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52 Afirmações sobre seguir a Jesus, Mc 8.34–9.1

Afirmações sobre seguir a Jesus, Mc 8.34–9.1 
(Mt 16.24-28; Lc 9.23-27; cf. Mc 8.38s; 10.33; Lc 12.9; 14.27; 17.33; Jo 12.25s)

8.34-9.1 Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Que daria um homem em troca de sua alma? Porque qualquer que, nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos. Dizia-lhes ainda: Em verdade vos afirmo que, dos que aqui se encontram, alguns há que, de maneira nenhuma, passarão pela morte até que vejam ter chegado com poder o reino de Deus.

Em relação à tradução
   
a
     “Negar”, que se popularizou como tradução para (ap)arneisthai, tem a mesma raiz que “mentir”. Com
este sentido também usamos o termo no dia-a-dia. Negar a idade ou a procedência, a presença ou uma
amizade, identifica uma atitude mentirosa: fingir, ocultar, representar algo sabendo que é outro. Este sentido,
porém, não existe no termo grego. O sentido básico é “dizer não, rejeitar, recusar, abjurar, desfazer uma
relação de fidelidade” (cf. 14.30s,66-72). O oposto é homologein, “confessar”.
   
b
     Para “salvar” em seus contextos veja 6.56n. Aqui a palavra tem significados diferentes nas duas
metades do versículo.
   
c
     psyche precisa sempre ser entendido no contexto. Em 3.5 o termo praticamente tem o sentido de
“pessoa”. Em 12.30; 14.34, porém, trata-se de um aspecto parcial, o complexo de emoções e sentimentos, o
desejo de viver. Aqui nos v. 35,36,37 e 10.45 o termo denota toda a existência dada por Deus, tanto no
tempo terreno como no julgamento escatológico.
   
d
     Subjaz a este verbo a conhecida expressão judaica ibbed naphcho, que abrange uma noção ativa. Pode-se “perder” a vida sem querer, contra a vontade, por iniciativa de inimigos; “pôr fora” (cf. BV) é uma atitude
culposa pessoal.
   
e
     Para deixar claro que este “perder” significa perda total, Gnilka o traduz por “ficar no prejuízo” (BJ:
“arruinar”).
Observações preliminares
1. Contexto. O gesto de obediência que brilhou em Jesus no v. 31 estende-se agora na direção dos seus
discípulos, na forma de seis frases que falam de segui-lo. Esta fundamentação cristológica do discipulado era
bem viva para os primeiros cristãos, como se vê no fato de a palavra do Senhor sobre carregar a cruz estar
preservada cinco vezes (Mt 16.24; 10.38; Mc 8.34; Lc 9.23; 14.27), e a de dar a vida até seis vezes (Mt 10.39;
16.25; Mc 8.35; Lc 9.24; 17.33; Jo 12.25). Assim como o Senhor teve de “padecer muitas coisas”, “através de
muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus, e Paulo haveria de experimentar “quanto lhe importa
sofrer” (At 14.22; 9.16). Este “semelhante a Cristo” também é o padrão da vida cristã nas cartas (Rm 15.2s,7;
Ef 4.32; Fp 2.5; 1Pe 2.21). A semelhança com Cristo pode ser tão convincente que um discípulo pode dizer
para o outro: “Seja como eu!” (Gl 4.12; 1Co 4.6,16; Fp 3.17). Seguindo a Jesus, que só seguia a Deus, cada
vez mais pessoas são arrastadas para a revolução da obediência. – Por outro lado, Marcos é a última pessoa
que se tornaria culpado de exagero e sobrecarga. Constantemente ele destaca a diferença imensa entre Jesus e
os seus seguidores (a incompreensão dos discípulos), até o ponto em que seu discipulado desmorona. A única
coisa que sustenta todos os que carregam a cruz é a cruz de Jesus.
2. Transmissão. As seis afirmações, unidas levemente por quatro “porquês”, estão vinculadas apenas pelo
conteúdo, não pelo contexto. A última afirmação em 9.1 pressupõe p ex a presença de espectadores; logo na
introdução Marcos os menciona no v. 34.
As outras afirmações, por outro lado, são dirigidas claramente a seguidores. Além disso, a comparação com
os textos paralelos mostra que os evangelistas encaixam cada uma destas afirmações em contextos diferentes,
assim como apresentam variações nos detalhes, sem descuidar da fidelidade ao conteúdo básico. Tudo isto
chama a atenção do leitor da Bíblia para os processos da transmissão. Uma contribuição de Marcos (ou da sua
fonte) pode ter consistido em que ele acrescentou “e do evangelho” no v. 35 e “e das minhas palavras no v. 38.
O mesmo se pode dizer de “e por amor do evangelho” em 10.29. Em todos estes casos essas palavras faltam
nos paralelos em Mateus e Lucas. Que se pode tratar de acréscimos também é sugerido pela impressão de que
o trecho é marcado por uma relação entre pessoas, e não em relação a palavras. O processo é instrutivo. Os
evangelistas certamente não se sentem autorizados a inventar coisas, mas, ao lado da obrigação de transmitir
os fatos, sentem também a responsabilidade espiritual por seu círculo específico de leitores. Eles não eram
“burocratas, mas missionários” (Moltmann; cf. também opr 2 a 10.2-12).
3. “Tomar sobre si a sua cruz”. É óbvio que Jesus não queria que os discípulos carregassem uma viga atrás
dele. Trata-se de uma expressão figurada que deve ser interpretada com todo cuidado, ainda mais que não se
encontrou nenhum outro registro dela na época de Jesus (Bill. I, 507). Os monges viram nela a exigência da
flagelação e da renúncia ao casamento. Outros limitaram o sentido ao martírio literal de todos os discípulos
autênticos; ainda outros o ampliaram para a imitação de Jesus em geral. Ou, a “cruz” é qualquer incômodo, da
dor nas costas ao filho rebelde, que deve ser suportado com paciência. Alguns até lembram de uma expressão
dos beduínos de hoje, para os quais “cruz” é a estaca da tenda: Derrubem as barracas, separem-se das coisas
antigas! Sugestões não faltam, portanto, até o ponto de tatuar-se com o sinal da cruz ou deixar-se batizar. No
comentário faremos uma tentativa de respeitar os contextos.
4. Sobre a afirmação que começa com “em verdade” em 9.1. Esta declaração solene já foi objeto de várias
interpretações (veja a bibliografia na análise detalhada de Künzi).
a. A divisão em capítulos, feita na Idade Média, espelha a idéia de que a palavra se cumpriu seis dias mais
tarde, na transfiguração (9.3). “Alguns”, neste caso, refere-se a Pedro, Tiago e João, que contemplaram a
glória celestial de Jesus no alto do monte. Esta interpretação predominou na Antigüidade e na Idade Média. Os
intérpretes de hoje, porém, consideram este sentido no máximo como a opinião de Marcos. Dificilmente,
porém, o evangelista pode ter equiparado este brilho momentâneo com a chegada do reinado de Deus em
poder. E o intervalo de somente uma semana é muito curto aqui.
b. Intérpretes como Lohmeyer, Godet, Wohlenberg e Barclay pensam que o cumprimento se deu em
Pentecostes e no sucesso espantoso da expansão missionária em todo o mundo daquela época ainda no tempo
da primeira geração. Com isto, porém, não combina o número expressamente pequeno de testemunhas
(“alguns”).
c. Outros atribuem a palavra à igreja depois da Páscoa. Numa reunião dos cristãos, certo dia um profeta se
apresentou e, para encorajar e consolar os ouvintes, renovou a promessa do retorno de Jesus, marcando-lhe um
tempo: alguns deles, os que vivessem mais tempo, haveriam de experimentá-lo. Naturalmente este profeta
estava enganado. A história do mundo continuou tranqüilamente, e toda aquela geração foi sepultada
(Wellhausen, Drews, Bultmann, Conzelmann, Haenchen, Grässer, Bornkamm, Schweizer, Jüngel, Trilling,
Gnilka, Schmithals). Todavia, será que isto é consolo, se a maioria não o verá? E será que não há uma
contradição com o ensino dos primeiros cristãos, que afirma: “Todo olho o verá” (Ap 1.7; cf. também a ênfase
na publicidade em Mc 13.26)?
d. Ainda outros vêem aqui uma palavra autêntica de Jesus. Neste caso, porém, Jesus se enganou. “A
honestidade e o compromisso com a verdade nos forçam a tomar essa posição”, escreve J. Jeremias,
Theologie, p 139 (com pequenas diferenças também Cullmann, Schlatter, Blumhardt, Zahn, Michaelis, Dehn,
Schniewind, Rengstorf, Rienecker, Grob, Künzi). Marcos supostamente transmitiu esta afirmação por respeito,
mas a aplicou à transfiguração. Só que os expositores, depois que Jesus se enganou, precisam consolar os
leitores de hoje, o que pode ser bastante complicado. Por outro lado, será que uma profecia do fim com data
determinada não está em contradição fundamental com 13.32, que saiu da mesma boca?
Nossa interpretação se baseia em Lutero e Calvino, e em parte também foi motivada por Karl e Markus
Barth (cf. também Schlink, Ökumenische Dogmatik, Munique 1983, p 302). Ela se prende às partes que
compõem o texto transmitido. M. Künzi, na minha opinião, desfaz-se delas com muita facilidade (p 200s).
     34     Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes. Para os v. 34-38
devemos ter em mente que os ouvintes são os discípulos, ou seja, pessoas dispostas a segui-lo (opr
2). Eles se apresentam para anunciar solenemente o seu Senhor (cf. 3.13; 7.14). Os começos
seguintes, “se alguém quer” ou “quem”, mostram o estilo de declarações legais. A vontade de Deus é
definida para um caso específico, uma lei de vigência geral é proclamada. Não é uma espiritualidade
especial que se tem em vista, mas o discipulado normal. Fora destas regras não há como ser discípulo
digno do nome!
Se alguém quer vir após mim. Com Jesus, também é possível não querer, como mostrará 10.23.
No entanto, se alguém tomou sua decisão, ele está submisso à regra básica: a si mesmo se negue.
Também para quem seguia um rabino judeu era necessário submeter-se e dominar-se. Os anos de
aprendizado nunca foram tempos de senhorio. Ao mesmo tempo, porém, o discípulo estava
construindo sua carreira, até um dia ser promovido ele mesmo a rabino. É isto que Jesus não está
prometendo. Com honestidade total ele diz aos seus discípulos que Deus não pode ser usado como
desculpa para impor interesses próprios. Pelo contrário, Jesus reafirma o primeiro mandamento: nada
de deuses paralelos, nada de intenções paralelas! Triunfam as três primeiras petições do Pai-nosso: o
nome, o reino e a vontade de Deus. De outra forma não se pode seguir a Jesus. Mais uma vez
também fica claro que esta renúncia à supremacia pessoal não eqüivale a aniquilação pessoal, como a
ascese pagã a tem em vista. O discípulo não se deve fazer desaparecer, mas servir. Deus, por meio de
Jesus, o trouxe para tão perto, que ficou longe de si mesmo e pode perder-se de vista de modo muito
surpreendente (Mt 6.3).
Portanto, quem quer estar com Jesus, precisa deixar que só Deus decida sobre a sua vida. A sua
relação com a sociedade, porém, também se esclarece: tome a sua cruz. Na época de Jesus esta
expressão figurada era compreensível de imediato a qualquer pessoa, pois todos podiam contemplar
livremente as peculiaridades da pena da crucificação. Diferente de outras formas de execução, a
crucificação era aplicada quando se queria tirar de um criminoso não só a vida mas também a sua
honra, quando se queria expô-lo ao desprezo absoluto e à aniquilação moral. Esta era a intenção
também com o próprio Jesus: “Era necessário que […] sofresse muitas coisas e fosse rejeitado” (v.
31). Tanto para os judeus como para os romanos a morte na cruz era uma morte vergonhosa, que
eqüivalia à excomunhão. Deste modo, a carta aos Hebreus liga à crucificação de Jesus expressões
como “expondo-o à ignomínia” (6.6), “o opróbrio de Cristo” (11.26), “não fazendo caso da
ignomínia” (12.2), “sofreu fora da porta” (13.12) e “levando o seu vitupério” (13.13).
O escárnio, porém, não principiava somente na cruz (15.29,31), mas já desabava sobre a cabeça
do condenado assim que colocava o pé na rua, com a viga transversal sobre os ombros, diante da
populaça que uivava. Ele já podia ser considerado morto e, enquanto cambaleava sob o peso da viga
pelo corredor polonês da multidão, qualquer pessoa podia castigá-lo com um golpe ou um pontapé,
cuspir ou jogar sujeira nele ou amaldiçoá-lo (Jeremias, Theologie, p 232). Desde o instante do
anúncio da pena no interior do prédio do tribunal ele era um fora-da-lei (14.65; 15.16-19). Por isso a
“cruz” não é simplesmente uma desventura física, nem um sofrimento interior qualquer, já que há
sofrimentos honrosos. “Tomar a cruz sobre si” é, acima de tudo, concordar com o sofrimento, que
nos isola, faz as pessoas balançarem a cabeça quando nos vêem e, no fundo, faz com que ninguém,
além de Jesus, nos entenda direito. Neste sentido não existe “cruz” em série, porém para cada
discípulos há a sua cruz, que ninguém conhece igual. Por último, ela tem também a marca da
permanência. Jesus não está tratando aqui de uma experiência isolada, tal como o fim da vida com
martírio, mas do discípulo que está a caminho, “dia a dia” tomando sobre si a sua cruz, como
esclarece o texto paralelo em Lc 9.23. Paulo reafirmou este processo de “conformar-se com ele na
sua morte” (Fp 3.10). Ele sabia que não se pode ter Jesus no coração sem carregar uma cruz nas
costas.
O versículo termina com o efeito causado pela retomada do seu início: Se alguém quer vir após
mim […] siga-me. Deste modo aquilo que está no meio, que é a consagração a Deus e a aceitação do
desprezo da sociedade, é abraçado pela proximidade de Jesus.
     35     Se a primeira afirmação deixou claros os contornos do discipulado, a segunda toca no seu âmago. A
repetição por seis vezes nos evangelhos mostra como ela deixou sulcos profundos na memória dos
primeiros cristãos. Quem quiser, pois, salvar a sua vida. Todas as pessoas querem salvar sua vida,
garanti-la, segurá-la, saboreá-la, e muitas vezes conseguem o contrário. Exagerando a busca da
alegria, correndo absortos atrás da felicidade, eles a espantam. Até aqui, a sabedoria de vida geral,
para a qual também existem paralelos judaicos (Bill. I, 588). Em nosso caso trata-se de um momento
na vida de um seguidor de Jesus. Um discípulo é tomado por medo existencial. A razão para isto
pode ser tirada da segunda metade do versículo: sua fidelidade a Jesus, que se torna concreta no
trabalho de mensageiro depois da Páscoa, acarreta perigos para ele. Ele corre perigo de tomar de
volta um pouco de discipulado e suspender o reinado de Deus sobre a sua vida. Todavia, o discípulo
que tomar sua vida nas próprias mãos perdê-la-á. Naturalmente pode-se viver sem ser discípulo – ao
que parece até de modo glorioso e alegre. Mas será que isto ainda é “vida” para um discípulo? Aqui
Jesus introduz um segundo conceito de vida na reflexão do amedrontado. Ele é muito exigente: a
vida que não é vivida de Deus, com Deus e para Deus (Rm 12.1; Fp 2.6ss), não vale o ar que
consome. A existência separada de Jesus, do seu evangelho e sua igreja é tão árida que dá vontade de
gritar. Aqui entra o Sl 73.25,26: “Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me
compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu
coração e a minha herança para sempre.” Ou o Sl 63.3: “A tua graça é melhor do que a vida”. Esta
vida de verdade também é vida eterna. Ela ultrapassa os limites da existência terrena e subsiste
também diante do juízo final.
E quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á. Parece que aqui se inclui o
martírio. A testemunha pode ter de dar o sangue. Neste caso os espectadores poderão medir, por sua
disposição de morrer por Jesus, que Senhor grande e bondoso, este Jesus deve ser. Servir a ele,
mesmo que sob renúncias e perdas indizíveis (2Co 6.9; 12.10) é honra, felicidade e vida em
plenitude. O anseio por viver com Jesus, portanto, é mais forte que a pura vontade de sobreviver.
     36     As duas próximas declarações advertem contra “a fascinação da riqueza” (4.19; cf. 10.24). Que
aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? É óbvio que a apostasia de
Jesus em nenhum lugar é recompensada com a posse do mundo inteiro. O salário muitas vezes será
bem mirrado: talvez 30 moedas de prata e uma corda (cf. Mt 26.15; 27.5). Mas mesmo que o desertor
ganhasse o mundo inteiro, o prejuízo valeria a pena? Jesus respondeu à pergunta claramente para si,
quando “todos os reinos do mundo” lhe foram oferecidos como prêmio para ajoelhar-se perante o
tentador (Lc 4.5-8).
     37     Que esta troca é um engodo fica evidente o mais tardar quando se tenta sem sucesso invertê-la: Que
daria um homem em troca de sua alma? No julgamento final a conta não fecha. Em face do
propósito verdadeiro do ser humano, em face da sua vida com Deus, todo o resto são cacarecos.
Além disso, a um morto não pertence mais nada mesmo; ele é que pertence à morte.
     38     Uma ameaça e uma promessa encerram a série: Porque qualquer que, nesta geração adúltera e
pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras. Os textos paralelos em Mt 10.33; Lc
12.9 têm em lugar de “se envergonhar” o termo “negar” (aparneomai). Nos dois casos a idéia é que
um discípulo se desliga legalmente de Jesus, talvez diante de um tribunal. Nesta circunstância,
“envergonhar-se” destaca a causa interior que gera a rejeição, que é a falta de ânimo para o
testemunho público. Mesmo que em geral envergonhar-se possa ser um bom sinal, porque isto nos
diferencia dos desavergonhados, aqui está tudo de pernas para o ar. Um sentimento de vergonha
totalmente errado nos separa do bom e sua boa mensagem, para nos solidarizar com uma geração
adúltera e pecadora (figura do AT para o povo que quebrara a aliança: Is 1.21; Jr 3.1s,82; 9.1; Ez
16.32-34,38; Os 2.4-7). É verdade que a humilhação de Jesus é tão opressiva que quase não há como
não ficar desanimado. E os discípulos, afinal de contas, são humanos. Passagens como Rm 1.15;
2Tm 1.8 mostram que até os grandes apóstolos eram atacados por esses sentimentos. Mas eles têm de
ser suportados. Exatamente os sofrimentos de Jesus tão desprezados são o coração de todas as coisas.
“A palavra da cruz” é o poder de Deus que renova o mundo (Rm 1.16; 1Co 1.18). Neste ponto não
podemos nos separar. Jesus valoriza a si e sua palavra de uma maneira como nenhum profeta do AT
teria arriscado para si. Ele reivindica toda a autoridade, com toda humilhação e exatamente com base
em seus sofrimentos.
Disto resulta a continuação análoga: também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando
vier na glória de seu Pai com os santos anjos. O Filho do Homem aqui não é outro do que o Jesus
da primeira parte do versículo, só que diferente, ou seja, revelado em sua majestade. Sua glória é
manifesta: Deus é seu pai; e seu poder sobre todos os poderes: os anjos o servem (cf. Dn 7.10; Mc
1.13; 13.27). E ele preside o julgamento sobre todas as pessoas (cf. Mt 25.31). Neste momento
acontece o reencontro com o discípulo apóstata e a sua condenação, pois ele ficou sem a intercessão
do Senhor.
     9.1     Este versículo coloca uma palavra de consolo ao lado da advertência, para fortalecer os discípulos
enquanto seguem a Jesus. A impressão é que ele procede de outra ocasião, pois conta com uma nova
introdução e também pressupõe que a multidão igualmente está ouvindo (cf. v. 34). Dizia-lhes
ainda: Em verdade vos afirmo: o início com forma de juramento sublinha a autoridade de Jesus (cf.
v. 38). Dos que aqui se encontram, alguns há que, de maneira nenhuma, passarão pela morte
até que vejam ter chegado com poder o reino de Deus. Entre os ouvintes de Jesus, alguns
haveriam de ser testemunhas oculares de algo especial. Acontece que muitos vêem no texto que se
trata de uma expectativa de vida especialmente alta, que faria com que sobrevivessem a todos os seus
contemporâneos e se tornassem testemunhas do “reinado de Deus em poder” com uma idade
avançadíssima. Se fossem mais jovens, estaria em questão um momento depois de pelo menos meio
século. Desta maneira, porém, dificulta-se a compreensão de uma afirmação simples. O que aqui
exclui da visão a maioria dos espectadores não é seu sepultamento, e o que torna a minoria
testemunhas não é sua saúde, antes, a diferença está em ser escolhido ou não. É claro que os eleitos
precisam ser especialmente preservados para a sua tarefa. A morte não deve atingi-los antes da hora.
Esta garantia não é despropositada, em vista do caminho para Jerusalém, já que os discípulos podiam
seriamente contar com seu martírio (10.32; 14.31,47; Lc 22.38; Jo 11.16; 12.10; veja também as
insinuações nos v. 34s).
O objetivo de eles serem preservados era para que vissem a chegada, com poder, do reino de
Deus. Gostaríamos talvez de ligar esta afirmação diretamente a passagens como 13.26; 14.62 ou
também 8.38b, ou seja, com a manifestação pública do Filho do Homem no fim dos tempos. Mas as
palavras “alguns dos que aqui se encontram verão” resistem determinadas a esta tendência. Aqui está
em vista exatamente uma vinda não pública do reino com poder. Por mais não-judaico que seja este
pensamento, ele corresponde ao ensino de Jesus p ex nas grandes parábolas sobre o crescimento em
Mc 4. Segundo estas, o reinado de Deus não vem com um ato instantâneo de poder, mas por um
caminho paciente e misterioso. Através de uma semeadura discreta, de ameaças e limitações e de um
crescimento oculto, ele frutifica abundantemente. No fim das contas estas parábolas espelham a
vinda, atuação, sofrimento, morte, ressurreição e envio do próprio Jesus. Ele mesmo é o reinado de
Deus que está chegando. Com isto Jesus está ensinando uma vinda gradual, que se estende no tempo,
que tem vanguarda, bloco principal, expansão e consumação. Manifestações iniciais de “poder”
(5.30; 6.2,14) são substituídas por sua vitória decisiva. Esta, dentro da consciência de envio de Jesus,
sem sombra de dúvida consiste nos três dias entre a Sexta-feira da Paixão e a Páscoa. De modo cada
vez mais consciente ele via o seu sofrimento como seu ato mais elevado. Na cruz Deus se tornou rei,
triunfaram seu nome, seu reino e sua vontade. Isto ficou evidente na Páscoa, mas “não a todo o
povo”, nem a todos os discípulos, mas só a estes “alguns” ou, conforme At 10.41, “às testemunhas
que foram anteriormente escolhidas”. Estes que o viram ressuscitado, viram a ele e seu reino “vindo
em poder” (cf. Mt 28.18), pois o poder de Deus é essencialmente poder de ressurreição (12.24; 1Co
15.43).
No testemunho dos primeiros cristãos também não é o retorno de Cristo, p ex, que recebe mais
ênfase. Pelo contrário, a verdadeira prova do poder de Deus evidenciou-se na Páscoa. Jesus foi
ressuscitado pelo poder de Deus (2Co 13.4), é agora Filho de Deus em poder (Rm 1.4) e é, ele
mesmo, o poder de Deus (1Co 1.24). A parusia será somente o fim do fim, que já foi saudado muito
tempo antes, naqueles três dias.
Assim, o nosso versículo retoma o fim do ensino sobre o sofrimento no v. 31, predizendo a
ressurreição do Filho do Homem. Para os leitores do evangelho de Marcos, então e agora, este dia de
fato já faz parte do passado. Eles são consolados desde então por esta promessa como lembrança:
cruz, sofrimento, angústia e morte não têm mais a última palavra. Deus a conferiu ao Jesus
ressurreto.
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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