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49 A cura do cego de Betsaida, Mc 8.22-26

A cura do cego de Betsaida, Mc 8.22-26

22-26 Então, chegaram a Betsaida; e lhe trouxeram um cego, rogando-lhe que o tocasse. Jesus, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia e, aplicando-lhe saliva aos olhos e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe: Vês alguma coisa? Este, recobrando a vista, respondeu: Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando. Então, novamente lhe pôs as mãos nos olhos, e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia de modo perfeito. E mandou-o Jesus embora para casa, recomendando-lhe: Não entres na aldeia.

Em relação à tradução
   a
     Betsaida era uma aldeia de pescadores na margem norte do lago, mas a leste da foz do Jordão, portanto
já na região do governador Filipe. Em Mt 11.21; Lc 9.10; Jo 1.44 o lugar é chamado de “cidade”. É que
Filipe o tinha ampliado para ser capital da província, mudando seu nome para Julias. Mas isto não fazia
muito tempo, e a aldeia antiga ainda estava lá, o que explica este uso aqui. Em Jo 12.21 pode-se falar em
“Betsaida da Galiléia”, pois ela era habitada por judeus galileus. Pedro, André e Filipe eram de lá (Jo 1.44).
Podemos nos perguntar se Jesus, como fugitivo, esperava encontrar ali um pouco de apoio.
   b
     Aqui “olho” não é ophtalmos como no v. 25, mas o termo antigo omma.
   c
     É evidente que anablepein aqui não tem o sentido de “olhar para cima (para o céu)” como gesto de
oração, como em 7.34, antes indica a recuperação da capacidade de ver.
   d
     A frase não está bem construída, o que indica a excitação.
Observações preliminares
1. Contexto. Marcos não ajuntou suas histórias como se juntam folhas com um ancinho, antes seguiu linhas
espirituais exatas. No último parágrafo, no v. 15, Jesus falara duas vezes de “ver”, e no v. 18 perguntara a seus
discípulos: “Tendo olhos, não vedes?” Esta palavra-chave é retomada de modo imperceptível. Seis vezes
aparecem palavras que estão relacionadas a “ver”. É como se o trecho anterior, que terminou abruptamente
com uma pergunta, fosse respondido agora. Marcos viu nesta cura do cego um sentido espiritual que excedia
em muito a ajuda física: vida de verdade por meio de Jesus! Este também é o único milagre nos evangelhos
que aconteceu em etapas. A verdade de Deus, portanto, não se revela de uma só vez. De acordo com o v. 15,
os discípulos não eram tão cegos como os fariseus, mas estavam em um degrau bem baixo. No v. 29, o
reconhecimento do Messias por eles finalmente raia, todavia, como mostra logo a continuação no v. 32s, ainda
com fraqueza considerável. Sempre de novo eles precisam ser ensinados por Jesus (8.31; 9.31; 10.33). Na
Páscoa eles finalmente conseguem ver plenamente (16.7). – Assim, este milagre se presta muito bem como
transição entre as duas metades do livro e, de certa forma, ilumina todo o relacionamento entre Jesus e os
discípulos.
2. Comparação com 7.31-37. Desde o início semelhante em 7.32 e 8.22, passando para outros elementos
como chamar para o lado, impor as mãos, tocar, usar saliva e não mencionar os discípulos, estas duas curas
estão muito próximas. Ambas são também exclusivas de Marcos, e ainda dentro de Marcos se destacam pelo
uso de termos raros, de modo que podem ter vindo da mesma fonte antiga. As duas histórias não glorificam
Jesus por títulos, pois o chamam somente de “ele”, mas iluminam sua ação com passagens messiânicas do AT.
Aqui “restabelecer” chama a atenção (v. 25), assim como em 7.27 lembramos de Is 35.5s. Esta passagem
também une os dois milagres: “Então, se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos
surdos”.
3. A cegueira na Bíblia. O AT fala da cegueira mais de trinta vezes, o NT mais de cinqüenta, oito vezes os
evangelhos contam curas de cegos. Doenças dos olhos, causadas pelo calor, a luz muito forte, a poeira que
cobria tudo e a falta de higiene, eram uma miséria popular na Palestina. Pessoas com olhos infeccionados
cobertos de moscas eram encontradas com freqüência. Talvez houvesse um cego em cada família, e todos já
tivessem sido guias de cegos. A cegueira também causava a desgraça social: “És infeliz, sim, miserável,
pobre, cego e nu”, diz Ap 3.17. Os cegos eram o retrato perfeito da humanidade diminuída e escurecida, e
eram comparados aos mortos (Schrage, ThWNT VIII, 282). Sob estas circunstâncias, não podiam faltar as
curas de cegos nas profecias messiânicas (Is 29.18; 35.5s; 61.2; Sl 146.8; cf. Mt 11.5; Lc 4.18; 7.21s). Muito
cedo “cego” serviu de figura para uma figura obcecada espiritualmente (Dt 28.28s; Is 6.10; Jr 5.21). Quando
os cegos voltam a ver, é porque Deus começou a mostrar-se de novo à sua humanidade e a “restabelecer” a
criação (v. 25). (Para os paralelos da história da religião, cf. opr 2 a 7.31-37.)
     22     Então, chegaram a Betsaida; e lhe trouxeram um cego, provavelmente da vizinhança como em
6.55, pois, de acordo com o v. 26, ele não era da aldeia. Rogando-lhe que o tocasse (cf. 1.41).
     23     Jesus, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia, empurrando-o pelo meio da
multidão; conforme o v. 24, porém, as pessoas ficaram ao alcance da vista. Sobre o afastamento da
multidão para a cura, veja 7.32s. E, aplicando-lhe saliva aos olhos e impondo-lhe as mãos,
perguntou-lhe: Vês alguma coisa?
     24,25     Este, recobrando a vista, respondeu: Vejo os homens. Na seqüência ficamos sabendo que o
homem não nascera cego, já que sabia como eram as árvores. Seus nervos óticos foram reanimados,
mas ainda não funcionam direito. Porque como árvores os vejo, andando. Então, novamente lhe
pôs as mãos nos olhos, e ele, passando a ver claramente, ficou restabelecido; e tudo distinguia
de modo perfeito. “Tudo” abrange aqui o que está perto e o que está longe, as pessoas, o mundo e o
próprio Jesus. “Restabelecido” é um termo específico das profecias da salvação (cf. 3.5; 9.12).
Jesus, na ocasião, não acabou com a cegueira de modo geral. Sua capacidade para tanto, que
existia evidentemente e se manifestou, retrocedeu novamente e limitou-se a um espaço oculto.
     26     E mandou-o Jesus embora para casa. A casa está em oposição ao público. Recomendando-lhe:
Não entres na aldeia. Com isto, qualquer encargo de proclamação é retirado. Não que o milagre
fosse mantido em segredo. De acordo com o v. 24, a multidão pudera acompanhá-lo à distância.
Além disso, Betsaida já vira uma abundância de milagres de Jesus (Mt 11.21). Mas ao sinal
messiânico não deveria seguir uma proclamação pública do Messias. O caminho não ia ainda em
direção à nova realidade messiânica, mas à cruz (8.31). E a cura da cegueira foi ocultada e guardada
para o futuro (sobre o segredo messiânico, cf. 1.44; 5.43; 7.36).
A opr 1 fundamentou o direito à interpretação simbólica da cura. Ela espelha figuradamente como
os discípulos, em contraste com os fariseus ofuscados (v. 11-13) chegaram à compreensão do Cristo.
O que os diferenciou daqueles não foi a experiência de mais e maiores milagres, também não uma
reflexão mais profunda ou prestar melhor atenção. Seu segredo consistiu simplesmente em estar-com-ele da Galiléia até Jerusalém, e que eles continuaram sendo objeto da dedicação dele, passando
pelos vales profundos do caminho dele e dos fracassos deles. Sua condição de discípulos não
consistia – nisto está a ênfase – em um reconhecimento pronto, mas em um processo de
reconhecimento mantido pelo próprio Jesus. Por isso Paulo também suplicou que Deus concedesse,
aos que já tinham compreendido, “espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele”,
“iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes” (Ef 1.16-18).

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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