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58 O exorcista desconhecido, Mc 9.38-41

O exorcista desconhecido, Mc 9.38-41 
(Mt 10.42; Lc 9.49,50)

38-41 Disse-lhe João: Mestre, vimos um homem que, em teu nome, expelia demônios, o qual não 
nos segue; e nós lho proibimos, porque não seguia conosco. Mas Jesus respondeu: Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome e, logo a seguir, possa falar mal de mim. Pois quem não é contra nós é por nós. Porquanto, aquele que vos der de beber um copo de água, em meu nome, porque sois de Cristo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão.

Em relação à tradução
   a
     Aqui “nome” está ligado à preposição en (dentro), no versículo seguinte a epi (sobre), no v. 41
novamente en, no texto paralelo de Mt 10.42 a eis (para dentro). Todas estas formas gregas remontam à
mesma forma hebr. básica. Por isso uma tradução uniforme é recomendável, que corresponde melhor ao que
estamos acostumados em português: “em nome” (em Marcos ainda em 9.37; 11.9; 13.6; cf. 16.17; 13.13,
“por causa (dia) do meu nome”).
   
b
     Os dois verbos desta frase estão no imperfeito, o que dá o sentido: tentaram impedi-lo, mas sem
sucesso, e ele insistiu em não tornar-se seguidor de Jesus, não se deixou conquistar.
   
c
     Lit. “em nome” (en onomati), sem que se pense num nome específico. Alguns manuscritos antigos
entenderam que se tratava de Jesus e acrescentaram “em meu nome”. No contexto, porém, dificilmente está-se pensando numa ação com motivação cristã por parte de pessoas de fora, mesmo que numa ação em
cristãos. Isto levanta a possibilidade de que no grego onoma teria um sentido mais fraco: “por serdes de
Cristo” (BJ; cf. BV, BLH). Oferece-se um copo de água a discípulos sedentos tendo em vista o fato conhecido
de que estão vinculados a Cristo. Um paralelo literário está p ex em Mt 10.41 (hospedar um profeta “no
caráter (onoma) de profeta”, porque é conhecido como profeta). Veja a mesma expressão em 1Pe 4.14.
   
d
     Enquanto Marcos traz christos com o artigo definido em 8.29; 12.35; 13.21; 14.61; 15.36, usando o
termo claramente como título (= o Messias, cf. 8.29n), em 1.1 e aqui ele o usa sem artigo e, portanto, como
nome próprio (Bl-Debr, § 260), de modo que se recomenda a tradução por “Cristo”. Paulo usa christos quase
400 vezes como nome próprio, quase sempre sem artigo. Disto resulta que christos também em nosso
versículo é maneira de falar posterior. Dificilmente Jesus terá falado de si mesmo na terceira pessoa como o
Cristo. A identificação “ser do Cristo” certamente traz sinais do uso pelos primeiros cristãos (1Co 1.12; 3.23;
2Co 10.7; cf. Rm 8.9).
Observações preliminares
1. Contexto. A linha de pensamento central ainda é a falta de entendimento dos discípulos. Eles sobem com
Jesus para Jerusalém, ele pronto para sofrer, eles cheios de ilusões. Seu Senhor e o caminho dele não orientam
a atitude deles. Desta vez isto se mostra na estreiteza deles, na sua pretensão de serem os únicos representantes
de Jesus.
2. Vínculo por palavras-chaves. Não se afirma uma ligação estreita quanto ao tempo com o trecho anterior.
Entretanto, a palavra-chave “nome” une os v. 37,38,39,41. Composições como estas serviam de ajuda para a
memória. A palavra “servo” no fim do v. 35 pode ter sido a ponte para o v. 36, já que “servo” e “criança” são
a mesma palavra em aramaico (Jeremias, Gleichnisse, p 225). Como já foi dito, “nome” no v. 37 atraiu os v.
38-41. O v. 41 mencionou a menor dádiva, o que sugeriu a palavra dos “pequeninos” no v. 42: ai de quem os
fizer tropeçar! Agora podem seguir as declarações sobre fazer tropeçar, nos v. 43-48. No fim destas aparece a
palavra “fogo”. Aí se encaixa a palavra sobre fogo e sal, à qual se acrescentam mais duas palavras sobre sal,
no v. 50 (cf. Schniewind, p 127; Roloff, p 167). Estes vínculos por palavras-chaves e concordâncias exteriores
deixam parecer como se faltasse alguma coisa, mas não de conteúdo e sentido. Mateus e Lucas aproveitam a
série de declarações em parte em outros contextos.
3. Textos paralelos? A interpretação poderia indicar At 19.13-16, em que sete exorcistas judeus usam o
nome de Jesus como magia e sofrem um revés desagradável. Aqui, porém, não estamos diante de superstição,
além disso acontecem “milagres” incontestes (v. 39, como 6.2). Nm 11.24-29 também não serve de
comparação: Moisés chama os 70 anciãos do acampamento, mas aparecem só 68. O Espírito, porém, não veio
somente sobre eles, mas também sobre os que não tinham vindo. Josué, então, exige que Moisés proíba
aqueles dois de profetizar. Em nossos versículos, porém, os discípulos quem impedir a ação de um carismático
que expressamente não fazia parte do grupo dos seguidores chamados. Por isso nosso trecho não se presta para
desfazer preconceitos entre denominações e igrejas, já que nos dois lados há seguidores de Jesus.
     38     Em vez de Pedro (8.29,32), desta vez João é o porta-voz dos doze (cf. 9.54), solicitando a
autoridade de ensino de Jesus, em nome de “nós”. Disse-lhe João: Mestre, vimos um homem que,
em teu nome, expelia demônios. Em um caso em que não tinham conseguido impor-se (veja as
notas à tradução), eles pensavam que podiam esperar a ajuda de Jesus. O qual não nos segue; e nós
lho proibimos. Faltava a este desconhecido o encargo para seu ministério, que os discípulos tinham,
conforme 3.15, 6.7. Ele não pertencia a Jesus, isto é o que eles querem dizer com não seguia
conosco. Eles se unem a Jesus – e com razão, como mostrará a resposta de Jesus no v. 40. Lá ele
também os une a si. No v. 41 ele até invoca a sua solidariedade com eles (cf. também 9.17, e o “nós”
na boca de Jesus: v. 40; 1.38; 4.35; 10.33; 14.15).
A crítica dos doze, portanto, não era sectária. Eles não sentiam falta da autorização do
desconhecido por certo grupo, mas do seu vínculo pessoal com Jesus. Ele não era discípulo de Jesus
e também não queria sê-lo. Certamente ele confiava em Jesus em certa área, como a libertação da
possessão demoníaca, e efetuava coisas boas nesta confiança. Mas Jesus ainda não era o centro da
sua existência.
Os evangelhos mostram que naquela época havia confiança em Jesus, às vezes com uma clareza
que envergonhava os discípulos, sem que os envolvidos já fossem discípulos. É verdade que o grupo
de discípulos era um sinal destacado do raiar do reinado de Deus, mas entre o povo havia outros
indícios, prenúncios, muitas vezes onde não eram esperados, como no comandante em Cafarnaum
conforme Mt 8.10, nas crianças no templo conforme Mt 21.16, no dono da montaria conforme Mc
11.6 ou do salão de festas em 14.14,15 ou do túmulo em 15.42-46. Notável é o papel do sumo
sacerdote conforme Jo 11.49-51. Os discípulos, como foi dito, não argumentavam em termos
sectários, mas cristológicos, só que de uma cristologia estreita. O poder de Cristo ultrapassa seu
círculo de discípulos. Ele não nasce nem se põe em sua igreja.
     39     Com as mesmas palavras da bênção das crianças em 10.14, Jesus respondeu: Não lho proibais.
Podemos comparar este “proibir” com Lc 11.52; At 10.47; 11.17; 1Co 14.39; 1Ts 2.16; 1Tm 4.3; 3Jo
10. Em todos estes casos ele acontece como suposto serviço a Deus, quando não passa de um
desmando. Não fora o desconhecido mas os discípulos que transgrediram sua competência.
Explicando, Jesus continua: porque ninguém há que faça milagre em meu nome e, logo a seguir,
possa falar mal de mim. Jesus está pensando em sua Paixão iminente, pois “falar mal” e outras
palavras semelhantes o lembram dos seus sofrimentos (10.34; 14.65; 15.16-19,29-32; cf. Hb 10.33;
13.13). Mas ele pensa também no sofrimento dos seus seguidores, pois os liga imediatamente a si:
     40     Pois quem não é contra nós é por nós. Esta frase também foi encontrada em outros textos como
provérbio (Bill. II, 19) e abriga uma verdade que não deve ser desprezada. Se irromper um pró-e-contra frontal e a opinião pública se voltar contra os discípulos, aqueles que alguma vez foram
tocados por Jesus e por isso se sentem impedidos de acompanhar a hostilidade dominante, tornar-se-ão verdadeiros sinais de Deus. Enquanto em volta a escuridão avança, estes simpatizantes e os
serviços que prestam ocasionalmente (v. 41) são pequenas luzes no meio da noite, sinais de consolo
do céu. Os discípulos devem reconhecer e entender estes sinais de consolo, não esmagá-los com rigor
irrefletido.
Com esta palavra, Jesus corrige o conceito que os discípulos tinham da forma do reinado de Deus
neste mundo. De forma alguma, porém, ele com isto está alargando a porta estreita do discipulado.
Não resulta aqui o ideal de uma igreja de todo mundo, que acolhe tudo que é tipo de coisa. Afinal de
contas, nossa passagem tem um contrapeso em Mt 12.30: “Quem não é por mim é contra mim; e
quem comigo não ajunta espalha”. Desta maneira ele chama à decisão os que estão próximos. Porém
os que estão longe ele incentiva.
     41     Segue um exemplo de como simpatizantes secretos podem ser úteis em situações de perseguição:
Porquanto, aquele que vos der de beber um copo de água, em meu nome, porque sois de
Cristo… O copo de água era considerado o sinal mínimo de hospitalidade, que podia ser dado até a
um inimigo (Pv 25.21). Uma pessoa que está de fora exerce-o num destes perseguidos e difamados.
Este milagre é seguido por um segundo milagre. Com uma afirmação solene Jesus continua: Em
verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão. Sobre este “em verdade” (amém),
cf. 3.28n. A recompensa de Deus jamais é um acerto de contas mesquinho. Ele não se vinga pelo
copo de água fria dando outro copo de água fria ao doador que talvez está ardendo no inferno. A
recompensa para Deus é algo transbordante, incalculável. Recompensa é graça, é, como Jesus afirma
em Mt 25.34, ter parte no reino.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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