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45 A cura do surdo-mudo na Decápolis, Mc 7.31-37

A cura do surdo-mudo na Decápolis, Mc 7.31-37 
(cf. Mt 15.29-31)

31-37 De novo, se retirou das terras de Tiro e foi por Sidom até ao mar da Galiléia, através do território de DecápolisEntão, lhe trouxeram um surdo e gago e lhe suplicaram que impusesse as mãos sobre ele. Jesus, tirando-o da multidão, à parte, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e lhe tocou a língua com salivadepois, erguendo os olhos ao céu, suspirou e disse: Efatá!, que quer dizer: Abre-te! Abriram-se-lhe os ouvidos, e logo se lhe soltou o empecilho da língua, e falava desembaraçadamente. Mas lhes ordenou que a ninguém o dissessem; contudo, quanto mais recomendava, tanto mais eles o divulgavam. Maravilhavam-se sobremaneira, dizendo: Tudo ele tem feito esplendidamente bem; não somente faz ouvir os surdos, como falar os mudos.

Em relação à tradução
   a
     O texto dá idéia de direção; Jesus vem de longe em direção ao lago da Galiléia, sem aproximar-se da
sua margem.
   b
     “da Galiléia” mostra que Marcos estava ciente da possível confusão com o mar Mediterrâneo.
   c
     cf. 5.20n.
   d
     Esta palavra muito rara também pode ser traduzida por “mudo”. Aqui, porém, recomenda-se o sentido
original: dificuldade para falar, mas não impossibilidade (cf. v. 35 e Is 35.5s).
   e
     Para o verbo, cf. 7.30n: o movimento é enérgico. Ele enfiou seu dedo nas orelhas fechadas.
   f
     Um manuscrito especifica que Jesus cuspiu em seus dedos, para então tocar a língua do gago com
saliva.
   
g
     Provavelmente aramaico.
   
h
     Diferente do v. 35, aqui está a forma mais intensiva do verbo.
   
i
     A palavra aqui não é ous, orelha, concha exterior, como no v. 33, mas o plural de akoe, que destaca a
função de ouvir, o sentido da audição.
   
j
     O termo diastellesthai é usado já na LXX quase só para Deus, e Marcos o reserva para Jesus (5.43;
7.36; 8.15; 9.6). Trata-se de uma instrução com autoridade divina e razão divina, que nem sempre são óbvias
para as pessoas. A ordem de guardar silêncio também pode ser expressa com epitiman (3.12; 8.30,33; cf.
1.25), um termo que, porém, não é usado exclusivamente para Jesus (8.32; 10.13,48) e já tem a oposição em
vista. Em outros contextos a ordem de Jesus está como epitassesthai (1.27; 6.39; 9.25: de Herodes 6.27) ou
parangellesthai (6.8; 8.6).
Observações preliminares
1. Contexto e tema. Com a introdução, Marcos une esta história com a anterior, a volta que Jesus deu fora
da terra judaica, mostrando agora a outra ponta do grande arco de terras pagãs que cerca Israel (cf. v. 31), de
modo que, com estas histórias, temos começo e fim diante de nós. Os dois milagres são exemplos marcantes
da revelação preliminar de Jesus entre os pagãos. Estranha-nos como a narrativa é incompleta. De um lado só
“ele” (Jesus), do outro só “eles” – difuso, podendo ser os que cuidavam do surdo, os espectadores ou os
discípulos. Todo o acontecimento parece ser fragmentário. Este estilo tem sua razão: no meio está o pagão
surdo-mudo, com a descrição acurada da sua condição e da sua mudança. Novamente, ele não nos ocupa como
indivíduo, pois faltam todos os dados pessoais e também o conteúdo do que ele diz. Antes, ele serve de
modelo para o paganismo em sua desesperança e promessa. A perspectiva que vê no evento histórico a
aplicação geral também pode ser detectada nas falas destacadas. Formuladas com termos exatos e quase
rítmicos (com exceção dos v. 31,36), temos cinco frases divididas em três partes de tamanho quase igual. As
frases 1 e 5 falam dos espectadores, a frase 2 narra o preparo em três partes, a frase 3 a ação tríplice de Jesus e
a frase 4 a cura tríplice. Bem no meio está radiante o efatá. Uma experiência individual se torna em
mensagem, e este homem anônimo se torna símbolo de que as pessoas mais fechadas também são candidatos
ao mundo novo, em que Deus é louvado sem limites. Resulta disto a possibilidade de uma aplicação alegórica
ampla.
2. Comparação histórico-religiosa. Nossa história apresenta numerosos pontos de contato com a medicina
caseira e taumaturgia antiga: tocar o local enfermo, usar a saliva como remédio, olhar para o céu para receber
poder, suspirar como sinal de que o recebeu e manter as fórmulas em segredo (Kertelge, p 158; Bill. II, 15ss).
Realmente, a ação de Jesus combinou com sua época. Como verdadeiro homem ele era filho da sua época,
“em semelhança de homens e reconhecido em figura humana” (Fp 2.7). Em todas as épocas foram traçados
paralelos e Jesus foi confundido não poucas vezes, naquele tempo com um rabino, mágico, profeta ou zelote,
hoje em dia com um psiquiatra, idealista ou socialista. Mesmo correndo este perigo, enaltecemos mal nosso
Senhor se omitimos sua condição terrena em nossas pregações e nossa fé. A interpretação não pode dar-se a
este luxo. Ela deve preservar estes testemunhos preciosos. Por outro lado, estes paralelos são atravessados e as
comparações são destruídas por diferenças essenciais. Estas diferenças não são só de grau mas também de
qualidade, justificadas somente por uma explicação cristológica.
     31     De novo, se retirou das terras de Tiro e foi por Sidom até ao mar da Galiléia, através do
território de Decápolis. Jesus passou várias vezes perto do território de cidades pagãs, porém sem
entrar nelas (5.1; 7.24; 8.27). Isto vale também para Sidom. O nome pode aplicar-se também à
região. De modo que Jesus se dirige para o interior, a partir do norte, sem deter-se em nenhum lugar;
contorna, ao que parece, a região governada pelo herodiano Filipe, para chegar ao lago da Galiléia,
mas continuando em região pagã, na Decápolis. Assim, ele se aproxima do lago a partir do sudeste. A
volta que ele dá é bastante lógica para alguém que precisa evitar terras judaicas ou governadas por
judeus, onde é procurado (cf. v. 24).
     32     Então, lhe trouxeram um surdo e gago e lhe suplicaram que impusesse as mãos sobre ele. Na
cultura popular, esperava-se a cura pela imposição de mãos (cf. 5.23). Ocasionalmente relata-se
imposições de mãos ou toques também de Jesus (1.41; 6.5; 8.23,25; cf. 1.31; 5.41; 9.27). Aqui falta,
na descrição detalhada do processo de cura, o gesto em si. Em numerosos outros casos, Jesus ajudou
sem impor as mãos. Ele não dependia disto, pois para ele não havia a necessidade de contato para a
transferência de poder, e o gesto podia ser substituído por outros (cf. 16.18).
Em toda a Bíblia, só esta passagem e Is 35.6 (LXX) tratam de alguém que fala com dificuldade.
Por este motivo, nosso versículo certamente está permeado desta promessa maravilhosa. No v. 37 a
relação fica bem visível. Um deficiente da fala, que tenta em vão comunicar-se com sons guturais,
chama mais a atenção para sua miséria do que alguém que é totalmente mudo. Esta revolta contra o
isolamento, ao ponto do desespero, descreve aqui a humanidade que sofre, o paganismo
especificamente (cf. opr 1). Poderes quaisquer bloquearam orelhas e boca. As portas para o próximo
e também para o Todo-Poderoso, seu criador, estão totalmente trancadas. Esforços para conversar e
para orar, em vez de aproximar só revelam muros à prova de som. O pior nestes muros é que, além
de não se ser ouvido, ouve-se somente a si mesmo. Isto arrasa. Nós seres humanos acabamos conosco
mesmos de tanto falar sem ouvir e sem sermos ouvidos. Uma ruína destas, em pequena escala, é
empurrada agora para a frente de Jesus.
     33     Jesus, tirando-o da multidão, à parte – Jesus tira este homem energicamente do “palco”, ao
contrário de curandeiros modernos que puxam os doentes para o palco para exibir-se com supostos
milagres, mas também contra seu próprio costume, pois muitas vezes tinha curado no meio da
multidão, sem problemas. Com certeza é o caso especial que explica sua atitude aqui (e em 8.23).
Não é possível organizar-se com algum esquema, com os evangelistas. Pelo menos aqui Jesus não
tem utilidade para a inimaginável algazarra oriental. Cercado de pessoas que incentivam ou zombam,
discutem ou comentam, ele poderia até pronunciar sua palavra de autoridade, mas não fazer o que
aqui era necessário. Pôs-lhe os dedos nos ouvidos e lhe tocou a língua com saliva. Esta segunda e
terceira medidas tinham o objetivo de estabelecer um contato pessoal com este homem excluído e
fechado, talvez já embrutecido. Ele o tomou pelo braço, colocou-o sem mais delongas à sua frente,
enfiou-lhe sensivelmente os dedos nas orelhas, efetuou o gesto visível de cuspir e despertou nele um
sentido claro na língua. Penetrou na sua consciência por todos os portões, estabeleceu contato com
ele e lhe transmitiu: Eu vou curar você! Depois de abrir caminho para a alma, o acesso à pessoa toda
viria em seguida.
     34     Depois, erguendo os olhos ao céu, suspirou. Seguido pelos olhos do surdo-mudo, Jesus orou e
assim deu-se a conhecer como alguém que age de Deus, com Deus e para Deus. Para o gesto de
oração (com Joh. Schneider, ThWNT VII, 603), compare os comentários sobre 6.41; também Jo
11.41s. Equiparar com os mágicos da sua época este que aqui ora é realmente motivo para suspirar.
O suspiro também é evidência de alguém que sofre. O isolamento imenso deste homem afetou o
próprio Jesus, e ele leva isto em oração para a onipotência de Deus. A cura em si aconteceu pela
palavra criadora de Jesus – como se o próprio Deus falasse. E disse: Efatá!, que quer dizer: Abre-te! Quem faz deste som aramaico uma fórmula estranha e obscura, que Jesus, como os curandeiros
da época, pronunciou contra um demônio e depois conservou em segredo, pelo menos não tem
Marcos ao seu lado. Segundo o evangelista, a expressão era compreensível. O fato de ele traduzi-la
demonstra interesse na compreensão. Além disso, o termo não foi dito a um demônio, mas a uma
pessoa. Este fato depõe contra a idéia de que houve um exorcismo. Sobre a manutenção da palavra
original, apesar da tradução, veja 5.41. Talvez a expressão aramaica também permaneceu devido às
suas qualidades sonoras e pitorescas. Ela consiste de uma série de sons expirados, abrindo-se para o
fim. Deste modo, ele pode representar o sopro do Espírito Santo, este ato expirado mas tão poderoso
que abre tudo o que existe (Gn 1.2).
O leitor da Bíblia recorda o poder de Deus para abrir. Ele abre a boca do ser humano, os olhos, as
orelhas, o ventre, a prisão, o coração, a fé, a Escritura, a porta missionária e a da oração. Ele abre o
céu e os sepulcros.
     35     Abriram-se-lhe os ouvidos, e logo se lhe soltou o empecilho da língua, e falava
desembaraçadamente. Certamente ele também falou coisas certas, mas aqui a ênfase está na
fluência e clareza das suas palavras. A imagem de Deus foi restabelecida. Normal de novo – que
benefício para ele e seus companheiros.
     36     Quem são “eles”, na seqüência? Certamente são as testemunhas da cura, em seu sentido messiânico,
segundo Is 35.5s. A multidão não fazia parte, pois dela Jesus tinha se separado no v. 33. No
evangelho de Marcos, porém, ele repartiu esta separação sempre de novo com seus seguidores. Estes
estão em vista aqui.
Mas lhes ordenou que a ninguém o dissessem. Isto é realmente estranho. O que é novo é
imediatamente fechado outra vez. Mas prestemos atenção: o novo que é messiânico nesta capacidade
é o falar direito do que fora surdo-mudo! Não o falar em si, não a cura em si, não aquele que curou,
mas o segredo da sua pessoa, de que ele é o ungido de Deus: isto é o que ainda devia ficar oculto.
Quanto aos motivos, veja as explicações sobre 1.34,44; 3.11s; 5.43. Por mais difíceis de entender que
sejam estas frases curtas, estas ordens de silêncio, tão comentadas, aplicam-se ao mistério da pessoa
de Jesus, não às suas curas. Marcos não estava tão fora do mundo a ponto de achar que manter
segredo sobre os milagres de Jesus fosse possível. Ele também não achou que seus leitores
estivessem fora do mundo, para entender assim os seus relatos.
Contudo, quanto mais recomendava, tanto mais eles o divulgavam. Os transgressores da
ordem de guardar segredo nunca são tachados de maus por Marcos, pois era parte essencial da glória
oculta de Jesus que ela tinha de ficar manifesta. Esta glória era inacessível nenhum recipiente terreno
poderia impedir seu brilho e impacto. As paredes do coração dos discípulos eram fracas demais para
reter a maravilha e a bondade de Deus. Ela explodia neles:
     37     Maravilhavam-se sobremaneira, dizendo: Tudo ele tem feito esplendidamente bem; não
somente faz ouvir os surdos, como falar os mudos. Nós não os elevamos a pessoas que já tivessem
compreendido toda a cristologia. Mas eles entenderam coisas essenciais. Para eles, sobre este
rejeitado já raia o louvor da criação de Gn 1.31. Seus sofrimentos evidentemente são instrumentos de
Deus para consertar e aperfeiçoar a criação. “Eis o vosso Deus; […] ele vem e vos salvará”, é a
introdução da promessa de visão para os cegos e de fala para os mudos em Is 35.4-6. Assim, “através
do território da Decápolis” (v. 31) irrompe o júbilo da salvação, enquanto Israel está encoberto. Os
últimos serão os primeiros.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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