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57 A disputa dos discípulos por posição, Mc 9.33-37

A disputa dos discípulos por posição, Mc 9.33-37 
(Mt 18.1-5; Lc 9.46-48)

33-37 Tendo eles partido para Cafarnaum, estando ele em casa, interrogou os discípulos: De que é que discorríeis pelo caminho? Mas eles guardaram silêncio; porque, pelo caminho, haviam discutido entre si sobre quem era o maiorE ele, assentando-se, chamou os doze e lhes disse: Se alguém quer ser o primeiro, será o último e servo de todos. Trazendo uma criança, colocou-a no meio deles e, tomando-a nos braços, disse-lhes: Qualquer que receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, não recebe a mim, mas ao que me enviou.

Em relação à tradução
   a
     Aqui não é “na sua casa” como em 2.1, apesar de a casa poder ter sido a de Pedro; o contraste é
simplesmente com lá fora, com estar a caminho, dando a idéia de aconchego (cf. 7.24).
   b
     dialogizesthai na verdade tem o sentido de um processo de raciocínio, mas pode também referir-se à
expressão dos pensamentos, à reflexão em conjunto, que se aplica aqui por causa do v. 34. Por sua vez, já na
LXX o termo já tem um tom negativo, como muitas vezes em Marcos: 2.6,8; 8.16,17; 11.31.
   c
     dialegesthai, conversar, pode ter o sentido de uma briga de palavras. A distância da neutralidade se
perde, e cada um pressiona o outro com suas palavras (Schrenk, ThWNT II, 94s).
   d
     Pesch traduz lit.: “quem era maior”. No entanto, a posição absoluta do comparativo neste lugar sugere
que ele está substituindo o superlativo, como acontece com freqüência. A resposta de Jesus no v. 35
confirma este sentido: a disputa é pela liderança.
   
e
     “Será” é o sentido literal. Trata-se, porém, do futuro na terminologia jurídica. Segue não uma predição,
mas uma exigência (BJ: “Seja”; BV, BLH: “Deve ser”).
   
f
     Lit.: “criancinha”. Contudo, cf. 9.24n!
   
g
     Receber aqui não significa “tomar nos braços” como em Lc 2.28, mas incluir no cuidado amoroso,
acolher (cf. 6.11; Gl 4.14).
   
h
     Alguns manuscritos definem ainda melhor, cf. BLH: “Quem me recebe não recebe somente a mim, mas
também aquele que me enviou”.
Observações preliminares
1. Contexto. Mais uma vez os discípulos reagem com incompreensão a um ensino sobre o sofrimento e
recebem de Jesus mais ensino sobre o discipulado (cf. opr 3 a 8.27–10.52). Novamente o alvo é ser como ele
(opr 3 a 8.34–9.1; compare o serviço dos discípulos no v. 35 com o serviço de Jesus em 10.45). Estar-com-ele
os leva a ser-como-ele. Importante é que tudo isto acontece depois do v. 35 especificamente em um trecho que
trata dos doze. Os doze são representantes, modelos para a igreja de Jesus Cristo de todas as épocas (qi 8g).
Por isso não temos aqui uma mala direta a todos. As instruções não devem ser niveladas em um moralismo
geral, mas devem ser interpretadas para a irmandade que vive de Jesus e no sopro do evangelho. Entretanto, se
as regras aqui são para a comunidade, isto tem implicações para o sentido da lição objetiva de Jesus no v. 36.
Ela não é uma proposta direta de trabalho caritativo com crianças. Jesus deixou aquela criança ir embora de
novo, e também não levava consigo um bando de crianças. Para Marcos, o v. 37 é uma figura da convivência
na igreja.
2. O pano de fundo judaico da disputa por posição. Os discípulos, quando lutavam por uma posição
hierárquica, não estavam apresentando um senso primitivo de importância, mas estavam sendo espirituais no
sentido judaico. Schlatter resume isto assim: “Em qualquer ocasião, seja na reunião de adoração, na
administração do direito, na refeição conjunta, em qualquer relação se levantava sempre a pergunta de quem
seria o maior, e a medição da honra que lhe caberia tornava-se um negócio trabalhado constantemente e
considerado altamente importante” (em Grundmann, ThWNT IV, 538; cf. Mc 10.37; 12.39). Discutia-se
também animadamente sobre sete graus de felicidade futura. Especialmente a seita de Qumran zelava em sua
vida comunitária de forma pedante pela observância da ordem de importância, pois se imaginava como
antecipação terrena das condições celestiais (p ex 1QSa 2.11-22; 1QS 2.20-23, entre os textos de Qumran). Foi
esta atmosfera, portanto, que tomou conta dos discípulos de Jesus. Nós não devemos nos prestar muito
facilmente à crítica, porque o anseio por valor, dignidade e honra também tem um aspecto bíblico legítimo.
Deus criou o ser humano para a glória. Paulo fala da glória que deveríamos ter diante de Deus (Rm 3.23; cf. Jo
12.43). A proteção da honra da pessoa está prevista até nos Dez Mandamentos. A boa fama é um patrimônio
precioso demais para se perder. Toda a criação geme por glória (Rm 8.18ss). O comentário mostrará que Jesus
também não rejeita simplesmente a pergunta por grandeza, mas até oferece grandeza (cf. Mt 5.19; 11.11).
3. A criança no judaísmo. No judaísmo, a criança, diferentemente do mundo greco-romano, era
considerada um presente precioso e recebida como bênção de Deus (Sl 127.3-5). No AT a criança pode servir
de comparação para a paz (Sl 131.2) e o louvor a Deus (Sl 8.3), e aparecer como salvador (Is 7.14; 9.5). Gn
22.2 e 1Rs 3.26 nos trazem histórias tocantes de amor paternal e maternal pelo filho. O judaísmo pós-bíblico,
porém, no mínimo distanciou-se deste fundamento. As crianças fora da idade escolar e da possibilidade de
educação eram tidas como sem importância. Até poderem estudar a Torá, eram desejadas como descendência,
mas pouco prezadas em sua personalidade. É típico o resumo: “Surdos-mudos, débeis mentais e menores de
idade”, ou seja, seres que não têm o controle completo sobre suas faculdades mentais (Jeremias, Theologie, p
218, nota 89). Muito raramente um professor da lei perdia seu tempo com crianças. Numa passagem,
conversar e brincar com elas é citado como exemplo de falta de educação e perda de tempo. A pessoa
espiritual também desprezava os pequenos. A infância era uma coisa que acima de tudo tinha de passar, até
que raiasse a “idade dos mandamentos”. Com 12 anos as meninas e com 13 os meninos eram comprometidos
plenamente com a Torá. Só a partir de então podiam conquistar a sua parte no futuro mundo de Deus (Cf
Oepke, ThWNT V, 638ss).
     33     Tendo eles partido para Cafarnaum, no transcurso da passagem rápida deles pela Galiléia (v.
30). Este fora o antigo centro da atuação de Jesus, mas mesmo ali ele se ocultou, concentrando-se no
convívio interno com os doze. Isto é evidenciado pelo local de permanência: estando ele em casa.
Interrogou os discípulos: O livro contém catorze perguntas de Jesus aos discípulos (Stock, p 114).
Com exceção de 8.27,29, todas têm um tom de censura, apontando para a dolorosa falta de
entendimento dos discípulos. Este também é o caso aqui. Ele os interrogou porque sofrera com a
conversa deles, e porque queria fechar uma brecha que se formava entre eles e ele. De que é que
discorríeis pelo caminho? Este caminho tinha para eles um significado totalmente diferente do que
para ele, como mostrará o próximo versículo.
     34     A consciência pesada deles manifestou-se imediatamente. Mas eles guardaram silêncio. Eles
estavam envergonhados mas, com seu silêncio, aferravam-se à sua posição. Não podiam mostrar sua
maneira de pensar a Jesus se quisessem mantê-la, pois ela teria evaporado como a névoa diante do
sol. Neste aspecto o silêncio deles era semelhante ao dos adversários de Jesus em 3.4. O assunto
deles é formulado nestes termos: porque, pelo caminho, haviam discutido entre si sobre quem era
o maior. Isto os ocupara pelo caminho, como é destacado mais uma vez. Para eles, este caminho –
em oposição aos ensinamentos sombrios dele desde 8.31 – não conduzia à impotência, mas ao poder.
Lc 19.11 confirma que eles cavalgavam uma onda humano-messiânica, à medida que se
aproximavam da cidade. Esperavam grandeza terrena para Jesus e, em conseqüência, também para si
como seus companheiros de luta mais próximos (cf. 10.37). Que este assunto não legitimado por
Deus também não obteve bênção divina, antes desandou em brigas bem comuns e trouxe à tona
rivalidades mesquinhas e repulsivas, não deve nos estranhar. A desarmonia com Jesus
necessariamente resultará, para uma comunidade que deve sua existência a Jesus, em sinais de
decomposição.
     35     E ele, assentando-se, chamou os doze e lhes disse. Com solenidade incomum Marcos descreve
três movimentos de Jesus: sentar, chamar e dizer, quando geralmente são só dois (Stock, p 115).
Sentar é próprio do professor (4.1; 13.3), chamar é próprio do rei soberano (cf. 3.13; 7.14). Além
disso, em vez de simplesmente “os discípulos”, ele fala oficialmente dos “doze”. Tudo concorre para
que o comunicado seja feito em estilo judicial (cf. 8.34). Os exegetas acham que a apresentação é
artificial. Por que convocar os doze na casa, se ele já estava conversando com eles? O homem dos
tempos antigos, porém, tinha uma percepção aguçada para a forma e atitude coerentes com o
conteúdo.
Se alguém quer ser o primeiro, será o último e servo de todos. Transmitida sete vezes (ainda
em 10.43,44; Mt 20.26,27; Lc 22.26), cercada da aura de um outro mundo e com rigor absoluto, esta
declaração se destaca em meio a discípulos que querem sobrepujar um o outro. É verdade que Jesus
preparou grandezas para eles, mas nem por isso ele atenderá todos os seus desejos.
O último, segundo Lc 14.7ss, é aquele que senta na outra ponta da mesa e em quem ninguém
repara; segundo Lc 13.22ss aquele que não tem nem lugar garantido, e segundo Mt 20.1ss aquele que
menos pode ter pretensões. Nossa declaração sobre o último desemboca na palavra sobre o servo à
mesa. Este corre entre os convidados e lhes serve pratos e bebidas. Duas vezes sublinha-se “todos”.
O discípulo não serve só alguns, para ressarcir-se de outros. Ele também não conquista, com seu
serviço fiel, lenta mas seguramente, uma posição para si. Sua posição ele já tem, no âmbito do seu
serviço, genuinamente atento para as necessidades dos outros. Isto não quer dizer que ele sempre os
ajudará como eles desejam, mas certamente como eles precisam objetivamente. Ele se coloca de
modo autêntico ao lado deles.
De que maneira, porém, isto é grandeza? No sentido de seguir e ser igual a Jesus, o servo. A
expressão “servo de todos” corresponde a “servir por muitos” em 10.45. O discípulo, portanto, deve
deixar-se arrastar para a missão do seu Senhor, passo a passo, ombro a ombro, fôlego por fôlego.
Mais uma vez: Por que exatamente isto é grandeza? Porque esta maneira de agir tem toda a
aprovação de Deus, como ele disse para Jesus em 9.7: “Este é o meu Filho amado!” Desta aprovação,
esta aceitação e homenagem por Deus engloba agora também o discípulo. Este privilégio de estar
junto e de ser usado sob o reinado de Deus realiza, no fim das contas, seu anseio mais profundo, de
ter um pequeno papel em uma causa grandiosa.
     36     Trazendo uma criança, colocou-a no meio deles e, significativamente como em 3.3, tomando-a
nos braços. Já que o aramaico usa a mesma palavra para “servo” e “criança”, o v. 36 pode ser sido
ligado ao v. 35 simplesmente por causa desta palavra-chave (cf. opr a 9.38-41), portanto, sem relação
histórica com a conversa anterior. Porém mesmo neste caso pode-se contar com uma relação de
conteúdo. O princípio do versículo anterior é sublinhado aqui com uma ação chamativa. Abraçar o
pequeno (cf. 10.16) significa a sua aceitação, como o próprio Jesus explica, em paralelo de palavras
com o v. 35:
     37     Qualquer que receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe. Esta
palavra ilustra a ênfase que foi dada há pouco em ser “servo de todos”. A criança pequena representa
os esquecidos, não notados ou excluídos que, por qualquer motivo, parece que não são levados em
consideração por nós. Jesus coloca estas criaturas no centro da comunidade de discípulos e das suas
atenções. Além disso, a expressão “em meu nome” não significa somente: segundo a minha vontade
(cf. 10.29), mas também: na minha força (cf. 9.39). O nome e a força muitas vezes estão em paralelo
na Bíblia (p ex At 4.7). Quem vai ao encontro do seu menor irmão na comunidade, totalmente a
partir de Jesus, misteriosamente é presenteado com o próprio Jesus. Ele experimenta o reinado de
Deus.
A segunda metade do versículo lança luz completa sobre isto que é quase inacreditável: e
qualquer que a mim me receber, não recebe a mim, mas ao que me enviou. De acordo com um
pensamento judaico, goza a presença de Deus aquele que recebeu um professor da lei muito honrado
como hóspede (Bill. I, 590). Jesus inverte tudo isto: é exatamente no menos importante que o mais
importante se encontra conosco. Já o AT testifica que Deus está perto dos fracos (p ex Dt 7.7,8).
Entendida desta forma, a vida dedicada aos menores irmãos e irmãs de Jesus em sua igreja é
grandiosa. Assim se experimenta o que era o centro da mensagem de Jesus, que Deus mora e reina
entre as suas pessoas.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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