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49 A primeira multiplicação de pães e peixes, Mt 14.13b-21

A primeira multiplicação de pães e peixes, 14.13b-21
(Mc 6.31-44; Lc 9.10-17; Jo 6.1-13)

13b  … sabendo-o as multidões (que Jesus tinha se retirado para um lugar solitário na faixa do 
deserto), vieram das cidades seguindo-o por terra.
O texto paralelo de Lucas indica o destino da viagem de barco de Jesus com os discípulos. É uma
região sem moradores nas proximidades de Betsaida. Essa, contudo, não é a cidade conhecida pelos
evangelhos nas cercanias de Cafarnaum no lado oeste do lago.
Antigamente a cidade era uma pequena aldeia de pescadores. O tetrarca Filipe, porém, tinha
mandado ampliá-la, renomeando -a “Betsaida de Júlia”. É esse, pois, o rumo que o barco tomou ao
velejar pelas ondas do lago.
Muitas vezes nos admiramos da rapidez com que uma notícia corre de boca em boca. Sem
possuírem rádio, imprensa ou telefone, essas pessoas ficaram sabendo logo que Jesus e seus
discípulos tinham saído da Galiléia. Alguns certamente o viram na partida do barco. Parece que seu
destino também lhes era conhecido. Muitos haviam aderido a ele na Galiléia e decidiram alcançá-lo.
Os primeiros possivelmente notaram que o barco iria para Betsaida. Estava “tudo claro” para eles. O
caminho de Cafarnaum a Betsaida por terra podia ser percorrido no mesmo tempo q ue de barco pelo
mar. Assim, a multidão se pôs a caminho, a fim de contornar o lago a pé. Muitas localidades
beiravam o lago. Em todo lugar pelo qual passava esse grupo apressado, começava-se a perguntar e
responder. “Naturalmente”, diziam, “se o Messias está tão perto, nós também queremos vê-lo”.
Esqueciam tudo o mais, partiam, juntando-se à multidão. De lugar para lugar aumentava o número
dos caminhantes.
O que será que o Senhor sentiu ao ver essa multidão na margem? Afinal, ele queria buscar o
silêncio com seus discípulos. O Senhor não teria o direito de rejeitar essa multidão? Mas ele não o
fez. Apesar de o povo inverter totalmente o seu programa, Jesus permanece calmo e silencioso,
esperando o que haveria de acontecer.
O barco toca a areia da praia e, ao mesmo tempo, chegam os primeiros integrantes da multidão
(Marcos escreve: “Aconteceu que pessoas de todas as cidades acorreram a pé ao lugar em que
chegaria o barco, de modo que alcançassem o local ainda antes do barco”).
O que lhes diz o Senhor? Com certeza nada do que seria compreensível do ponto de vista humano.
Mesmo que seu plano de procurar um lugar solitário tenha sido frustrado, ele vai ao encontro das
pessoas com amor. Está emocionado. Vê a multidão como rebanho  que não tem pastor, e a recebe
com amável cordialidade.

14  Desembarcando, viu Jesus uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos.
O Senhor correspondeu ao anseio de aprendizagem e amor dessas pessoas. Uma imensa
misericórdia o preenchia e o impelia para junto desse povo. Poderíamos apontar, talvez, dois aspectos
de sua compaixão:
A multidão se assemelhava (como está indicado no fim do v. 13) a um rebanho de ovelhas que não
tem pastor; e Jesus vê o povo com um olhar esperançoso. É igual a um campo com uma colheita
promissora (Jo 4.35).
Jesus atende todas as necessidades de seus ouvintes. Também os doentes que vieram são curados.
Em primeiro lugar, porém, está para Jesus a pregação, diante de todas as carências ela é o mais
importante. As curas dos doentes devem servir ao aprofundamento da fé. O principal não é que
estejamos fisicamente com saúde, mas sim que a boa notícia seja anunciada, para que, pela palavra
de Cristo, corações despedaçados sejam curados e venham a herdar a vida eterna. Isso é o mais
importante! Dessa maneira Jesus ajudou as pessoas em suas necessidades interiores e exteriores. Ele
sempre tinha tempo para elas.
Contudo, Jesus trazia em seu coração mais um pensamento de amor. Enquanto ele permanecia
aqui ao norte da Galiléia, aproximava-se o tempo da Páscoa. Em Jerusalém ele era tão odiado que
provavelmente não poderia aparecer lá agora. Durante toda a manhã multidões de pessoas vinham até
Jesus (Jo 6.5). Esse ajuntamento inesperado o lembrava dos grupos de peregrinos que estavam indo
agora para a festa em Jerusalém. Assim, decidiu festejar uma festa no deserto, como compensação
pela festa pascal.

15  Ao cair da tarde, vieram os discípulos a Jesus e lhe disseram: O lugar é deserto, e vai 
adiantada a hora; despede, pois, as multidões para que, indo pelas aldeias, comprem para si o 
que comer.
No entusiasmo, o povo seguira o Mestre sem levar comida. O sol já se inclina no oeste, e o povo
ainda permanece atento às palavras de Jesus. Prestam intensa atenção às explicações do Mestre. Ele
satisfaz sua fome pela palavra de Deus. Parece que a multidão nem se lembra das necessidades
corporais. Nessa situação, porém, os discípulos se manifestam e se sentem responsáveis para
cuidarem do povo. Eles se perguntam: “Deveria Je sus exigir que as multidões fiquem aqui sem
alimento até à noite?” Obviamente não imaginam que Jesus já considerou a situação de seus ouvintes
e que ele quer manter todos junto de si, por se saber autorizado a alimentar hoje todos os ouvintes
como seus hóspedes.
A preocupação dos discípulos não corresponde aos pensamentos do Mestre. Eles querem que cada
um do povo cuide de si próprio, enquanto Jesus quer cuidar pessoalmente do povo. Eles estão muito
preocupados, apesar de seu Senhor e Mestre estar presente. Isso é falta de fé.
Por não verem ninguém tomando providências, eles levam sua preocupação ao Senhor.  – Acaso
devemos nos aproximar do Senhor somente quando nossa própria capacidade está no fim?
Em sua angústia e preocupação, os discípulos se voltam para o Mestre, quando estava caindo a
tarde. A expressão grega ophia significa “o primeiro horário da noite”, que inicia na nona e vai até a
décima segunda hora do dia (das 15 às 18 horas). A primeira hora da noite pode ser equiparada ao
nosso final de tarde. Depois, no v. 23, está subentendida a segunda hora do anoitecer, o tempo das 18
horas até o início da noite propriamente dita. Com o termo a hora os discípulos referem-se ao tempo
ou ao momento em que se deveria despedir a multidão para que ainda pudessem comprar pão.

16  Jesus, porém, lhes disse: Não precisam retirar-se; dai-lhes, vós mesmos, de comer.
Aos olhos de Jesus, seria uma ação errada afastar a multidão atenta de seu Mestre celestial por
causa do pão diário. Lembremo-nos da resposta que Jesus deu a Marta (Lc 10.41s). A boa parte,
afinal, é ouvir a palavra de Deus. O “ouvir” precisa vir antes do “trabalhar”.
Por isso o Senhor deu sua resposta aos discípulos de acordo com o plano que traçara
anteriormente: Dêem-lhes de comer vocês mesmos. Jesus não quer deixar a multidão sem comida
até à noite. Sua instrução aos discípulos foi dêem-lhes vocês próprios de comer. Eles, porém, não
entenderam a sua solicitação. De onde, enfim, tirariam comida para tanta gente? Em breve começará
a ficar escuro, e eles estão num lugar ermo. Os lugares onde se poderia comprar comida estão
distantes. – Eles devem ser criticados, então, quando querem enviar o povo para a região habitada?
Eles não tinham considerado que Jesus poderia realizar um milagre.

17  Mas eles responderam: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.
Dessa maneira eles querem mostrar ao Senhor a inutilidade de segurar a multidão, pois com o
pouco que têm não é possível alimentar ninguém. Que seria isso, distribuído entre tantas pessoas? O
Senhor, no entanto, queria que seus alunos pudessem olhar com ele para a riqueza de Deus. Para
realizar o milagre da alimentação não havia necessidade dos cinco pães e dois peixinhos. Mas o
Senhor queria conduzi-los de sua própria impotência para a riqueza divina. Eles deveriam constatar:
Temos o mesmo que nada, mas em Deus há riqueza, e dessa plenitude celestial nós podemos nos
abastecer!

18  Então, ele disse: Trazei-mos.
Jesus começa a agir. Simplesmente transpõe todas as preocupações dos discípulos. Solicita deles
esse prato de um diarista: cinco pães e dois peixes. E nas mãos dos discípulos Deus multiplica tanto
o que é pouco, que ainda sobram doze cestos. Na substância desses precários alimentos o amor e a
onipotência de Deus agiram de acordo com leis divinas.

19  E, tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a relva, tomando os cinco pães e os dois 
peixes, erguendo os olhos ao céu, os abençoou. Depois, tendo partido os pães, deu-os aos 
discípulos, e estes, às multidões.
Jesus, portanto, convida as pessoas para sentar. – Os planaltos atrás de Betsaida de Júlia vicejam
no mais belo verde da primavera. Na Palestina a primavera já começa no meio de fevereiro. Ou seja,
ela já estava adiantada, de acordo com Jo 6.4: “Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus”. Nesse
entardecer de primavera acontece, pois, o solene momento. O Senhor segura nas mãos os  pães e
peixes. Está de pé no meio do povo, lembrando -nos a atuação de um pai de família. Ele agradece a
Deus, como faz o pai no meio de sua  família. Essa bênção não acontece porque é costume, mas
porque através de Cristo a fórmula é preenchida com novo conteúdo. É a sua presença. Ela abre o
acesso para o Pai (Jo 1.51).
O Filho agradece ao Pai celestial por seus benefícios na natureza e na sua revelação. Esse
momento deve ter causado uma impressão singular sobre os presentes. O povo e, evidentemente,
também os discípulos devem ter visto nesse gesto que a ação de graças de Jesus produziu milagres. O
método milagroso que traz bênçãos é agradecer pelo pouco que temos.
De acordo com o costume judeu, o chefe da família proferia, no início de cada refeição, sobre o
pão que ele partia, uma oração de agradecimento, chamada de “bênção”. Esse costume judaico
remontava a tempos muito antigos. Aos ancestrais que haviam saído do Egito Deus dera muitas
oportunidades para agradecer e louvar. No deserto demonstrou ao povo seu poder e sua misericórdia.
Lá também Deus os tinha abastecido, como um pai de família, com carne, pão e água. Assim como
outrora Deus se revelara no AT, assim Jesus estava novamente no meio do povo e lhe oferecia
alimento.

20  Todos comeram e se fartaram; e dos pedaços que sobejaram recolheram ainda doze cestos 
cheios.
O resultado da alimentação por Jesus foi que houve o suficiente, mas não com pouco, e sim com
uma sobra maior do que antes tiveram nas mãos. Intimamente ligada à oração de gratidão está a
instrução de Jesus de que deveriam recolher as migalhas em cestos. Um bem conquistado não pode
ser tratado com menosprezo.

21   E os que comeram foram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças.
O último versículo indica o número de pessoas presentes. Como a festa da Páscoa já estivesse
próxima (o milagre aconteceu um ano antes da morte do Senhor), o povo começava a sair em
números maiores. Por isso é compreensível que peregrinos que rumavam para Jerusalém haviam se
juntado à multidão atenta. Por esse motivo, em breve decurso de tempo, a massa, reunida dentre as
cidades da margem do lago, se havia multiplicado rapida mente. Os autores sinóticos nos informam o
número: cinco mil homens. O acréscimo “sem mulheres e crianças” tem a seguinte razão: O costume
oriental obriga as mulheres e crianças a se manterem separadas. Isso esclarece por que foram
somente os homens que se haviam sentado “na ordem preestabelecida”. Entretanto, o total de pessoas
era muito maior que cinco mil, daí o adendo no versículo:  além de mulheres e crianças. Os
discípulos seguramente estavam envergonhados por sua pequena fé. Como estariam se sentindo?
No Oriente se permanecia calado durante a refeição. Isso favorecia a meditação.
É fácil imaginar que as pessoas reunidas levaram para casa uma impressão inesquecível do
Senhor. Segundo Jo 6, essa impressão causou um entusiasmo espiritual espontâneo, não intencionado
pelo Senhor.
Esta história da alimentação das cinco mil pessoas é a única de toda a atividade de Jesus na
Galiléia que é comum a todos os quatro evangelhos (Mt 14.13ss; Mc 6.30; Lc 9.10-17; Jo 6). Por isso
ela se constitui numa importante braçadeira para unificar a exposição joanina e sinótica. Em todos os
quatro evangelhos esse milagre é exposto como auge da atividade de Jesus na Galiléia. Logo depois,
segundo os sinóticos, ele começa a revelar aos discípulos o mistério de seu iminente sofrimento (Mt
16.3-28; Mc 8.27-38; Lc 9.18-27).
No evangelho de João é ocasionada, por meio desse milagre, uma crise decisiva na obra de Jesus
na Galiléia. O discurso que lhe segue em Jo 6 aponta para a proximidade da morte violenta.
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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