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43 O tesouro na lavoura e a pérola preciosa, Mt 13.44-46

O tesouro na lavoura e a pérola preciosa, Mt 13.44-46


O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo.
O reino dos céus é também semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra.



Estas duas parábolas têm por objetivo falar, na série das sete parábolas do reino dos céus, do  alto
valor e da natureza oculta da propriedade celestial. Os caminhos de chegada até o reino são iguais
em cada caso. Deus mesmo entra na vida das pessoas. A vida anterior não é decisiva, indiferente se a
pessoa buscava a Deus ou vivia em todos os pecados. O tesouro no campo foi achado  por acaso.
Ainda que jamais tenha sido procurado, ele foi descoberto. No caso do comerciante, no entanto,
houve a procura. Uma demorada busca antecedeu a descoberta, que então significou um achado
totalmente inesperado de uma pérola preciosa.
Em ambos os casos os descobridores obtiveram a dádiva preciosa, que estivera oculta, unicamente
por meio da graça de Deus. Logo, as pessoas chegam a crer unicamente por graça, e o tesouro pode
ser encontrado sem que tivesse sido procurado, ou ele é procurado e, após muito tempo, é
encontrado. Deus se doa e se revela por primeiro, depois surge dessa realidade, por livre decisão da
pessoa, a fé. Sempre e em todos os casos a propriedade celestial tem um valor tão grande que todas
as outras coisas podem ser largadas em troca dele.



a. Sobre a parábola do tesouro no campo
Do mesmo modo como o tesouro está enterrado no campo e permanece oculto aos olhos de
muitos, assim milhares de pessoas passam correndo pelo campo que contém o reino dos céus. Pois
quantas vezes, dia por dia, o Salvador caminhou entre as pessoas do povo de Israel, porém os judeus
piedosos não viram aquele por meio do qual veio o reino de Deus em pessoa.
Exemplos de pessoas que acharam, sem antes terem procurado, são a mulher samaritana, Paulo, e
o carcereiro. Em Rm 10.20 lemos: “Eu fui achado por aqueles que não me procuravam, e me revelei
aos que não me pediam nada”. E Is 65.1 diz: “Fui buscado dos que não perguntavam por mim; fui
achado daqueles que não me buscavam; e a uma nação pagã que não invocava o meu nome eu disse:
Eis-me aqui, eis-me aqui!”


b. Quanto à parábola da pérola preciosa
À parábola do tesouro oculto encontrado de forma totalmente inesperada contrapõe-se agora a
parábola da pérola preciosa. O comerciante procurou por ela e finalmente a achou. Ao que procurava
foi permitido achar, como fruto de sua ansiosa procura. Não parou numa procura vã. Pessoas que
buscaram foram Cornélio, de quem relata At 10, e Lídia, da qual se informa que o Senhor lhe abriu o
coração (At 16.14). Esses exemplos nos mostram que temos de buscar a Deus com toda a seriedade e
manter-nos ao lado dele com toda a fidelidade. Do contrário, não teremos parte com  Jesus. A pessoa
para a qual a causa de Deus não é digna de todo sacrifício, jamais compreenderá a preciosidade da
pérola. A pérola preciosa não pode ser destruída, perdida, e já pode ser conquistada aqui na terra, a
fim de que atraia nosso coração para o céu. Os apóstolos Paulo e Mateus também largaram tudo
quando reconheceram a riqueza que é Jesus. A pérola nada mais é que o próprio Jesus. Ele é a pérola,
na qual está oculta toda a glória do Pai!




c. Acrescentemos mais algumas perguntas
Em que reside a concordância das duas parábolas? Está em que as duas pessoas que encontraram
vão, vendem tudo e adquirem o bem. E, em ambos os casos, trata-se de algo muito precioso. O valor
é tão alto que tudo o mais pode e deve ser empenhado.
Em que consistem as diferenças entre as duas parábolas? A primeira parábola fala que o tesouro
foi encontrado por acaso; a segunda diz que a pessoa que procurava encontrou o tesouro. Que sentido
resulta disso quanto ao procurar e achar? O reino de Deus é o maior de todos os  presentes. Não é
algo que precisa ser conquistado por mérito.
Este presente não é dado como resultado da busca, do esforço. Somente aquele que busca, i. é, que
anseia pelo reino de Deus, que procura pelo reino dos céus, recebe esse presente. Não obstante, esse
buscar e procurar não é produção da pessoa, mas graça. A parábola do tesouro no campo evidencia
que o tesouro não depende da busca. Para o pobre diarista a descoberta aconteceu totalmente sem que
a esperasse. É com a mesma imprevisão impressionante que sobrevem a conversão da pessoa, que
transforma sua pobreza em riqueza (Ap 3.12-19).
É verdade que o comerciante rico estava à procura de belas pérolas, mas jamais sonhou que
poderia encontrar uma pérola tão preciosa, acima de qualquer expectativa.
Será que a ação e atitude do diarista serve de exemplo?
Se sim, em que consiste este exemplo? Em que ele desiste de todos os bens por causa daquele  um
tesouro. Contudo, o diarista não deveria ter informado o proprietário sobre a descoberta? Quando
comprou o terreno, ele não falou nada sobre o precioso bem que este continha. Pagou um valor
inferior. Encobriu a verdadeira intenção da compra. Será que, afinal, era necessário que o diarista
comprasse o terreno? Não poderia simplesmente apoderar-se do achado, sem adquirir a terra? (Com
certeza nós teríamos agido assim).
Temos de ter em mente que, ao narrar essas duas parábolas, Jesus não é advogado, nem professor
de direito. Apenas quer ilustrar um pensamento prático, qual seja: Eles foram e venderam  tudo o que
possuíam, a fim de alcançar a posse do tesouro. O objetivo é demonstrar o valor inaudito do reino de
Deus. O reino de Deus está em primeiro lugar!
O reino de Deus não é um bem ao lado de outros – não é algo que se situa no mesmo nível de
outros valores, mas se opõe a todo o resto, e isso de uma forma tão radical como a  vida eterna se
opõe à vida daqui.
Paulo declara: “As coisas que para mim eram ganhos, eu as considerei como perda por causa se
Cristo. Como não, eu considero que tudo é perda em comparação deste bem supremo que é o
conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por causa dele, perdi tudo” (Fp 3.7s).
A propriedade que alguém precisa abandonar é diferente de caso para caso. Podem ser vínculos
exteriores. Podem ser vínculos da alma. Mas é preciso abrir mão daquilo em que a pessoa prende seu
coração. O moço rico devia libertar-se de sua riqueza. De Abraão foi exigido o filho Isaque; era
preciso que o sacrificasse!
Libertar-se dos vínculos da terra não significa, contudo, negligenciar responsabilidades terrenas.
Portanto, a exigência de posicionar pai e mãe depois de Jesus não dissolve o 4º mandamento.
Por outro lado nos é dito: Somente quem ama o próximo ama a Deus. O amor ao próximo  é como
que a pedra de toque do amor a Deus (cf. 1Jo 4.16-20).
Para finalizar, acrescentamos alguns pensamentos práticos de Emil Brunner (em  Saat und Frucht,
1946, p. 43ss).
Dizíamos antes que Jesus é a pérola preciosa. Brunner diz: “Jesus veio para a sua propriedade,
mas os seus não o receberam. Eles os convidou para o banquete, mas os convidados todos se
desculparam. Não compareceram. “Viram” todos a grande pérola, mas não a “adquiriram”.  Por quê?
Essa pergunta é respondida pela nossa parábola. A pérola custa uma quantia enorme. Do ponto de
vista da racionalidade humana, comprá-la é uma ação por demais arriscada. Para seguir na linguagem
da parábola, é uma especulação louca. Pois é preciso apostar tudo numa única jogada. Esta é a razão
por que tantos a deixam na vitrine, por que tantos não atendem ao convite para o banquete,
desculpando-se.
“É estreito demais o caminho, apertada demais a porta que leva à vida.” “Quem quiser ser meu
discípulo, negue-se a si mesmo e siga-me”, cegamente. Confiando cegamente naquele que diz: Eu lhe
darei tudo, se você largar tudo – esse é o preço da compra!
O que precisamos nós vender, para podermos comprar a pérola? Repito: Tudo. Contudo, que quer
dizer isso? Acaso significa: É preciso largar o emprego, vender a casa, os móveis, deixar a formação,
todos os bens culturais, todos os interesses profissionais?  Não, não é preciso entregar tudo isso.
Deus quer apenas o teu coração.
Entretanto, a Bíblia nunca separa o interior do exterior. Quando alguém realmente entrega a Deus
seu coração, sua vida, também o que chamamos de exterior irá junto. A decisão por Jesus Cristo terá
conseqüências exteriores, se realmente for autêntica, se não for uma decisão meramente aparente, um
palavreado vazio.
Bem entendida, a questão na verdade é a seguinte: A pérola não custa nada mais que seu coração,
sua pessoa, você mesmo. É preciso deixar de si mesmo, soltar a si próprio, parar de ser seu próprio
senhor, e deixar que Deus seja o seu Senhor. Parar de justificar a si próprio, e dar razão unicamente
a Deus. Parar de considerar-se importante, e dar importância somente a Deus. Deixar de conservar
qualquer coisa para si que sabe que Deus não aprova. Significa crer e obedecer, significa aceitar a
palavra de Deus. Ou seja, é preciso soltar de si mesmo. Os apóstolos descreveram este ato de soltar-se com uma palavra extraordinária: morrer. Morrer com Cristo, reconhecer sua cruz como
julgamento sobre si como condenação, sabendo ao mesmo tempo que a ressurreição dele é minha
própria vida nova. Quem de fato se solta, morrendo com Cristo, também é capaz de soltar os seus
pertences, assim como Deus quer: bens, honra, saúde, posição ou o que mais for, tudo o que
antigamente era importante.
É assim que precisamos compreender a palavra do Senhor: “Quem quiser salvar sua  vida, vai
perdê-la, e quem perder a vida por causa de mim, vai achá-la” [Mc 8.35].
É essa, portanto, a maneira como a palavra de Deus enquanto “tesouro e pérola” se apodera de
nós. Não é um processo em que somos passivos, como alguém que espera pela morte. Pelo contrário,
somos desafiados à dedicação máxima, ao empenho mais ousado, difícil e concentrado. Mas todo
esse empenho consiste exatamente em dizermos não para nós próprios, também pensando em nossa
capacidade, que não esperamos nada de nós mesmos mas tudo de Deus.
Até aqui Brunner.


Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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