Pessoas que gostam deste blog

47 A negativa ao pedido dos fariseus por um sinal, Mc 8.11-13

A negativa ao pedido dos fariseus por um sinal, Mc 8.11-13
(Mt 16.1-4; cf. 12.38,39; Lc 11.16; 12.54-56; 11.29; Jo 6.30)

11-13 E, saindo os fariseus, puseram-se a discutir com ele; e, tentando-o, pediram-lhe um sinal do céu. Jesus, porém, arrancou do íntimo do seu espírito um gemido e disse: Por que pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo que a esta geração não se lhe dará sinal algum. E, deixando-os, tornou a embarcar e foi para o outro lado

Em relação à tradução
   a
     syzetein, investigar, em Marcos sempre com a idéia de discussão hostil, desqualificada e inútil (1.27;
8.11; 9.10,14,16; 12.28).
   b
     Deus pode fazer testes com os eleitos para firmá-los. Satanás tenta para levar ao pecado e à apostasia
(1.13). Os fariseus o fazem para conseguir evidências que possam usar no processo judicial contra Jesus ou
para lhe fabricar alguma outra armadilha (10.2,15).
   c
     zetein, procurar, aqui no sentido de procurar alguém, praticamente desafiar.
   d
     Jesus respondeu com uma frase fragmentária que, só assim, não dá sentido; lit.: “Se for dado algum
sinal a esta geração”. Seus ouvintes sabiam o que tinham de acrescentar em pensamento, no começo. Trata-se de uma maldição condicional contra si mesmo, no contexto de uma fórmula de juramento: “Que Deus me
castigue, se…” (Bl-Debr, § 454.5), cf. Hb 3.11; 4.3,5. A LXX também tem exemplos, como Sl 95.11. De jeito
nenhum, jamais eles terão o seu sinal.
   
e
     A expressão não deve ser entendida em sentido restrito, como se Jesus, depois de dar um pulo na
margem ocidental, logo voltasse para a margem oriental, para retomar sua atividade interrompida na
Decápolis (cf. 6.45n). De acordo com o texto, ele aportou na cidade judaica de Betsaida, na margem norte (v.
22).
Observações preliminares
1. Contexto. O banquete messiânico no deserto foi o ponto culminante e, ao mesmo tempo, o ponto final da
permanência no exterior. O v. 10 deixa isto bem claro. O Messias secreto e tão manifesto retorna com seu
séquito para o Israel incrédulo, para encetar seu caminho de sofrimento. Antes, porém, um acontecimento
importante precisa ser recordado, que transcorreu na viagem no norte, na região fronteiriça de Cesaréia de
Filipe. Ali o reconhecimento do Messias raiou entre os discípulos (8.27-30). Os versículos até lá preparam este
tema. Eles falam de olhos que vêem mas não enxergam (cf. 4.12), portanto, de descrença e endurecimento,
tanto entre os fariseus (v. 11-13) como entre os discípulos (v. 14-21). Ao mesmo tempo que abandona os
fariseus, porém, Jesus não deixa os discípulos neste estado. Passo por passo ele os leva a ver e crer. Isto
demonstra simbolicamente a cura do cego (v. 22-26). O que precisamos diante de Jesus não é um novo sinal,
mas olhos novos.
2. Mal-entendidos. O parágrafo é curto e simples, como poderíamos imaginar. Nós, todavia, não somos
simples, e, antes de uma interpretação, várias coisas precisam ser tiradas do caminho.
a. Como podem os fariseus, depois de tantos milagres de Jesus, exigir mais um? Haenchen (p 285)
encontra esta saída: “Temos aqui a prova exata” de que “os outros grandes milagres […] só entraram na
tradição em um período posterior”. Há várias coisas distorcidas nisto. É verdade que uma parte dos milagres
aconteceu só no grupo restrito de seguidores (p ex 4.35-41 e todos os atos dos cap. 6–8). Em primeiro lugar,
porém, os fariseus não exigiram o sinal porque duvidavam da capacidade de Jesus de fazê-lo, mas exatamente
porque ela se tornara um fato (cf. 1.34). Era importantíssimo determinar agora a origem da autoridade com
que ele agia (cf. 3.22,30).
b. Será que pedir por um sinal já é pecado? Não, Deus não espera que a fé resista sem confirmação e
fortalecimento. Várias histórias do AT já mostram isto. Quem crê pode pedir: “Mostra-me um sinal do teu
favor, para que o vejam e se envergonhem os que me aborrecem; pois tu, Senhor, me ajudas e me consolas”
(Sl 86.17). A cura do paralítico aconteceu especificamente para certificar os céticos: “Para que saibais” (2.10).
O comentário, portanto, terá de esclarecer o que significa: “A vocês não se dará nenhum sinal!”
     11     Como alguém que aceita um desafio, eles vão ao encontro de Jesus assim que ele pisa na praia: E,
saindo os fariseus, puseram-se a discutir com ele. Quem é fariseu não é necessariamente escriba
(opr 4 a 2.13-17), mas dificilmente erramos se neste caso imaginamos representantes bem preparados
do movimento dos fariseus. A favor disto fala a sua intenção de travar um debate rabínico com Jesus.
Além disso, sua noção de envio faz pensar em uma comissão de professores da lei, que fazem
investigações no contexto de um processo disciplinar de doutrina e querem reunir material
incriminatório (cf. 7.1). Eles realizam a prova de um profeta: tentando-o. De acordo com 6.15; 8.28
Jesus era classificado em termos gerais como profeta. Fazer milagres fazia parte disto. Milagreiros o
AT e o judaísmo contemporâneo conheciam em grande número. Isto, contudo, não era tranqüilizador,
pois neste profeta transluzia sempre de novo a pretensão monstruosa de ter contato com Deus como
nenhum outro: havia a independência no ensino que destoava totalmente do quadro (1.22), o perdão
de pecados (2.7), a liberdade do jejum (2.18), do sábado (2.24) e das prescrições sobre lavar as mãos
e comer (7.5,19; 2.16); por fim, a liberdade para ter comunhão com cobradores de impostos e
pecadores, até os primórdios do trabalho missionário entre os pagãos (2.16; 7.24–8.9). Tudo isto era
tão subversivo que provocava a pergunta: Será que ainda se trata de um movimento dentro do
judaísmo, ou já de uma outra religião? Ou, caso ele estivesse mesmo falando em nome de Deus, será
que eles mesmos ainda eram israelitas de verdade? Afinal de contas, quem estava agindo pelas mãos
de Jesus?
Para influenciar o público, eles já tinham o lema preparado: Ele é o maioral dos demônios
(3.22,30)! Para o julgamento, no entanto, era preciso mais. Os capítulos da paixão mostram como as
autoridades judaicas eram formais nos seus procedimentos. Era necessário condenar Jesus sem
sombra de dúvida como contrário a Deus, diante do povo que pendia para o lado dele em grande
número. Por isto, pediram-lhe um sinal do céu.
Buscava-se “um sinal”, não um milagre como antes aqui e acolá, que podiam ser testemunhados
em número suficiente; não, um sinal aqui e agora, diante dos olhos da comissão, por encomenda. De
modo semelhante, Herodes encomendou um sinal (Lc 23.8), mesmo que para sua diversão particular.
Era preciso causar um evento que fosse tão estupendo e inegável que todos teriam de exclamar: O
céu falou, Deus mesmo o “deu” (v. 12), autenticando a confiabilidade do seu profeta. Comparemos
com Jo 6.30: “Que sinal fazes para que o vejamos e creiamos em ti?” Jesus se apresentara como
profeta (6.4; Lc 13.33). Não sabemos o que eles imaginavam como sinal. Dificilmente o “céu” é o
lugar onde se esperava que o milagre acontecesse (talvez como em Lc 21.35; Bill. I, 727), antes
como sua origem e causa (cf. 11.30). Instrutivo é o texto paralelo em 15.32, onde eles fazem uma
proposta concreta: “Desça agora da cruz o Cristo, o rei de Israel, para que vejamos e creiamos!”
Lá como aqui parece que havia uma proposta justa dos fariseus. Mas agora temos de considerar o
que havia de maligno nesta “prova”. Montara-se uma armadilha. Se o milagre não acontecesse, Jesus
estaria desmentido, assim como pareceu desmentido em 15.32s, quando ficou pendurado na cruz e
morreu. Em caso positivo, com o que parece que dificilmente contavam a sério, ele também estaria
refutado, e isto de acordo com Dt 13.2-6. Lá há dois fatos que desmascaram um falso profeta.
Primeiro, naturalmente, seu apelo para abandonarem Iavé e sua lei; isto os fariseus, em seu
endurecimento terrível, já consideravam como fato. O segundo indício, porém, era a realização de
um sinal anunciado. Os milagres eram considerados um sintoma típico da heresia, uma prova da sua
periculosidade. Não havia nada que pudesse ir contra o ensino dos escribas, nem céu nem terra
(Rengstorf VII, p 234.2; Bill. I, 127,727; também em Mc 13.22 há falsos profetas ligados a milagres).
Por estes motivos, a solicitação deles não era honesta e aberta a uma decisão divina, mas traiçoeira.
Muito parecido com 15.32, eles fingiam obediência a Deus – com inegável intenção de matar. Não
abriram uma brechinha sequer para o Espírito Santo.
     12     Jesus, porém, arrancou do íntimo do seu espírito um gemido. Como em 7.24 este suspiro é sinal
de movimento espiritual, de inspiração. Expressões semelhantes há, p ex, em Ez 21.11,12 e em Is
21.2ss, na perspectiva de visões iminentes do juízo (LXX). Uma pergunta retórica precede: Por que
pede esta geração um sinal? “Esta geração” é, no cântico de Moisés, duas vezes, Israel que quebrou
a aliança (Dt 32.5,20), do qual Deus quer ocultar a sua face. O Sl 95.8-11 mostra como continua este
discurso terrível de juízo. Israel tinha “provado” e “provocado” suficientemente o seu Deus. No v. 11
segue o juramento de condenação, como aqui. Dezessete vezes Jesus fala “desta geração” nos
evangelhos, assim como Paulo em Fp 2.15 e Pedro em At 2.40. Os primeiros tempos retornam no
tempo do fim. Jesus está contemplando o cumprimento. Para os olhos físicos, é verdade, só está
diante dele o grupinho de fariseus, mas de repente ele discerne o endurecimento do povo todo e seu
caminho (o que, é óbvio, não exclui algumas primícias da salvação). Então, ele pronuncia a sentença,
no poder do Espírito Santo: Em verdade vos digo que a esta geração não se lhe dará sinal algum.
A vocês! Isto é dito aqui a pessoas que têm atrás de si um caminho repleto de milagres, como a
geração do deserto, que, portanto, podem dizer com Mc 12.14: “Sabemos que és verdadeiro” e que
resistem conscientemente a este conhecimento e à ação do Espírito Santo. Jesus está falando a
pessoas que vêem mas não querem enxergar, que invertem tudo por causa da sua maldade e que, em
meio à sua escuridão, dizem: “Nós vemos!” (Jo 9.39-41).
     13     À sentença divina segue a ação correspondente. Jesus se retira, do mesmo jeito como ordenou a
seus discípulos nestes casos (6.11): E, deixando-os, tornou a embarcar e foi para o outro lado.
Ele se vai sem um sinal, mas não como derrotado, pelo contrário, como juiz. Em tudo isto, as
palavras mais duras de condenação ainda são últimos apelos à conversão.
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por nos visitar! Volte sempre!