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61 Ensino sobre o casamento, Mc 10.2-12

Ensino sobre o casamento, Mc 10.2-12 
(Mt 19.3-12; cf. Lc 16.18)

2-12 E, aproximando-se alguns fariseus, o experimentaram, perguntando-lhe: É lícito ao marido repudiar sua mulher? Ele lhes respondeu: Que vos ordenou Moisés? Tornaram eles: Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar. Mas Jesus lhes disse: Por causa da dureza do vosso coração, ele vos deixou escrito esse mandamento; porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulherPor isso, deixará o homem a seu pai e mãe [e unir-se-á a sua mulher], e, com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homemEm casa, voltaram os discípulos a interrogá-lo sobre este assunto. E ele lhes disse: Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério contra aquelaE, se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério.

Em relação à tradução
   a
     Enquanto Jesus fala sempre em termos de “ordenar, mandamento”, os fariseus falam de “ser lícito,
permitir”. A pergunta sobre se algo era permitido e tinha a aprovação de Deus tinha lugar cativo nos debates
dos professores da lei (2.24; 12.14) e, em termos fundamentais, também não tem por que ser criticado. João
Batista (6.18) e Jesus (2.26; 3.4) também usaram este estilo. Neste caso, porém, a diferença parece ser muito significativa.
   b
     Diferente do v. 2, aqui não estão os termos usuais para homem e mulher, mas termos que apontam
especificamente para a sexualidade.
   c
     Lit.: “Colocou junto sob o mesmo jugo”, ou seja, conferiu uma tarefa de vida conjunta.
   d
     “Separar” também em 1Co 7.10 eqüivale a “divorciar”.
   
e
     Esta última frase também pode ser traduzida por “comete adultério com ela”, ou seja, com a nova
esposa. Este “com”, porém, no grego estaria expresso melhor por meta (com em Ap 2.22; aqui está epi).
Além disso todo este parágrafo coloca a transgressão contra a primeira esposa no centro.
Observações preliminares
1. Tema. Para o contexto, veja opr a 10.1. – Várias vezes uma pergunta isolada induziu Jesus a fazer um
esclarecimento fundamental. Aqui ele anuncia como válido para todos um novo conceito de casamento. Em
meio à proclamação do reinado de Deus podem surgir mal-entendidos, como uma depreciação e negligência
“espiritual” do casamento. Se a nova época já começou, de acordo com 12.25 talvez já agora eles devam “nem
casar, nem se dar em casamento”, porém morar juntos “como os anjos”. Também poderia haver quem
pensasse que, conforme Lc 14.26, devesse “odiar” sua esposa ou até “deixá-la” conforme Lc 18.29, para
“ganhar muitas vezes mais” no trabalho missionário? Passagens como Mt 19.10; 1Co 7.2-5,9; 1Tm 4.3 e a
história eclesiástica comprovam como a igreja carece de ensino espiritual sobre suas relações com o mundo e
sobre o casamento.
2. Antigüidade. Este trecho é um exemplo instrutivo do fato de que um estilo literário posterior (p ex com
citações do texto da LXX) não precisa significar formação posterior do conteúdo (só na primeira igreja). Neste
caso temos em 1Co 7.10s uma possibilidade de prova. De acordo com este texto, a palavra de Mc 10.11 já era
conhecida como palavra de Jesus décadas antes de Marcos. De qualquer modo, uma frase tão desajeitada não
surgiria em época posterior. Com o v. 12 já é diferente. Esta aplicação à esposa não só falta no texto paralelo
de Mt 19.8, como não teria função no contexto judaico (cf. opr 3). Em Roma já era bem diferente. Quando
Cristo veio com o evangelho para esta cidade de “devassidão e libertinagem” (Rm 13.13, BJ), ele aplicou sua
palavra da mesma forma ao mundo feminino do lugar, pois ali também a mulher podia separar-se do marido.
No entanto, ele fez isto como Senhor exaltado, no Espírito Santo. Portanto, temos aqui uma ampliação
carismática de palavras históricas de Jesus. Os evangelistas não trabalhavam simplesmente como cartorários,
mas como missionários cheios”do Espírito. Devotados e fiéis ao conteúdo básico da tradição de Jesus, eles
seguiram o cortejo triunfal do evangelho sempre para novos destinatários (cf. também Rienecker, p 128).
3. Prática judaica do divórcio. Como “base bíblica” servia Dt 24.1, que menciona a carta de divórcio só de
passagem, no meio de uma série de outras afirmações preliminares. A frase longa descreve um caso de
recasamento pretendido. A decisão judicial começa somente no v. 4, e não trata nem de divórcio nem de carta
de divórcio. Para os professores da lei, porém, esta passagem bastou para, em sua prática, sentirem-se
abrigados na religiosidade da Torá. Em termos positivos pode ser dito sobre a instituição da carta de divórcio
que ela punha um pouco de ordem nas conseqüências da rejeição de uma esposa. Se um homem pudesse
mandar sua esposa embora sem ser obrigado a dar-lhe um documento como prova, ele poderia reverter ou
negar seu ato à vontade. Apesar da sua necessidade de ajuda, ela não poderia colocar-se sob a proteção de
outro homem, pois correria perigo de ser tachada de adúltera ou até apedrejada. Por mais cruel que fosse o
significado do documento: Você foi rejeitada!, ele proporcionava certa humanização do processo.
Mesmo assim o egoísmo masculino encontrou um caminho. A justificativa mosaica para o divórcio: “Por
ter ele achado coisa indecente nela”, foi espichada. Exegeses generosas começaram a incluir idéias como a
negligência das obrigações da mulher na cozinha, a fofoca com os vizinhos, a impossibilidade de ter filhos e a
atração do homem por uma outra. Seja como for, a carta de divórcio tornou-se um truque pelo qual o homem
podia livrar-se sem problemas da sua esposa. Para tanto ele comprava um formulário ou tirava um do seu
estoque, preenchia nome e data, levava-o à sinagoga para autenticação e o fazia entregar à sua esposa. O texto
terminava com a frase: “Qualquer um pode ter você, e isto, da minha parte, serve de escrito de rejeição e
documento de divórcio e carta de expulsão, de acordo com a lei de Moisés e de Israel” (Bill. I, 311). Era o
homem, portanto, e não o juiz que decidia sobre o divórcio. Hauck (ThWNT IV, 740 nota 8) registra um
exemplo grosseiro em que um rabino, em cada cidade em que chegava, oferecia às mulheres um casamento
por um dia. Neste processo, tudo tinha sua “ordem”. A mulher judia, por sua vez, não podia mandar seu
marido embora, assim como não fora ela que o desposara, antes fora ele que casara com ela. A comunidade da
sinagoga, contudo, podia exercer uma pressão forte sobre o homem para que desse a ela o documento de
divórcio, caso ele, p ex, sofresse de determinadas doenças, tivesse abraçado uma profissão repugnante ou não
desse conta de sustentá-la. Para isto ela usava intermediários.
     2     E, aproximando-se alguns fariseus, o experimentaram, perguntando-lhe: É lícito ao marido
repudiar sua mulher? No texto paralelo de Mateus, os fariseus (cf. opr 4 a 2.13-17) nem perguntam
sobre a permissão ao divórcio. Os debates internos dos judeus em termos gerais já tinham deixado
essa questão para trás há tempo, e só se discutiam ainda os motivos para o divórcio – se este era
justificado só por motivos graves ou “por qualquer motivo” (Mt 19.3). Mesmo assim, no judaísmo a
pergunta básica, se o casamento podia mesmo ser anulado, não se calara de todo. Isto prova p ex a
proibição total ao divórcio em Qumran (Pesch II, p 120). Por isso é bem possível que, no debate
detalhado com Jesus, uma e a outra questão eram abordadas, e não uma sem a outra.
Além do conteúdo da pergunta, porém, é necessário pensar também em seu ambiente. O
comentário precisa levantar o que sabemos sobre a miséria do divórcio na época (cf. opr 3). O
homem judaico em termos gerais nem estava tão preocupado com a aprovação de Deus, como a
formulação da pergunta pode dar a entender. Senão ele teria cuidado melhor da dádiva de Deus. A
“mulher” aqui não parece mais ser um presente de Deus, companheira, complementação,
enriquecimento, ajuda e alegria, mas somente um ser sexual oposto, perante o qual os interesses
masculinos tinham de ser defendidos. Por isso eles perguntaram sobre que possibilidades a lei abria,
para conseguir o máximo para si, dentro do permitido.
Nenhum homem precisa envergonhar-se das dificuldades no casamento – mas será que não está
tudo de cabeça para baixo quando o divórcio se torna uma possibilidade desejada, quando a
convivência serve somente ainda para a busca apressada de bases legais para uma separação, que são
saudadas com prazer sádico e empilhadas com cuidado como munição? O sentimento de vergonha de
ter de levar o próprio casamento ao tribunal é pervertido pela espera ansiosa do momento. Com um
último sofrimento, poderíamos nos perguntar: Temos de nos divorciar? As esperanças antigas têm de
ser sepultadas, o juramento de fidelidade tem de ser devolvido, a vida emocional das crianças tem de
ser abalada e a igreja de Deus tem de ser entristecida? Não existe mais cura, só divórcio?
Os que fizeram a pergunta em nossa história não tinham dúvidas sobre a posição de Jesus. É
possível sentir o que combina com ele. De forma alguma ele era o servente deles. Por isso eles
podiam contar com que ele negaria o divórcio e assim se colocaria em oposição a Moisés, como eles
o entendiam. Como em 7.1; 12.13,15 eles estavam ocupados com as investigações para um processo
religioso contra ele, e juntavam material. A perspectiva política também é possível. O lugar do
interrogatório era a Peréia que, como a Galiléia, pertencia aos domínios de Herodes Antipas. Este já
dera cabo de João Batista por causa da questão do divórcio (6.18). A idéia era que agora também
Jesus se tornasse intolerável em termos políticos e religiosos. Por isso se diz”que o
experimentaram. De todo modo sua pergunta era um subterfúgio. O que podiam fazer com suas
mulheres, eles tinham combinado há muito entre si.
     3     Ele lhes respondeu: Que vos ordenou Moisés? Jesus aplicou várias vezes este método de fazer
outra pergunta para fazer falar primeiro quem perguntou, e assim descobrir seus motivos (2.9,19,25;
11.29s; 12.16). O recurso ao mandamento do AT também combina bem com Jesus (10.19; 12.29).
     4     Tornaram eles: Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar. Logo com a primeira frase
eles deixam escapar triunfantes: Nós podemos! A carta de divórcio permite o divórcio. Isto é
totalmente lógico. Como é típico este método para surrupiar uma aprovação da Escritura!
     5     Segue uma investida em direção ao centro da pessoa deles. Mas Jesus lhes disse: Por causa da
dureza do vosso coração, ele vos deixou escrito esse mandamento. A expressão “dureza do
coração”, que não se encontra fora da Bíblia, tem profundidade teológica, significa mais do que falta
de sensibilidade e teimosia diante do cônjuge. A LXX usa-a para traduzir a expressão do AT “coração
incircunciso” (p ex Lv 26.41; Dt 10.16; Jr 9.25; Ez 44.7). Portanto, o endurecimento se volta contra
os atos salvadores de Deus. Em Mc 16.14 a expressão é explicada como incredulidade. Essa rebeldia
contra Deus faz também com que o casamento não progrida.
No que tange à prescrição de Dt 24.1ss, pode-se constatar claramente que Jesus não a abordou
basicamente. Ele simplesmente a classificou diferentemente dos judeus, e isto recorrendo ao próprio
Moisés. De acordo com isso, a carta de divórcio é tolerada por necessidade, para enfrentar
determinada situação, mas não faz parte do plano básico de Deus. É verdade que o estatuto de uma
associação sempre inclui um artigo que predispõe sobre a sua dissolução, mas Deus não instituiu o
casamento e o divórcio como equivalentes.
     6     Com isto Jesus passa ao ensino positivo sobre o casamento. Ele cita de modo abreviado e fora do
contexto duas passagens, como se faz também hoje quando se tem um bom conhecimento bíblico.
Como introdução serve Gn 1.27: Porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e
mulher. Jesus não desenvolveu seu conceito do casamento a partir da sua crise. Momentos sob o
signo da dureza do coração não contêm nada que indique o caminho e sirva de padrão para o
casamento. Respeitá-los demais tem de provocar uma visão pessimista, que diz que um casamento
indissolúvel é impossível, apesar de fazer parte do paraíso exatamente como tal. Sua origem na mão
de Deus, todavia, é fundamental e esclarecedora. Por isso ele também descansa no poder de Deus e
subsiste nas possibilidades de Deus. Por ver isto no casamento, Jesus grita para dentro das nossas
crises conjugais: Não se divorciem! Deixem-se fascinar pelo que Deus pode e que, por isso, pode ser
o casamento de vocês. – Esta é a nova proclamação de Deus, que também leva à renovação do
casamento.
     7,8     Depois desta introdução, uma segunda citação de Gn 2.24 leva ao alvo. Por isso, deixará o
homem a seu pai e mãe. O texto da Bíblia hebr. diz que “um homem” deixará pai e mãe. O termo da
LXX, “um ser humano”, que é seguido por Marcos, permite a aplicação também à mulher. Homem e
mulher, por amor ao seu casamento, são liberados dos seus laços de sangue mais íntimos. Nada e
ninguém – nem o próprio filho – podem sugá-los. Isto cria espaço e liberdade para esta novidade
maravilhosa: e serão os dois uma só carne. O processo zomba da aritmética (um mais um igual a
um). Os dois são mais uma vez barro na mão do Criador e se tornam um utensílio da sua bênção. Isto
não é operado pelo amor deles – este nem é mencionado aqui – mas pelo amor de Deus. Eles
experimentam sua unidade como criação e presente dele. Por isso o casamento – como a igreja – não
pertence ao grupo das uniões meramente humanas. Jesus repete expressamente a declaração do
objetivo, para depois tirar conclusões dela: De modo que já não são dois, mas uma só carne.
     9     A criação de Deus engloba sempre também os mandamentos de Deus. Assim, finalmente Jesus se
volta para o tema do divórcio. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem. Se o
casamento, por natureza, é uma instituição divina, e não um contrato particular, uma união de
interesses, um costume ditado pela sociedade, se o próprio Deus faz parte da definição do casamento,
então homem, mulher e sociedade perdem o direito de legislar sobre o casamento. Por este motivo,
quem os separa se defronta com Deus. “O Senhor, Deus de Israel, diz que odeia o repúdio” (Ml
2.16), “Deus julgará os adúlteros” (Hb 13.4). Esta clareza é para nós uma ajuda de valor incalculável.
Temos de deixar isto penetrar em nosso coração. Nem alienação, nem dogmatismo ou sadismo
têm vez aqui. Deus é tão contra a dissolução do casamento exatamente porque quer salvar. E ele quer
salvar o que criou. Tudo aqui está permeado de evangelho. A mensagem do casamento indissolúvel é
parte integrante do evangelho. Aquele que ama, compreende, sustenta e domina o nosso casamento
como nenhum outro, entra em cena. Portanto, fora com a confiança nas muletas da lei! Creiam com
base no evangelho (1.15), e prefiram crer até à morte a morrer na incredulidade!
     10     Em casa, voltaram os discípulos a interrogá-lo sobre este assunto. Este “voltaram” lembra o
costume dos discípulos de fazer perguntas ao seu Senhor no círculo íntimo (cf. 4.10). Desta conversa
Marcos retém um ponto determinado:
     11     E ele lhes disse: Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério contra
aquela. Haenchen (p 338) afirma que esta afirmação é inferior à conclusão antecedente, pois agora
não é o divórcio mas o novo casamento que é declarado adultério. Ele deixou de ver que no caso em
questão (v. 2) o divórcio incluía obviamente a intenção de tomar legalmente outra esposa. Os
fariseus, zelosos da lei, evitavam estritamente a poligamia simultânea, mas a praticavam em
sucessão, por meio desta instituição da carta de divórcio. É este tipo de divórcio que tem a intenção
de trocar de mulher que Jesus desmascara como adultério descarado. É a mesma coisa como um
homem casado pular a cerca.
O outro caso, em que o divórcio só confirma o fato de que a união já foi destruída e se desfez (cf.
a cláusula em Mt 5.32; 19.5) ou que um cônjuge descrente se recusa radicalmente a continuar a
convivência (1Co 7.15) está fora do nosso espectro. Por isso o trecho também não se presta para
negar que um cristão divorciado (e casado de novo) seja cristão. O que Jesus ataca de frente aqui é a
fé na sorte e na vida verdadeira pela troca de parceiros, ainda mais com roupagem “cristã”. Este
“evangelho” da separação, que um conta ao outro e com que todos brincam em pensamento, está
vedado à igreja pelo evangelho de Cristo. Em lugar do divórcio há cura, nova proclamação e nova
intervenção de Cristo, perdão e ressurreição dos mortos, paciência e santificação. Um casamento que
adentra esse caminho e anda imperturbável por ele desencadeia uma avalanche de bênçãos até a
milésima geração (Êx 20.5,6).
     12     O parágrafo é dirigido principalmente ao homem, mas mesmo assim não dá motivos para ter
compaixão sentimental das mulheres. E, se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete
adultério. A esposa tem a mesma responsabilidade do seu marido. (Sobre as disposições legais
pressupostas, cf. opr 2.)
Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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