do reino e os filhos do maligno. Em
lugar de “filhos do reino” pode-se dizer também “crianças do reino”. A acepção da palavra “filho”
em “filhos do reino” corresponde à expressão de Efésios 2.3, “éramos filhos da ira”, que significa
que o destino da pessoa já estava traçado. É nesse sentido que também se deve compreender a
expressão “filhos do reino”.
Os “filhos do reino” são aqueles em cuja vida o Senhor Jesus já tomou posse completa, que
pertencem total e integralmente a ele, enquanto os “filhos do maligno” são  os que foram
monopolizados pelo diabo, tornando-se seus escravos e assumindo mais e mais seu modo de ser.
Não é recomendável falar, neste contexto, de “eleição”, porque no NT, quando se fala de eleição, a
referência é sempre à escolha por parte de Deus, nunca e jamais por parte do diabo. E a eleição de
Deus, que deseja que todas as pessoas sejam salvas, concretizou-se de forma singular e de maneira
mais clara na cruz do Gólgota. Karl Barth diz: “Em Jesus Cristo está não somente o meio, mas
também o fundamento de nossa eleição”.
O conde de Zinzendorf entoava: “Nas marcas dos cravos da tua cruz, descubro a minha escolha de
graça e luz”.
Chegamos à questão central da parábola:
Considerando que o Senhor adverte para que não seja feita já agora a separação entre justos e
injustos, entre “filhos do reino” e “filhos do maligno”, será que devemos concluir que não se pode ou
não se deve sequer distinguir entre bons e maus, convertidos e não convertidos? Não é o que o
Senhor afirma. Todo o NT fala seguidamente que é possível reconhecer quem é justo e quem é
injusto. “Pelos seus frutos os reconhecereis” (Mt 7.16). Frutos sempre são visíveis. Nesse contexto
tampouco se pode falar de uma igreja  invisível. Em cada um dos seus membros a igreja de Jesus
Cristo sempre é uma igreja visível, embora como conjunto ela agora ainda esteja oculta aos nossos
olhos. Porém o indivíduo, que segue o Senhor Jesus seriamente, pode e deve  se diferenciar de
alguém que não leva a fé a sério e nem sequer pensa em seguir a Jesus. É claro que às  vezes o
disfarce (anjos da luz) ou as decepções podem iludir nossa visão! Persiste como válida a
possibilidade de reconhecer o cristão, ainda que nós sejamos pessoas que erram e saibamos que “nem
tudo que reluz é ouro”, que nem tudo que é visível na comunidade de Jesus faz parte da visibilidade
genuína, e mesmo que saibamos que a comunidade de Jesus enquanto corpo de Cristo ainda não foi
revelada (1Jo 3.2), mas continua oculta porque Cristo ainda será revelado em Deus, i. é, em sua
visibilidade e glória plenas. Apesar de saber isto, já existe fundamentalmente aqui na terra a
“visibilidade” da comunidade de Jesus com todos os seus sinais característicos em toda parte!
Se, de acordo com a parábola, devemos esperar com o extermínio do inço até a colheita, esta
solicitação não está fundamentada no fato de que inço e trigo não pudessem ou não devessem ser
distinguidos um do outro ou que não fossem reconhecíveis. O único motivo para  esperar até a
colheita é que os discípulos não devem, de si próprios separar os dois grupos de pessoas. O sentido
de separar é julgar, condenar, punir. É como João e Tiago, quando o Senhor não encontrou abrigo
em Samaria, queriam pedir que descesse fogo do céu que consumisse aquelas pessoas (Lc 9.52ss).
Não cabe aos discípulos exterminar os maus, mas exclusivamente a Deus, que o fará através do Filho
do Homem no dia do seu juízo.
Certamente os discípulos deviam fazer a distinção, mas não a separação no sentido da
condenação e do extermínio dos não convertidos.
É verdade que as diferenças entre os dois grupos de pessoas precisam ser observadas com clareza
e nitidez e não devem ser desprezadas. Pois pecado é pecado, injustiça continua sendo injustiça, e
mentira não pode ser transformada em verdade! Contra o pecado, a injustiça e a mentira é preciso
proferir a pregação de arrependimento, a palavra que esclarece, corta e separa. Desmascarar e
destacar o pecado e encarar o trigo como trigo e o joio como joio não significa arrogar-se o juízo de
Deus com orgulho farisaico e “julgar antes do tempo”. Também Paulo adverte em 1Co 4.5: “Não
julguem antes do tempo, antes que venha o Senhor…”
A advertência do Senhor, de não arrancar e queimar o joio antes da colheita, também deve ser
entendida no sentido de que a comunidade de Jesus não deve promover, com quaisquer meios carnais
ou até pela força, pela coerção ou pressão, ou pela ameaça contra os maus deste mundo, uma
separação (como fez, p. ex., Calvino em Genebra). Pois em 2Co 10.4 Paulo afirma, para caracterizar
a atitude da comunidade de Jesus diante dos maus, que “as armas do nosso combate não têm origem
humana, mas o seu poder vem de Deus”.
Não compete à comunidade de Jesus arrogar-se o direito de proferir um julgamento antes do juízo
final. Ela tem de esperar até a colheit a!
Permanecem abertas duas perguntas:
Se ambos, “os bons e os maus”, devem permanecer pacificamente juntos até “a colheita”, como
fica com a questão da disciplina comunitária? E como fica a  certeza de salvação, quando todas as
verdades sempre de novo se revelam como imperfeitas e até como falsas ou perigosas?
Quanto à primeira pergunta: A parábola não trata da questão da disciplina comunitária, porque não
é a comunidade como tal que está no centro da abordagem, mas a comunidade em seu
relacionamento com os “filhos do maligno”, com os que estão do lado de fora. A questão da
comunhão é solucionada em Mt 18.
Quanto à segunda: A certeza de salvação é algo bem diferente que o esforço para ter segurança e
garantias. A questão da certeza da salvação é levantada nes sa parábola para quem a compreende
corretamente, no sentido de que a reflexão e o exame começa com a percepção do chamado: Faço
parte do joio ou do trigo? Naquele que busca com sinceridade é despertado o anseio por certeza,
certeza de estar salvo.


b. A segunda parte
Nos v. 39-43 a parábola apresenta a descrição do julgamento final. O juízo no fim dos tempos é
retratado com a figura de uma colheita. É uma ilustração que já encontramos no  AT. Lemos em Jl
3.13: “Lançai a foice, a messe está madura; vinde, calcai, o lagar está cheio; as tinas transbordam.
Sim, a sua malícia é grande.” E em Is 27.12: “Naquele dia o Senhor debulhará o seu cereal desde o
Eufrates até o ribeiro do Egito; e vós, ó filhos de Israel, sereis colhidos um a um”.
A figura da colheita como juízo final está contida também na parábola da semente em Mc 4.26 -29.
Igualmente João Batista visualiza o julgamento com a figura da eira, e a condenação dos maus para a
perdição eterna com a imagem do fogo (Mt 3.12). Da “fornalha de fogo” fala-se mais uma vez em Mt
13.50.
A expressão consumação do século é usada por Mt ainda três vezes, em 13.49,50a; 24.3; 28.20.
Mt 13.49,50a: “Assim será na consumação do século: sairão os anjos, e separarão os maus dentre os
justos, e os lançarão na fornalha acesa…” Mt 24 .3: “No monte das Oliveiras, achava-se Jesus
assentado, quando se aproximaram dele os discípulos, em particular, e lhe pediram: Dize -nos quando
sucederão essas cousas, e que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século?” Mt 28.20:
“…Ensinando-os a guardar todas as cousas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco até a
consumação do século.”
A finalização do éon (século, época, era) significa o encerramento do  éon atual e a irrupção do éon
futuro. – Os ceifeiros são os anjos. São denominados anjos dele, i. é., do Filho do Homem. Os
servos e mensageiros do Filho do Homem, como tais, reunirão os escândalos e os malfeitores que há
em seu reino assim como se ajunta o mato, enquanto no mais é o próprio Filho do Homem quem
executa a separação entre justos e injustos.
Sobre a participação dos anjos veja ainda: Mt 25.31: “Quando vier o Filho do Homem na sua
majestade e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória…” Mt 24.31: “E ele
enviará os seus anjos, com grande clangor de trombet a, os quais reunirão os seus escolhidos, dos
quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus”. Mc 13.27: “Então ele enviará os seus anjos…”,
como em Mt 24.31.
Sobre a intervenção do próprio Jesus veja: Mt 3.12: “[Ele] traz na mão a pá, vai joeirar sua e ira e
recolher o trigo no celeiro; mas o refugo, ele o queimará no fogo que não se extingue”. Mt 25.31 -33:
“Quando o Filho do Homem vier em sua glória acompanhado de todos os anjos, então ele se
assentará em seu trono de glória. Diante dele serão reunidas  todas as nações, e ele separará os
homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Ele colocará as ovelhas à sua
direita e os cabritos à sua esquerda.”
Portanto, os seus anjos executam o juízo a partir de sua ordem. Corresponde ao cont eúdo da
parábola que a separação entre ervas daninhas e trigo e a queima do joio é feita pelos anjos do Filho
do Homem. No mais, como já mostramos, o Filho do Homem executa pessoalmente o juízo.
A expressão malfeitores ou “praticantes da iniqüidade” é tirada de Sf 1.3: “Extirparei homens e
animais, pássaros do céu e peixes do mar, extirparei o que faz os maus tropeçarem; suprimirei o ser
humano da face da terra, oráculo do Senhor”. E ainda Sl 7.9: “Cesse a malícia dos ímpios, mas
estabelece tu o justo! Pois sondas a mente e o coração, ó justo Deus.”
Em Mt a expressão “malfeitor” já foi usada em 7.23: “Então lhes direi explicitamente: Nunca vos
conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade!” Nesse texto aqueles que apenas dizem
“Senhor, Senhor” são chamados de “praticantes da ilegalidade”, malfeitores. Como isso é sério! Os
meros ouvintes da palavra, os que apenas falam piedosamente, são igualados no fim do sermão do
Monte aos que aqui em Mt 13.41 são os “filhos do diabo”. E quantas realizações evidenciaram
aqueles de Mt 7.23. Realizaram muito em nome de Jesus.  Fizeram milagres e até expeliram
demônios em nome de Jesus, proclamaram conteúdos proféticos – mas não obstante: malfeitores.
Como isso é sério!
Aos “praticantes da iniqüidade” o Senhor diz no fim do sermão do Monte: “Nunca os conheci.
Afastem-se de mim!”
Os “malfeitores” da parábola são lançados na fornalha. A fornalha quer dizer o inferno, a geénna.
Cf. Mt 5.22; 18.8s e Mc 9.43-48.
Quanto à expressão choro e ranger de dentes, veja o exposto sobre Mt 8.12.
A parte final da explicação dirige a atenção para os “filhos do reino”, designados por Jesus como
“os justos”. A gloriosa destinação dada a eles é comparável ao raiar do sol. Assim como o nascer do
sol, visto do alto das montanhas, é um espetáculo incomparável e inesquecível da natureza, assim
será glorioso um dia o resplandecer dos justos, no eterno reino do Pai celeste. Um resplandecer e
raiar com brilho sobrenatural de eternidade a eternidade!
Quem tem ouvidos, ouça e adore!
O v. 43b faz retornar ao v. 9 (cf. Michaelis, comentário ao texto).


Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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