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53 O milagre com a filha da mulher cananéia, Mt 15.21-28

O milagre com a filha da mulher cananéia, 15.21-28
(Mc 7.24-30)

21-28 Partindo Jesus dali, retirou-se para os lados de Tiro e Sidom. E eis que uma mulher cananéia, que viera daquelas regiões, clamava: Senhor, Filho de Davi, tem compaixão de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada. Ele, porém, não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, aproximando-se, rogaram-lhe: Despede-a, pois vem clamando atrás de nós. Mas Jesus respondeu: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Ela, porém, veio e o adorou, dizendo: Senhor, socorre-me! Então, ele, respondendo, disse: Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. Ela, contudo, replicou: Sim, Senhor, porém os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos. Então, lhe disse Jesus: Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres. E, desde aquele momento, sua filha ficou sã.
Os discípulos estão assustados e confusos diante das palavras duras do Senhor, que contêm uma
condenação arrasadora aos líderes influentes de Israel e à sua teologia de preceitos.
Entretanto, os discípulos são novamente fortalecidos em sua fé através de três  milagres: o milagre
em que é curada a filha da mulher cananéia, as curas de enfermos em grande estilo,  e o milagre da
multiplicação do pão.
O trecho inicia dizendo: Jesus saiu dali. Ele foi para bem longe, até a região de Tiro e Sidom,
para dentro da terra dos gentios. Por um certo tempo Jesus abandonou o solo judeu, a fim de estar
sozinho com seus discípulos. Marchando dois dias, alcançou a fronteira noroeste da Galiléia. Depois
hospedou-se (segundo Mc 7.31) numa casa em Sidom, para poder ficar totalmente sossegado.
“Ninguém devia reconhecê-lo” (Mc 7.24).
Mal o Senhor havia entrado na casa, porém, acabou-se o seu sossego. Uma gentia, mãe de uma
menina gravemente doente, ouve a respeito da sua chegada. Mateus denomina essa mulher de
cananéia, a fim de caracterizá-la como pagã, como membro do povo originário que habitava a terra
de Canaã. Marcos a designa como grega, de nacionalidade “siro-fenícia” (para distingui-la de “libo-fenícia” na África), igualmente para caracterizá-la como gentia. Essa mulher pagã grita atrás dele:
Senhor, Filho de Davi. É curioso que ela usa o título “Filho de Davi”. Ela deve ter ouv ido falar não
apenas de seus grandes feitos, mas também que agora se discutia em Israel se ele, por causa de seus
discursos e feitos, não seria de fato o Filho de Davi. Em seu coração a mulher gentia respondeu a
questão sucintamente no sentido de que “quem realiza esse milagres, não pode ser nenhum outro que
o Filho de Davi, prometido em Israel”. Esse Filho de Davi também poderá ajudar sua filha enferma.
É o que ela crê firmemente, apesar de ser gentia.
Entretanto, o que faz Jesus? Ele não lhe responde com nenhuma palavra. Por que faz isso? Não
porque não tivesse misericórdia ou fosse indiferente, mas porque não tinha nenhuma incumbência
por parte do Pai. Acima de tudo prevalecia para o Senhor a obediência, até sobre compaixão e
bondade do coração. Ele, que incessantemente realizava o que via o Pai fazer, não podia dar ouvidos
à voz do seu coração, que tinha tanta vontade de ajudar. A trajetória que o Pai delineou para ele é
estreita. É verdade que o mundo é vasto, com seus milhões de pessoas doentes, fracas e carentes de
cuidados. Mas mais espaçoso e amplo que o sofrimento do mundo é o coração bondoso e amoroso do
Salvador.
Neste episódio, os discípulos parecem ser mais misericordiosos que o Senhor! Dizem  ao Mestre:
“Atende e despacha-a!” Cede e faz o que ela pede, para que finalmente termine a gritaria! A
misericórdia dos discípulos era apenas aparente. Na verdade, porém, era comodismo. Queriam ter
sossego. Jesus responde aos discípulos: Fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de
Israel. O Senhor fala aos discípulos com calma e autocontrole. Nenhuma pessoa de fora imagina
quanta renúncia esse envio lhe impunha.
“O maior sacrifício para uma pessoa sempre solícita é ter de restringir seu impulso para  agir, é não
poder utilizar suas forças interiores, é ter de renunciar até à prática do bem, quando a profissão,
doença ou outra vontade superior o proíbem. Também nessa questão Jesus queria ser um exemplo de
obediência para nós. De fato ele não teria podido desenvolver uma atividade maior nessa região neste
momento, para não colocar em risco sua tarefa messiânica no povo de Israel. Pois, se agora, quando o
ânimo entre o povo se tornava mais hostil a ele, mesmo que não houvesse chegado a uma rejeição
definitiva, Jesus tivesse voltado sua atividade para os gentios, seus adversários o interpretariam como
traição ao próprio povo. Ainda mais que, conforme relata Flávio Josefo, os tírios eram os que, entre
todos os fenícios, se portavam com maior hostilidade diant e dos judeus. Assim, pois, Jesus segue,
com coração pesado, mas com passos firmes, seu caminho de obediência” (Lauk).
O fato de Jesus não lhe dar ouvidos não afastou a mulher. Pelo contrário, como seu grito de longe
não chegou ao ouvido do Senhor, a necessidade a impeliu a aproximar-se de Jesus e apresentar-lhe
seu pedido de perto. Veio, prostrou-se diante dele e disse: Senhor, ajuda-me! Ela tinha fé inabalável
de que o Senhor lhe daria uma resposta positiva. Ele, porém, respondeu:  Não é certo tirar o pão das
crianças e lançá-lo aos cachorrinhos. O Senhor não está empregando a figura em sentido
pejorativo. A expressão “cachorrinhos” já o denota. O “cachorrinho” é o cachorrinho de colo ou da
sala, em contraposição ao cão de rua, que vagueia pelos becos.  – A mulher gentia não entende a
comparação como ofensiva, mas a assume, mesmo que na figura esteja encerrada uma humilhação
para a ela. O Senhor lhe queria dar a entender que o envio do Filho de Deus destinava-se inicialmente
ao povo de Israel. Ele se sentia preso a essa missão. Apesar de o Senhor ter se esquivado de Israel  –
por causa da hostilidade crescente ali – ele permanecia disposto de todo coração a servir ao povo de
Israel até a sua última hora na terra.
Por essa razão o Senhor não pode desfazer as fronteiras que Deus, em sua decisão inescrutável,
estabeleceu inicialmente entre Israel e os povos. Não lhe cabe considerar os filhinhos como
cachorrinhos e os cachorrinhos como filhinhos. Ele precisa obedecer à incumbência do seu Pai.
Ainda que Israel o odeie e queira matá-lo, ele não pode odiar Israel e separar -se dele.
Contudo, a fé esperançosa e persistente torna corajosa e perspicaz a gentia, mãe da criança doente.
Torna-a tão corajosa e ousada que o Senhor foi vencido. A resposta dela é: “Sim, sem dúvida,
Senhor, tens razão, mas podes fazê-lo sem problemas, pois também os cachorrinhos comem e se
fartam das migalhas que caem da mesa de seus senhores.“
Se fosse assim, que os cachorrinhos ficariam alimentados somente no caso de que os filhinhos
tivessem de passar fome, ela desistiria de seu pedido. Mas porque os cachorrinhos  e os filhinhos são
saciados conjuntamente, e mais precisamente pelo fato de que os filhinhos têm de sobra na mesa do
Senhor, o pedido da mãe gentia não pode ser rejeitado. Porque a graça de Deus é rica e é grande. A
mãe praticamente percebeu o conflito em que se encontrava o coração voluntário do Senhor. Ao dar
razão ao Senhor com as palavras:  Sim, certamente, Senhor!, ela tenta mostrar uma saída ao Senhor,
de como ele poderia, sem tornar-se desobediente ao Pai, atender ao pedido dela. Ela assume de corpo
e alma a metáfora dos filhinhos e cachorrinhos e a elabora adiante. A uma resposta tão apropriada o
Senhor não pode resistir. Por isso Jesus declara: Mulher, é grande a tua fé! Ela tinha dado razão ao
Senhor, por isso ele também deu razão a ela. Porque ela honrou como sagrada a vontade dele, Jesus
também realizou a vontade dela. Sua bondade não perdeu para a fé dela. Chamou de  grande a fé dela.
É grande aquela fé que busca em Cristo misericórdia grande. Essa grande e rica misericórdia
estendeu a mão à mulher, sem abandonar Israel. Foi ao encontro da fé da mulher cananéia, sem
diminuir a fidelidade a Israel. Aqui Deus revelou aos ignorantes o que ocultou aos sábios. Sem
instrução, exemplo e teologia, essa mulher gentia solucionou o enigma diante do qual os mestres de
Israel se tornaram tolos. Na Bíblia constavam  ambas as verdades, tanto de que Deus havia criado
Israel para o seu reino, quanto a de que a terra  ficaria repleta da sua glória. O grande enigma do
futuro era descobrir como essas duas verdades haveriam de combinar. Os professores de Israel não
decifraram o enigma. Esperavam a ajuda de Deus somente para si, enquanto os pagãos teriam parte
somente na sua ira. A mulher cananéia vislumbrou como ambas as verdades se unificam na
deliberação de Deus. Sua graça é tão rica que ele  mantém sua promessa em favor de Israel e também
redime os gentios. Do seu pão são saciados os filhinhos e os cachorrinhos” (cf. Schlatter, comentário
ao texto).
É impressionante do que o amor de uma mãe é capaz. Respostas humilhantes e afirmações quase
de repulsa não a ofendem. E mais: Não lhe importa o que as pessoas digam dela, que corre gritando e
lamentando atrás de homens, e ainda homens  judeus, aquelas pessoas que eram desprezadas e
odiadas pelos membros de seu próprio povo. Em relação a isso ela é tão imune quanto em relação ao
mal-estar dos discípulos por causa dos gritos de uma gentia.  – Onde homens fortes já teriam dito um
“basta”, argumentando: “Esse tipo de tratamento é intoslerável. Que ofensa, ser comparado a um
cachorro!”, ela continua sendo persistente. Ela persevera na fé, mesmo diante dos obstáculos que se
interpõe a ela com a negativa de Jesus. No entanto, sua fé esperançosa, que supera todas as
dificuldades, conquista a vitória.

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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