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50 A confissão de Pedro, Mc 8.27-30

A confissão de Pedro, Mc 8.27-30 
(Mt 16.13-20; Lc 9.18-21; Jo 6.67-71)

27-30 Então, Jesus e os seus discípulos partiram para as aldeias de Cesaréia de Filipe; e, no caminho, perguntou-lhes: Quem dizem os homens que sou eu? E responderam: João Batista; outros: Elias; mas outros: Algum dos profetasEntão, lhes perguntou: Mas vós, quem dizeis que eu sou? Respondendo, Pedro lhe disse: Tu és o CristoAdvertiu-os Jesus de que a ninguém dissessem tal coisa a seu respeito.

Em relação à tradução
   a
     Mt 16.13 especifica melhor: a região de Cesaréia de Filipe. A frase seguinte mostra que não devemos
concluir que Jesus foi ao encontro dos moradores das aldeias.
   b
     Cesaréia significa “(cidade) do imperador (de César)” e estava situada 40 km ao norte de Betsaida em
uma das fontes do Jordão, ao sopé do monte Hermom. A qualificação “de Filipe” liga-a ao governador
Herodes Filipe, que ampliara esta pequena localidade na fronteira norte do seu domínio para ser sua capital,
mudando seu nome em homenagem ao imperador romano. Naquela época havia várias destas “cidades do
imperador”, entre as quais “Cesaréia à beira do mar” (At 12.19ss). Era uma maneira de pequenos soberanos
dependentes de Roma comunicarem sua submissão.
   
c
     Bornhäuser (p 129) destacou o numeral “algum” aqui: o único, o profeta especial, o profeta de Dt
18.15,18, que efetuaria a salvação escatológica, como segundo Moisés (cf. J. Jeremias, ThWNT IV, 862-864). Jo 6.14s também denuncia a opinião popular de que este profeta seria idêntico ao Messias (cf. At 3.22;
7.37). Neste caso, uma parte das pessoas aqui estariam considerando Jesus como o Messias. Em termos
lingüísticos, porém, o sentido de “algum (outro) dos profetas” está mais próximo. Os textos paralelos de Mt
e Lc esclarecem isso, bem como Mc 6.15. Senão, Pedro teria simplesmente repetido uma opinião popular, no
v. 29.
   
d
     Pedro falou em sua língua materna aramaica machiha, o que em hebr. soa machiah. Quando este termo
era acolhido no grego como estrangeirismo, um “s” final era acrescentado: Messias. Assim está no NT em Jo
1.41 e 4.25, nas duas vezes logo traduzido por christos no grego. Latinizada, a palavra saiu como “Cristo”
para missões mundiais. Em português o significado é “ungido”, portanto não se trata de um nome próprio
como “Jesus”, mas de um título (real), como “Filho de Deus”. Com a ligação freqüente e firme com “Jesus”
o termo acabou adquirindo a função de nome próprio na linguagem cristã. A função de título passou para o
“Senhor” anteposto: Senhor Jesus Cristo.
Observações preliminares
1. Contexto. Quer se tenha seguido diretamente à cura do cego em Betsaida, quer tenha acontecido já antes
na viagem pelo exterior, em todo caso, este evento marca o início do “caminho para Jerusalém” (opr 2 à
divisão principal 8.27-10.52). “Cesaréia de Filipe” bem no norte representava para os judeus o começo do
território habitado pelo povo de Deus, pois ficava na altura da antiga Dã, e “de Dã até Berseba” era a
expressão comumente usada no AT para a extensão da Palestina (Jz 20.1; 1Sm 3.20). Jesus, portanto, não
queria ficar no exterior, mas voltar para terras judaicas, disposto a sofrer (cf. 7.24). O caminho para Jerusalém,
porém, não era perigoso só para Jesus, mas também para os seus (cf. 10.32). Por isso ele se viu motivado a
pressioná-los para que se decidissem e se vinculassem firmemente a ele.
2. O Messias no AT e no judaísmo. A unção, em que se derramava óleo sobre a cabeça de alguém, aparece
no AT trinta vezes como ato oficial em reis, sete vezes em sumos-sacerdotes e cinco vezes em profetas. Os
ungidos podiam ser chamados de “filhos do óleo” (Zc 4.14), em atitude de admiração. Eles recebem glória,
poder e força. O primeiro rei ungido foi Saul. Logo no seu caso a unção está ligada à tarefa de salvar Israel em
lugar de Deus (1Sm 9.16). A palavra “salvar” depois aparece mais vezes na história de Saul. Ela se refere não
só a ameaças exteriores, mas também a condições desfavoráveis na vida social do povo. Desde então o
conceito de salvador acompanha o título de messias. A fé no messias Jesus também “salva” (5.34; 10.52;
16.16).
Depois que a monarquia de Israel foi destroçada, o povo sofredor começou a ansiar com cada vez mais
fervor por um messias salvador escatológico. As definições exatas de como ele seria, no entanto, eram muito
divergentes. Uns diziam que o Messias seria descendente de Davi, outros achavam que não. Seria um rei
guerreiro ou pacífico, ou um profeta, sacerdote ou mestre totalmente apolítico. Alguns esperavam por dois
ungidos. Havia quem o considerasse personagem principal ou secundário, imortal ou mortal. A lista não é
exaustiva (cf. van der Woude, ThWNT IX, 518). Para alguns, ele poderia ter até os traços de uma figura
extraterrestre. Nas primeiras décadas do século I, a expectativa política e militante aumentou. Os radicais, os
zelotes (cf. 12.13ss), conquistaram a supremacia e acabaram arrastando todo o povo judaico para a catástrofe
do ano 70. Nos dias de Jesus, portanto, anunciar-se como Messias implicava estar preparado para a revolução.
Os romanos também agiam imediatamente.
3. “Confissão” de Pedro? Alguns expositores consideram o título tradicional totalmente errado.
Segundo”o v. 30, tratava-se de uma confissão errônea de Pedro, segundo o v. 33 até de um empreendimento
satânico. O trecho poderia ser sobrescrito melhor assim: “A correção de Pedro” (este é o sentido p ex em
Cullmann, p 287; Hahn, p 174, 228; Schreiber, p 195,197,238). Realmente, o trecho tem seu conteúdo tão
importante em espaço muito curto e termos muito econômicos: quatro frases simples, começando com “e”,
expressam as afirmações, sem a mínima ajuda à compreensão dos detalhes. Assim é tradição antiga e
respeitada, usada com freqüência, sem que floreios ou acréscimos se fixem. Mesmo assim, a interpretação
ponderada pode comprovar que o título tradicional tem sua razão de ser.
     27,28     Então, Jesus e os seus discípulos partiram. Desde 6.30 temos a primeira vez “Jesus”. Ao
mesmo tempo a menção específica dos discípulos anuncia um trecho que trata deles, neste caso uma
divisão principal inteira em que o ensino dos seguidores passa para o centro. Semelhante a 7.24,31,
lemos que Jesus, ao que parece com o objetivo de ficar sozinho (cf. Lc 9.18), se afastou para regiões
pouco habitadas: para as aldeias de Cesaréia de Filipe.
E, no caminho, perguntou-lhes. “No caminho” não quer destacar que Jesus falava enquanto
andava, mas que nele o plano de ir para Jerusalém disposto a entregar-se (opr 2 a 8.27-10.52) já
estava delineado. Sua pergunta está vinculada a esta intenção. Só ficamos sabendo de uma parte da
conversa: Quem dizem os homens que sou eu? É o próprio Jesus quem faz agora a pergunta básica
do evangelho (qi 8c), sobre o “mistério do reinado de Deus” (4.11). Para conduzi-los para a confissão
própria, ele primeiro lhes pergunta a opinião dos que estão do lado “de fora” (4.11), sem terem sido
iluminados. É neste sentido que Marcos sempre usa o termo “homens” (1.17; 7.7s; 9.31; 10.27;
11.30). Naturalmente não são os pagãos que estão em vista, mas os conterrâneos em casa, entre os
quais ele atuara e pregara. E responderam: João Batista; outros: Elias; mas outros: Algum dos
profetas. Em poucas palavras o conteúdo de 6.14,15 é recapitulado (veja lá). As respostas espelham
a decepção que se espalhara entre o povo (cf. também Jo 6.66), Quase ninguém ainda o considerava
o Messias. Ele podia ser alguém que prepara o caminho, mas um papel decisivo não lhe atribuíam
mais. Ele provara ser muito fraco, pouco enérgico. Portanto, era necessário “esperar outro” (Mt
11.3).
     29     Então, lhes perguntou. A primeira pergunta fora somente um prelúdio. Em contraste com os
“homens”, ele agora quer saber: Mas vós, que estáveis “comigo” (3.14) desde a Galiléia (15.41), que
fostes testemunhas oculares dos meus atos de poder e testemunhas auriculares da minha pregação, a
quem expliquei tudo em ensinos à parte (4.34), quem dizeis que eu sou? Esta passagem mostra que
a vocação principal destes escolhidos consistia em reconhecer sua identidade para poder confessá-la
(cf. 3.14). Dormia neles o potencial especial para a confissão do Messias. Pela condução criativa e a
pergunta do mestre, ela é atraída para fora. Em condições genuínas de confissão acontece mais que
uma simples recitação de matéria doutrinária decorada. O Espírito Santo proporciona clareza e
certeza (Mt 10.18-20; 16.17; 1Co 12.3). Respondendo, Pedro lhe disse: Tu és o Cristo. Pedro é,
aqui como em 8.33; 9.5; 10.28; 11.21, o porta-voz de todos, pois todos tinham sido perguntados e
Jesus fala novamente a todos no versículo seguinte. Mais ainda: Pedro fala – exatamente pelo poder
do Espírito Santo – como a igreja depois da Páscoa, pois confessa Jesus como Messias bem à luz do
seu sofrimento (cf. v. 21). Da perspectiva humana ele não poderia, como qualquer outro, reunir em
seus pensamentos o Messias, a necessidade de sofrer e a realidade do sofrimento. Como ser humano
ele era um daqueles a quem Jesus teve de perguntar nos v. 17,21: “Ainda não compreendestes?”
Como Jesus avaliava seu pensamento humano, o v. 33 mostrará. Isto é o que marca esta confissão.
Pedro excedeu a Pedro neste momento. Ao anunciar este candidato à cruz como Messias, ele estava
confessando um tipo totalmente diferente de Messias do que aquele que ocupava as mentes do seu
tempo.
     30     Advertiu-os Jesus de que a ninguém dissessem tal coisa a seu respeito. Esta “advertência”
naturalmente enquadra as resistências (cf. 1.25 e 7.36n). Apesar disso devemos registrar que as
ordens de manter silêncio (cf. 1.44; 5.43; 7.36; 8.26) são uma confirmação indireta. É necessário
guardar silêncio do que é verdadeiro, e isto por certo tempo. Neste caso faltava à proclamação
pública o estabelecimento público da sua condição de Messias pela cruz e ressurreição (cf. v. 31ss).
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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