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53 A revelação de Jesus no monte, Mc 9.2-10

A revelação de Jesus no monte, Mc 9.2-10 
(Mt 17.1-9; Lc 9.28-36)

2-10 Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós, à parte, a um alto 
monte. Foi transfigurado diante deles; as suas vestes tornaram-se resplandecentes e sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar. Apareceu-lhes Elias com Moisés, e estavam falando com Jesus. Então, Pedro, tomando a palavra, disse: Mestre, bom é estarmos aqui e que façamos três tendas: uma será tua, outra, para Moisés, e outra, para Elias. Pois não sabia o que dizer, por estarem eles aterrados. A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi. E, de relance, olhando ao redor, a ninguém mais viram com eles, senão Jesus. Ao descerem do monte, ordenou-lhes Jesus que não divulgassem as coisas que tinham visto, até o dia em que o Filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos.      Eles guardaram a recomendação, perguntando uns aos outros que seria o ressuscitar dentre os mortos.

Em relação à tradução
   a
     A forma passiva indica uma ação de Deus. A RC ainda traduziu com o reflexivo, “se transfigurou”,
mas a RA seguiu a voz passiva. “Transfigurar” tem a idéia de metamorfose: mudar de figura, de aparência
(BLH; cf. aqui o v. seguinte). Fazer resplandecer tem o sentido de glorificar, tornar famoso. Nossa tradução
usa o termo dezessete vezes para a revelação de glória exterior a este mundo (p ex Jo 12.16,23,28; 16.14;
17.1,4,10). Assim, há várias “glorificações” de Jesus, mas só aqui e no texto paralelo de Mateus uma
“transformação”.
   b
     Cf 11.22n.
   c
     Lit. “rabi”, que pela primeira vez Marcos não traduz. Também nas outras vezes em que isto acontece,
são discípulos que falam. A palavra parece expressar uma profunda relação espiritual, no mesmo nível do
título posterior de “Senhor” e, neste sentido, se encaixa muito bem no contexto aqui (cf. 9.17n).
   
d
     skene, na verdade barraca. Mas esta tradução não é recomendável aqui, pois exigiria a presença dos
componentes para barracas no monte. Tendas, por sua vez, podem ser feitas também de galhos.
   
e
     Parece que a nuvem só cobriu Jesus e a figura dos dois profetas. Os discípulos estavam a certa
distância deste grupo e da voz “dela”, o que está mais claro em Mt 17.7 (Oepke, ThWNT IV, 910s; Gnilka).
   
f
     kratein é usado com freqüência para “guardar, seguir” um mandamento (7.3,4,8; 2Ts 2.15; cf. Ap
2.13,25; 3.11).
Observações preliminares
1. A tradição de Moisés como pano de fundo? Para encontrar a chave da interpretação da história da
transfiguração, foram investigados “paralelos” extrabíblicos, mas também correlações dentro da Bíblia (p ex
as histórias da Páscoa, a história do Getsêmani, a história da tentação, a seqüência de visões no Apocalipse, as
passagens sobre o retorno). Realmente impressionantes são primeiro os elementos semelhantes em Êx 24.15
(“monte, nuvem, seis dias, voz”), Êx 24.1 (três acompanhantes identificados pelo nome, separação dos
demais), Êx 40.32s (“à sombra”), Êx 33.7 (“tenda”), Êx 34.29s (“brilho, temor”) e Dt 18.15 (“a este ouvi”).
Na verdade, cada termo pode ser encontrado nas histórias de Moisés. Será que nossa história, então, nada mais
é que a aplicação teológica do tipo Moisés a Jesus como o novo Moisés, escatológico? Uma segunda leitura
com mais atenção, porém, mostra o quanto os textos divergem ponto por ponto em todas as peculiaridades.
Não se pode falar de dependência. Também deve ser dito que em nenhum lugar do evangelho de Marcos Jesus
é entendido como o novo Moisés.
Encaixes falhos sobrecarregam a simples leitura de texto. Na próxima opr tentaremos entender a história
em seu contexto em Marcos.
2. Contexto. Básica e inegável é a relação da história da transfiguração com o ensino sobre o Filho do
Homem a partir de 8.31. No v. 10 a ressurreição ainda está no centro e no v. 12 a plenitude de sofrimento do
Filho do Homem. Aqui, portanto, os discípulos continuam a ser ensinados. Que a transfiguração aconteceu
não por causa de Jesus, mas deles, a apresentação mostra de ponta a ponta. Jesus os “toma”, “leva-os” ao alto
do monte, transforma-se “diante deles”, assim como Elias e Moisés “lhes” apareceram. No v. 7 também é a
eles que a voz se dirige (diferente de 1.11). O último destaque é o imperativo: “A ele ouvi!” Ouvir, no entanto,
é o sinal mais distintivo do discípulo (Is 50.4). Assim o círculo se fecha. Os discípulos foram ensinados,
mesmo que de modo fora do comum. Por isso estão enganadas todas as interpretações que fazem de Jesus aqui
o recebedor da revelação, que foi informado da vontade de Deus ou teve confirmado o seu chamado. Esta
também é a diferença essencial com a subida do monte por Moisés nos “paralelos” mencionados na opr 1.
3. “Seis dias depois”, v. 2. Esta introdução é muito intrigante. Geralmente Marcos começa com expressões
bem comuns, e só na história da Paixão e da Páscoa ele faz uma contagem de dias exata (14.1,12,58; 15.29;
16.2; veja também os três dias em 8.31; 9.31 e 10.34) e, por fim, das horas (15.25,33,34). Em nosso caso,
ainda, não é possível saber sem sombra de dúvida a partir de quando os seis dias foram contados, se a partir de
9.1 ou 8.34 ou 8.31 ou 8.27. A maioria dos intérpretes opta por um sentido simbólico. “Seis dias”, na linha dos
escritos do AT e do judaísmo, pode significar o tempo de preparo até a revelação, que, daí, segue no sétimo dia
(Êx 24.16; 4Esdras 5.19ss; Jubileus 44.3; José e Asenate 13.9). Este período era dedicado a jejum e oração.
Disto, porém, não há nenhum indício aqui. Alguns também se ocupam com o sétimo dia como sábado e outros
significados profundos, só que parece que Lucas não percebeu nada disto, já que ele arredonda a indicação de
tempo: “Cerca de oito dias” (9.28). Baltensweiler segue um caminho bem diferente. Da menção da confecção
de tendas no v. 5 ele conclui que a transfiguração aconteceu na festa dos Tabernáculos. Esta “maior e mais
santa” das festas judaicas (Josefo) durava sete dias, de acordo com Dt 16.13, sendo que o sétimo era “o grande
dia” (Jo 7.37). Para este dia é que Jesus se retirou para o monte com seus amigos, pois as ondas da esperança
messiânica judaico-nacionalista (recorrendo a passagens como Os 12.10) começavam a atingi-lo. Jesus queria
distanciar-se delas. Com isto ele superou a tentação do caminho sem sofrimentos e triunfante para o Messias.
Para isto Deus o fortaleceu com uma experiência especial da sua proximidade. A construção das tendas no v.
5, todavia, nada tem a ver com a festa judaica dos Tabernáculos. Seres celestiais não precisam destas barracas,
e elas não eram destinadas aos discípulos. Além disso esta interpretação não leva em conta que o verdadeiro
grupo-alvo eram os discípulos.
Nós consideramos uma outra explicação. A história contém, distribuídos pelos versículos 2-8, onze termos
que não aparecem em outro lugar em Marcos (hapaxlegomena, cf. Steichele, p 92). A isto se juntam outras
expressões raras e a citação do nome de Jesus por quatro vezes. Estas características permitem a conclusão de
que Marcos tirou este relato de uma fonte diferente, que contava os dias, como as histórias da Paixão. Deste
quadro Marcos retirou uma parte, deixando o elo “seis dias depois”, sem que saibamos a que ela se referia
originalmente.
     2     Seis dias depois. Para testemunhar acontecimentos com especial valor de revelação, as indicações de
tempo têm bastante importância. Isto mostram as histórias da Paixão e da Páscoa (opr 2), mas
também já passagens como 4.35; 6.47. Tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós,
à parte. Em várias ocasiões em que um grupo seleto de testemunhas era requerido, o grupo é
composto destes três (5.37; 14.33; cf. 13.3). Aqui estes três servem claramente de vanguarda. Aquilo
que um dia haveria de preencher todas as terras, eles experimentam em hora antecipada e em alturas
solitárias: Levou-os a um alto monte. A geografia não interessa, já que não se pensa em
peregrinações. A fé no Senhor vivo que está presente em todos os lugares faz com que montes
sagrados entrem em esquecimento.
Foi transfigurado diante deles. Diante dos olhos dos discípulos transformou-se a “aparência” de
Jesus, como Lc 9.29 esclarece. A fidelidade interior de Jesus à sua missão trouxera uma ausência
cada vez maior de brilho à sua vida. Muitas vezes ele estava empoeirado, faminto e exausto diante
deles, além de perseguido, sem pátria e sem proteção. De repente passa uma labareda por esta casca
de humilhação, indubitável, inesquecível (cf. 2Pe 1.16-18). Seu ser irrompe na esfera visual. Por
alguns momentos, todo ele está permeado de luz.
     3     As suas vestes tornaram-se resplandecentes e sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na
terra as poderia alvejar. Para o oriental, roupa e pessoa são uma coisa só. Assim, ele pode
descrever vestimentas para caracterizar quem as usa (Ap 1.13; 4.4; 7.9; 10.1; 12.1; 17.4; 19.13). É
neste sentido que aqui se fala das roupas de Jesus. Elas são brancas em superlativo, mais do que é
possível na terra. “Branco” aqui já não é uma indicação de cor, mas denota uma ausência de qualquer
cor, plenitude de luz sem nenhuma sombra. Este branco é sempre de novo o atestado de seres
celestiais (Êx 34.29; Dn 7.9; 13.3; Mc 16.5; At 1.10; Ap 6.2; 14.14; 19.11,14; 20.11). No caso, não
temos uma antecipação da glória de luz do céu, que Jesus haveria de receber quando da ressurreição
ou da segunda vinda, mas da luz que ele possuía agora, em meio ao seu caminho de sofrimento, de
forma oculta. O céu está realmente a seu lado!
     4     À roupa celestial junta-se a companhia celestial: Apareceu-lhes Elias com Moisés, e estavam
falando com Jesus. O fato de os discípulos saberem imediatamente estarem diante de Elias e Moisés
evidencia um componente visionário, uma iluminação interior. Elias está em primeiro plano, como
em todo o contexto (8.28; 9.4,5,11,12,13; cf. 15.35,36). Este destaque combina com o ensino
escatológico judaico (opr 2 a 6.14-16). Desconhecida era sua parceria com Moisés, já que Elias era
colocado geralmente ao lado de Enoque (Jeremias, ThWNT II, 940s). O que os discípulos
contemplam confirma sua confissão de 8.29: Jesus não é um precursor, mas o Messias. A atitude dos
dois representantes da antiga Aliança de deixar-se ver com Jesus é uma maneira de honrá-lo e
autenticá-lo. Não muito tempo depois, os discípulos haveriam de ver o Senhor suspenso entre dois
malfeitores. Estes momentos na companhia de Elias e Moisés, os fiéis servos de Deus e igualmente
grandes sofredores em seu povo (Jeremias, ThWNT II, 941s; IV, 877; Bill. IV, 792s) legitimam o
caminho indizível de Jesus.
     5     Pedro interrompe a visão: Então, Pedro, tomando a palavra, disse: Mestre, bom é estarmos aqui.
Eles podem ser úteis para alguma coisa: façamos três tendas: uma será tua, outra, para Moisés, e
outra, para Elias. Em vista do versículo seguinte não precisamos nos torturar para dar um sentido
satisfatório às palavras de Pedro. Elas fazem parte do tema da falta de compreensão dos discípulos,
da reação contra o caminho de sofrimento de Jesus (cf. v. 32). Pedro não conseguia reunir a
majestade que via com o “é necessário” do sofrimento. Ele queria parar o tempo, conferir duração ao
momento.
     6     Pois não sabia o que dizer, por estarem eles aterrados. O versículo soa como uma desculpa. Em
meio ao terror de Deus, um ser humano fica como que desmantelado. Dos seus lábios só sai um
gaguejar desorientado e sem sentido.
     7     Depois desta interferência fora de propósito a visão continua. A seguir, veio uma nuvem que os
envolveu. Não Pedro, mas o próprio Deus providencia uma barraca para Jesus, Elias e Moisés. Esta é
a idéia da nuvem. A presença de Deus desce aconchegante sobre eles. A nuvem nada mais é que o
céu que desce. Isto se deduz da comparação com 1.11. Assim como lá a voz foi ouvida “dos céus”,
aqui ela vem “da nuvem”.
Com isto a visão se torna uma audição, uma experiência que inclui ouvir: Este é o meu Filho
amado. Este título foi explanado em detalhes em 1.11. Lá, quando Jesus começava oficialmente sua
caminhada em direção à cruz, Deus confirmou sua unidade total com ele. Aqui, onde Jesus começou
a ensinar seus discípulos sobre seu caminho para a cruz, Deus repete esta autenticação perante os
ouvidos deles.
A ele ouvi!, que vale em termos abrangentes para todos os discípulos (4.3,9,23), refere-se aqui
especificamente aos ensinos de Jesus sobre o sofrimento, que são o assunto central desde o v. 31. A
estes o discípulo nunca pode prestar atenção suficiente. O próprio Deus está falando por meio dele.
Como antes ele falou por Moisés, Elias e muitos outros profetas, agora ele dá sua palavra final e de
poder por meio deste Filho. Esta consiste em que o Pai perde este Filho e o Filho o seu Pai – por
amor ao mundo.
     8     E, de relance, olhando ao redor, a ninguém mais viram com eles, senão Jesus. “Senão Jesus”
significa aqui sem Elias e Moisés. O fim da aparição deles também é o fim da transfiguração dele.
Totalmente sem brilho ele está novamente entre eles.
     9     Ao descerem do monte, ordenou-lhes Jesus que não divulgassem as coisas que tinham visto, até
o dia em que o Filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos. Se os discípulos não tivessem
obedecido a esta instrução, o ministério de Jesus estaria encerrado antes da hora, como mostra 14.61-64. Para a ordem de guardar silêncio, veja 8.30,31 no fim.
     10     Eles guardaram a recomendação, perguntando uns aos outros que seria o ressuscitar dentre
os mortos. Naturalmente eles não está discutindo sobre a ressurreição em geral, mas a do Filho do
Homem, já que ela pressupõe a sua morte. Este é o bloqueio deles: Um Filho do Homem morto? Por
isso eles também não compreendem o que ele disse sobre sua ressurreição.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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