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62 Instrução sobre as crianças, Mc 10.13-16

Instrução sobre as crianças, Mc 10.13-16 
(Mt 19. 13-15; cf. 18.3; Lc 18.15-17)

13-16 Então, lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse, mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele. Então, tomando-as nos braços e impondo-lhes as mãos, as abençoava. 

Em relação à tradução
   a
     O tempo imperfeito, no texto original, descreve aqui a tentativa que não obteve sucesso, por ser
impedida pelos discípulos.
   b
     Sobre paidion, cf. 9.24n. Devemos pensar em crianças de idades variadas. Lucas usa brephos em
18.15, que a princípio significa bebê, depois também criança pequena, mas nos v. 16s também tem duas
vezes paidion. A frase “vir a mim” no v. 14 dá a impressão de que os pequenos já andavam.
   c
     Este “os” denota no grego gramaticalmente os pais, irmãos mais velhos ou até as próprias crianças.
Mesmo assim (contra Loh; Weber, Kinder, p 34s) pode-se pensar também nas mães, já que o grego nestas
relações não é muito coerente (cf. Bl-Debr. § 134.2). Evidentemente este grupo de pessoas aqui não é
importante, porém aquilo que foi feito às crianças: “Não as impeçais!” (Aqui a referência às crianças é
inquestionável.)
   d
     A expressão forte aganaktein só é usada em outro lugar pelos discípulos (10.41 e 14.4).
   
e
     dechesthai, usado com freqüência para o “acolhimento” carinhoso de uma pessoa (6.11; 9.37). Isto,
porém, com vistas ao reinado de Deus formaria um quadro incomum. Resta, então, a comparação com a
“aceitação” de uma palavra (p ex At 8.14; 1Ts 1.6; Tg 1.21), exortação (2Co 8.17) ou graça (2Co 6.1).
   f
     Em termos gramaticais, a palavra grega “criança” também pode ser tomada como objeto direto: acolher
o reinado de Deus como a gente acolhe uma criança. Mas veja a nota e.
Observações preliminares
1. Contexto. No âmbito da catequese tríplice dos discípulos de Jesus (opr a 10.1), segue agora a parte sobre
as crianças. Em meio a isto, porém, o v. 15 é um ponto alto, que ultrapassa a pergunta de primeiro plano sobre
o valor das crianças e constata verdades fundamentais sobre o caminho da salvação e a natureza do reinado de
Deus. Este estilo também pode ser encontrado em outras passagens do NT. Em 2Co 8.9, no contexto de
perguntas sobre a coleta, de repente desponta uma confissão cristológica profunda. A mesma coisa em Ef
5.25-27 em meio a exortações aos maridos ou em 1Pe 2.21-25 em conexão com instruções para os escravos.
Operações da crítica literária não cabem nestas passagens. Elas destroem contextos intencionais e resultantes
da causa cristã.
2. Bênção judaica das crianças. A bênção de crianças, com imposição de mãos, era bem conhecida no
judaísmo. As crianças não iam somente ao seu pai para serem abençoadas, mas também a rabinos famosos. No
dia da Expiação havia o costume de fazer jejuar crianças de várias idades para depois levá-las aos sacerdotes
ou anciãos, “para que estes as abençoassem e orassem por elas”. Isto tudo era acompanhado de instruções de
mais tarde esforçar-se na escola, de aprender e seguir corretamente os mandamentos. O ritual, portanto, estava
a serviço da religião legalista (Bill. I, 805; Weber, Kinder, p 33).
     13     Então, lhe trouxeram algumas crianças. O fato de as trazerem não quer dizer que não sabiam
andar, mas demonstra sua dependência. Deste modo, em 7.32 foi trazido um surdo-mudo a Jesus, em
8.22 ou um cego e, em 11.27, um jumento. Aqui de pronto pode-se ver qual era a intenção: para que
as tocasse. Mateus detalhou este “toque” a partir do fim do texto de Marcos (v. 16): “para que lhes
impusesse as mãos e orasse” (Mt 19.13), como os judeus costumavam fazer quando abençoavam
crianças. Sobre o valor reduzido das crianças mesmo no contexto deste gesto, compare opr 2 e opr 3
a 9.33-37. Mas os discípulos os repreendiam. Será que eles estavam zelando pelo descanso de que
o mestre exausto necessitava? Isto seria muito superficial. A “repreensão” revela como talvez em
8.32 uma indignação teológica. Temos de levar em conta que toda a divisão 8.27-10.52 pressupõe o
reconhecimento do Messias pelos discípulos em 8.29. Eles estavam muito ansiosos pelo começo do
reinado de Deus, no qual Jesus era a pessoa chave. Por que molestá-lo com as obrigações de rotina de
um rabino? (cf. opr 2)! Aqui está alguém que é maior que um rabino e maior que um profeta. É por
esta razão que os discípulos bloqueiam o acesso à caravana de crianças que, em vez do toque
esperado de Jesus, encontram esta agressão dos seus servos, supostamente no seu espírito e como
servos da causa de Deus. Ao choque para os pais, no entanto, segue um choque para os discípulos:
     14     Jesus, porém, vendo isto, indignou-se. Ele fica furioso – a única vez no NT. Abre-se um abismo
entre ele e eles. O caso era uma falta grosseira de entendimento (cf. 1.36). É verdade que à sua volta
começava o reinado de Deus, mas era errado como eles o imaginavam. Uma ordem dupla reverte as
medidas deles: Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis. Com a expulsão delas seu
objetivo tinha sido atingido no âmago. As crianças estavam necessariamente incluídas. Porque dos
tais é o reino de Deus (sobre o termo, cf. opr 4 a 1.14,15). Ele não diz simplesmente “destas
crianças”, que estão presentes ali, pelo contrário, ele generaliza: “dos tais”, isto é, de crianças como
estas, na verdade de todas as crianças. A expressão, como mostrará o v. 15, ainda está aberta para
mais coisas.
Primeiro: Não deixe as crianças esperar; não hesite em trazê-las para as mãos de Jesus, não conte
com “mais tarde”: mais tarde, quando você for maior, quando entender mais da Bíblia, quando for
batizado, etc. As crianças podem ser trazidas com muita confiança no poder salvador de Jesus. O
reinado de Deus rompe a barreira da idade assim como a barreira sexual (o evangelho para as
mulheres), da profissão (para cobradores de impostos), do corpo (para doentes), da vontade pessoal
(para endemoninhados) e da nacionalidade (para gentios). Portanto, também as crianças podem ser
trazidas dos seus cantos para que Jesus as abençoe.
     15     Agora Jesus se torna radical: Não também das crianças, mas só das “crianças” é o reinado de Deus.
A salvação delas assume caráter de modelo do povo de Deus em geral: os últimos se tornam
primeiros. Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de
maneira nenhuma entrará nele. Sobre as nove declarações com “amém” (em verdade) em Marcos,
cf. 3.28. Esta aqui está em tom de ameaça. O reinado de Deus mostra seu aspecto futuro, como salão
amplo e adornado para a festa, no qual as pessoas entram (cf. v. 23-25). Entretanto, só entra quem
aceita a forma presente do reinado de Deus, ou seja, como mensagem de Jesus, e isto como uma
criança. A princípio devemos rejeitar a idéia de que as crianças são “queridinhas”, que penetrou no
cristianismo desde o século II. Nos escritos cristãos antigos lemos sobre a “idade da inocência”, que
“não conhece maldade”. No NT, porém, as crianças não são anjinhos. Elas são briguentas (1Co 3.1-3), imaturas (1Co 13.11; Hb 5.13), fáceis de seduzir (Mc 6.4), imprudentes (1Co 14.20), volúveis (Ef
4.14), dependentes (Gl 4.1,2). Elas também não são maravilhosamente receptivas como se gosta de
dizer, mas com freqüência tímidas, teimosas, medrosas e desconfiadas. Elas também não são modelo
de humildade e simplicidade, mas muitas vezes são egoístas, vaidosas, caprichosas, astutas, atrevidas
e cruéis. Quando olhamos para sua condição subjetiva, exclamamos como Paulo: “Não sejamos mais
como meninos!” (Ef 4.14).
Sua situação objetiva é diferente. Elas estão absolutamente no começo, ainda não têm nada, não
sabem fazer nada, ainda não valem nada. Portanto, a exclamação de Jesus significa: Deixem-se
passar para trás de tudo que já conquistaram e se tornaram. Voltem para trás em sua sabedoria e
comecem de novo diante de Deus, “como crianças recém-nascidas” (1Pe 2.2). Não é estocando o que
se tem, mas nascendo de novo que se entra no reino de Deus (Jo 3.3). Esta é a “perfeição” espiritual
da “criança”: ter necessidade de Deus em tudo, até o fundo. Ficar firme nisto e receber o “Abba” de
presente – isto é o que importa!
     16     O versículo final é valioso como testemunho do amor concreto de Jesus pelas crianças, em oposição
ao que era considerado apropriado na época para os rabinos (opr 3 a 9.33-37). Então, tomando-as
nos braços, a estas crianças que ainda estavam atordoadas com a atitude dos adultos. A expressão é
encontrada mais uma vez em relação a uma criança em 9.36. Jesus praticamente as puxa para o
centro do seu amor, passando ao largo de todas as condições, pois também elas são criaturas de Deus.
Assim como um pai tem compaixão de crianças, Jesus se compadece delas – a figura do pai ideal em
relação a tudo que é criança (Sl 103.13; Ef 3.15).
Este carinho vai bem além do que foi solicitado no v. 13a, e deve ter provocado admiração e até
estranhamento. É somente neste contexto que segue a ação, seguindo o roteiro normal de qualquer
bênção de crianças por judeus: e impondo-lhes as mãos, as abençoava. Agora fica claro que Jesus
não abençoava como abençoavam os escribas.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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