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43 Revelação do que é puro e impuro, Mc 7.14-23

Revelação do que é puro e impuro, Mc 7.14-23 
(Mt 15.10-20)

14-23 Convocando ele, de novo, a multidão, disse-lhes: Ouvi-me, todos, e entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina.     [Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.] Quando entrou em casa, deixando a multidão, os seus discípulos o interrogaram acerca da parábolaEntão, lhes disse: Assim vós também não entendeis? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar,      porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para lugar escuso? E, assim, considerou ele puros todos os alimentosE dizia: O que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos estes males vêm de dentro e contaminam o homem.

Em relação à tradução
   a
     Este versículo é omitido nas edições da Bíblia mais recentes como não constando do original (BLH; BJ,
NVI e BV fazem referência à dúvida em nota de rodapé). De fato, ele falta em alguns dos manuscritos antigos
importantes, por outro lado, ele consta de textos muito antigos, como na versão síria. Além disso ele
combina muito bem com o caráter do parágrafo.
   b
     “Parábola” tem aqui o sentido bem geral de palavra enigmática, que requer uma reflexão especial (cf.
4.2n).
   c
     Alguns expositores entendem esta última frase como parte da fala direta de Jesus, de modo que ele está
expressando com sarcasmo que o intestino resolve todas as questões de pureza à sua maneira. P ex, a versão
alemã Elberfelder (1974) traduz assim: “(O ventre) purificando todos os alimentos”. A despeito do fato de
que katharizein requer uma tradução ativa, o aparelho digestivo não “purifica todos os alimentos”, no
máximo, a pessoa dos alimentos. Por isso é melhor entender a frase como um comentário de Marcos, que ele
insere a título de esclarecimento. O termo katharizein significa “purificar”, mas também “declarar puro” (p
ex At 10.15).
   
d
     Na tradução não está claro, mas da relação de doze itens que se segue, os primeiros seis estão no
plural.
   
e
     Lit. “olho maligno”: sentimentos de inveja e “olho gordo”.
Observações preliminares
1. Jesus e a lei. Na primeira parte do longo trecho sobre puro e impuro (v. 1-13) Jesus condenou com
determinação a “tradição dos antigos”, já que produzira preceitos que justificavam a transgressão de
mandamentos divinos claros. Ao revelar esta contradição excludente, ele contestou diretamente o ensino dos
rabinos de que Torá e tradição fluíram igualmente da boca de Moisés (opr 2 a 7.1-13). Neste trecho seguinte,
Jesus parece ir mais um passo à frente para se colocar acima também da Torá, neste caso dos mandamentos de
pureza. Lv 11 (cf. Dn 1.8) ensina com todo rigor que certos animais são impuros e não admissíveis como
alimento. Sobre Jesus, porém, lemos no v. 19b: “Ele considerou puros todos os alimentos”. Assim, somos
atraídos à conclusão de que Jesus cancelou também a Torá e a lei em geral, deixando só o amor no trono.
“Ame e faça o que quiser!”, dizia o pai da igreja Agostinho. Isto soa bonito e empolgante. Mesmo assim, não
podemos aceitá-lo sem mais nem menos. Nossas experiências com amor sem mandamentos nos advertem. O
amor pode estar enganado, pode ferir e causar grandes sofrimentos. Especialmente Jesus não viveu como
alguém que rompeu com todos os mandamentos mosaicos. Da mesma forma, aos que lhe pediam conselhos,
Jesus recomendou os mandamentos. Os primeiros cristãos e também Paulo não o entenderam diferente. De
modo nenhum Jesus foi um anti-Moisés. Em Jo 5.46 ele mesmo pôde dizer: “Se, de fato, crêsseis em Moisés,
também creríeis em mim”.
A coisa parece ser complicada. João escreve numa mesma frase que Jesus deu um novo mandamento e não
deu nenhum mandamento novo, só repetiu o antigo (1Jo 2.7s). Se um fato precisa ser descrito em termos tão
contraditórios, é aconselhável tomar distância mais uma vez e procurar uma outra perspectiva. Deus é Deus e
jamais dará outro mandamento à sua raça humana, porém o dará de outra maneira, mais clara: na época da
salvação ele lhe dá uma nova relação com o mandamento. Isto consistirá em que a Torá será “inscrita no
coração” das pessoas (Jr 31.31ss, Ez 11.19). O novo ser humano, sarado até o coração e formado de novo,
também pertence a Deus e à sua vontade. Malícia e falsidade estarão como que apagados. Este novo
nascimento, portanto, não acaba com a relação com a lei, antes a renova. A nova obediência não consiste mais
“na caducidade da letra”, mas na “novidade de espírito” (Rm 7.6; 2Co 3.6). Assim, ela cumpre o sentido
original da lei, que é espiritual (Rm 7.14). O que foi cancelado, portanto, é o homem velho, enquanto a lei
antiga é “estabelecida” corretamente (Rm 3.31).
Esta perspectiva profético-apostólica é como que um reflexo do Jesus terreno. Fiquemos em Marcos. Jesus
ensinava a mesma Torá que os escribas, mas não à maneira dos escribas (1.22). Era como se a Torá estivesse
esperando por ele como um servo pelo seu senhor (2.28), para que este a implante corretamente, de acordo
com suas especificações e tarefas. Diante de Jesus, portanto, a Torá desabrocha, suas tendências originais, sua
verdade profunda e sua espiritualidade total se manifestam. Na presença do mestre da alegria (2.19), a Torá se
torna o vinho novo que estoura o odres velhos (2.22) e evoca uma espiritualidade completamente diferente
(2.18,22). Ao lado do benfeitor, também o sábado se torna verdadeiro e volta a fazer bem para ser humano
(2.27; 3.4s). No embalo desta interpretação messiânica da Torá, cai por terra, p ex, o sentido exterior dos
mandamentos de pureza de Lv 11, mas sem que haja arbitrariedade. É Jesus quem está reinando e, nele,
finalmente de novo Deus. Este é o ponto central: não mais uma Torá sem dono, da qual qualquer um pode se
apossar com quaisquer princípios (dos rabínicos até os esclarecidos), mas uma que nós deixamos ponto por
ponto e momento a momento expor pelo Senhor da Torá. Obediência aos mandamentos, totalmente a serviço
de Jesus! Deve-se observar que estamos no âmbito do ensino interno dos discípulos.
2. Jesus e o Iluminismo. Uma exposição que fica conscientemente na superfície encontra aqui uma prova
espantosa de Iluminismo no seio do judaísmo. É a religião interior e da consciência que abre caminho; mas só
isso. Isto já se sabia no Iluminismo, antigo e recente: que comida e bebida não são assuntos religiosos, e que
diante de Deus só têm valor a atitude e expressão do coração. É claro que isto já é alguma coisa, comparado
com a superstição escura. Quem gostaria de voltar a sério para antes destas conquistas! Só que isto causa certo
desprezo pela interpretação do parágrafo. “Como esta argumentação é primitiva/racionalista” (no v. 15),
suspira Haenchen, p 265. Schweizer também tem dificuldades evidentes para perceber aqui ainda uma
mensagem genuinamente cristã. “Assim, encontramos aqui a posição do judaísmo liberal (helenista)…” (p 81;
cf. p 82). Isto porque a todo “helenista esclarecido” as prescrições dos escribas teriam “parecido superstição”
(p 81). A falta de sentido p ex da instituição do corbã “deve ser óbvia para todos” (p 82). “É destes círculos
que a igreja deve ter adotado este argumento” (p 81s), “de modo bem racionalista” (p 82). De acordo com esta
interpretação, aqui não fala a boca de Jesus, mas o espírito da época, adiantado para a situação do momento.
Antes de mais nada, queremos confirmar que o evangelho também (e não só!) tem relação positiva com o
objeto do Iluminismo. Ele proporciona uma reflexão livre e libertadora, gosta do bom senso que não se deixa
impressionar pelas excrescências da religião e, em termos gerais, promove um ambiente objetivo e humano.
No que tange à interpretação deste parágrafo, porém, a posição mencionada deixa de ver detalhes decisivos.
Certos sinais cristológicos nos v. 14,16,17 ficam sem aplicação, e relações essenciais entre os v. 14-16 e 17-23
se perdem.
     14     Convocando ele, de novo, a multidão, disse-lhes. Várias vezes lemos sobre uma convocação
solene por Jesus (cf. 3.13). Nenhuma vez ela é dirigida a adversários, cada vez ela declara os
convocados um grupo de escolhidos que poderá receber um anúncio importante do reinado de Deus.
Desta vez são os escribas do v. 1 que são deixados de fora, e a multidão sem nome é chamada. Os
últimos se tornam primeiros. Que Jesus quer dizer algo baseado em sua majestade messiânica, já se
vê em sua abertura: Ouvi-me, todos! Isto não é um “ei, pessoal, ouçam aqui!” sem importância, mas
um chamado à atenção espiritual em uma direção específica. Uma “parábola” irá seguir, como em
4.3 (cf. opr 2 lá e aqui v. 17), uma revelação de verdades profundas e messiânicas. Agora que o
reinado humano dos escribas foi condenado e quebrado (v. 1-13), Jesus proclama o reinado de Deus
nos termos de uma libertação do jugo farisaico. A saída da falta de liberdade, porém, não é um
passeio, pois só é possível seguindo a Jesus. Não existe liberdade verdadeira sem o libertador! E
entendei! Este termo aparece muitas vezes com relação ao mistério da pessoa de Jesus. Deste modo,
profundidades e escuridades entram em cena que, na verdade, só ficam bem esclarecidas na Páscoa.
Em todo caso, uma interpretação que só leva em consideração o sentido direto das palavras não é
suficiente.
     15     Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar. A declaração de Jesus sobre
liberdade e pureza aqui ainda é dirigida aos mandamentos relativos a alimentos, ao que entra no ser
humano pela boca, e não por olho ou orelha. De forma alguma o ser humano é profanado,
impossibilitado da comunhão com Deus, por alimentos que ingere. Neste sentido o reinado de Deus
elimina escrúpulos e edifica, em troca, sobre o solo da gratidão (1Tm 4.3s; Rm 14.6). Esta gratidão
viva, por sua vez, impede que esta liberdade seja praticada sem escrúpulos (Rm 14.14ss). O
iluminismo desprezível, a eliminação brutal de todos os mandamentos sobre alimentos, estava longe
da intenção de Jesus e também de Paulo. Acima de tudo, os filhos do reinado de Deus são
reconhecidos pelo contexto das suas palavras: mas o que sai do homem é o que o contamina.
Palavras que ferem, caluniam e condenam, bem como palavras não verdadeiras e enganosas, não
combinam com o reino de Deus e nos tornam inadequados para o serviço santo.
     16     Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça! A palavra de Jesus é, como a parábola em 4.4-9,
emoldurada por um chamado de alerta. Isto freia uma aplicação muito apressada. Ele se revela
somente aos que compreendem a Cristo e o seguem.
     17     Quando entrou em casa, deixando a multidão, os seus discípulos o interrogaram acerca da
parábola. Como no v. 14 a convocação da multidão, assim aqui a entrada em uma casa, junto com os
discípulos e “deixando a multidão”, tem forte sentido simbólico. As palavras seguintes pressupõem
lealdade e orelhas de discípulos. Elas fazem parte da série de ensinos particulares para convertidos,
não só esclarecidos (cf. 4.10). Em seus ensinos exclusivos aos discípulos Jesus não anunciava
somente a chegada do reinado de Deus, como em público, mas especificamente seu mistério
maravilhoso em sua pessoa. As passagens que acontecem em casas, portanto, sempre têm um
conteúdo cristológico, e a indicação de lugar, nestes casos, substitui uma indicação de tema. Neste
contexto também se inserem a pergunta dos discípulos que não entenderam nada e a noção de
“parábola”, já que se trata de coisas que não são acessíveis a todos, e carecem de uma revelação
especial.
     18a     Então, lhes disse: Assim vós também não entendeis – como “os de fora” depois de 4.10-13?
Mesmo assim Jesus não os rebaixa da sua posição especial. Exatamente esta censura deixa claro que
ele esperava deles maior entendimento. Acima de tudo, ele não os deixa entregues à sua falta de
entendimento, mas lhes concede uma instrução especial (4.34b).
     18b,19a     Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar,
porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para lugar escuso? A frase não parece ser
nada além de um esclarecimento grosseiro para pessoas de compreensão lenta. Salta aos olhos,
porém, a palavra-chave “coração”. Na passagem de Isaías citada no v. 6 ela tem um papel
importante, e no v. 18a houve uma relação indireta com essa passagem, pois “compreender” e “não
compreender” são, no pensamento bíblico, funções do coração. O coração não é tanto a sede de
sentimentos românticos quanto da razão, da reflexão responsável. É o centro da vontade. O fato de
não compreender revela um coração que se mantém à distância de Deus porque não quer Deus. Este
conceito, portanto, é inserido aqui, para passar para o centro a partir do v. 20ss.
     19b     Assim, considerou ele puros todos os alimentos. Marcos nos torna cônscios de um ato
extraordinário de soberania. Nenhum homem pode declarar puro o que Moisés declarou impuro. O
rei esclarecido Antíoco Epifânio tinha tentado, ordenando aos judeus que comessem carne de porco.
Mas sua ordem ficou letra morta. Muitos judeus preferiram morrer a fazer uma coisa dessas
(1Macabeus 1.62s; cf. 2Macabeus 7). Só o próprio Deus pode emitir uma declaração de pureza como
esta e libertar as consciências (cf. At 10.9,15; 11.9). Ele pode encerrar a época de Moisés e dar uma
nova época de presente. Jesus age aqui como este Deus.
Trata-se, na verdade, da formação de uma cabeça-de-ponte a partir da qual há cada vez mais
território a conquistar. Paulo, p ex, baseia-se especificamente em Jesus quando declara em termos
bem gerais, em Rm 14.14: “Nenhuma coisa é de si mesma impura!” Como exemplo ele tratara, em
14.5, além dos alimentos, também das festas religiosas, para resumir no v. 17: “O reino de Deus não
é comida nem bebida (também não sábado ou domingo), mas justiça, e paz, e alegria no Espírito
Santo”. As pessoas devem viver novamente livres e usar livremente o que Deus lhes deu. Não foram
só os primeiros discípulos, mas também todos os primeiros cristãos depois da Páscoa precisaram de
tempo para digerir tantas mudanças, tanta liberdade, tanta salvação (cf. opr 1 a 7.1-13). Até hoje os
cristãos acham que é cristão usar as coisas da criação com uma consciência pesada crônica, e não em
gratidão alegre diante de Deus. Um pedaço de falta de salvação!
Paulo, porém, não fala somente no sentido do iluminismo. Este se vangloria, apesar de refutado há
muito e de muitas maneiras, de ser livre pela razão, de modo que, quem sabe, é salvo. Paulo, pelo
contrário, falou, como acabamos de ler, neste contexto da dádiva maravilhosa do Espírito Santo e,
com isso, da nova criação. É aqui que retomamos os v. 20-23. Eles giram em torno do coração
humano, que nas profecias de salvação do AT tem um papel tão preponderante (Jr 31.31ss; 32.39; Ez
11.19s; 36.26s; cf. Sl 51.12). Os grandes temas da salvação escatológica, da recriação do coração
pelo Espírito e da obediência livre transparecem só indiretamente em nossos versículos. Mesmo
assim: o grande purificador já está dirigindo a atenção para o coração humano como verdadeira fonte
das impurezas.
Esta perspectiva falta ao iluminismo. Aqui ele foi atingido por um otimismo cego. Jesus nos
mostra inapelavelmente nossa necessidade de salvação e, deste modo, torna atuais as promessas de
salvação de Deus.
     20-23     Primeiro, volta-se ao v. 15: E dizia: O que sai do homem, isso é o que o contamina. O fato de
a idéia retornar uma terceira vez no v. 23 mostra um interesse decidido da parte de Jesus em mostrar
que, quando diz que os males vêm “de dentro” do homem, ele não está investindo contra malvados
notórios, mas pensa em nós todos. Primeiro ele esclarece o que significa “de dentro do homem”:
Porque de dentro, do coração. Trata-se do ser humano como tal. Já ali, no coração, o mal o ataca,
não só depois, com alimentos e coisas. Já ali, na decisão fundamental, ele se alia ao mal e se torna
parque de diversões de paixões e desvios egoístas. Nós não agimos com maldade depois de
apertados, empurrados, atraídos de fora, antes, “sois maus”, diz o Senhor (Mt 12.34). “Maus” tem o
sentido de dissonância gritante, de degeneração, comparada com a condição normal. Em nossa
essência fomos criados para a dignidade, mas na verdade só produzimos todas as coisas feias
imagináveis: Procedem os maus desígnios, que tomam posse dos olhos, das orelhas, das palavras,
das mãos e dos pés, criando assim fatos da falta de liberdade e de pureza: a prostituição, os furtos,
os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a
soberba, a loucura. Aqui está o problema: enquanto nós revolucionamos, reformamos e
disciplinamos furiosamente, nosso coração continua longe de Deus e do nosso próximo. O fato de
passarmos tão ao largo do problema, apesar de ele se manifestar de modo tão imediato e irrefutável,
pode ser um sintoma da nossa negação irada e do desespero secreto. Praticamente tudo podemos
mudar, só não o coração errado e incapaz de achegar-se a Deus. Não há quantidade de água que
ajude, o muito lavar de mãos não fará o coração servir a Deus. Mas o fato de Jesus abordar este tema
de modo tão franco é um sinal da sua autoridade transformadora: Ora, todos estes males vêm de
dentro e contaminam o homem.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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