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56 Ensino sobre o sofrimento na passagem pela Galiléia, Mc 9.30-32

Ensino sobre o sofrimento na passagem pela Galiléia, Mc 9.30-32 
(Mt 17.22,23; Lc 9.43b-45)

30-32 E, tendo partido dali, passavam pela Galiléia, e não queria que ninguém o soubesse;      porque ensinava os seus discípulos e lhes dizia: O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e o matarão; mas, três dias depois da sua morte, ressuscitaráEles, contudo, não compreendiam isto e temiam interrogá-lo.

Em relação à tradução
   a
     A oposição de Filho do Homem e mãos dos homens é um jogo de palavras intencional e bem
convincente, que se destaca da continuação pela mudança de tempo e de sujeito. Jeremias, Theologie, p 267s
e Popkes, p 259 atribuem isto à tradição aramaica. Efeitos posteriores podem ser vistos p ex em At 3.13-15.
   b
     Quem aqui ainda recorda de “ele está morto” e “ele ressuscitou” dos v. 26s, encontra um sentido
subseqüente profundo para aquela história.
   c
     agnoein, são saber, dificilmente deve ser traduzido literalmente aqui (em 9.6 o termo é outro). Aqui
não se pensa em desinformação que os inocenta, mas em teimosia intencional em não entender. Podemos
comparar com 1Co 14.38: “Se alguém o ignorar, será ignorado”, isto é, quem não quiser entender, ficará sem
entender. Veja também a mesma palavra em Rm 2.4 (= desprezar), 10.3 (= estabelecer a coisa errada), 1Co 15.34 (= pecar) e Ef 4.18 (= dureza de coração).
   d
     O sentido de rhema aqui é de “predição”, pelo contexto, assim como em 14.72.
Observações preliminares
1. Contexto. Novamente se evoca o movimento em direção a Jerusalém (opr 2 a 8.27-10.52) e, com isto, o
tema do sofrimento (opr 3 a 8.31-33). O comentário mostrará que este segundo exemplo do ensino de Jesus
sobre o sofrimento não só abrevia o primeiro exemplo de 8.31, mas também o aprofunda.
2. Relação com Is 53? J. Jeremias, Theologie, p 281, gostaria de vincular a expressão “ser entregue” no v.
31 com Is 53.5,12. Mas neste caso os contextos são muito diferentes; lá falta a referência às “mãos dos
homens”. Por isso a ponte lingüística prova ser bastante estreita e não convence a todos. É claro que nossa
passagem se aproxima de Is 53 quanto ao conteúdo, se quisermos levar a sério a base do ensino de Jesus sobre
o sofrimento no AT. Em 10.45 este capítulo principal do AT é claramente o pano de fundo.
     30     Sem mencionar aqui ou pouco antes um local de partida, Marcos escreve à guisa de introdução
comum, parecido com 6.1; 7.24; 10.1: E, tendo partido dali, passavam pela Galiléia, sem retomar
sua atividade anterior ali. Com um objetivo claro, mesmo que não em linha reta, eles atravessam a
região em direção a Jerusalém. Em 9.33 eles atingem totalmente em segredo Cafarnaum, em 10.1
eles atravessam em algum lugar o Jordão, para aparecer em 10.46 novamente deste lado, em Jericó.
Dali não era mais muito longe até Jerusalém (11.1). A intenção de não serem descobertos e detidos
pode explicar as voltas. E não queria que ninguém o soubesse, dedicando-se totalmente aos seus
discípulos. Seu caminho e obra teriam sido em vão se ele não deixasse aqui algumas pessoas nas
quais sua mensagem estivesse enraizada. De que valeria a reconciliação sem a palavra da
reconciliação (cf. 2Co 5.19s)?
     31     Porque ensinava os seus discípulos e lhes dizia: O Filho do Homem será entregue nas mãos
dos homens. Com isto ele enunciou o enigma divino do modo mais contundente possível, pois na
voz passiva “será entregue” oculta-se o próprio Deus que age (passivum divinum, cf. 2.5), e
“entregar” é ação judicial (cf. 1.14).O próprio Deus entrega em sua ira o Filho do Homem santo e
celestial (opr 4 a 8.31-33) à vontade dos homens. O texto paralelo em 14.41 deixa ainda mais claro:
“nas mãos dos pecadores” (sobre o tom negativo de “homens” em Marcos, cf. 8.27). Davi pôde
escolher se queria cair nas mãos de Deus ou das pessoas, e escolheu as mãos de Deus (2Sm 24.14).
Jesus, porém, teve de beber o cálice.
No primeiro ensino da Paixão os judeus ainda estavam como agentes na frente no palco, mesmo
que já sob o indício de um “é necessário” divino básico (8.31). Agora Jesus eleva a afirmação à
potência inimaginável. O próprio Deus começa a agir. E por que Deus faz isso? Para isto ainda falta a
resposta aqui, como ela está p ex em Rm 4.15; 8.32. Jesus só coloca o fato no meio da sala. Ao
expressá-la no tempo presente, ele lhe confere o grau mais alto de certeza. Acontece, e não há como
contornar.
Em comparação com 8.31, a participação dos homens é resumida a uma frase curta – no grego são
só três palavras: e o matarão; mas, três dias depois da sua morte – e agora aparece novamente a
ação misteriosa de Deus – ressuscitará (cf. 8.31).
     32     Eles, contudo, não compreendiam isto, apesar de a declaração ser tão simples e clara. E temiam
interrogá-lo. Portanto, eles não queriam compreender. Dentro deles levantou-se uma resistência
contra esta idéia insuportável que tinham começado a ouvir, e contra coisas mais insuportáveis ainda.
Eles queriam não ter ouvido nada. Por isso o diálogo cessa. Entre eles e esse Senhor começa a abrir-se um abismo – apesar de exteriormente o seguirem. No cap. 15 esta brecha fica escancarada: Jesus
fica totalmente sozinho.
Nisto os doze também são modelo para nós. Nós seguimos Jesus, captamos e compreendemos
uma parte da sua mensagem, porém nos recusamos a ouvir e compreender o restante.
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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