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62 Um desafio à fé, Mt 17.14-21

Um desafio à fé, Mt 17.14-21
(Mc 9.14-29; Lc 9.37-42)

14-21 E, quando chegaram para junto da multidão, aproximou-se dele um homem, que se ajoelhou e disse: Senhor, compadece-te de meu filho, porque é lunático e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo e outras muitas, na água. Apresentei-o a teus discípulos, mas eles não puderam curá-lo. Jesus exclamou: Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei? Trazei-me aqui o menino. E Jesus repreendeu o demônio, e este saiu do menino; e, desde aquela hora, ficou o menino curado. Então, os discípulos, aproximando-se de Jesus, perguntaram em particular: Por que motivo não pudemos nós expulsá-lo? E ele lhes respondeu: Por causa da pequenez da vossa fé. Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível.
Em relação à tradução
a
O v. 21 não consta no texto original editado por Nestle. Ele consta nos manuscritos  C, D e coiné, e diz:
Mas esta casta de maus espíritos não se expele senão por meio de oração e jejum.
Nos três autores sinóticos (Mc 9.14s; Lc 9.37ss) essa narração segue imediatamente à história da
transfiguração de Jesus. Sem dúvida o grande contraste entre a narrativa anter ior e a seguinte
contribuiu para que os discípulos mantivessem inalterada a linha cronológica que ligava ambas entre
si.
O “sono” que, segundo Lc 9.28-36, sobreveio aos discípulos na transfiguração de Jesus, bem
como a oferta de Pedro de construir tendas, comprovam claramente que a transfiguração aconteceu
no entardecer ou durante a noite.
Na manhã seguinte, pois, Jesus e seus acompanhantes desceram o monte. Uma grande multidão
esperava por Jesus e foi ao seu encontro. De acordo com Mc 9.15, sua chegada causou uma certa
surpresa. O povo veio correndo e o saudou. Poderíamos atribuir essa excitação a um último reflexo
da transfiguração que ainda cobria a pessoa de Jesus. No entanto é mais natural explicá-la a partir da
áspera disputa anterior entre os discípulos e os escribas, com a qual a chegada do Mestre coincidiu
inesperadamente.
Mateus omite todos os pormenores que Marcos relata com detalhes, p. ex. os escribas discutindo
com os discípulos etc. Mateus praticamente se precipita sobre o que está para acontecer. – Os
sintomas da doença são convulsões, espuma, gritos. Mostram a que tipo de deterioração física
pertencia a enfermidade. Era uma espécie de epilepsia. Contudo, o diálogo que Mateus, Marcos e
Lucas apresentam em seguida mostra que, pela convicção de Jesus, a perturbação do sistema nervoso
era ou causa ou conseqüência de uma condição semelhante à  possessão, da qual já tivemos diversos
exemplos. De acordo com Mateus, os ataques aconteciam periodicamente e dependiam das fases da
lua. Marcos acrescenta mais 3 aspectos à descrição da doença: mudez, ranger de dentes;
emagrecimento do enfermo.
Por trás dessa doença, porém, estava o demônio.
Os discípulos que não estiveram presentes à transfiguração sentiram-se impotentes contra um
sofrimento tão profundamente arraigado (que já havia iniciado na infância, Mc 9.21). A presença de
vários escribas (cf. Mc 9.14-16), que com certeza não economizaram na zombaria deles e de seu
Mestre, havia ao mesmo tempo humilhado e irritado os discípulos. A expectativa do povo, por isso,
era tensa ao máximo.
É verdade que os discípulos haviam recebido autoridade de Jesus para expulsarem demônios.
Podemos também presumir que eles tentaram exorcizar o rapaz em nome de Jesus. Apesar disso a
cura não aconteceu, o que prova que, ao empreendê-la, não estiveram com a força plena da
comunhão com Jesus. Esse fato explica-se provavelmente de modo especial por causa de seu estado
de ânimo. Há pouco haviam ouvido acerca do caminho da cruz, no qual precisavam seguir a Jesus, e
naqueles dias talvez tenham lutado contra grandes tentações. Nessas condições foram solicitados a
curar um enfermo e possesso, cujo sofrimento era horrível e chocante. O resultado frustrado de seus
esforços leva a deduzir que eles deviam estar inseguros quando fizeram as tent ativas. Depois disso,
sem dúvida, sentiam-se completamente derrotados. Escribas inimigos, agora, aproveitavam esse
momento para discutir com eles. Podemos imaginar qual eram as intenções. Em todo caso
apresentavam o problema de tal maneira que a vergonha dos discípulos tinha de recair sobre o seu
Mestre. Compreendemos, pois, a excitação da multidão e a perplexidade dos discípulos cercados
pelos rabinos (cf. Mc 9.14-16).
Então Jesus surgiu no meio da multidão. Sua chegada atingiu em cheio o povo instigado, o s
escribas maliciosos e os discípulos desnorteados e confusos! Com certeza Marcos não usou uma
expressão demasiado forte quando disse: “Eles foram tomados de espanto”.
Para Jesus pessoalmente, que chegou no meio desse cenário, a situação representou um gra nde
contraste entre a paz divina quando se comunicou diretamente com os céus, e o lamento do pai do
rapaz, bem como todas as emoções que se alvoroçavam em redor dele.
Que contraste entre a região luminosa e cálida sobre o monte, tão próxima do reino da luz eterna,
e a região fria e escura da descrença cá em baixo!
Lá estavam, tão próximos do Senhor, os espíritos do céu, e aqui os espíritos do abismo. Também
os evangelistas perceberam e se sensibilizaram com o forte contraste entre a cena celestial da
transfiguração e essa cena abissal, na qual o demônio da agonia parecia triunfar sobre todo o grupo
de pessoas que rodeiam o possesso.
A severa interpelação de Jesus: Ó geração incrédula e perversa… tem sido relacionada com os
discípulos, os escribas, o pai e o povo. Todas essas interpretações são corretas. Pois em Marcos o pai
confessa pessoalmente sua falta de fé, e os discípulos não conseguiram realizar a cura por causa de
sua falta de fé, como explica Mateus. O termo abrangente “geração”, “espécie”, proíbe ex cluir o
povo ou os escribas. Para entendermos corretamente a exclamação de Jesus, precisamos imaginar a
constituição de sua alma naquele momento. Após a alegria de conviver com os habitantes celestiais
Moisés e Elias, Jesus de repente se encontra no meio de um mundo dominado pela incredulidade em
diversos graus. É o contraste que o pressiona para essa dolorosa exclamação, um contraste não entre
esta e aquela personalidade, mas entre toda a humanidade afastada de Deus, em meio à qual vive, e
os moradores celestiais, dos quais veio. A pergunta reiterada: até quando…? (v. 17) também se
explica somente pelo contraste com o episódio anterior. Não é uma manifestação de impaciência,
mas expressão de dor e saudade, em que o Filho anseia pela casa do Pai que lá no alto do monte se
havia revelado um instante perante seus olhos. – A palavra “até quando vos suportarei” (v. 17)
mostra o quanto Jesus, apesar do seu amor, se sentia estranho no meio dessa incredulidade. A festa
do dia anterior despertou nele um sentimento semelhante à saudade (Godet).
Entre os três relatos da cura propriamente dita há uma espécie de gradação.
Mateus  informa simplesmente o fato da cura, sem mencionar a crise havida anteriormente.
Essencial para ele é o posterior diálogo de Jesus com os discípulos. Em Lucas o informe da cura é
precedido pela descrição da crise.
Marcos, por fim, narra por ocasião da crise uma notória conversa de Jesus com o pai da criança.
Esse diálogo traz a marca da autenticidade e não permite supor que Marcos tenha extraído seu relato
de um dos outros dois, nem que os outros tenham tido diante de si  o relato de Marcos ou outro
semelhante. Concretamente, como Lucas poderia ter deixado de fora tais dados mais específicos?
Mateus conservou a pergunta dos discípulos: Por que motivo não pudemos nós expulsar o
demônio?
Jesus dá a resposta: Por causa da pequenez da vossa fé.
Nos manuscritos C e D (dos séculos V e VI) e especialmente na coiné encontra-se, em lugar de
“pequenez da fé”, “incredulidade”.
Fé pequena e falta de fé são o mesmo para Deus. Certamente se pode dizer: A pequenez da fé dos
filhos de Deus traz mais vexame e desonra ao Senhor que a incredulidade dos descrentes.
Jesus continua, dizendo: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda,
direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará ao outro local. Nada vos será
impossível. Essa comparação, no primeiro momento, causa estranheza, pois para um milagre desse
porte é certamente necessária não uma fé pequena, tão pequena como um grão de mostarda, e sim
uma fé gigantesca. No entanto, Jesus não está se referindo à fé  comum que cada cristão precisa ter
para ser salvo, mas uma espécie muito singular de fé, que Paulo arrola entre os dons especiais da
graça, os carismas (1Co 12.9; 13.2). Essa fé realizadora de milagres, na verdade, é bem singela
enquanto permanece oculta no coração de quem a possui. Se, porém, começa a atuar, seu efeito é
imensuravelmente grande, pois há poder de Deus dentro dela. É por isso que Jesus diz:  Nada será
impossível para vocês. Essa fé é como uma participação na onipotência de Deus (Lauck, p. 259).
Quem tem essa fé, não calcula nem a força dos demônios nem o próprio poder. Ele conta
unicamente com o Senhor.
A expressão transportar montanhas é uma forma proverbial da época, que significava tanto
quanto “tornar possível o que parece ser impossível”. Os rabinos chamavam um sábio, que na
discussão levava a sua opinião à vitória contra todas as objeções, de “arrancador de montanhas”.
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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