Pessoas que gostam deste blog

44 Jesus atende a mulher siro-fenícia, Mc 7.24-30

Jesus atende a mulher siro-fenícia, Mc 7.24-30
(Mt 15.21-28)

24-30 Levantando-se, partiu dali para as terras de Tiro [e Sidom]. Tendo entrado numa casa, queria que ninguém o soubesse; no entanto, não pôde ocultar-se, porque uma mulher, cuja filhinha estava possessa de espírito imundo, tendo ouvido a respeito dele, veio e prostrou-se-lhe aos pés. Esta mulher era grega, de origem siro-fenícia, e rogava-lhe que expelisse de sua filha o demônioMas Jesus lhe disse: Deixa primeiro que se fartem os filhos, porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Ela, porém, lhe respondeu: Sim, Senhor; mas os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem das migalhas das criançasEntão, lhe disse: Por causa desta palavra, podes ir; o demônio já saiu de tua filha. Voltando ela para casa, achou a menina sobre a cama, pois o demônio a deixara.

Em relação à tradução
   a
     A antiga cidade fenícia de Tiro tinha fundado numerosas povoações em volta do Mediterrâneo, p ex a
Libofenícia, ou seja, a região de Cartago, na Líbia (nome grego para a África). Marcos, porém, distingue
especificamente a Sirofenícia (Tiro fazia parte da província romana da Síria) da Libofenícia, que era mais
conhecida e mais próxima dos seus leitores. Mt 15.22 usa para a mulher a identificação popular “cananéia”,
do AT.
   b
     No v. 25 o narrador judaico fala de “espírito imundo”, a mulher grega fala de “demônio” (cf. 29s e
1.23n).
   c
     Como geralmente, também aqui kalos é mais do que um juízo estético, ou seja, aquilo que agrada a
Deus (cf. especialmente 9.42).
   d
     “E disse”: a introdução dupla e especialmente o tempo presente, só aqui na história, destaca a
importância da frase que segue.
   
e
     Os manuscritos mais antigos têm este “sim”. Mesmo assim ele parece ter sido importado de Mt 15.27,
pois quando, em 1930, os famosos papiros Chester-Beatty foram publicados, que são pelo menos um século
mais antigos que os manuscritos mais antigos até então, apareceu um texto sem este acréscimo. A bem da
verdade, o “sim” se encaixa bem no sentido.
   
f
     As mesas são comuns na Palestina: para as refeições comuns elas tinham pernas altas, porque as
pessoas se sentavam à mesa, para os banquetes elas eram baixas, e as pessoas deitavam à sua volta.
   
g
     A mãe, diferente de Jesus no v. 27, usa uma forma diminutiva (paidion, no v. 30 retomada pelo
narrador). Isto resulta em um certo paralelo entre criancinha e cachorrinho.
   
h
     Caso esteja em vista aqui o sentido básico de ballesthai, ser arremessado com violência, então o
demônio sacudiu a criança mais uma vez ao sair (cf. 9.22,26), de modo que ela estava prostrada, mas liberta.
Observações preliminares
1. Contexto. Assim como em At 10.15 uma declaração soberana de pureza abriu o caminho para a missão
aos pagãos, também aqui segue ao v. 19b uma história destacadamente da missão entre os pagãos. A cidade de
Tiro era sinônima de paganismo, mal-afamada desde os tempos do AT, já que desta região vinha a rainha
Jezabel, que seduziu Israel para a idolatria. É digno de nota que novamente se fala de comida, e nem a
palavra-chave “impuro” falta (v. 25). É evidente que a criança encarna o paganismo “impuro”. Ela como
pessoa fica totalmente em segundo plano, diferente da filha em 5.23,41,42 e do menino em 9.17,18,21,22,25-27. A circunstância de uma cura à distância também deve ser levada em consideração (a outra cura à distância
nos evangelhos também aconteceu com um pagão, Mt 8.13). Ela nos lembra um Deus distante, que é tão
grande que não se pode vir a ele, crer e pedir por si. Jesus, contudo, alcança também os que estão perdidos nas
trevas mais distantes. Para o significado programático do exorcismo, cf. opr 4 a 1.21-28.
2. A “impureza” do paganismo. A opr 1 a 7.1-13 já indicou a relação entre missão aos pagãos e o tema da
pureza. Como as prescrições dos rabinos quanto à pureza penetravam até os detalhes mais comuns do dia-a-dia, o convívio de judeus piedosos com pagãos se tornava bastante insuportável, pois tinha de levar a ofensas
constantes. A própria terra pagã era considerada impura (cf. 6.11), bem como as casas dos pagãos (Jo 18.28),
as refeições pagãs ainda mais; convivas judeus só comiam o que tinham trazido consigo (Bill. IV, 374). A
visita de um pagão, por sua vez, tornava impura a casa do judeu, pois os pagãos estavam à altura dos
adúlteros. Uma simples conversa com um pagão era algo problemático, pois por um acaso a saliva do pagão
podia atingir o judeu. Para os pagãos não havia salvação, com raras exceções; eles eram considerados o
recheio do inferno (Bill. IV, 1180). Deste modo, entre judeus fiéis à lei e pagãos não só o convívio social se
tornava quase impossível, mas também o amor ao próximo. O trabalho missionário, contudo, como Deus o
deseja, é uma forma de amor ao próximo. Por isso o cancelamento de rituais de pureza que transgridem contra
o amor é decisivo para a missão cristã.
3. Os pagãos como “cães”. Alguns leitores da Bíblia podem estranhar que Jesus tenha incluído este termo
na conversa com a mulher que pede sua ajuda. Mas o termo já soa menos forte se levamos em consideração
que, na Antigüidade, ele era usado em termos gerais para pessoas que pensavam diferente. É preciso prestar
especial atenção à diferença entre “cachorrinho”, como a tradição traz corretamente (v. 27,28; Mt 15.26,27) e
“cão”. “Cachorrinho” não é o cão vadio que ninguém alimentava e que vivia de animais mortos, como os
chacais (1Rs 14.11; 16.4; 21.19,24; 22.38; Lc 16.21). Por isso ele também era tido por duplamente impuro.
Este as pessoas desprezavam, ameaçavam, enxotavam e maltratavam. Seria impossível tolerá-lo na hora da
refeição. O “cachorrinho” era diferente. Ele vivia como uma criança em casa. Com este as pessoas brincavam,
tomavam-no no colo, permitiam-no por perto na hora da refeição. É claro que a relação com “cão” não pode
ser negada, mas o tom terno deve ser percebido.
     24     [Mas] Levantando-se, partiu dali para as terras de Tiro [e Sidom]. Raramente Marcos começa
um parágrafo com “mas”. Evidentemente ele quer destacar a mudança de local e o novo começo em
si (cf. a frase semelhante em 10.1). Pela primeira vez, Jesus penetra (diferente de 5.1ss)
profundamente em uma região que não é judaica. Ele pisa em terra pagã clássica. Partiu não tem
sentido secundário, mas espelha um rompimento sério. Mt 15.21 confirma: Jesus “retirou-se” pela
fronteira norte, forçosamente. Ele não está mais seguro em casa. A Galiléia o rejeitou. Mas a
seqüência mostrará que, ao deixar o território judeu, ele não deixa sua missão para com Israel. Tendo
entrado numa casa: no exterior ele não procurou os estrangeiros, só um lugar para se esconder.
Entre os pagãos, ele não passou para o paganismo. “Irá, porventura, para a Dispersão entre os
gregos?”, perguntam os judeus em Jo 7.35. Sua pergunta dá a entender que esta possibilidade foi
cogitada. Jesus, porém, não entrou na cidade, não tinha vindo como pregador e não procurou adeptos.
O propósito da narrativa é tão importante para Marcos que ele pode omitir todo o resto: o local
exato da casa, o dono da casa, como se conheceram (cf. 3.8), a companhia dos discípulos. Nossa
interpretação se confirma: queria que ninguém o soubesse (que ele estava ali). Ele não queria,
assim como ninguém quer um perigo ou um ato de desobediência. Ele rebateu a tentação satânica de
fazer sucesso no exterior, em vez de ser fiel ao seu povo, apesar de expulso. A este desejo forte de
não querer corresponde no v. 27 a recusa grosseira. No entanto, não pôde ocultar-se. Repete-se o
mesmo processo estranho de 1.45; 3.7; 6.31; 7.36. O anonimato não se mantém por muito tempo.
Quando ele concorda com sua profunda insignificância, no sentido de andar fielmente pela trilha da
rejeição, lampeja a sua grandeza. Isto não pode ser diferente. Marcos, portanto, não diz que Jesus não
se escondeu bem, mas quer chamar nossa atenção para detalhes espirituais.
     25     Porque uma mulher, tendo ouvido a respeito dele, é outra frase típica de Marcos (cf. 1.10n). O
próprio Deus cria este elemento surpresa. Cuja filhinha estava possessa de espírito imundo. Ela
não está em vista aqui como destino isolado, antes representa o paganismo (opr 1). Só a mãe é
identificada no v. 26. Ouvir é uma palavra-chave na missão entre os pagãos (Rm 10.14-17). Ela cria
todas as possibilidades: vir (3.8; 5.27), ajoelhar-se em entrega total (1.40; 3.11; 5.33; 10.17) e ser
atendido. Ela veio e prostrou-se-lhe aos pés.
     26     Marcos interrompe a narrativa para dar detalhes da pessoa. Raramente faltam dados pessoais de
pessoas cujas declarações têm valor de testemunha. Esta mulher era grega. “Grego” no NT muitas
vezes é o contrário de “judeu” e abrange todo o paganismo civilizado. Esta mulher, portanto, de
acordo com sua língua, cultura e religião, faz parte da classe pagã superior na Fenícia. Depois se
menciona seu povo, para deixar claro que ela não é uma judia de fala grega: de origem siro-fenícia.
Agora o v. 25 pode continuar: e rogava-lhe que expelisse de sua filha o demônio.
     27     Mas Jesus lhe disse: Deixa primeiro que se fartem os filhos, porque não é bom tomar o pão
dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Os cachorrinhos fazem parte da casa, mas a preferência no
tempo – para isto deve-se chamar humildemente a atenção – é dos filhos. A resposta figurada é
óbvia: o envio de Jesus, como doador do pão, é primeiro para os judeus, apesar da rejeição e até da
morte por este povo. Só depois ele se ampliará para a chegada dos “muitos” de 10.45; 14.24 (cf. Lc
12.49s; Jo 12.24). Jesus não quer começar sua atuação entre os povos por conta própria (Mt 10.5,23).
Apesar de não tratar a mãe de forma alguma “como uma cadela”, ele está dizendo um Não objetivo,
sem iludir, sem manipulação psicológica para despertar sua fé. A rudeza (especialmente em Mt
15.23) se explica pela tentação deduzida do v. 24. Depois da desarmonia com seu povo, Jesus encara
uma tentação real e se livra dela.
     28     A resposta da mulher chama a atenção, já pela forma da sua introdução: Ela, porém, lhe
respondeu: Sim, Senhor. É difícil de saber se “Senhor” na boca da mulher testifica do milagre da fé
e tem profundidade cristológica. Em termos gerais, esta saudação, acompanhada da posição de
joelhos, era possível diante de autoridades de alta posição. Mas o fato de se tratar da única saudação
desse tipo em nosso livro e que estava dirigida a um fugitivo sem poder, deixa entrever que ela se
curva à majestade espiritual de Jesus. Por isso a mulher também não vai embora, xingando
contrariada. Apesar da recusa, o mistério da sua pessoa a cativou. Ela continua de joelhos, ainda mais
agora. Mas os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem das migalhas das crianças. Ela encontra
outra saída para a comparação dele, com a qual ele não contava. Ela encontra, para os que comem à
mesa do pai, além da seqüência – primeiro as criancinhas, depois os cachorrinhos – ainda um lugar
ao lado. Os judeus, naquela época, comiam tudo com os dedos. De vez em quando quebravam um
pedaço de pão para enxugar com ele os dedos melecados e grudentos. Estas “migalhas” eram jogadas
debaixo da mesa, onde os cachorrinhos as apanhavam (Bill. IV, 625; J. Jeremias, Theologie, p 162).
Completamente alimentados eles eram só mais tarde.
É destas migalhas que a mãe lembra o Senhor – aceitando totalmente a lógica dele. Deste modo,
ele fica com razão e ela é atendida. Podemos ficar maravilhados com sua imaginação, como ela
aproveita a sua oportunidade como o cachorrinho apanha a migalha no ar; podemos louvar sua
firmeza para receber e sua espontaneidade – seja como for, tudo aqui flui da percepção do seu
senhorio. Esta mulher com certeza não entendeu tudo, mas sim o que é decisivo: Jesus veio como a
prontidão poderosa de Deus para ajudar. Por isso importava segurá-lo, sob qualquer circunstância.
Ele ajuda; portanto, eu oro. Segundo Mt 15.28, foi por isso que Jesus falou da sua “grande fé”. Esta
fé sabe as duas coisas: eu não tenho direitos, mas há esperança para mim. Com isto a salvação já foi
compreendida como “graça imerecida”, como formula mais tarde o apóstolo aos pagãos (Rm 3.24).
     29     Então, lhe disse: Por causa desta palavra, podes ir. Haenchen (p 274) pensa que a resposta
rápida recarregou a força mágica de Jesus, que se esgotara. No entanto, não importava vencer seu
cansaço, mas sua recusa objetiva. O que venceu sua recusa não foi a mulher em si, mas
especificamente sua “palavra” como grandeza separada. A mulher serviu de profetiza contra a sua
vontade, como a outra em 14.8,9. A palavra dela se tornou inspiração para ele, um toque do próprio
Deus. Agora ele podia ajudar dentro da sua missão, e não contra ela. Com a despedida solene, com a
qual ele a abençoa para o novo cotidiano (2.11; 5.34; 10.52), ele lhe garante que ela foi atendida: O
demônio já saiu de tua filha.
     30     Voltando ela para casa, achou a menina sobre a cama, pois o demônio a deixara. “Achar” não
tem aqui nem a idéia de acaso nem de esforço. É certificação e emoção jubilosa. A criança que se
recupera, e não se contorce mais em ataques no chão, é como um presente do céu para ela. Ela
encontra Deus (cf. 1Rs 17.24).
Ela serve de exemplo de como, “pela sua (dos judeus) transgressão, veio a salvação aos gentios”
(Rm 11.11).

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Online