Pessoas que gostam deste blog

59 Declarações sobre motivos de tropeço e sobre a paz no grupo dos discípulos, Mc 9.42-50

Declarações sobre motivos de tropeço e sobre a paz no grupo dos discípulos, Mc 9.42-50 
(Mt 18.6-9; Lc 17.1,2; 14.34,35)

42-50 E quem fizer tropeçar a um destes pequeninos crentes, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse lançado no mar. E, se tua mão te faz tropeçar, corta-a; pois é melhor entrares maneta na vida do que, tendo as duas mãos, ires para o inferno, para o fogo inextinguível [onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga]. E, se teu pé te faz tropeçar, corta-o; é melhor entrares na vida aleijado do que, tendo os dois pés, seres lançado no inferno [onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga]. E, se um dos teus olhos te faz tropeçar, arranca-o; é melhor entrares no reino de Deus com um só dos teus olhos só que, tendo os dois seres lançado no inferno, onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga.     Porque cada um será salgado com fogo. Bom é o sal; mas, se o sal vier a tornar-se insípido, como lhe restaurar o sabor? Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros.

Em relação à tradução
   a
     O substantivo skandalon denota a armadilha que é colocada para fazer alguém tropeçar. O sentido
figurado faltava fora da Bíblia, razão pela qual os pais da igreja já tinham de explicá-lo a seus leitores que
não eram de origem judaica. No AT o verbo ativo skandalizein significa: dar motivo para alguém apostatar de
Deus e acabar causando isto (BLH: fazer abandonar; BV: fazer perder a fé).
   
b
     Lit.: “bom lhe será mais, quando…” É uma maneira de descrever o comparativo (parecido nos v.
43,45,47). Transparece uma fonte aramaica (Bl-Debr, § 244).
   
c
     Diferente da pedra do moinho manual, que uma mulher podia manusear, a pedra aqui é a do moinho
grande, que era girada por dois burros. Em seu centro havia um buraco onde se derramava o cereal, de
tamanho suficiente para enfiá-la pela cabeça de uma pessoa e afundá-la sem que tivesse chance de escapar
(Bill. I, 775). Há testemunhos de execuções assim (Barclay, p 205).
   
d
     O termo é geena, a forma grega da expressão hebr. “vale de Hinom” (nome de família). Este vale
acompanhava a muralha meridional de Jerusalém e já era mal-afamado em tempos antigos, porque ali por
um tempo se ofereceram sacrifícios de crianças a Moloque (2Rs 16.3; 21.6). Mais tarde o barranco serviu
como depósito de lixo. O portão da cidade que dava para lá tinha o nome de “porta do esterco”. Ali havia
sempre fogo para queimar o lixo, e o lugar era considerado o mais repugnante do mundo. Desde o século II
a.C. o nome era usado para indicar o lugar de perdição escatológico. Marcos explica o termo aos seus
leitores com o acréscimo “onde o fogo não se apaga”.
   
e
     A citação de Is 66.24 falta nos v. 44,46 em numerosos manuscritos importantes e antigos, por isso está
aqui entre colchetes. Com certeza ela foi introduzida mais tarde nestes dois lugares, a partir do v. 48. Assim
criou-se um ritmo tríplice, que é bem marcante.
   
f
     De acordo com a concepção judaica antiga, verme e fogo, isto é, decomposição e cremação, se detém
diante do esqueleto de um cadáver, deixando um ponto de partida para a ressurreição. Neste caso, porém, a
atividade deles não cessa, tudo apodrece e queima – não há mais ressurreição.
Observações preliminares
1. Contexto. Que desde o v. 35 nos encontramos em um trecho formado por palavras-chaves, já foi dito na
opr 2 a 9.38-41. O contexto original não foi preservado, e os evangelistas se sentiram à vontade para encaixar
estas declarações aqui ou acolá. É bem provável que Jesus também as usasse em ocasiões variadas. Mateus, p
ex, tem os versículos sobre o julgamento próprio radical duas vezes (18.6-9 e 5.29,30), a segunda vez aplicado
especificamente ao adultério. Mais tarde eles serviram de advertência contra divisões na igreja (1Clemente
46.8) ou heresias (Inácio aos Efésios 16.2). Os pregadores de hoje também fazem versículos bíblicos frutificar
com freqüência fora do seu contexto original.
2. Mutilação ascética? A princípio há unanimidade no sentido de que os v. 43-48 estão em linguagem
figurada, com ilustrações orientais em cores fortes. P ex, para impossibilitar o olhar cobiçoso com a
amputação literal, os dois olhos teriam de ser arrancados. Contudo, qual é o sentido figurado exato? Será que
se trata da mutilação ascético-religiosa conhecida na Antigüidade, se bem que condenada pelos judeus, que era
realizada para aumentar a santidade? Neste caso, a exigência seria, sem figura: renuncie sem meio-termo
àquilo que o leva à perdição! Você só conserva a vida se lutar com todas as forças contra si mesmo. A raposa
que ficou presa com uma pata na armadilha prefere mordê-la fora do que esperar pelo caçador que a matará.
Há certa verdade nesta interpretação, mas dificilmente ela é apropriada aqui. Jesus ensinou com muita ênfase
em 7.22 que o mal vem de dentro do coração humano, portanto, não pode ser combatido pela amputação (em
sentido figurado) de membros. Mesmo alguém que é totalmente cego pode ser dominado pela lascívia. Além
disso não é provável que Jesus tenha acolhido em sua reserva positiva de ilustrações um costume típico da
religiosidade pagã. De modo que procuramos um outro caminho, que não exclui o apelo à decisão radical, mas
pega mais fundo e diferente.
3. Ameaçar com o inferno? Haenchen (p 330) decidiu que é impossível que o v. 48 tenha saído da boca de
Jesus, já que o versículo está citando Is 66.24, “uma das passagens mais não-cristãs do AT”. Jesus nem teria
trabalhado com ameaças de condenação, “pois a obediência que brota do medo do inferno é em boa parte
egoísmo. […] A obediência que Jesus quer nasce do amor.” Karl Martin Fischer recomenda em uma pregação
que este versículo seja omitido já na leitura do texto: ele só distorce a boa nova. Pesch II, p 114s, diz
corretamente: “Não há motivo para não atribuir a afirmação a Jesus. O anúncio impiedoso da condenação para
quem rejeita a oferta de salvação de Deus, e até convence outros a abandoná-lo, não nega a boa nova, antes
sublinha sua seriedade.” Sempre é fatal querer entender mais do Evangelho do que os nossos evangelhos. Eles
continuarão existindo quando os “evangelhos” que nós fabricarmos tiverem sido varrido pelo vento.
4. O sal na Bíblia. As pessoas da era da geladeira dificilmente podem imaginar que houve um tempo em
que o sal era necessário para a vida. Nos países com clima quente, com suas nuvens de insetos, o sal
praticamente se tornava algo santo, divino. Cada pedaço de carne ou peixe era salgado imediatamente depois
do abate. Naturalmente também se usava o sal como tempero, contra dor de dente, para aumentar a claridade
de uma chama ou para purificar um recém-nascido. Acima de tudo, porém, ele era símbolo de durabilidade.
Por esta razão comia-se sal em conjunto para selar um acordo. A Torá era considerada sal, porque conferia
consistência à existência humana. Sobre uma cidade destruída aspergia-se sal, para perpetuar a maldição
lançada contra ela. Em nosso texto o ato de salgar sacrifícios parece ter algum papel. Este exprimia a
durabilidade da aliança.
     42     E quem fizer tropeçar a um destes pequeninos crentes. Estes “pequeninos”, diferentemente de
outras passagens, dificilmente são os discípulos em geral. Neste caso os que os fizessem tropeçar
seriam pessoas de fora que perseguem a igreja, e as palavras de Jesus seriam de consolo para os
perseguidos. No contexto trata-se novamente de uma palavra de exortação aos doze, no sentido de
servirem com dedicação aos pequenos em seu meio (v. 36!), portanto os fracos e dependentes na fé.
O tema continua sendo a convivência dentro da comunidade, e passagens como Rm 14.1-15,17; 1Co
10.23-33; 11.17-22; 12.23; Tg 2.1-9 ilustram a palavra a partir da prática dos primeiros cristãos. É
uma possibilidade monstruosa servir, em vez de à fé, ao abandono da fé, e privar irmãos da salvação
eterna. Assim como Deus responde ao menor gesto de amor pelo irmão (v. 41), ele também reage a
tal injustiça: melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e
fosse lançado no mar. O choque intencional com uma figura grosseira repete-se nos próximos
versículos e ainda será estudado (cf. v. 48 e 3.29).
     43-47     E, se tua mão te faz tropeçar, corta-a; pois é melhor entrares maneta na vida do que, tendo
as duas mãos, ires para o inferno, para o fogo inextinguível. E, se teu pé te faz tropeçar, corta-o; é melhor entrares na vida aleijado do que, tendo os dois pés, seres lançado no inferno. E, se
um dos teus olhos te faz tropeçar, arranca-o; é melhor entrares no reino de Deus com um só
dos teus olhos do que, tendo os dois seres lançado no inferno. Com estes versículos, a apostasia
em si passa para o centro da cena. As palavras se tornam especialmente penetrantes. Só nesta
passagem no evangelho de Marcos usa-se a segunda pessoa.
Três vezes Jesus menciona membros do corpo que podem provocar nossa perdição. O fato de eles
serem colocados à parte de nós, como grandezas independentes, não nos deve tranqüilizar. Não
poderemos nos desculpar: Isto foi só minha mão; sou uma pobre vítima! Pois o que fazemos nas
bordas afeta também nosso centro. Somente no uso dos nossos membros é que se mostra sem sombra
de dúvida quem somos e o que há em nosso coração (7.21-23). Nossas ações concretas é que nos
condenam. Por isso a Bíblia menciona nossos membros quando se trata de descrever nossa
verdadeira natureza humana (Horst, ThWNT IV, 566). Por meio da mão, do pé e do olho nós nos
tornamos reais. Quanto ao olho, neste contexto não se pensa tanto no olhar adúltero quanto no olhar
invejoso ou arrogante e de desprezo (Mt 20.15; Sl 131.1; Pv 21.4). A mão representa o esforço físico,
em nosso caso as tramas negativas contra irmãos (Fp 1.17; 2Tm 4.14s; Mc 14.45). O pé indica
aproximar-se, mas também ir embora (Mc 14.50; 2Tm 1.15).
O que querem dizer os imperativos radicais: corte-o, arranque-o, jogue-o fora? Temos de buscar a
interpretação não no comportamento dos pagãos (opr 2), mas no sistema jurídico dos judeus. De
acordo com Mt 5.38; Êx 21.23-25; Lv 24.20; Dt 19.21; 25.11s havia uma mutilação penal em Israel.
O mesmo membro com que o crime fora cometido devia ser decepado como castigo. Nossos
versículos apontam para procedimentos judiciais. No tribunal futuro, o discípulo estará entre o acesso
â vida (10.15,23-25) e a expulsão para a geena. Julgando a si mesmo em seu tempo, ele deve
antecipar-se à sua condenação. “Se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados”, escreve
Paulo. Pela continuação, este julgamento próprio significa deixar-se julgar agora pelo Senhor, para
ser anistiado por ele (1Co 11.31s). Por isso não há mais julgamento: porque já houve graça. Esta
administração da graça também está oculta entre o julgamento próprio e a entrada na vida.
Para ilustrar: uma criança é apanhada por sua mãe, roubando. Ela pode reagir de duas maneiras:
pode jogar rapidamente a maçã roubada atrás de si, para salvar a pele no último instante. Mas
também pode colocar a maçã na mão da mãe: Eu roubei! Este seria o ato de julgar a si mesmo: correr
diretamente em direção ao julgamento. Deste modo, o discípulo não salvará por todos os meios esta
sua vida inútil para Deus, mas exatamente não a levará mais adiante. Paulo diz: “Fazei morrer a
vossa natureza terrena” (“os vossos membros”, Cl 3.5; cf. Rm 8.13). Está incluída nisto a separação
determinada do pecado.
No mais, este quadro não quer ser interpretado detalhe por detalhe, mas sentido em todo o seu
impacto. P ex, não se pode tirar daqui o ensino de que na consumação haverá existências caolhas,
pernetas e manetas.
     48     Onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga. Uma palavra real de alerta do nosso Senhor!
Sua intenção é que sejamos atingidos pela pergunta mais decisiva que existe: Será que estou
perdendo o grande negócio de Deus? É neste sentido que ressoa Is 66.24, aliás, do livro da
Consolação de Isaías. Segundo ele, no tempo da salvação os cadáveres dos israelitas apóstatas jazem
na geena – como espetáculo para os freqüentadores devotos do templo. Diferente dos quadros
divertidos e sensuais da literatura judaica (Bill. IV, 1075s), Jesus se limita à repreensão, cuja intenção
precisa ser bem entendida. “Nós merecemos a ira de Deus”, costumava dizer Martin Kähler. Deus faz
questão de nos ter em seu reino. É isto que devemos entender diante do horror dos quadros de juízo.
“No momento em que Deus não se irar mais, terá deixado de amar, e se deixar de amar, terá deixado
de viver, e se deixar de viver, o mundo terá desmoronado” (H. Bezzel). Neste sentido, “ameaçar”
também pode servir vez por outra ao evangelho (2Tm 4.2).
     49     Porque cada um será salgado com fogo. Em Marcos o “porque” sempre tem sua função real. Ou
ele fundamenta o que foi dito antes, ou – como no nosso caso – tira conclusões, reforça e sublinha
(WB 302). “Cada um” aqui é cada discípulo. “Fogo” não é mais o futuro fogo destruidor, mas o que
faz parte da vida atual do discípulo e que salga em vez de destruir, isto é, conserva útil.
     50     Provavelmente os manuscritos antigos que, com o acréscimo “e cada sacrifício será salgado com
sal” (RC, BJn) apontaram para o ato de salgar os sacrifícios no AT a título de comparação, entenderam
o sentido (Êx 30.35; Lv 2.13). Uma oferta sacrificial não era já boa em si mesma, mas só se tornava
aceitável a Deus pelo tratamento cáustico e purificador com sal. Assim, todo discípulo que quer
colocar sua vida à disposição de Deus (Rm 12.1) precisa passar por experiências ásperas. Isto é
representado aqui pela figura bíblica do “fogo” (1Pe 1.17; 4.12). Nisto nenhum discípulo é especial.
Todos são temperados e purificados até serem um sacrifício que agrada a Deus. Prestemos atenção
no passivum divinum (cf. 2.5). O próprio Deus age como salvador nas experiências amargas do
julgamento próprio, para arrancar-nos da perdição.
As próximas duas declarações não provêm do uso do sal na adoração, mas em casa. Bom é o sal.
“O mundo não sobrevive sem sal”, confirma uma palavra rabínica (cf. opr 4). Os discípulos são o sal
da terra (Mt 5.13). Mais uma vez, porém, levanta-se na seqüência a possibilidade terrível dos v. 43-48. Os discípulos podem perder sua pureza e capacidade de sacrifício, e distanciar-se da sua
finalidade mais íntima. Mas, se o sal vier a tornar-se insípido, como lhe restaurar o sabor? Do
ponto de vista químico, o sal não pode deixar de ser sal. Por isso já no século I um rabino zombou da
palavra de Jesus (Bill. I, 236). Provavelmente, porém, Jesus tinha em mente um produto misto, que
era tirado do mar Morto naquela época. Este podia realmente adquirir um gosto insosso e salobre
(Hauck, ThWNT I, p 229; Bertram IV, p 842).
Na última afirmação, o quadro é virado mais uma vez. Aqui os discípulos não são sal, mas devem
ter sal consigo. Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros. Em Cl 4.6 a figura é aplicada
especificamente ao discurso prático, poderoso e certeiro que sai da boca. A ênfase aqui está em “em
vós mesmos”, em paralelo com “com os outros”. Discípulos que têm “sal” em si mesmos e se deixam
“salgar” por Deus e para Deus, também vivem em paz entre si (Rm 12.18; 1Ts 5.13). Entretanto,
quem foge da luta consigo mesmo está sempre brigado com os outros. Com isto o arco se fecha com
a disputa por posição no v. 34.
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Online