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51 Começo do ensino sobre o sofrimento e correção de Pedro, Mc 8.31-33

Começo do ensino sobre o sofrimento e correção de Pedro, Mc 8.31-33 
(Mt 16.21-23; Lc 9.22)

31-33 Então, começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que, depois de três dias, ressuscitasse. E isto ele expunha claramente. Mas Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo. Jesus, porém, voltou-se e, fitando os seus discípulos, repreendeu a Pedro e disse: ArredaSatanás! Porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens.

Em relação à tradução
   a
     Cf 1.45n.
   b
     Uma frase que começa com “que” também pode ser traduzida como discurso direto. Neste caso,
porém, Marcos costuma enfatizar: “Ensinava e dizia:” (4.2; 9.31; 11.17; 12.35,38). Aqui pode tratar-se do
registro do conteúdo do novo ensino.
   
c
     É digno de nota que este “é necessário” (dei) falta totalmente no AT – as línguas semitas não têm
equivalente para ele. A LXX o insere em alguns pontos e o NT o usa 101 vezes. Com isto se cristianiza uma
expressão do pensamento grego. Os gregos gostavam de falar de um “é necessário” premente, uma força
cósmica impessoal e inescapável, ao qual até os deuses tinham de submeter-se. Tudo transcorre como que
sob uma lei da natureza, tudo é natural. Àquele que pensa, só resta o fatalismo. Mudo, com um mínimo de
emoção, ele suporta seu destino: “Precisa acontecer!” No NT este “é necessário” anuncia a fidelidade de
Deus. Suas promessas se cumprem. Isto fica bem claro especialmente em Mc 9.11-13; Mt 26.54; Lc 24.25-27. O sentido poderia ser cada vez: “Como está escrito” (Jeremias, Abba, p 201, nota 405).
   
d
     Quando archiereus está no plural, geralmente não é traduzido por “sumo sacerdote”, um título
reservado ao presidente do Conselho Superior (Sinédrio). Neste caso trata-se dos membros da aristocracia
sacerdotal, que formavam um dos três grupos que lideravam o Sinédrio.
   
e
     “Depois de três dias” tem o mesmo sentido de “no terceiro dia” em Paulo, Lucas e Mateus e significa,
como em Lc 13.32, “depois de amanhã” (Delling, ThWNT II, 259s). Além da indicação de tempo, há outros
sentidos subentendidos. Em Israel os mortos ficavam em exposição ainda durante três dias, para confirmar a
morte (Gnilka II, p 334). Desta maneira, o termo significativo “levantar” estaria definido como ressurreição.
Pode-se também levar em conta que as línguas semitas, para “alguns, uns poucos”, diziam “três”, na falta de
termo melhor. Neste sentido, “três dias” pode significar “logo depois” (J. Jeremias, Theologie, p 271). Disto
também resulta um sentido teológico; veja o comentário.
   
f
     parresia poderia significar “em público”, como em Jo 18.20 (cf. E. Hirsch; Berger; Schmithals, p 387).
Contra isto vai aqui, porém, a ordem de guardar silêncio do v. 30 e o próprio fato de que o ensino sobre o
sofrimento diz respeito ao grupo dos discípulos. A palavra também pode denotar a coragem ousada e cheia
de espírito como em At 2.29; 4.13; 9.27s (cf. Pesch II, p 53). Para nossa passagem, porém, é decisivo o
sentido de “claramente” como em Jo 11.14; 16.25ss, e não mais com insinuações e figuras. A intenção é
exatamente indicar a diferença com antes (cf. Mt 16.21).
   
g
     opiso mou está em 1.17; 8.34 como chamado para seguir Jesus. Será que Pedro deve inscrever-se
novamente no quadro se seguidores (cf. Pesch II, p 54,56; Gnilka II, p 17)? Esta interpretação, porém, não
considera a ordem “sai!” que precede a referência a Satanás, que lembra a expulsão de Satanás em Mt 4.10.
   
h
     O termo hebr. satan pode indicar no AT qualquer adversário humano (1Sm 29.4; 1Rs 5.18)e até um
anjo que o enfrenta (Nm 22.22,32). No NT o termo é sempre nome próprio do poder oposto a Deus como tal,
o diabo.
   
i
     phronein aparece em Marcos só aqui, mas compare com Rm 12.3; Cl 3.1s. Trata-se de algo mais do
que meros processos de raciocínio; a referência é a uma atitude interior.
Observações preliminares
1. Contexto. Apesar do fato de que a introdução solene anuncia uma época totalmente nova, pode-se
identificar conexões estreitas com o trecho anterior. A primeira é a repetição das palavras-chave “repreender”
nos v. 30,32,33 e “homens” nos v. 27,33; naturalmente os endereçados “eles” são os discípulos dos v. 27,29.
Uma concordância interna, porém, também pode ser percebida. Como em 1.13, por ocasião da conformação
de Jesus pela voz do céu, também aqui, à confissão do discípulos, segue uma tentação de Satanás. Por fim,
temos aqui a explicação para a ordem de guardar silêncio do v. 30 e também das outras passagens.
2. Transmissão. Wrede (p 88,91) viu aqui “a expressão nua e crua da perspectiva da igreja, e nada mais”.
Ele é seguido hoje em dia principalmente pela escola de Bultmann (p ex Bultmann, p 163). Uma comparação
literária acurada, porém, não confirma esta tese, e o conteúdo do v. 31 é por demais comedido. Falta qualquer
indício do sentido salvífico da morte de Jesus, que era comum na igreja depois da Páscoa. A palavra procede
realmente de Jesus, se bem que mesmo assim traz vestígios de uso em igrejas que não eram de origem judaica.
Ao lado de um conjunto básico de elementos antigos (p ex “Filho do Homem, depois de três dias, ressuscitar,
Satanás”) há vocábulos tipicamente gregos (“era necessário sofrer, cogitar”). Que a transmissão de antigas
tradições de Jesus trabalhou nos textos pode-se ver na própria comparação da terminologia nos três sinóticos.
3. Natureza dos ensinos sobre o sofrimento. Para os seus contextos, veja opr 3 a 8.27-10.52. A
denominação habitual “anúncios do sofrimento” é inexata. Uma que estas declarações não tratam somente do
sofrimento, mas geralmente também da ressurreição (8.31; 9.31; 10.34). Simplesmente morte, com a qual tudo
acaba, não existia para Jesus. Ele ensinou aos discípulos uma valoração totalmente diferente do seu
sofrimento. Este não punha um fim ao seu caráter de Messias, que os discípulos tinham acabado de
reconhecer. Pelo contrário, este era o caminho desejado por Deus para sua glorificação. Era isto que a
ressurreição provaria. Se acrescentarmos este tom às declarações de Jesus sobre o sofrimento, poderemos
continuar falando de “anúncios do sofrimento”. Agora temos de considerar ainda outra correção deste termo.
Esta tem a ver com a segunda parte: de acordo com 8.31 e 9.31 não se trata de profecia, mas de ensino. O fato
de Jesus “ensinar” quer dizer que ele expunha para si mesmo e para eles a vontade de Deus, com base na
Escritura, para que fosse obedecida. A ênfase, portanto, não estava em que Jesus iria sofrer, mas que ele
precisa e quer sofrer, e que eles devem imitá-lo. No terceiro caso (10.32-34), Jesus realmente passou por um
momento para o discurso profético, só para voltar logo ao tom de ensino. A predição do futuro, portanto, não
era uma questão de visão profética, mas de exegese. A categoria básica é o ensino.
4. O Filho do Homem. Na opr 3 a 2.1-12 já tratamos do conceito de Filho do Homem no que tange à sua
difusão no judaísmo. Agora temos de esclarecer outros pontos.
a. Freqüência. Ao mesmo tempo em que Jesus era muito comedido com o uso do título de Messias (cf. v.
31), enquanto os primeiros cristãos não usaram outro título com tanta freqüência e unanimidade (umas 330
vezes no NT), com “Filho do Homem” acontece exatamente o contrário. Nos demais escritos do NT temos só
quatro referências, enquanto nos evangelhos se contam 82 passagens, todas sem exceção da boca de Jesus,
nenhuma vez usado pelos discípulos, e também nenhuma vez em contexto de conversa. É evidente que este
título tem uma relação especial com o senso de envio de Jesus e não procede do pensamento teológico da
comunidade posterior.
b. Sentido do termo. No AT não existe outro substantivo que seja usado mais vezes do que “filho” – um
sinal da sua utilidade multiforme. Primeiro ele pode denotar descendência, também no sentido mais distante.
Até filhas, netos e quaisquer descendentes podem ser chamados de “filhos”. Também os habitantes de uma
cidade são seus “filhos”, e os alunos de um profeta são seus “filhos”. Ao uso genealógico junta-se o exclusivo.
“Filho” serve para indicar um exemplar único de uma espécie (cf. também 2.19n). Se a espécie, p ex, é
“gado”, então “filho do gado” é uma cabeça de gado. Se a espécie é “desgraça”, “filho da desgraça” é alguém
que não escapará dela. Quando se trata da espécie “homem”, “filho do homem” simplesmente é um dos
homens, uma pessoa isolada, comum, sem maior destaque. Neste sentido p ex o profeta Ezequiel em 2.10 é
chamado de “filho do homem”, que pode ser traduzido: “Você, ser humano individual!” (BLH: “homem
mortal”, com a idéia de “criatura!”). Surge um problema quando esta expressão precisa ser traduzida do hebr.
ou do aramaico (Dn 7.13 foi transmitido em aramaico!) para idiomas que não conhecem o uso exclusivista de
“filho”. Isto vale para o grego (huios tou anthropou) assim como para o nosso “filho do homem”. Muitos
leitores da Bíblia compreendem erradamente este título como contrapartida a “Filho de Deus”, no sentido de
dizer que Jesus não procede somente de Deus mas também do ser humano, de Maria. Ele é “filho de Deus e de
Maria”, o que até cantamos pensando em sua majestade e humildade. Jesus, porém, pensava com este título
exatamente em sua majestade e origem de Deus, como pressupõe o contexto de Dn 7.13. Por esta razão, os
primeiros missionários também não levaram o título para as regiões de cultura grega. Eles não tinham nenhum
interesse em mal-entendidos. Só para os evangelhos a fidelidade da transmissão exigiu a repetição do termo
semita. Quando Paulo, porém, chegava em textos em que “filho do homem” estaria em hebr., ele escrevia
corretamente “o homem”, ou seja, o novo e verdadeiro Adão criado por Deus (Rm 5.15; cf. 1Co 15.21; Cl
3.9s; Ef 4.24). Esta é a tradução de “filho do homem” entendida corretamente, contendo todo o seu sentido
original.
c. Relação com Daniel e Enoque. De modo indireto, a passagem do Filho do Homem em 2.10, e bem
claramente as declarações como 13.26 e 14.62, mostraram que Jesus derivava seu envio de Dn 7. Nenhuma
vez suas declarações sobre o Filho do Homem contêm ecos de outras passagens do AT, como de Ezequiel e
dos Salmos. Portanto, para Jesus o Filho do Homem, de acordo com Dn 7, é o representante do reino de Deus
escatológico, especificamente em seu caráter humano, em contraste com os reinos anteriores, de caráter
sanguinário. Ele é o segundo Adão, criado por Deus, que lhe agrada e foi exaltado à sua presença (cf. opr 2 a
2.1-12). Agora, e não antes, todos os anseios das pessoas que sofrem serão atendidos. Alguns círculos judeus,
todavia, ocuparam-se adiante com este personagem de Daniel. Um exemplo disto é o livro de Enoque, que
também era tido em alta conta pelos primeiros cristãos, como demonstram perto de 60 pontos de contato no NT
(veja o apêndice da 26ª edição do NT grego de Nestle-Aland, de 1979). Por capítulos sem conta, o Filho do
Homem ocupa o centro das atenções ali. Ao contrário de Daniel, porém, ele executa ativamente o juízo, e às
vezes também é chamado de “Messias”. O Filho do Homem juiz também é encontrado várias vezes em Jesus
(p ex em 8.38, especialmente em Mt 25.31ss). Assim, vemos que Jesus fazia uso da linguagem de esperança
do seu tempo. Tenha, porém, usado Daniel ou Enoque, ele o fez de modo criativo e os ultrapassou com uma
profundidade surpreendente. Isto o comentário do nosso trecho mostrará. O cumprimento sempre excede a
profecia, e esta, medida por seu cumprimento, só é “parcial” (1Co 13.9).
Um detalhamento da questão por que Jesus falou do Filho do Homem sempre na terceira pessoa, como de
alguém outro que não dele mesmo, não cabe em nosso escopo. Pelo contexto da maioria das passagens,
porém, não pode haver dúvidas de que ele se identificava com este personagem.
     31     Então, começou ele a ensinar-lhes. De acordo com o contexto, trata-se do ensino aos discípulos,
não em público (cf. 4.10). O ensino particular era bem conhecido no judaísmo. Nem todos os
assuntos eram apropriados para todos (Jeremias, Theologie, p 243ss). Neste caso, o objeto do ensino,
bem diferentemente dos costumes judaicos, era o próprio Jesus como o Filho do Homem. Em onze
das doze passagens na segunda metade do livro, este tema é levantado sempre no círculo íntimo. Só
na duodécima e última passagem ele explode em público e acarreta as conseqüências mais pesadas
possíveis (14.62).
Jesus coloca este título diretamente no lugar do “Messias” do v. 29. Ele não repete “Messias”, mas
também não o suspende. É bem parecido com 14.62: uma confirmação brevíssima, para em seguida
falar do Filho do Homem segundo Dn 7.13. Lá como aqui, Jesus não usurpa a majestade do Messias.
Não acontece uma retirada para o recolhimento e a contemplação do além, nem uma renúncia do
reinado sobre a terra e seus povos e reinos. Este reinado, porém, é detalhadamente descrito.
Em Israel ninguém teria a idéia de que poderia haver a instalação do reinado de Deus sem que se
estabelecesse o direito, o que inclui julgamento. O livro da Consolação de Isaías também não pôde
celebrar deixando de falar de culpa e pecado (Is 56.1; 42.1-4). Por esta razão, Jesus também anunciou
um Filho do Homem que fosse juiz (opr 4c). O julgamento acontece, só que – parece brincadeira – na
pessoa errada. Acontece algo que nenhum coração humano jamais imaginou, uma transferência
estonteante de culpa: era preciso que o próprio Filho do Homem sofresse muitas coisas; o próprio
juiz arca com a condenação. Desta perspectiva, não é estranho que Jesus fosse levado de Dn 7.13
para Is 53. No seu ponto de vista, o personagem celestial uniu-se ao personagem sofredor do
obediente Servo de Deus. Este é o aprofundamento imenso de Dn 7: a chegada radiante do reinado de
Deus aconteceu em um ato misterioso da graça.
Esta transferência da culpa para o inocente também se espelha no evangelho de Marcos no fato de
que, nas passagens em que o povo ou seus líderes se endurecem, sempre brotam novas iniciativas de
salvação. Não seguem ameaças de destruição ou descrições do inferno, mas um impulso novo e ainda
mais intenso da graça. No momento em que se tomou a decisão de matá-lo, Jesus lançou as bases
para um Israel renovado (3.6,13s). Quando o transformam em demônio, ele começa com parábolas
do reino de Deus (3.22; 4.1ss). Quando Nazaré o rejeita, ele dá início ao envio dos discípulos (6.5ss).
Numa situação em que as pessoas não querem mais levar seus pecados a sério, Deus é o único a fazê-lo, colocando-os sobre o Filho do Homem. Deste modo, este se conscientiza da sua função de juiz e
faz o direito prevalecer sobre o mal. João Batista já tinha anunciado o juiz: o machado já está posto à
raiz da árvore, o batismo com fogo é iminente (Lc 3.9). Na Sexta-feira da Paixão, contudo, ele, este
juiz, apareceu como o supliciado. Este era o senso de envio de Jesus, esta necessidade de sofrer. Sua
condição de Filho manifestou-se em sua obediência, e sua majestade culminou em sua humilhação
(cf. 2.10).
Este é necessário não é uma questão de destino (cf. v. 31n), mas exatamente uma questão de
quebrar o destino. Um Deus que só é fiel a si mesmo e à sua criação penetra nas supostas leis do
nosso mundo e o busca de volta para casa. O momento por excelência de rompimento deste “é
necessário” é a história de sofrimento do Filho do Homem Jesus.
Ele até tem de sofrer muitas coisas. Michaelis tentou estabelecer uma relação com Is 53.4,11
(paschein com o hebr. sabal), fazendo com que a plenitude do sofrimento fosse explicada pelo todo
da culpa da humanidade, que o Servo de Deus teve de carregar. Dificilmente, porém, para Marcos o
termo tem todo esse conteúdo, pois ele também o usa para a mulher com hemorragia, que
profanamente “muito padecera à mão de vários médicos” (5.26). A literatura judaica tem muitos
exemplos do significado não-messiânico desta expressão. Portanto, o texto não tem base suficiente
para uma ligação direta com Is 53.
A profundidade do seu sofrimento se completa com a necessidade de que o Filho do Homem fosse
rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas. Entra em cena o novo e
último grupo de adversários, a nata do judaísmo oficial, que até então só agira por intermediários
(3.22; 7.1; 8.1). Ele é composto dos cabeças (anciãos) da aristocracia leiga, dos seis a dez sacerdotes
mais importantes (veja a nota ao versículo), que formavam a comissão de governo, e pelos escribas,
que eram os especialistas jurídico-teológicos. Estes três grupos são integrantes fixos do Sinédrio
(Conselho Superior, cf. 15.1). A rejeição de Jesus, portanto, não será um desvio ocasional, mas um
“não” totalmente oficial, bem pensado e de responsabilidade unânime de Jerusalém. Esta solidão
notória no meio do povo messiânico faz parte da medida de sofrimento do Messias. Antes do seu
aniquilamento físico, ele será “rejeitado”, ou seja, aniquilado moralmente. Várias vezes a Escritura
destaca a vergonha como o cerne dos seus sofrimentos (2Tm 1.12,16; Hb 6.6; 11.26; 12.2; 13.13; 1Pe
4.12-14). Mais uma vez fica de fora uma relação direta com Is 53 (talvez no v. 3), porque o paralelo
desta rejeição em 12.10 nos leva ao Sl 118.22. Os construtores, isto é, os especialistas que entendem
do assunto, analisam a pedra e a jogam fora com desprezo.
Nada é poupado ao Filho do Homem: e que fosse morto. Com isto sua medida ultrapassa os
sofrimentos do justo de Sl 18.22 e 118. Lá os vagalhões também ficam altos, muito altos, mas no
último instante Deus interfere: “Não morrerei; antes, viverei e contarei as obras do Senhor” (Sl
118.17; cf. opr 4b a 15.20-41). Aqui, porém, chega-se ao extremo – conforme a vontade de Deus, por
intermédio do seu próprio povo e às mãos dos pagãos.
Com isto, porém, o é necessário ainda não está esgotado: e que, depois de três dias,
ressuscitasse. A palavra “ressuscitar”, lit. “levantar” (anhistanai), também está no Sl 20.9; 40.9-11
com o sentido de experimentar a ajuda de Deus. Isto, porém, é só um paralelo de palavras, não de
conteúdo. Aqui não se trata de “levantar-se” depois de alguma derrota ou desânimo, mas de
ressurreição. Mais uma vez o contexto não aponta diretamente para Is 53 (como o v. 10s para 52.13).
O acréscimo depois de três dias conduz para Os 6.1s. Estes versículos serviam de passagens
cardeais para os judeus do século I para a ressurreição. A referência ao prazo curto (veja a nota ao
versículo) reflete a promessa de fidelidade de Deus. Ele não se esquecerá da intervenção salvadora,
não dormirá, não adiará (cf. Lc 18.8). Ele estará à altura e ressuscitará o Filho do Homem
fisicamente, confirma-lo-á moralmente e reabilita-lo-á juridicamente. Assim Dn 7.14 entra em vigor:
“Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino. […] O seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o
seu reino jamais será destruído.”
O v. 31 não diminuiu em nada o caráter messiânico depois do v. 29. A confissão de Pedro não foi
nem corrigida nem limitada, antes sublinhada espantosamente por uma interpretação da teologia do
sofrimento. Ao mesmo tempo, a ordem de guardar silêncio do v. 30 e todas as outras tiveram a sua
explicação. Quem ainda não sabia nem entendeu que Deus rompe e elimina o sofrimento do mundo
por meio do sofrimento do seu Filho que foi condenado em nosso lugar, quem ainda nos faz
assombrar com outros modelos de salvação, especialmente os zelotes, não deve falar de Jesus Cristo.
A confissão do Cristo teve seu vínculo definitivo somente com o papel sacrificial do Cristo. Então ele
mesmo confirma: “Eu sou” (14.62).
     32     Nesta altura Marcos encaixa um comentário importante: E isto ele expunha claramente. A mesma
frase, mas sem o “claramente”, também está em 2.2; 4.33 (“anunciava-lhes a palavra”, “lhes expunha
a palavra”), de modo que “a palavra”, aqui e lá, deve abranger toda a mensagem de Jesus (cf. o uso
também em 4.14s), não somente certa declaração profética (assim também Pesch II, p 53). A
novidade é que Jesus não anuncia o reinado de Deus no círculo mais próximo de modo impessoal,
mas enuncia o segredo deles com todas as letras: sua cruz e ressurreição. Ele prega a si mesmo como
o Filho do Homem que sofre. Esta revelação faltara até agora.
Mas Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo. Com a atitude com que alguém
superior se aproxima de um fraco, ou o conhecedor do que está inseguro, Pedro se achega ao seu
mestre. “Reprovar” é, tanto no AT como em Jesus, uma expressão de indignação santa (cf. v. 30).
Assim, Pedro pensa estar agindo em nome de Deus. Ele retruca teologicamente, não por talvez
“sonhar com uma vida sem sofrimento” (Haenchen, p 296) e “pensar em vida terrena e bem-estar”
(Bertram, ThWNT IX, 228). Este homem, que abandonara tudo para seguir a Jesus, ficara ao lado
dele em todos os conflitos e o acompanhara em todas as fugas, não era um “desertor” (cf. 10.28;
14.31,54,66). Não; o que o fez intervir foi a convicção de que Jesus estava se posicionando contra
Deus ao anunciar um christos pathetos, um “Cristo sofredor” (At 26.23). Quaisquer que sejam as
tribulações destinadas ao Messias como a todos os justos neste mundo, derrotado ele jamais seria. A
injustiça não triunfaria, pelo contrário, ele acabaria com ela. “Nós temos ouvido da lei que o Cristo
permanece para sempre”, respondem os ouvintes em Jo 12.34 às insinuações sombrias de Jesus. Para
eles, o Messias estava ligado à idéia de glória (Bill. II, 274,282s). Como seu povo, Pedro tropeçou no
fundo em Is 53, este capítulo enigmático, “incrível” no AT, que anunciava coisas jamais contadas e
jamais ouvidas (52.15). Esta mensagem só era aceitável para os estudiosos judeus depois de uma
reinterpretação absurda para o seu contrário (Bill. II, 283). Por isso sua condição para Jesus
pendurado na cruz em 15.32 foi: “Desça agora da cruz o Cristo, o rei de Israel, para que vejamos e
creiamos”. Ele pode até passar por maus bocados, mas ao ponto extremo não pode chegar.
     33     Jesus, porém, voltou-se e, fitando os seus discípulos, repreendeu a Pedro. O movimento do
corpo já foi uma resposta. Jesus se libertou de Pedro e insistiu em sua posição de liderança entre os
discípulos. A isto se junta a reprovação contrária: e disse: Arreda, Satanás! Em 3.27 Jesus
identificara Satanás como seu verdadeiro adversário. Agora ele está ali, no conselho de um amigo,
até como teólogo. Entretanto, com determinação inescrupulosa, Jesus abre seu caminho para
Jerusalém, se bem que a atitude dura vale mais para si mesmo do que para o discípulo. A frase final
explicativa confirma que Pedro pensava ter falado em nome de Deus: Porque não cogitas das coisas
de Deus, e sim das dos homens. No contexto da referência a Satanás, não devemos concluir que o
pensamento humano seja sempre satânico. Todavia, o pensamento humano, por mais humano e
espiritual queira ser, também não é automaticamente divino (Is 55.8ss), mas pode ser instrumento do
adversário. Especialmente os pensamentos de Deus em relação ao caminho da salvação de que se
trata aqui, nunca entraram em um coração humano sem uma revelação pela graça (1Co 2.9; Is 53.1).
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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