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60 A transfiguração, Mt 17.1-9

A transfiguração, Mt 17.1-9
(Mc 9.2-8; Lc 9.28-36)

a. A glorificação pessoal de Jesus
1,2  Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em 
particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o 
sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
Os três relatos sinóticos enfatizam que tinha transcorrido uma semana entre o diálogo em Cesaréia
de Filipe e a transfiguração. A única diferença é que Mateus e Marcos dizem  seis dias depois,
enquanto Lucas formula: “Aproximadamente oito dias depois”. A diferença é facilmente
compreendida se destacarmos o “aproximadamente” de Lucas.
Não é sem intenção que Lc 9.28 diz: “Depois de proferidas essas palavras”. Dessa maneira ele
realça expressamente a ligação interior entre esse acontecimento e o diálogo anterior. Provavelmente
um profundo desânimo se apoderou dos doze em decorrência do anúncio franco de sua morte
próxima (Mt 16.21-23). Eles permaneceram consternados durante os seis dias, sobre cuja utilização
os três relatos silenciam. No exato momento em que acreditavam ter chegado ao alvo de sua
esperança pelo Messias, viram-se de repente como que lançados num abismo. Um sentimento
paralisante de amargo lamento tomou conta deles. Jesus precisava agir contra a dor na alma de seus
discípulos. Para esse fim, ele recorre à oração, não sozinho, mas juntamente com aqueles dentre seus
apóstolos cujo estado de ânimo poderia exercer maior influência sobre o dos demais. De acordo com
os relatos de Mateus e Marcos, poderíamos pensar que o Senhor Jesus subiu o monte com os
discípulos com a intenção de ser transfigurado diante deles. Porém Lucas nos permite reconhecer o
verdadeiro objetivo do Senhor nas palavras “com o propósito de orar”.
“O Mestre, portanto, tomou seus discípulos à parte, para estar sozinho com eles e orar. Aquele que
o Senhor consegue chamar para segui-lo e servi -lo, ele sempre de novo procura conduzir da
abundância das experiências e da pressão do serviço para o silêncio, para estar a sós com seu
discípulo. Ele sabe que precisamos desses momentos para acumular novas forças, solucionar
questões não resolvidas e obter novas perspectivas. Por isso ele nos proporciona estarmos com ele na
presença do Pai. Felizes aqueles servos e aquelas servas que dispuserem de tempo quando forem
chamados pelo seu Mestre celestial! Sem dúvida temos conferências sobre a fé, estudos bíblicos,
reuniões de edificação e cultos de todos os tipos. Nosso cabeça exaltado os utilizou tantas vezes para
revelar-se nessas ocasiões, aos diversos membros, na glória de seu ser e na plenitude de seu poder.
Por essa razão ninguém deveria retirar-se sem motivos determinados, de lugares e oportunidades em
que se ouve a voz de Deus e se vê a sua glória. Contudo, Cristo na realidade não está preso a todos
esses lugares e programas para revelar-se. Sim, podemos dizer que muitas vezes nossas mais
profundas bênçãos se encontravam onde menos as esperávamos. Jacó certa vez encontrou um céu
aberto na solidão da estrada. Para o nosso Deus não existem caminhos tão solitários e horas tão
escuras que ele não seja capaz de conceder a uma alma, como outrora a Jacó, um céu aberto.
Também lá onde a visão natural vê apenas dificuldades, esterilidade e pobreza espiritual, ele pode dar
oportunidade à fé para descobrir aquelas fontes de vida que fazem prosperar tudo para uma nova vida
e um novo florescer. É por isso que o cantor da antiga aliança, agraciado por Deus, ta mbém
testemunha acerca da comunidade dos romeiros  – vinda do estrangeiro – e peregrinando pelos vales
ermos do Becá até os altares sagrados de Iavé em Jerusalém: „Ainda que passem por um vale de
Becá, ele o transforma num manancial, pois a chuva serôdia o cobre de bênçãos. Eles caminham de
força em força, até comparecerem perante Deus em Sião‟” (Kroeker,  Allein mit dem Meister).
Retornemos para a nossa história. O Senhor Jesus, pois, subiu ao monte com os seus três mais
íntimos, a fim de orar. Enquanto orava, alterou-se o aspecto de seu semblante e suas vestes se
tornaram alvíssimas. Como Jesus subiu o monte “para orar”, a transfiguração de Jesus não foi
objetivo da subida, mas sim o meio que Deus usou para atender a oração dirigida a ele. A relação
entre a oração de Jesus e sua transfiguração é expressa por Lucas com a preposição grega  en, que
expressa ao mesmo tempo uma relação de simultaneidade e de causalidade. O sagrado silêncio de
oração se reflete muitas vezes sobre o rosto inteiro. Quando a essa atitude do coração, como em
Moisés e Estêvão, corresponde uma revelação objetiva de Deus, então pode acontecer que o brilho
interior perpassa a alma e o físico, causando algo como um prenúncio da futura transfiguração do
corpo. Foi esse tipo de fenômeno que se realizou na pessoa de Jesus durante a sua oração.
Lucas descreve o efeito simplesmente assim: “O aspecto de seu rosto tornou-se diferente”.
A manifestação de luz procedente do interior do corpo de Jesus perpassou-o tão intensamente que
se tornou perceptível até através de suas roupas. Também nesse pormenor a expressão de Lucas é
bem simples: “Suas roupas resplandeceram de brancura”. Forma um contraste com a descrição muito
mais brilhante de Mateus nesta passagem, e de Mc 9.3: “E suas vestes tornaram-se resplandecentes,
tão brancas que nenhum lavadeiro do mundo poderia alvejá-las assim”.


b. A aparição de Moisés e Elias
3,4  E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele. Então, disse Pedro a Jesus: 
Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para 
Moisés, outra para Elias.



A confirmação da lei constitutiva da comunidade de Jesus é realizada, agora, a partir do AT.
Surgem Moisés e Elias, Moisés como representante da lei, Elias como representante dos profetas. –
Ambos experimentaram em sua vida a dureza da lei da cruz. Ambos andaram o caminho da morte.
Ambos, porém, viram como poucos a glória de Deus. Moisés e Elias passaram diretamente da vida
terrena para a celestial. Ninguém conhece a sepultura de Moisé s até o dia de hoje (Dt 34.6), e Elias
subiu ao céu num carro de fogo (2Rs 2.11). Acerca de Moisés, Deus declara: “Ele está familiarizado
com toda a minha casa”. “O Senhor falava com Moisés, face a face, como um homem fala com seu
amigo” (Êx 33.11).
O assunto da conversa entre Jesus, Moisés e Elias nos é comunicado no relato de Lucas, onde se lê
textualmente: “Falavam da partida de Jesus que ele estava para cumprir em Jerusalém” [Lc 9.31]. É
de máxima importância para os discípulos que eles ouviram Jesus, Moisés e Elias falarem de sua
partida em Jerusalém. Dessa maneira surgiu dentro deles o claro reconhecimento de que Jesus
permanece ligado ao AT. Esclareceu-se para os discípulos a unidade da antiga e da nova aliança. Os
espíritos dos dois Testamentos se saudaram novamente, como lá no Jordão, quando Jesus foi
batizado,
A expressão “partida” deve ser bem observada. Lucas escolheu intencionalmente uma palavra que
abrange os dois conceitos “morte” e “exaltação”. A ascensão aos céus foi para Jesus a saída natura l
dessa vida, assim como para nós pecadores a saída é a morte. Jesus poderia ter escolhido essa saída
naquele instante, subindo com os dois celestiais que falavam com ele. Porém, nesse caso,  teria
retornado à glória sem nós. Lá em baixo no vale do mundo ainda jazia a humanidade, oprimida pelo
peso do pecado e da morte. Deveria Jesus abandoná-la à própria sorte? Não, ele quer subir somente
quando a puder conduzir consigo.
Entretanto, para essa finalidade ele precisa escolher a outra saída, que pode cumprir-se somente
em Jerusalém. A expressão “consumar” não designa apenas o fim da vida. Mais fortemente está
contida nela a idéia de que, com uma morte tão cruel, caberia cumprir uma tarefa. A locução “em
Jerusalém” é profundamente trágica. Jerusalém é a cidade que sempre de novo mata os profetas (Lc
13.33). A pequena palavra de Lucas sobre o assunto da conversa ilumina todo o acontecimento. É a
chave do relato. De fato permite reconhecer a ligação entre essa aparição e o que aconteceu em
Cesaréia de Filipe. Pois o diálogo sobre esse assunto mostra aos discípulos que o Messias sofredor é
aquele que Deus quer, é aquele que o céu aprova.
Quando Pedro nota, segundo Lc 9.33, que os homens Moisés e Elias querem partir, ele tenta evitá-lo, dizendo a Jesus as palavras:  Mestre, como é lindo aqui! Façamos três tendas, uma para ti,
outra para Moisés, e outra para Elias. Portanto, logo se dissipou na memória de Pedro o que Jesus
há pouco tinha dito a ele e aos discípulos (cap. 16.21-23) acerca de seu fim, e do qual acabavam de
falar. Ele teria gostado tanto de segurar a maravilha desse momento. Teria preferido sair do mundo.
Gostaria de estar morto ou desaparecido para a terra, em troca de poder manter coesa essa
comunidade gloriosa e deter-se no meio dela. Queria atrair o mundo glorioso totalmente para dentro
do mundo daqui e conservá-lo aqui. Assim ele fala como Simão, não como Pedro. “Ele não sabia o
que dizia”, observam os evangelistas, desculpando-o. “Porque eles estavam fora de si pelo medo”,
acrescenta Marcos!


c. A voz de Deus e a voz consoladora do Senhor
5-8  Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz 
que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi. Ouvindo-a os 
discípulos, caíram de bruços, tomados de grande medo. Aproximando-se deles, tocou-lhes 
(abraçou-os) Jesus, dizendo: Erguei-vos e não temais! Então, eles, levantando os olhos, a 
ninguém viram, senão Jesus.



Esse é o ponto culminante do acontecimento. A nuvem não é de chuva, mas sim o véu com que
Deus se cobre quando aparece na face da terra. Encontramos a mesma nuvem no deserto e na
inauguração do templo salomônico, e novamente na ascensão de Jesus. Mateus a descreve como
nuvem luminosa (nuvem de luz). Independente disso, ele diz como os outros dois que ela sombreou,
encobriu a cena. O brilho do foco de luz que havia no seu centro perpassou o que estava em volta e
lançou uma claridade misteriosa sobre a cena.
Retornamos a Pedro. Enquanto ele falava, não só os homens, mas também o Senhor Jesus foram
envolvidos pela nuvem luminosa. Então ouviram a voz:  Este é meu Filho amado, em quem me
comprazo, a ele ouvi!
Da mesma maneira como naquela vez no Jordão, após a oração e confissão de estar pronto a
morrer, a ir como cordeiro (que carrega o pecado do mundo), seguiu-se uma resposta de aprovação
do céu, assim também se ouve, após o anúncio de sua morte aos discípulos dele, uma resposta do
céu, por intermédio da transfiguração, bem como da voz: “Este é meu Filho a mado, em quem me
comprazo, a ele ouvi!”
A forma dessa declaração divina é diferente nos três evangelhos.
Em Lucas pode-se ler no texto original: “Este é meu Filho, o escolhido” (Lc 9.35). A variante que
também pode ser encontrada em Lucas: “Este é meu Filho, o amado” (C, coiné, D) é igualmente
correta. O termo “o escolhido” tem significado  absoluto, em contraposição aos servos escolhidos
para uma obra específica, como Moisés e Elias.
Marcos diz (Mc 9.7): “Este é meu Filho, o amado, a ele ouvi!”
Em Mateus consta: “Este é o meu Filho, o amado, em quem me comprazo!” A solicitação:  Dêem-lhe ouvidos! é a repetição daquela solicitação pela qual Moisés comprometeu o povo de Israel, na
sua época, a aceitar a doutrina dos profetas e do Messias, pelos quais a sua próp ria seria
complementada (Dt 18.15). Essa palavra final indica claramente a finalidade de todo o
acontecimento: “Ouçam-no, qualquer que seja a palavra que ele lhes disser. Sigam-no, qualquer que
seja o lugar para onde ele os levar!” Se lembrarmos as palavra s de Pedro na conversa com Jesus:
“Deus queira impedir isso!” – “Isso de modo algum te acontecerá” (Mt 16.22), entenderemos o pleno
significado dessa solicitação divina.
Constatamos novamente que aqui se cumpre uma lei presente em toda a vida de Jesus, que é: Todo
ato de humilhação espontânea por parte do Filho traz como conseqüência um ato do glorificação
por parte do Pai. Jesus desce às torrentes do Jordão para consagrar -se à morte, e Deus o chama de
seu Filho amado. Sua alma aflita renova o compromisso de fidelidade até a morte, e logo a voz
celeste lhe responde com a gloriosa promessa de Jo 12.28.  Assim também acontece aqui na história
da transfiguração!
A anotação ninguém senão Jesus é comum a todos os três relatos. Expressa-se nela claramente
como estavam impressionadas as testemunhas oculares após o desaparecimento dos seres celestiais.
A lei da cruz brilha no AT e também no NT, singularmente também nessa história da
transfiguração.

E, descendo eles do monte, ordenou-lhes Jesus: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do 
Homem ressuscite dentre os mortos.
Os três discípulos Pedro, João e Tiago deviam guardar silêncio e não falar sobre a transfiguração
antes que o feito glorioso de Jesus, a vitória sobre a morte, fosse consumado na sua ressurreição.

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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