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46 A alimentação dos quatro mil no deserto, Mc 8.1-10

A alimentação dos quatro mil no deserto, Mc 8.1-10
(Mt 15.32-39)

1-10 Naqueles dias, quando outra vez se reuniu grande multidão, e não tendo eles o que comer, chamou Jesus os discípulos e lhes disse: Tenho compaixão desta gente, porque há três dias que permanecem comigo e não têm o que comer. Se eu os despedir para suas casas, em jejum, desfalecerão pelo caminho; e alguns deles vieram de longe. Mas os seus discípulos lhe responderam: Donde poderá alguém fartá-los de pão neste deserto? E Jesus lhes perguntou: Quantos pães tendes? Responderam eles: Sete. Ordenou ao povo que se assentasse no chão. E, tomando os sete pães, partiu-os, após ter dado graças, e os deu a seus discípulos, para que estes os distribuíssem, repartindo entre o povo. Tinham também alguns peixinhos; e, abençoando-os, mandou que estes igualmente fossem distribuídos. Comeram e se fartaram; e dos pedaços restantes
 recolheram sete cestosEram cerca de quatro mil homens. Então, Jesus os despediu. Logo a seguir, tendo embarcado juntamente com seus discípulos, partiu para as regiões de Dalmanuta.

Em relação à tradução
   a
     Traduzir a preposição epi por “em” pode ser muito generoso. Ela indica proximidade. Diferente de
6.36, eles estão em uma região desabitada, na transição do campo para o deserto arenoso.
   b
     Diferente de 6.41 (e também 14.22), para “dar graças” aqui não está o termo típico judaico eulogein,
mas eucharistein, usado pelos cristãos de origem pagã (como em 14.23 na Ceia e na oração comum à mesa
em Rm 14.6; 1Co 10.30; 1Tm 4.3s). No versículo seguinte temos eulogein, mas ligado ao objeto direto
“eles” (os peixes), de modo que também ali não tem o sentido judaico típico de “louvar (a Deus)” (cf. 6.41n).
Este e outros sinais podem indicar que a história, nesta forma, era contada em círculos cristãos que não eram
de origem judaica.
   
c
     perisseuma: menciona-se expressamente a idéia da sobra, diferente de 6.43.
   
d
     De acordo com 8.20, foram os discípulos que fizeram isso.
   
e
     A palavra é spyris, em lugar do termo judaico típico kophinos de 6.43. A diferença é preservada
também em 8.19 e 20.
   
f
     Este nome de lugar não aparece em outros textos e já era motivo de dúvidas nos primeiros séculos,
como mostram umas dez variantes nos manuscritos antigos. Mt 15.39 tem Magadan. Pela explicação mais
plausível, o lugar é o mesmo de Magdala, 2 km ao norte de Tiberíades, na margem ocidental do lago (J.
Jeremias, Abba, p 87ss).
Observações preliminares
1. Contexto. Diferente da história da multiplicação em 6.30-44, este trecho é mais curto e mais concentrado
no tema. A questão da comida é trazida para o centro com a primeira frase, repetida na segunda e resumida no
v. 8. Outras quatro palavras-chaves aparecem três vezes: pão, discípulos, distribuir e sete. Esta apresentação
abre caminho para uma interpretação simbólica, mas Schreiber (p 117,122s) exagera muito. No entanto, não
são só coisas formais que diferenciam os dois relatos. O pai da igreja Agostinho já observou com um tom de
humor que, depois de alimentadas as “criancinhas”, agora era a vez dos “cachorrinhos” (cf. 7.28). Com certeza
é errado distribuir os dois relatos simplesmente entre judeus e pagãos. No segundo caso, Jesus de forma
alguma estava cercado de uma multidão composta só de pagãos, entre os quais missionou durante três dias (cf.
7.24). Mesmo assim, Marcos colocou este relato intencionalmente no fim de uma viagem por terras pagãs, e
pequenas observações dão apoio a uma idéia básica de trabalho missionário entre pagãos.
2. Tradição duplicada? “Esta história é tão semelhante à anterior em 6.30-44, que não se pode escapar à
conclusão que a ambas subjaz uma forma original comum…” Assim U. Wilckens começa seu comentário a
nosso parágrafo, em sua tradução do NT. A idéia é que uma história em algum momento se duplicou e se
desenvolveu em duas direções diferentes, o que mais tarde não foi percebido mais. Marcos também se rendeu
à noção de que Jesus multiplicou pão duas vezes de maneira maravilhosa (cf. 8.17-21). Esta idéia, levantada
por Schleiermacher (1768-1834), difundiu-se de modo tão geral que pelo menos temos de tratar dela.
Sem dúvida, os dois relatos têm muitos pontos em comum. Mas também, quem pensa que eles confirmam a
duplicação, deveria ser justo e avaliar as outras possibilidades: que pontos comuns podem ser esperados, se
Jesus fez o milagre duas vezes? Uma condição seria uma reunião longa, em que a fome surge e é mencionada.
Milagres com comida, quando todos estão de barriga cheia, não fazem sentido. Para uma concentração de
grandes multidões, a margem oriental do lago é mais apropriada, e não a região governada por Herodes
Antipas. A questão da fome certamente chegará até Jesus, já que ele está no centro das atenções. Também não
pode ficar de fora que se investiguem eventuais provisões. Pão e peixe são os alimentos básicos naquela
região. Para a distribuição, a multidão precisa organizar-se e acomodar-se. A ajuda dos discípulos é
indispensável, com tanta gente. Oração, distribuição, ingestão e a referência à satisfação de todos (fórmulas do
AT), bem como recolher as sobras, fazem parte de uma refeição judaica. Também está de acordo com o estilo
de Jesus o fato de ele afastar-se da multidão alvoroçada. Nada nos obriga a creditar estas coincidências a uma
eventual duplicação da tradição, como faz Schweizer (p 88).
Um segundo elemento deve ser levado em consideração, quando se trata de tradição oral: relatos
semelhantes se aproximam com o uso freqüente, adaptam-se mutuamente. O leitor da Bíblia deve prestar
atenção, em casos como este, se sua memória consegue manter os traços gerais separados, ou se permite que
se fundam em uma cena unificada.
Por último, temos de encarar as diferenças mais marcantes que os dois relatos apresentam (6.30-44 = relato
I; 8.1-10 = relato II). I ocorre a proximidade de povoações, II à margem do deserto. I é a conclusão de uma
reunião de um dia, em II a fome já dura três dias (!). I relaciona a compaixão de Jesus com a carência
espiritual, II com a carência física. Em I os discípulos tomam a iniciativa, em II é o Senhor, enquanto os
discípulos tentam tirar o corpo fora. Em I são cinco pães e dois “peixes” (mencionados quatro vezes), em II
“alguns peixinhos” são acrescentados mais tarde, e também não mais mencionados quando as sobras são
recolhidas. Na verdade, os dois relatos passam ao largo um do outro de ponta a ponta. Apesar de o mesmo
milagre formar o centro, eles contém sinais suficientes de acontecimentos diferentes. (Para a interpretação do
milagre da multiplicação em si, cf. opr 2 a 6.30-44.)
     1     Naqueles dias. Por mais geral que seja esta indicação, ela enquadra o acontecimento que segue na
viagem que começa em 7.24 e passa pelas regiões fronteiriças a Israel, proporcionando uma série de
contatos com pagãos. Especificamente a partir de 7.31, Jesus passou pela Decápolis, vindo do oeste,
com a disposição de voltar para o seu povo que o rejeitara e sofrer ali. Aqui temos a última parada
antes deste retorno. Na forma de um milagre, temos uma previsão profética do fruto dos seus
sofrimentos, a comunidade composta de judeus e gentios.
Na proximidade do lago, seu antigo local de atuação, as multidões de seguidores e simpatizantes o
reencontram. Sua dedicação já conhecemos de 6.33. Devemos, portanto, pensar em judeus entre a
multidão. A indicação é de uma revelação especial. Quando outra vez se reuniu grande multidão,
e não tendo eles o que comer, chamou Jesus os discípulos. Sobre esta convocação especial, que, na
opinião de Schweizer p 88 “não tem muito sentido”, veja 7.14 (cf. 3.13). Os discípulos devem estar a
postos para a revelação divina iminente. Podemos adiantar: a futura comunidade do crucificado será
a esfera do serviço deles. Para incluí-los na sua compaixão, lhes disse:
     2     Tenho compaixão desta gente, porque há três dias que permanecem comigo. A palavra grega
para “permanecer” tem um tom religioso, como a palavra “esperar”, nas versões em português
(Hauck, ThWNT IV, 583): esperar em Deus com fé, ficar firme com fidelidade, apesar de provações
e sofrimentos. Neste sentido, 4.000 professam reconhecer o envio divino deste Jesus emigrado,
apesar do seu rompimento com a sinagoga e o rei, de as sombras se alongarem e sua fé os ter levado
para o deserto. As provisões acabaram há tempo. Faltam as coisas mais básicas: eles não têm o que
comer. Não se trata de problemas sociais em geral, mas de seguidores especiais que – talvez em
meio a uma sociedade saciada – precisam temer: “Que comeremos?” (Mt 6.31). Por isso o Senhor se
compadece deles (sobre o termo, cf. opr 1 a 1.40-45 no fim; 1.41; 6.34n). Como poderia ele agir de
outro modo, se “alguém” que “não tem cuidado dos seus […] é pior do que o descrente” (1Tm 5.8)?!
     3     Se eu os despedir para suas casas, em jejum, desfalecerão pelo caminho. Esta possibilidade só é
evocada para mostrar como ela é inadmissível para Jesus. A frase seguinte chama a atenção: e alguns
deles vieram de longe. Só uma referência a uma pequena parte da multidão, mas significativa! Já no
AT, “longe” podia significar mais do que distância física: a distância de Deus, separação da salvação
(Peisker, ThWNT IV, 374). Também no judaísmo os “que estão longe” são os pagãos (Bill. III,
585s). Por fim, lembramo-nos de Ef 2.13,17; At 2.39; 3.21. É possível estar “longe do reino de Deus”
(Mc 12.34). Este sentido também explica aqui a observação que é inserida. Precisamos imaginar uma
reunião misturada com alguns pagãos da Decápolis em volta (cf. 5.20n).
     4     Os discípulos acompanharam seu raciocínio e agora refletem uma total perplexidade em sua
pergunta. Mas os seus discípulos lhe responderam: Donde poderá alguém fartá-los de pão neste
deserto? O pão é a vida. A palavra hebraica para “deserto”, porém, significa “separado da vida”
(THAT II, 971). Assim, “pão no deserto” é uma contradição de termos, uma impossibilidade ou –
uma possibilidade só para Deus. Por isso eles expressam sua aflição sob a forma de uma pergunta e
“devolvem a bola” ao Senhor. Esperar, neste ponto, que eles lhe digam impassíveis que repita a
“mágica” de 6.30-44 é falta de bom gosto. Pode-se pensar assim atrás de uma escrivaninha, mas não
em meio à vida. Experiências anteriores com Deus não tiram do transcurso da vida a tensão de fé,
que às vezes é imensa. Entre Deus e nós nunca há rotina. Tudo sempre é autêntico: a fome, o deserto,
a perplexidade, a tentação e o tatear por Deus.
     5     Por isso o Senhor toma as rédeas nas mãos, mas não sem incluir os discípulos no processo. E Jesus
lhes perguntou: Quantos pães tendes? Responderam eles: Sete. A ajuda passa pela cessão
obediente dos meios próprios (cf. 6.38). Até os doentes se tornam cooperadores de Deus quando da
sua cura: Tenha o desejo de ser curado, venha até aqui, levante-se, estenda a mão! etc. Aqui a
pequena provisão própria é considerada. As atividades de Deus tornam o homem novamente humano
e, por isso, não passivo. Seus milagres estão em uma relação positiva com a criação e a natureza. Isto
nos anima a ajudar com o que temos. Nunca se sabe o que pode ser conseguido com isso.
     6     O conteúdo do versículo decisivo já foi explanado em 6.39. Ordenou ao povo que se assentasse no
chão. E, tomando os sete pães, partiu-os, após ter dado graças, e os deu a seus discípulos, para
que estes os distribuíssem, repartindo entre o povo. Temos aqui algo mais do que ingestão de
alimento. Na família de Deus experimenta-se a condição de ser humano, em corpo, alma e espírito.
     7     Tinham também alguns peixinhos; e, abençoando-os, mandou que estes igualmente fossem
distribuídos. Este versículo exclui para o nosso trecho o simbolismo da Ceia, na qual os peixes não
têm nenhum papel, antes, o vinho (mesmo o expositor católico Gnilka pensa assim em I, p
302,303,312). O versículo completa o quadro realista de uma refeição. Naquela região o peixe
acompanha comumente o pão.
     8     Comeram e se fartaram; e dos pedaços restantes recolheram sete cestos. A repetição dos
números exatos em 8.19s sugere um valor simbólico. Porém as interpretações divergentes que nos
são oferecidas e das quais nenhuma satisfaz, mostram que não sabemos nada com certeza. Só
podemos dizer que os números doze e sete representam a plenitude e muitas vezes estão vinculados
ao Messias (p ex no Apocalipse).
     9     Eram cerca de quatro mil homens. Então, Jesus os despediu.
     10     Logo a seguir, tendo embarcado juntamente com seus discípulos, partiu para as regiões de
Dalmanuta. Tudo transcorre em santa ordem, espelhando o povo de Deus sarado e cheio do Espírito.
O “logo” dá um impulso decidido à ação. Eles partem para passar para o lado dos inimigos; no
próximo versículo estes também já estão a postos. Como Jesus levou o sentido futuro do sinal a sério,
interrompeu-o e o transferiu para o movimento em direção à cruz. A passagem até a igreja futura
pressupunha o seu sacrifício. Ele morreu pelos “muitos” (10.45; 14.24), o que inclui os gentios. O
perdão dos pecados no seu sangue reúne todos à volta da mesma mesa. Acontece o que era
inimaginável: judeus e gentios podem comer juntos (cf. opr 2 a 7.24-30).

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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