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58 A confissão de Pedro, Mt 16.13-20,28

A confissão de Pedro, Mt 16.13-20,28
(Mc 8.27-30; Lc 9.18-21)

13-28 Indo Jesus para os lados de Cesaréia de Filipe, perguntou a seus discípulos: Quem diz o povo ser o Filho do Homem? E eles responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias ou algum dos profetas. Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou? Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus. Então, advertiu os discípulos de que a ninguém dissessem ser ele o Cristo. Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui se encontram, que de maneira nenhuma passarão pela morte até que vejam vir o Filho do Homem no seu reino.
São palavras pronunciadas no tempo de tranqüilidade, entre o período da última atividade pública
de Jesus na Galiléia e sua entrada em Jerusalém. Trata-se, a rigor, do início do seu sofrimento, morte
e ressurreição.
No trecho de 13.53 a 16.12, que é o relatório dos feitos que seguiu o relato dos discursos do cap.
13 (aquele que trouxe as sete parábolas) é dito dez vezes que Jesus se afasta:
13.53:  “Quando Jesus terminou o discurso de parábolas, afastou-se dali.”
14.13:  “Jesus, ouvindo isso (a decapitação do Batista) saiu dali e dirigiu-se de barco a um lugar
desabitado.”
14.22:  “E logo impeliu os discípulos a (afastando -se do convívio com a multidão) entrarem no
barco e saírem na frente dele…”
14.23:  “Após despedir o povo, subiu a um monte solitário, a fim de orar.”
15.14:  “Deixem-nos cair (os fariseus).”
15.21:  “Jesus saiu dali e retirou-se para a região de Tiro e Sidom.”
15.29:  “Jesus saiu novamente dali e chegou à proximidade do Mar da Galiléia, subiu a região
montanhosa a fim de permanecer num lugar solitário.”
16.4:  “Deixou-os aí (fariseus e saduceus) e retirou-se.”
16.13a:  “Jesus foi com seus discípulos à região de Cesaréia de Felipe…”, i. é, rumo ao Norte, à
fronteira extrema do país.
17.1:  “Levou-os (os discípulos) para um lugar à parte…” (pelo conteúdo, essa passagem pode
ser incluída da relação).
Portanto, dez vezes nos capítulos que relatam os feitos de Jesus que sucederam ao grande capítulo
do relato dos discursos (Mt 13), fala-se que ele se afastou. Dez vezes Jesus se esforçou para chegar a
um lugar sossegado com seus discípulos. Somente na décima vez obteve êxito. Terminou a atividade
pública de Jesus na Galiléia. Jesus se apronta para a última decisão em Jerusalém. Prepara-se e seus
discípulos para o amargo sofrimento e morte lá. Para isso precisa de solidão.
No sossego, “entre as épocas”, ou seja, entre a última manifestação pública na Galiléia e a entrada
em Jerusalém, Jesus deseja levar ao coração dos discípulos as linhas mestras do funcionamento de
sua comunidade.
Também em Marcos esse trecho “entre as épocas” é o que inicia com a confissão de Pedro e dura
até a entrada de Jesus em Jerusalém. Ele se distingue de “antes” e “depois” pela atitude de Jesus, que
fala, agora, “aos discípulos sobre si próprio, e à sua comunidade sobre temas bem específicos e
interligados” (Mc 8.22–10.45).
Também Lucas aponta indiretamente para essa unidade narrativa (o t recho “entre as épocas”).
Inicia com a confissão de Pedro sobre o Cristo (Lc 9.18-20), depois fala do Cristo que sofre (9.21s) e
dos discípulos do Cristo sofredor (9.23-27). Em seguida apresenta a transfiguração de Jesus (9.28-36), a cura do jovem possesso (9.37-43) e o segundo anúncio de sofrimento (9.43-45). Contudo, os
paralelos seguintes com Mateus são encontrados somente em Lc 15; 17; 18; e 22.
Retornemos a Mateus. As diretrizes fundamentais da comunidade de Jesus começam com o
extraordinária e permanente confissão de pertencer a Jesus Cristo por parte da comunidade que crê
nele, o próprio Filho de Deus. Isso confere à primeira diretriz fundamental da comunidade um
significado singular.


13a  Indo Jesus para os lados de Cesaréia de Filipe…

Jesus rapidamente retoma o plano de se retirar, que foi duas vezes  frustrado, em Betsaida (de
Júlia) pelo entusiasmo do povo de acompanhá-lo, e na região de Tiro e Sidom, onde, apesar de seu
desejo de “permanecer incógnito” (Mc 7.24), a notícia de sua presença se espalhou por causa do
milagre realizado com a mulher cananéia. Depois disso ele havia retornado para o sul, visitando pela
segunda vez a Decápolis (federação das Dez Cidades), que anteriormente teve de abandonar com
tanta pressa. Agora ele segue novament e para o norte, porém mais para leste, para os vales solitários
onde nasce o rio Jordão, aos pés do monte Hermom. Lá ficava a cidade Cesaréia de Filipe, habitada
majoritariamente por gentios (Josefo, Vita § 13). Nessa região afastada Jesus podia ter esperança de
encontrar o sossego que em outras áreas da Palestina buscou em vão. Ele não vai à cidade
propriamente dita, mas à região circundante, ou mais precisamente, às aldeias em redor (Mc 8.27).
Aqui finalmente encontra lugar e tempo para dialogar em particular com seus discípulos.
Jesus, portanto, se soltara finalmente da sua pátria mais próxima, a Galiléia, após ter “saído nove
vezes”. Ele havia peregrinado com seus discípulos até a extrema fronteira do norte, às cercanias da
cidade fronteiriça Dã (de Dã a Berseba, 1Sm 3.20).


13b  Perguntou a seus discípulos: Quem diz o povo ser o Filho do Homem?

A resposta correta ou incorreta a essa pergunta é decisiva para a existência ou não da comunidade
de Jesus na terra. Com a expressão Filho do Homem, Jesus refere-se a si próprio.
Segundo Marcos, Jesus pergunta: “Que dizem as pessoas de mim, quem eu sou? (Mc 8.27).
Segundo Lucas, Jesus pergunta: “Que dizem as multidões de mim, quem eu sou? (Lc 9.18). Ou seja,
em Marcos e Lucas, como a seguir em Mt 16.15, Jesus também pergunta na primeira pessoa: “Quem
dizem vocês que eu sou?”
Jesus se autodenomina, aqui no v. 13b, o Filho do Homem. Essa designação encontramos
somente na boca do próprio Jesus. É a sua autodesignação. Recapitulemos o que já foi dito por nós a
esse respeito sobre Mt 8.20. Complementaremos as palavras que tentavam explicar a expressão
“Filho do Homem” especialmente no sentido humano, com a observação de que o nome “Filho do
Homem” expressava a relação de Jesus com a humanidade. Ele foi totalmente humano, como um de
nós.
“Esse Filho do Homem presente, de acordo com sua humildade, leva a vida de uma  pessoa
comum. Ele come e bebe, de modo que as pessoas podem dizer: Vejam esse glutão e bebedor de
vinho, amigo de publicanos e pecadores (11.19). Ele é um sem teto: Não tem onde reclinar a cabeça
(8.20). É uma pessoa sem direitos, que  precisa padecer arbitrariedades na mão daqueles que têm
poder (17.12). Será entregue nas mãos de homens, e eles o matarão (17.22s). Assim como Jonas na
barriga da baleia, o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra (12.40).
Entretanto, esse Filho do Homem também está ciente de sua glória. Por isso também disse: Vereis o
Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu (26.64;
24.30). O Filho do Homem se assentará no trono da sua glória (19.28), há de vir na glória de seu Pai
com seus anjos (16.27), mandará os seus anjos que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os
que praticam iniqüidade (13.41). Porém já na atualidade ele tem mensageiros humanos na terra, e:
Eles não acabarão de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do Homem (10.23). A
mensagem inaudita que eles devem anunciar é a notícia de que o Filho do Homem já chegou, e que a
única salvação para cada pessoa está em invocá-lo e reconhecê-lo como tal. O Filho do Homem veio
salvar o que estava perdido (18.11), e possui autoridade sobre a terra para perdoar pecados (9.6)”
(Vischer).
Portanto, os evangelhos consideram tanto a humildade quanto a glória do Filho do Homem. É um
mistério, um enigma para os contemporâneos de Jesus.
Em lugar da expressão “Filho do Homem”, Paulo emprega o termo “segundo Adão”, o qual
procede do céu, e que deve ser distinguido do primeiro Adão (1Co 15.45).
“Quem é Jesus, pois, realmente? O juiz do mundo, ou uma pessoa sem direitos? Um que há de vir
ou que está presente? Será que as nuvens do céu o trarão ou a terra o tragará? Ele é o senhor de todos
os senhores ou o servo de todos os servos? Será ele o onipot ente salvador do povo santo do
Altíssimo, ou um ser humano indefeso e desamparado? Quem entende a enigmática humanidade do
Filho do Homem? Quem, diziam as pessoas, ele era?” (Vischer).


14  E eles (os discípulos) responderam: Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias 
ou algum dos profetas.



As opiniões sobre a pessoa de Jesus, relacionadas pelos discípulos, expressavam: “Não
consideram o senhor como o Messias”. É verdade que os contemporâneos de Jesus estavam
profundamente impressionados com o aspecto extraordinário de sua pessoa. E, pelo visto, o rei
Herodes Antipas não era o único que defendia a opinião de que em Jesus o Batista havia
ressuscitado.
Outros eram da opinião de que precisavam lembrar Ml 4.5s, que diz: “Eis que vos enviarei o
profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor”. Outros ainda pensavam que
precisavam recordar 2Mac 2.4ss, onde se fala que Jeremias guardou o tabernáculo, a arca da aliança e
o altar dos perfumes em uma caverna. A muitos parecia que Jesus era Jeremias que saíra de sua
caverna.
Havia também outros que acreditavam ser Jesus um dos outros profetas.
“Os discípulos não reportam ao seu Mestre o que já sabemos de outras passagens do evangelho de
Mateus, ou seja, que, ao lado dessas opiniões positivas sobre Jesus, havia também opiniões muito
negativas! Pois uma vez os seus parentes mais próximos declararam que ele teria ficado  louco.
Pessoas piedosas, que se escandalizavam pelo seu convívio com pessoas excluídas da sinagoga, não
tinham outra explicação que esta: Ele gosta de comer e beber muito. Os líderes religiosos e políticos
o consideravam um inovador perigoso, que dissolve toda ordem, um entusiasta, quando não um
charlatão e blasfemo” (Vischer).
Em sua excelente obra Der Weg des Menschensohnes (Gundert, Stuttgart, 1927), Martin Kähler
escreve o seguinte: “Portanto. Jesus conseguiu, por meio de todo o seu comportamento, que a opinião
pública sobre ele fosse unânime num ponto, a saber, na negação. Nisso  todos estão de acordo: Ele
não é o Messias: Apesar de tudo o que era incomum em sua figura e sua atuação, que se revelara com
tanta glória nos incontáveis e grandiosos milagres e demonstrações de poder, apesar de eventuais
manifestações de intensa esperança, como após o milagre da alimentação, ele decepcionou os seus
concidadãos. Sua pessoa e seu comportamento não coincidiam com a concepção deles de um rei
salvador. Essas eram as opiniões negativas.
Como se julga em nossos dias a pessoa de Jesus? Concedemo-lhe a prerrogativa de ter descoberto
e ensinado a mais pura conduta moral, ou o designamos como o maior gênio religioso, mas como
limitado, unilateral, preso à perspectiva do seu tempo  – como um dos profetas. É assim ou um pouco
diferente que se define hoje a importância de Jesus para a vida intelectual da história universal. Dessa
forma a pessoa culta do século XX pensa ter concedido a Jesus a honra devida. Já chegamos a uma
conclusão, já temos nossa opinião formada sobre ele.”
É evidente que não economizamos o nome de Cristo. Até lhe atribuímos títulos ricos de conteúdo,
como Redentor, Salvador. Mas também eles são moedas gastas. Não ficam reservados
exclusivamente para ele. Seu valor é definido justamente por aquelas opiniões de que ele  não é o
enviado por Deus, sem igual e de importância única para todos, e com direitos exclusivos sobre
todos.
Ninguém se lembra de pensar naquele que o Pai enviou pessoalmente ao mundo, no último, no
único, ou seja, no próprio Deus.
Como é hoje, assim também foi naquele tempo. As pessoas tinham sua opinião formada sobre o
Nazareno.
Contudo, Jesus ainda não chegou ao fim de suas perguntas. Ainda tem uma palavra dirigida aos
discípulos.


15  Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou?

Evidentemente Jesus presume que eles não estão de acordo com nenhuma das opiniões referidas.
Com toda confiança ele contrapõe seus discípulos àquelas pessoas. E, enfatizando a interpelação  vós,
ele lembra os discípulos daquilo que os distingue das pessoas e o que lhes sugere uma conclusão
diferente. Também sabemos que peso ele concede depois à resposta deles. Era importante para ele
que julgamento faziam dele.
Nos três relatos, o testemunho de Pedro, que agora segue, foi formulado de diversas maneiras:
•  O Cristo, Filho do Deus vivo (Mateus);
•  O Cristo (Mc 8.29), o Filho de Deus (segundo o Códice Sinaítico);
•  O Cristo de Deus (Lc 9.20), o Filho de Deus (segundo o Códice Beza).
De certo modo, a formulação de Lucas encontra-se no meio dos outros dois.
De acordo com Mateus, a confissão de Pedro é:

16  Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.

“Essa resposta de Pedro compreende Jesus com uma designação que é de uma natureza totalmente
diferente de todas as citadas. Mesmo que aqueles o classifiquem como importante ou insignificante,
que o avaliem positiva ou negativamente, de uma maneira ou outra eles permanecem no âmbito das
possibilidades humanas. „O Cristo‟, „o Messias‟, „o Ungido‟, consagrado diretamente  pelo próprio
Deus para ser rei, profeta e sacerdote da sua graça, são termos que rompem qualquer  medida
humana, por serem totalmente de origem divina. Em relação aos reis, sacerdotes e profetas de Israel,
Jesus é incomparavelmente mais que o principal deles. Ele é o Senhor, eles são os servos, ele é o
testemunhado, eles são as testemunhas, ele é o sentido de todas as palavras do  AT, o esperado por
todos que esperavam, o prometido de todas as promessas de Deus. Para expressar que Jesus é esse
único e singular, Pedro o designa de o Cristo ou, em sua língua materna aramaica, meshiha, de
„Messias‟” (W. Vischer).
Aquela hora do Senhor Jesus com seus discípulos no lugar solitário lá nos altos de Cesaréia de
Felipe foi verdadeiramente uma hora formidável e extraordinária. Mateus a descreve de forma solene
e séria, designando o discípulo Pedro pelos seus dois nomes  Simão Pedro. Ao responder-lhe, Jesus
contrapôs esses dois nomes num contraste consciente e significativo.
Em Mt 14.33 – na história de como o Senhor anda sobre o mar – todos os que estavam no barco
disseram: “Na verdade não és outro senão um Filho de Deus”.
Agora é dito o Filho do Deus vivo. Essa palavra designa algo bem extraordinário, algo inaudito.
Especifica a “imensurável diferença qualitativa” (Kierkegaard) entre Cristo e todas as criaturas, tanto
as invisíveis quanto as visíveis, os anjos e também os seres humanos.  O Filho do Deus vivo é o
próprio Deus vivo. O discípulo João, no prólogo do seu evangelho (1.1-18) falou de maneira
infinitamente profunda e sublime desse mistério: “Jesus,  o eterno Filho de Deus”. Veja as
explicações no respectivo comentário.
Repetimos mais uma vez a resposta, a fim de gravar a enorme importância dessa confissão: “Tu és
o Messias, i. é, o Cristo, ou seja, não um ungido qualquer, mas o Ungido por excelência, não uma
pessoa esperada qualquer, mas o esperado por excelência. O realizador de tudo aquilo que o AT falou,
indicou e sugeriu, capítulo por capitulo (cf. Comentário aos Romanos, cap. 1).
E mais: Ele é o Filho! Não um filho, mas o Filho por excelência. O único e incomparável no
sentido absoluto. Ele é aquele único a quem o Pai confiou tudo e sem o qual ninguém pode conhecer
o Pai (Mt 11.25-27). É o “Filho amado”, em quem o Pai tem prazer (Mt 3.17).
A presente confissão de Pedro e dos discípulos, que concordam com o seu porta-voz, constitui
uma decisão magna e historicamente decisiva. Sob aspecto fundamental, vem a ser o fim da sinagoga
e o início da comunidade de Jesus.
“Por conseguinte, o testemunho de Pedro é a grande virada na vida de Jesus, na história de Israel e
no destino da humanidade.”
Através dessa confissão de Pedro, estava fundada a comunidade do NT, em contraposição à do AT.
O Senhor Jesus sentiu a felicidade do momento, no qual obteve a certeza de que, apesar de tudo,
tinha lançado raízes entre a humanidade e conquistado nela uma comunidade que continuaria sendo
dele, apesar de todos os poderes do inferno. Como o Senhor se alegrou que seus discípulos o
reconheceram! Eles não têm apenas opiniões sobre ele, não, eles o aceitaram no seu coração, e ele
pessoalmente é “a razão pela qual” vivem seguindo-o. Eles não têm vergonha de ficar junto dele,
apesar do julgamento negativo do povo.
Com palavras especiais, o Senhor destaca que foi o próprio Pai celeste que concedeu isso:



17  Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue 
que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus.


Quanto à expressão filho de Jonas, provavelmente ocorreu um erro de cópia no evangelho de
Mateus grego. Conforme o evangelho de João, o pai de Pedro se chamava João, e não Jonas (Jo 1.42;
21.15-17).
Portanto, não foram pessoas que deram a Simão e, com ele, aos discípulos a percepção da
magnitude e glória únicas e absolutamente ímpares de Jesus. O povo não estava por trás de Simão.
Ele e os poucos discípulos estavam sozinhos diante de Jesus. Pelo contrário, o Pai nos céus havia
concedido como presente ao seu Filho essa confissão de fé dos discípulos.

18a  Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja.


Pedro somente poderá ser uma rocha para a comunidade de Jesus se ficar com a fé firme sobre
Jesus Cristo. A construção que se apoia sobre essa rocha Jesus Cristo é a comunidade de Jesus.
Lembramos de Ef 2.20: “…edificada (como um prédio) sobre o fundamento (themélios, rocha) dos
apóstolos e profetas, onde Jesus Cristo é a pedra angular (pedra fundamental e cumeeira,
akrogonaios)”.
Primeiro Cristo, depois Pedro e os apóstolos, e depois a comunidade. Essa é a seqüência. Jesus
Cristo, porém, não é apenas a pedra fundamental e angular, mas também o mestre de obras que
constrói a sua comunidade. Ela não é obra dos apóstolos, e sim obra dele. Ela tampouco é
propriedade dos apóstolos, e sim propriedade dele, comprada por alto preço.
O fato de Jesus, pois, colocar Pedro como rocha ou pedra fundamental de sua comunidade não
está em contradição com Mt 21.42, onde Jesus diz: “Nunca lestes na Escritura: A pedra (lithos) que
os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular…” e onde Jesus se refere a si próprio como
“kephalén gonias” (pedra angular, pedra fundamental). A passagem acima também não está em
conflito com a carta de Pedro (1Pe 2.4s): “Aproximem-se da pedra (lithos) que vive, rejeitada, sim,
pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, e também vocês mesmos, deixem-se edificar
como pedras vivas para uma casa espiritual (Veja comentário sobre Mt 1 8.15-18).
Nesse trecho, de acordo com as próprias palavras de Pedro, Jesus Cristo é o fundamento e a pedra
angular de sua comunidade. Verifiquemos também, como comparação, Is 28.16 e Sl 118.22, que
afirmam o mesmo. Repetindo: Jesus Cristo primeiro, depois Pedro e os apóstolos, depois cada
membro da comunidade.
Como era equivocada a idéia daquelas pessoas em Corinto que diziam: “Nós somos gente de
Cefas, i. é, de Pedro” (1Co 1.12)! Jesus não concedeu a Pedro uma posição de rocha única,
fundamental para a comunidade toda.
Jesus Cristo sozinho é detentor dessa posição singular de rocha fundamental. No entanto, a
primeira pessoa que seu Pai celestial lhe deu para essa função na terra é Simão. Deus o concedeu
pelo fato de que fez com que Pedro fosse o primeiro a confessar: “Tu és o Cristo”. Por causa da fé
obtida de Deus e que o confessa, o Cristo declara esse apóstolo como rochedo ou primeira pedra
fundamental de sua comunidade. Por isso Lutero explicou com acerto: “Quem, pois, quiser expor
corretamente esse texto bíblico, aprenda aqui de Cristo que a comunidade existe somente onde há
essa rocha, i. é, onde estão esse testemunho e essa fé que Pedro tem e os outros discípulos também”.
Contudo, essa compreensão não pode levar, na luta contra as reivindicações católicas, a uma
abstração hipostática da fé, como se o Cristo tivesse escolhido uma formulação da fé e não, antes de
tudo, uma pessoa crente para ser fundamento da comunidade.
“Com certeza ficamos admirados, sim, espantados, quando nos damos conta de quanto Jesus
arriscou ao apostar tanto numa pessoa. Ele o fez na confiança em seu Pai no céu, que lhe tinha dado
essas pessoas para confiar. Tudo o que o evangelho de Mateus informa sobre Pedro, da sua vocação
até a sua negação de Jesus, mostra que Jesus realmente o fez. Da mesma  forma Lucas, que transmitiu
a palavra do Senhor (Lc 22.31s): “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar
como trigo. Eu, porém, roguei por ti para que a tua fé não desfaleça. E tu, quando te tiveres
reencontrado, fortalece os teus irmãos.” Atitude idêntica mostra João com a incumbência: “Simão,
apascenta as minhas ovelhas!” [Jo 21.15]. Neste ponto, pois, o testemunho dos evangelhos é
unânime” (cf. Vischer).
Em parte alguma do NT é dito que, por causa de Mt 16.18; Lc 22.32 e Jo 21.15-17 Jesus teria
transferido a Pedro a autoridade máxima na igreja, que Pedro seria o verdadeiro representante de
Cristo e de Deus, o substituto de Cristo e por isso o primeiro e último que teria todas as certezas.
Tampouco se fala no NT de que o primado de Pedro abrangeria um primado de honra e de poder
supremo de governo sobre toda a igreja, e precisamente no sentido da autoridade máxima legislativa,
do supremo tribunal e da autoridade doutrinária máxima, com a procuração de infalibilidade em
relação à solene definição de doutrinas de fé (ex cathedra). Nossa opinião é que essa reivindicação
jurídica do papado por governo divino sobe a igreja não é conforme à Escritura. O único cabeça da
igreja, ou melhor, da comunidade ( ekklesía), é e continua sendo Cristo.
A construção que o Cristo erguerá é chamada por Jesus de sua comunidade, sua ekklesía. A
palavra é usada nos evangelhos somente por Mateus, e somente aqui e em 18.17 (duas vezes).
Origina-se da constituição das cidades gregas e designa “a assembléia dos cidad ãos plenos da pólis,
reunidos para exercerem atos legais” (Erik Peterson, cf. K. L. Schmidt, artigo  ekklesía, in: Kittel,
Theol Wörterbuch zum NT). Na LXX o termo foi escolhido para traduzir o termo kahal do AT, que
designa a reunião da federação israelita. Enquanto no judaísmo tardio o termo estava sendo cada vez
mais substituído por sinagoga, os vocacionados por Jesus Cristo o encamparam inteiramente para si
como designação dos chamados para fora. Pois pela concepção puramente lingüística (do idioma
grego), ekklesía significa “os chamados para fora” (ek = para fora, e kaléo = eu chamo). Ao sentido
do AT, de reunião, agrega-se o sentido do NT, do “convocar para fora”. Forma-se, assim, a
“assembléia convocada para fora”. Esta poderia ser a designação da comu nidade de Jesus. Desse
modo a palavra comunidade adquire o sentido mais profundo de reunião dos convocados para fora. É
o Espírito Santo quem chama e reúne… precisamente aos que se deixaram chamar e reunir.
No NT o termo ekklesía aparece 115 vezes:
•  3 vezes em Mateus
•  24 vezes em Atos
•  5 vezes na carta aos Romanos
•  22 vezes em 1Coríntios
•  9 vezes em 2Coríntios
•  3 vezes em Gálatas
•  9 vezes em Efésios
•  2 vezes em Filipenses
•  4 vezes em Colossenses
•  2 vezes em 1Tessalonicenses
•  2 vezes em 2Tessalonicenses
•  3 vezes em 1Timóteo
•  1 vez em Filemom
•  2 vezes em Hebreus
•  1 vez em Tiago
•  3 vezes em 3João
•  20 vezes no Apocalipse de João.
Proporcionalmente ao número de capítulos, é em Atos dos Apóstolos, em 1Coríntios, no
Apocalipse e na carta aos Efésios que a palavra ekklesía é mais freqüente.
Nenhuma vez encontramos a palavra nas duas cartas de Pedro. Isso é tanto mais estranho por ter
sido diante de Pedro que o Senhor Jesus usou pela primeira vez a palavra ekklesía (Mt 16.18).
Embora Pedro pessoalmente não use a palavra ekklesía, ele conhece muito bem o que ela designa.
Usa expressões correlatas, p. ex., “casa espiritual” (1Pe 2.5), “raça eleita”, “sacerdócio real”, “nação
santa”, “povo de propriedade” (1Pe 2.9) etc.
Muitas vezes em sua obra historiográfica Lucas utiliza expressões que caracterizam a natureza da
comunidade, sem citar ekklesía = comunidade, como, p. ex., “os seus” (At 4.23), “a multidão dos que
creram” (4.32) “a plenária dos discípulos” (6.2), “os que são do Caminho (da salvação)” (9.2), “os
santos” (9.32) etc.
Para a diversidade das formas como a palavra comunidade = ekklesía pode ser descrita no NT,
citemos ainda um breve exemplo de Paulo. Na carta aos Efésio s designa-se, apenas nos cap. 1 e 2, a
comunidade de Jesus com 33 palavras ilustrativas diferentes.
Os múltiplos termos e expressões, usadas centenas de vezes para designar a comunidade, possuem
essa uma idéia básica de que somente pode ser cidadão da comunidade aquele que experimentou um
“renascimento” mediante um encontro pessoal com o Senhor.
Estes cidadãos são “da família de Deus” (Ef 2.19) e vivem entre as demais pessoas na terra como
“cidadãos santificados”, cuja “cidadania” ou “pátria” está, como escreve Paulo (Fp 3.20s), “nos céus,
de onde esperamos como Libertador, o Senhor, Jesus Cristo, que há de transfigurar o nosso corpo
humilhado, para torná-lo semelhante ao seu corpo glorioso, com a força que também o torna capaz de
tudo submeter ao seu poder”.
“Estão inseparavelmente unidas a mensagem de Jesus de que está próximo o reino dos céus e a
fundação da sua comunidade. Já se argumentou que uma exclui a outra. Por ter esperado pelo reino
de Deus, não poderia ter lançado o fundamento da comunidade” (Vischer).
Mas não é esse o caso. Pois a comunidade de Jesus deve ser, e é, testemunha e portadora de uma
notícia universal de alegria, de um evangelho, que o próprio Jesus formula assim: “Deus, com efeito,
amou tanto o mundo que deu o seu Filho, o seu único, para que toda pessoa que nele crê não pereça,
mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).
Toda a vida e ação da comunidade de Jesus apressa-se em direção do grande dia do retorno e da
revelação de Cristo. Toda a existência da ekklesía é anúncio e configuração daquilo que virá.
A ética da comunidade de Jesus precisa corresponder exatamente ao que nos profetas de Israel
eram os “sinais”: organização forte, transformação de uma parte da situação do mundo, expressão
espiritual e física da mensagem do dia de Deus vindouro.
A comunidade de Jesus é a “palavra visível”, é sinal do reino vindouro, é ação não restrita por
nenhum barreira, ação ativa e intensiva em todas as direções.

18b  As portas do reino dos mortos não resistirão a ela.


No evangelho de Mateus, Jesus usa duas vezes para “reino dos mortos” a expressão hades: em
11.29 e 16.18. Nestes trechos a tradução de Hades é “reino dos mortos” (Veja mais detalhes em Mt
8.5-13 na nota sobre tradução e e em Rienecker, Begrifflicher Schlüssel).
A maneira de falar de portas do reino dos mortos revela que os israelitas imaginavam o reino
dos mortos como uma fortaleza. Havia portões de entrada nessa fortaleza. Quem passou por esses
portões é mantido preso. Nenhum finado retorna da fortaleza trancada do reino dos motos. Os portões
fecham-se para sempre atrás dos falecidos.
Existe apenas uma única exceção, que é Jesus. Ele não pôde ser mantido na sepultura. As portas
do reino dos mortos tiveram de abrir-se e devolvê-lo.
Com ele, também a sua comunidade não poderá ser mantida presa pelas portas do reino dos
mortos. Para ela a morte foi vencida, pois  foi -lhe dada vida eterna.
Os portões do mundo dos mortos não prevalecerão contra ela. Em outra tradução lemos: “As
portas do reino dos mortos não serão mais fortes do que ela”.
Sobre esse texto, Lutero disse o seguinte: ”Na Escritura, as portas significam uma cidade e seu
poder. Por conseguinte, aqui as portas significam todo o poder do diabo com seu séquito, como reis e
príncipes desse mundo que precisam todos opor-se à rocha e à fé. Porém o consolo é este: Ainda que
os cristãos tenham de deixar para trás o corpo e a vida, as portas do inferno não são vitoriosas, mas a
vitória será dos cristãos. Pois a igreja é um batalhão em prontidão e uma guerreira heroína, que luta
até mesmo contra as portas do inferno e que vence e triunfa e governa contra o pecado, contra a
morte e contra o causador de ambos, a saber, contra o diabo” (Eberle, Luthers Evangelien-Auslegung).
À nomeação de Simão como rochedo, segue uma declaração:

19a  Dar-te-ei as chaves do reino dos céus.


A linguagem figurada das chaves se sugere porque Jesus comparou sua comunidade com um
prédio. Quem, pois, recebeu as chaves da casa, tem o cargo de fechar e abrir a porta.
A “palavra” que Pedro e os apóstolos anunciam torna-se, para uns, “perfume para a vida”, para
outros, “cheiro de morte” (2Co 2.12-14). A pregação dos apóstolos, assim como toda a pregação da
palavra até os dias de hoje, age como graça quando é aceita, e como juízo quando é rejeitada. Desse
modo o posicionamento perante o anúncio da palavra decide, em última análise, sobre pert encer ao
reino dos céus ou ser excluído dele.


19b  O que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares da terra terá sido 
desligado nos céus.



“Com essas palavras Jesus comparou o seu ministério com o do juiz, que envia para a prisã o ou
concede a liberdade. Com a administração da graça está firmemente conectado a ação de Deus como
juiz. Também isso faz parte da grandeza do serviço apostólico. Como mensageiro de Jesus, Pedro
aprisiona uns e conduz outros à liberdade. Os soberbos ele prende, os cativos solta das correntes. Em
um lugar faz com que o pecado gere a morte, em outro afasta dele e declara livre. Pedro o executa
com palavras humanas, contudo o faz com validade eterna. Deus o endossa. O perdão que Pedro
anuncia é o perdão de Deus, a condenação que ele ameaça é executada por Deus. Ele não fala
somente sobre os assuntos de Deus, mas a palavra que Pedro profere é ouvida, confirmada e
cumprida nos céus.
“Essa promessa de Jesus passou a vigorar no dia de Pentecostes, quando Pedro est ava diante dos
judeus com o testemunho vigoroso de Jesus, e milhares vieram para o batismo. Foi ali que Cristo
colocou sobre ele, como rocha escolhida, as primeiras pedras que formaram a casa edificada por ele.
Foi ali que Pedro pôde usar a chave, que abre o reino dos céus. Evidenciou-se como boa chave,
porque o Espírito de Deus acompanhava a sua palavra. Foi ali que ele estava de pé como aquele que
desliga, quando conduziu as pessoas ao batismo para que seu pecado fosse apagado. E quando Pedro
afastava a geração pervertida do reino de Deus isto também tinha validade, e o juízo de Deus caía
sobre os membros dessa geração.
“O que começou em Pentecostes, tornou-se permanentemente seu ministério apostólico.
“Da mesma forma, a comunidade de Jesus não pode prescindir desse ministério hoje. Pois o
serviço dos apóstolos chega também a nós através do Novo Testamento” (cf. Schlatter, p. 256).
Incessantemente, a palavra do NT segue também hoje chamando para a decisão.


20  Então, advertiu os discípulos de que a ninguém dissessem ser ele o Cristo.

Diante desse versículo, Schlatter lança a seguinte pergunta: “Por que o Israel inteiro não devia
saber disso? Não tinha de ser proclamado de uma extremidade do mundo à outra? Afinal, dizia
respeito a toda pessoa que Jesus era o Cristo. Para todos residia nisso a promessa, para todos trazia o
compromisso de obedecer. Neste momento, porém, Jesus não deseja outra coisa senão que os
discípulos creiam nele. Enquanto isso, fica encoberto para o Israel inteiro o seu nome de Mess ias, seu
nome de Cristo, pelo mesmo motivo pelo qual Jesus encobre e oculta a pregação do reino dos céus
com parábolas” (Erläuterungen, p. 257).
Ainda está por acontecer algo. Somente quando esse acontecimento decisivo tiver ocorrido pode-se anunciar livre e publicamente, sem mal-entendidos, que Jesus é o Cristo.
Chegamos ao final de um trecho que abrange céu e terra, de um evento significativo para a
história universal.
Os v. 13-20 significam, verdadeiramente, a virada que separa e decide. Dão notícia do fim de
Israel e do começo da “comunidade de Jesus”, que abrange todos os povos. À construção e expansão
dessa comunidade mundial destina-se, agora, a segunda metade do evangelho de Mateus.

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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