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48 Os discípulos em perigo de incredulidade, Mc 8.14-21

Os discípulos em perigo de incredulidade, Mc 8.14-21 
(Mt 16.5-12; Lc 12.1)

14-21 Ora, aconteceu que eles se esqueceram de levar pães e, no barco, não tinham consigo senão 
um só. Preveniu-os Jesus, dizendo: Vede, guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes. E eles discorriam entre si: É que não temos pão. Jesus, percebendo-o, lhes perguntou: Por que discorreis sobre o não terdes pão? Ainda não considerastes, nem compreendestes? Tendes o coração endurecido? Tendo olhos, não vedes? E, tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais      de quando parti os cinco pães para os cinco mil, quantos cestos cheios de pedaços recolhestes? Responderam eles: Doze! E de quando parti os sete pães para os quatro mil, quantos cestos cheios de pedaços recolhestes? Responderam: Sete!

Em relação à tradução
   a
     Como se fazia pão todos os dias em todas as casas, qualquer criança estava informada sobre fermento.
Para que o pão ficasse solto e saboroso, a massa tinha de fermentar levemente. Para apressar este processo, a
mulher misturava um pouco de massa já fermentada na farinha. Isto contagiava a massa toda e a azedava. O
sentido figurado do fermento, portanto, é seu poder de penetração (Mt 13.13). Como, porém, na Palestina a fermentação passava rapidamente para decomposição, o fermento não podia ser usado p ex para oferendas de alimentos (Lv 2.11; cf. Êx 12.15). Ele era considerado acima de tudo uma figura do que é profano e inimigo
de Deus (1Co 5.6; Gl 5.9). Os escribas podiam comparar a depravação da natureza humana e o paganismo
em termos gerais com o fermento (Bill. I, 728s).
   
b
     A posição no início da frase indica ênfase.
   
c
     Para “cestos” no v. 19 está de novo a palavra kophinos como em 6.42, no v. 20 spyris como em 8.8.
Vários capítulos adiante, Marcos sabe exatamente o que escreveu antes.
Observações preliminares
1. Contexto. Este parágrafo está ligado tão estreitamente ao que aconteceu antes, que continua
simplesmente com “eles”. Mesmo assim, está totalmente claro que os parceiros de conversa de Jesus agora são
seus discípulos. Para eles a entrada em cena dos fariseus se tornara um perigo. Além disso, esta conversa serve
de detalhamento de 6.52. Os fariseus não foram os primeiros a nutrir em seu coração um conceito de Messias
diferente dos planos de Deus; as multiplicações messiânicas já tinham confundido os discípulos e feito com
que suas expectativas se tornassem em obstáculos no caminho de Deus (cf. 8.32). Por isso temos aqui a
repreensão mais detalhada e mais forte dos discípulos (cf. 1.36).
2. O sentido figurado dos milagres dos pães. Esta terceira passagem sobre o milagre dos pães (depois de
6.30-44; 8.1-10) destaca sua importância central, que ultrapassa seu objetivo imediato que era matar a fome do
corpo. A intenção era que fossem uma revelação para os discípulos. Certamente a própria circunstância de que
ambos aconteceram fora dos limites judaicos é significativa. Com isto eles se apresentaram como
representações antecipadas do Israel renovado. A apostasia do Israel antigo do seu Messias haveria de se
tornar “em riqueza para os gentios” (Rm 11.12). Também podemos lembrar de José que, repudiado por seus
irmãos e levado cativo para o estrangeiro, acabou dando pão para muitos. Assim, o tema do pão adquire uma
relação misteriosa com o sofrimento de Jesus: “E o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne” (Jo
6.51). A propósito, este parágrafo também não dá nenhum passo na direção do simbolismo da Ceia.
     14     Ora, aconteceu que eles se esqueceram de levar pães. Era costume precaver-se com provisões
para as viagens (cf. 6.38). O fato de isto não ter acontecido confirma que por trás do v. 10 se oculta
uma interrupção e uma partida abrupta. O acréscimo: e, no barco, não tinham consigo senão um só
não deve nos induzir a interpretações simbólicas desordenadas. Este pão não exerce mais nenhum
papel na seqüência. Trata-se de um registro histórico.
     15     Preveniu-os Jesus, dizendo: Vede, guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de
Herodes. A passagem dos pães que faltavam para o sentido figurado do fermento – o fermento podia
representar o pão inteiro (Lane, p 281) – pode nos surpreender. Na cultura oriental, porém, passa-se,
em vista de um objeto físico, rapidamente para o mundo espiritual. Nicodemos ouve no telhado da
sua casa o uivo do vento noturno e é levado a pensar na atuação do Espírito Santo (Jo 3.8). A mulher
samaritana que vem tirar água é lembrada da água da vida (Jo 4.7ss). Jesus observa na Festa dos
Tabernáculos a oferenda solene de água e exclama: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba!” (Jo
7.37). Ele vê a iluminação festiva do templo e confessa: “Eu sou a luz do mundo!” (Jo 8.12).
Em nosso texto, a dureza de coração e a malícia dos fariseus, dos v. 11-13, ainda está fresca diante
dos olhos de Jesus. Ao mesmo tempo, saindo de Magdala, surgiu atrás deles no horizonte a cidade de
Tiberíades, capital orgulhosa de Herodes. De acordo com 6.16, este governante começara a voltar os
olhos para Jesus, com a intenção de enviá-lo pelo mesmo caminho do seu predecessor. Esta política
aproximou-o dos propósitos dos professores da lei. É só comparar com 3.6! Lá também, no v. 5, lhes
é atestado um coração desvirtuado. Esta natureza contrária a Deus, de não ver, não ouvir e não
compreender, e a atitude que disto resulta, é o “fermento” aqui, como confirmará o v. 17ss. Um
ouvinte de Jesus após outro adquiriu por meio deles a coragem para fechar-se para Jesus e sufocar a
voz do Espírito Santo (3.29). Jesus tinha os olhos bem abertos para esta situação (cf. 12.38). Seus
discípulos também tinham sido bafejados por esta atmosfera envenenada.
     16     E eles discorriam entre si: É que não temos pão. O fato de Jesus expressamente não ser incluído
na conversa deles já ilustra como eles estão desorientados. A palavrinha “entre si” indica, como em
4.41; 9.34; 15.31, o retraimento do grupo, e “discorrer” tem um tom negativo como em 2.6,8; 9.33;
11.31 (cf. 9.33n). Assim, a palavra de advertência de Jesus se dissipa, e eles ficam com o que têm. É
que os discípulos eram pessoas como nós. Nós também já viramos as costas grosseiramente para a
realidade claríssima de Deus, para nos enfiar na terra como um tatu. Nossa primazia realmente não se
baseia em nossa qualidade, mas somente neste “estar com ele” de 3.14, em que Jesus é ativo em
nosso meio. Nisto também consistiu aqui a diferença entre os discípulos obtusos e os fariseus
obtusos: Jesus não deixou os discípulos a ver navios como em 8.13 os fariseus, mas continuou sendo
seu ensinador incansável. A partir de agora, os trechos com instrução dos discípulos se intensificam.
     17     Sem poupá-los, uma série de perguntas revela a condição deles e confere um tom de insistência à
repreensão. Jesus, percebendo-o, lhes perguntou: Por que discorreis sobre o não terdes pão? É o
mesmo conhecimento onipotente como em 2.8 diante da linha de combate dos escribas. Ainda não
considerastes, nem compreendestes? Este “ainda não” já tivemos de levar em conta em 4.40. O
“compreender” fundamental pode referir-se objetivamente só ao segredo da pessoa de Jesus.
Compreender Jesus e testemunhar dele era razão e objetivo do estar-com-ele (3.14). Porém no exato
momento em que se trata do que há de mais profundo nele, o seu sofrimento, eles fracassam. Isto
abre um abismo entre Jesus e eles, e eles estão em perigo de ficar do lado dos fariseus. Tendes o
coração endurecido? (cf. 6.52). Com o “coração” se crê” (Rm 10.9). Está em questão toda a atitude
em relação a Jesus.
     18     Tendo olhos, não vedes? E, tendo ouvidos, não ouvis? Lembramos de uma proximidade
assustadora com a constatação sobre os “de fora” em 4.12. Aqui, porém, ficamos só na pergunta. Não
vos lembrais? Com este encorajamento indireto para que recordem, Jesus dá início aos seus esforços
para afastar os discípulos dos fariseus e colocá-los novamente nos eixos certos. Ele quer que eles
voltem em pensamento até o ponto em que se desviaram, para prestar atenção aos números que não
tinham considerado corretamente quanto ao seu significado messiânico simbólico.
     19-21     Quando parti os cinco pães para os cinco mil, quantos cestos cheios de pedaços
recolhestes? Responderam eles: Doze! E quando parti os sete pães para os quatro mil, quantos
cestos cheios de pedaços recolhestes? Responderam: Sete! Ao que lhes disse Jesus: Não
compreendeis ainda? Com a repetição da pergunta do v. 17, o parágrafo é interrompido. Com
certeza a idéia não foi de que a instrução ficou sem efeito. Isto é confirmado pelo v. 29, mas antes
ainda pela história que vem em seguida.
O poder milagroso de Jesus era óbvio – as respostas dos discípulos foram imediatas – todavia
eram obscurecidas de maneira crescente pelas circunstâncias. Os dois milagres dos pães aconteceram
em regiões afastadas e desabitadas, além do território judeu. O agente miraculoso era um excluído,
agora com as relações cortadas em todas as frentes e em toda profundidade com os representantes
espirituais de Israel e com o poder político. Os discípulos, contudo, precisavam reter o lampejo da
realidade messiânica de Jesus nos milagres e segui-lo em seu sofrimento.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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