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63 Ensino sobre os bens (o jovem rico), Mc 10.17-31

Ensino sobre os bens (o jovem rico), Mc 10.17-31 
(Mt 19.16-30; Lc 18.18-30)

17-31 E, pondo-se Jesus a caminho, correu um homem ao seu encontro e, ajoelhando-se, perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus. Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e a tua mãe. Então ele respondeu: Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude.      E Jesus, fitando-o, o amou e disse: Só uma cousa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; então vem, e segue-me. Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedadesEntão, Jesus, olhando ao redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezasOs discípulos estranharam estas palavras; mas Jesus insistiu em dizer-lhes: Filhos, quão difícil é [para os que confiam nas riquezas] entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. Eles ficaram sobremodo maravilhados, dizendo entre si: Então, quem pode ser salvo? Jesus, porém, fitando neles o olhar, disse: Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível.      Então, Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos. Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna. Porém, muitos primeiros serão os últimos; e os últimos, primeiros.

Em relação à tradução
   a
     A seqüência diferente da nossa maneira de contar não deve nos estranhar. Não se contava com muita
exatidão. As listas no AT também já têm diferenças, cf. p ex Êx 20.12-16 e Dt 5.16-20, e Rm 13.9.
   b
     aposterein aparece no NT ainda em Tg 5.4. Tanto lá como na LXX tem o sentido de reter o salário de
alguém (p ex Dt 24.14). Ou será que este termo engloba o nono e o décimo mandamentos? Muitos copistas, assim como Mateus e Lucas, deixaram esta parte fora.
   c
     “E o amou” naturalmente não é uma informação sobre o amor geral de Jesus pela humanidade, que
incluía também este homem, antes identifica um gesto de amor que será feito em seguida (aoristo
ingressivo). Alguns intérpretes entendem este processo como uma ação prática e traduzem que Jesus “o
acariciou” (Wikenhauser), “abraçou” (Lohmeyer) ou “beijou” (Pesch e Gnilka). Com isto, porém, eles
deixam de levar em conta a relação expressa com o olhar de Jesus, que repetidas vezes nas histórias de
chamado sinaliza o processo de escolha (1.16,19; 2.14; cf. também “filho amado” em 1.11; 9.7; 12.5). Já no
grego pré-bíblico, agapan é o amor que faz diferenças, escolhe seu objeto, o coloca em posição de
preferência e o segura (Stauffer, ThWNT I, 36. Que as palavras “eu amei” podem descrever o processo
divino de escolha pode-se ver também em Os 11.1; Is 43.4; Ml 1.2; Rm 9.13. A tradução (cf. Schneider,
EWNT I, 22) deve expressar isto.
   
d
     stygnazein significa ficar escuro (como em Mt 16.3!). Schmithals sugere a tradução “seu rosto se
anuviou”.
   
e
     ktemata originalmente era tudo que foi obtido, mas nos tempos bíblicos se limitara a posses concretas
de terras, p ex At 5.1, claramente equivalente a chorion no v. 3, ou seja, propriedade rural (como em Mc
14.32 para o Getsêmani).
   
f
     Aqui está o termo mais geral chramata, que se refere a valores na forma de objetos e dinheiro,
geralmente quantidades monetárias (At 4.37; 8.18,20; 24.26).
   
g
     Alguns copistas transformaram kamalos (camelo) em kamilos (corda). No entanto, aqui se compara
intencionalmente o maior animal que existia na Palestina com a menor abertura conhecida, para evocar a
impressão do impossível. Esta intenção também ficaria inutilizada se “fundo da agulha” fosse entendido
como o nome da portinhola ao lado do portão da cidade. A contraposição de fundo da agulha com camelo ou
elefante também aparece em outros provérbios judaicos (Bill. I, p 28).
   
h
     “Campos” parece indicar que se trata de agricultores, apesar de não ser esta a composição do grupo
dos doze, nem dos demais discípulos. O plural também pode indicar terrenos ou até aldeias, ou seja, a terra
natal.
Observações preliminares
1. Contexto. A terceira instrução (cf. opr a 10.1), sobre o assunto dos bens, deixa especialmente claro que
as perguntas em relação à nossa vida terrena estão inseridas nas perguntas em relação à nossa vida eterna e ao
reinado de Deus.
2. “Jovem” rico? Os três relatos sinóticos são uniformes em apresentar este homem como “rico justo”
(Goppelt, Theologie, p 132.135). Só em Mt 19.20,22 ele é chamado de passagem de “jovem”, porém é preciso
levar em consideração que os judeus podiam chamar os homens de menos de 40 anos de “jovens”. Contra a
nossa idéia de juventude também se levanta o fato de que, segundo Lc 18.18, se trata de um “homem de
posição” (archon). Pode ser que ele ocupava a posição de presidente de sinagoga (Lc 8.41; cf. 5.22n), de juiz
(Lc 12.58) ou de membro do Conselho Superior. De antemão devemos excluir algumas interpretações:
a. Interpretação psicológica do jovem. Isto tiraria do diálogo a profundidade e a validade geral, se
pintássemos aqui um jovem que pergunta a partir das suas tensões e do seu egoísmo (como em Dehn, p 119).
Neste encontro o importante é a vida e Deus (v. 17,30).
b. Oferta de um cristianismo adicional voluntário? Esta é a interpretação de alguns autores católicos, p ex
Guardini, p 338ss: via de regra é suficiente quando os cristãos guardam os mandamentos. Para quem, no
entanto, tinha o desejo de “mais”, como este homem, Jesus continua falando no v. 21. Para estes, ele tem uma
“exigência especial”. Esta não está mais no nível das obrigações comuns, mas do “conselho” para aqueles que
querem ser perfeitos. Quem está no primeiro nível já tem a garantia da vida eterna, o nível superior é só para
quem é especial. Desta interpretação do texto se alimenta desde tempos antigos a religiosidade dos monges,
com os três “conselhos” em relação a pobreza, virgindade e obediência. Lumen gentium, a constituição
dogmática do Vaticano II sobre a igreja, expressa isto assim: “Ele (aquele que pertence à ordem) morreu para
o pecado pelo batismo e foi consagrado a Deus, mas para poder receber um fruto mais rico da graça do
batismo, pelo compromisso com os três conselhos evangélicos na igreja ele é liberto dos obstáculos que o
poderiam afastar do ardor do amor e da perfeição da adoração de Deus, sendo consagrado de modo mais
intenso ao serviço divino”. Dignos de nota são os comparativos que indicam níveis de espiritualidade. Nossa
passagem, porém, não trata de participação maior ou menor na vida eterna, de obediência inferior ou melhor
ou de uma condição superior ou inferior de ser discípulo, mas de vida, obediência e discipulado em si.
c. Religiosidade de pobre? O v. 21 pode ser não só estreitado, mas também ampliado demais. Haenchen, p
ex, torna este homem rico “um caso exemplar para todos os ricos” que querem tornar-se cristãos. Todos eles
têm de livrar-se de todos os seus bens. Também na opinião de Schulz (p 118; Lohmeyer é parecido), mostra-se
aqui o “rigorismo de Marcos”. Alguns intérpretes chegam ao ponto de afirmar que os “pobres” aos quais se
deve dar o resultado da venda dos bens são os cristãos que vivem em comunidade. Todo novo convertido tinha
de colocar seu patrimônio no caixa comum. Só quem fosse sem posses receberia a vida eterna. – Desta
maneira, porém, um chamado concreto é dogmatizado além do permitido, e o quadro geral dos evangelhos é
distorcido.
3. Unidade do parágrafo. O relato da segunda rodada do diálogo nos v. 28-31 dá a impressão, por causa do
estilo e também de uma atitude bastante diferente por parte dos discípulos, de ter sido transferido para cá a
partir de outra fonte. Seja como for, quanto ao conteúdo ele se encaixa muito bem aqui. Do v. 17 até o 30 fala-se da “vida eterna”, que é relacionada com os alicerces da vida natural como posses e família (imóveis nos v.
22, 29, 30 e pais nos v. 19,29,30). Com o chamado para ser discípulo, oferece-se uma solução para o
problema.
     17     E, pondo-se Jesus a caminho. Esta informação exterior é significativa. O “caminho” é a “subida”
determinada de Jesus para Jerusalém (10.32), disposto a sofrer, morrer e ressuscitar (opr 2 ao 8.27-10.52). Que outra coisa poderia sair, se este Senhor sofredor é perguntado por conselhos para a vida,
senão este discipulado “sob perseguições” (v. 30)! Correu um homem ao seu encontro e,
ajoelhando-se. Com tanta súplica como a dos leprosos em 1.40 e tão exawsto emocionalmente como
o presidente da sinagoga em 5.22, ele fez diante de Jesus o gesto da submissão mais completa e da
maior seriedade exterior. Toda a sua biografia passa para segundo plano. Ele não era nada além de
alguém que estava ajoelhado diante de Deus; e quando alguém se ajoelha diante de outra pessoa, está
se submetendo ao seu senhorio. A saudação e a pergunta também indicam a disposição para se
converter: perguntou-lhe: Bom Mestre. “Mestre” (rabi, professor) na época de Jesus podia ser uma
simples expressão de gentileza, mas o adjetivo “bom Mestre” é uma qualificação. Estava aqui um
professor “com autoridade” (1.22,27), “vindo da parte de Deus” (Jo 3.2), distanciado da caricatura
comum dos professores (Mc 12.14; cf. opr 3 a 1.21-28). Típica em cenas de conversão é o pedido por
instruções abrangentes: Que farei – a passagem faz parte de uma série com Lc 3.10,12,14; At 2.37;
9.6; 16.30 – para herdar a vida eterna? Este professor que tinha despertado perguntas cruciais nele,
teria de respondê-las agora.
A expressão “herdar a vida eterna, entrar na vida” é tipicamente judaica (Bill. I, 464,808s,829).
Ao mesmo tempo o AT protegia os judeus do menosprezo da vida terrena e natural. Não se trata de
fugir do mundo. Todavia, com quanto mais pretensão alguém pensa sobre a vida, mais o incomoda
nela a morte, em todas as suas formas antecipadas e dores posteriores. É que a vida tão ansiada só
reina lá onde reina o Deus vivo. Por isso também pode-se falar de “herdar o reinado de Deus” (Mt
25.34), ou “entrar” nele (Mc 9.47; 10.15,23,24,25) ou “recebê-lo” (10.15). A vida eterna para nós
depende da pergunta se Deus nos quer ter consigo. Jesus relançara esta pergunta com sua
proclamação do reinado próximo de Deus, de modo que as respostas velhas dos velhos líderes não
satisfaziam mais. Estes diziam: Guarde os mandamentos, estas “palavras de vida” (Bill. I, 464)!
Colecione com empenho um estoque de obediências a mandamentos, para que, no juízo final, se sua
conta for alta o suficiente, você possa receber a vida eterna em troca (Bill. I, 429-431,822d). Apesar
de seguir este caminho, contudo, este homem sentia em algum lugar uma carência preocupante. Por
isso perguntou a este professor, que visivelmente vivia com Deus e de Deus, o que ainda faltava (v.
21).
     18     Jesus replicou tipicamente com outra pergunta, que expõe o que realmente interessa (cf. 9.33; 10.3):
Por que me chamas bom? Ficamos consideravelmente constrangidos. Será que o evangelho inteiro
de Marcos não ficaria incompreensível se não é verdade que Jesus é o Filho santo que agrada a Deus,
como testemunhou a voz do céu (1.11; 9.7)? Porém a palavra dura de Jesus se justifica se
enfatizamos: Por que você, com estas suas tendências, me chama de bom? Aqui não era uma voz do
céu mas uma boca terrena que queria ir além dos mandamentos de Deus. Na prática, ele queria que
Jesus fosse bom além da boa revelação de Deus, dispondo ele mesmo sobre a ética. É isto que Jesus
recusa. Ele diz não a ser bom sem ser Filho, não a ser bom que não coloca no pedestal a
singularidade de Deus. Por isso: Ninguém é bom senão um, que é Deus.
A ênfase está no numeral insistente: um Deus, sem deuses paralelos, sem querer ser como Deus
(cf. 12.29,32). Jesus restabeleceu o primeiro mandamento: “Eu sou o Senhor teu Deus; não terás
outros deuses diante de mim” (Êx 20.2,3). O próprio Jesus não é bom no sentido em que Deus é bom,
pois não é Pai, ou seja, Doador, Preservador e Senhor da vida, mas só o Filho obediente. Com este
sentido do 1º mandamento, que englobava toda a missão de Jesus, podemos voltar ao v. 21.
     19     Sabes os mandamentos. Não é possível obter a vida passando ao largo dos mandamentos, há muito
conhecidos, do Deus que é o único bom. “Ele te declarou, ó homem, o que é bom”, diz Mq 6.8. “Eles
têm Moisés e os profetas; ouçam-nos”, em Lc 16.29. Em Mc 10.3 Jesus também reportou seus
parceiros friamente aos fundamentos da Escritura, que todos sabiam de cor. Em Lc 10.26 ele fez um
professor da lei declamar o Decálogo como se fosse um rapaz fazendo sua profissão de fé. Depois lhe
disse secamente: “Declamaste corretamente; faze isto, e viverás”. É preciso perceber a ponta de
ironia contra o excesso de “preceitos de homens” (7.4,7-9,13). O reinado de Deus se aproximou, e a
voz do Pai pode ser ouvida. É tudo tão simples.
Agora Jesus faz o resumo: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso
testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e a tua mãe. A direção, portanto, não
aponta para mais jejum, oração, freqüência ao culto ou estudo da Torá, não uma religiosidade mais
intensa ou contemplação mais profunda. Ame o seu próximo! O amor ao próximo é o reverso do
amor a Deus. É que Deus, de modo até irritante, está sempre ao lado do próximo e insiste: Ame-o!
Sem isto não há Deus e não há vida.
     20     Então ele respondeu: Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude. Ele não está
pensando em seu nascimento ou infância, mas no tempo desde os seus treze anos. Naquela ocasião
ele se comprometera a guardar os mandamentos, como todos os meninos judeus. Com a melhor das
consciências ele podia constatar que vivera sem roubar, matar, adulterar, assaltar ou mentir. No
judaísmo havia exemplos radiantes de justos que, neste mundo caótico, tinham guardado (Bill. I,
814,816) os 365 mandamentos “faça isto” e os 248 “não faça isto” que eram tirados dos cinco livros
de Moisés (Bill. III, 161). Jesus aceitou esta informação sem problemas como verdadeira. Em termos
gerais ele respeitava as grandes diferenças de conduta entre as pessoas e podia falar sem ironia dos
“justos” (2.17). Paulo fazia o mesmo juízo do seu tempo de fariseu: “Quanto à justiça que há na lei,
irrepreensível” (Fp 3.6). No Oriente despótico, por outro lado, também eram conhecidos os ricos
brutais, que eram odiados de acordo. Com suborno, chantagem ou o desprezo de todas as normas eles
ampliavam continuamente suas posses (Lc 19.8). Quando recebiam uma visita importante, tomavam
um animal do vizinho pobre para assar, para poder ser um hospedeiro galante, sem levar prejuízo
(2Sm 12.1-4). A poucos passos da sua mesa podia jazer um moribundo em sua imundície (Lc
16.19ss). Para estes senhores Deus não significava nada. Eles esbanjavam arrogância. “Os olhos
saltam-lhes da gordura; do coração brotam-lhes fantasias” (Sl 73.7). Contra todo ceticismo, porém,
temos de concordar que aqui e acolá havia ricos honestos, que inclusive eram amados sinceramente
pelas pessoas ao seu redor (Lc 7.4s). Um rico assim estava de joelhos aqui diante de Deus. Sua
riqueza podia ser para os judeus um sinal visível do favor divino (cf. Jó 1.10; 42.10; Sl 37.25;
128.1,2).
     21     Este versículo imprime nova direção à história. O diálogo de ensino (duas vezes “mestre”) torna-se
literalmente uma história de chamado, mesmo que com resultado negativo. E Jesus, fitando-o, o
amou. A eleição sem outro motivo se impõe aqui, certamente não como recompensa por suas
virtudes. E disse: Só uma cousa te falta. Com isto a continuação desemboca no chamado para
segui-lo. Como, porém, devemos entender este discipulado? De forma alguma como a adição de um
undécimo mandamento aos outros dez. Isto já ficou claro no v. 19. O que faltava era qualidade, não
quantidade. Faltava-lhe a base, não um acréscimo. Para ser mais exato: esta uma coisa é o Único do
v. 18, é o estabelecimento do 1º Mandamento na sua vida, e deste 1º Mandamento em todos os outros
mandamentos. É isto que acontece na seqüência.
O próximo versículo trará isto à tona: o rico justo ainda vivia com reservas decisivas em relação a
Deus. É verdade que ele respeitava a ordem de Deus e neste aspecto podia ter uma consciência
tranqüila, mas no cumprimento de cada mandamento faltava o cumprimento do 1º mandamento, este
de pertencer completamente a Deus. Em tudo ele continuava senhor de si mesmo. De alguma forma,
nele o ser e o fazer estavam divorciados. Isto existe: muita submissão, em caminhos próprios! Deus,
neste caso, se parece com um guarda de trânsito a cujos gestos obedecemos com solicitude, para que
ele nos deixe passar. No mais, pouco nos importa o guarda de trânsito, e pertencemos a nós mesmos.
A esta indicação de que falta uma coisa seguem três imperativos (vai e vende, dá aos pobres, vem
e segue-me), mas na verdade não se trata de três coisas, mas de uma só. Esta é o discipulado.
Seguindo a Jesus, estamos com Deus, e ele estabelece em nós o 1º mandamento. Os imperativos
precedentes nada mais são que a descrição inicial do que significa ser discípulo. Eles já brotam do
discipulado, são discipulado em ação.
O primeiro imperativo é: Vai, vende tudo o que”tens. A primeira explicação desta palavra
encontramos na parábola em Mt 13.44. O homem que lá “vai e vende tudo o que tem”, o fez de tanta
alegria com o que encontrou. Em vista do grande tesouro, as coisas dele praticamente lhe caíram das
mãos. Aqui também o “ir” teria sido um andar no amor do v. 21a, não um sacrifício por ele e anterior
a ele. Livre dos seus bens, este homem estaria livre para realmente viver sua liberdade. A perspectiva
da liberdade sob o 1º Mandamento, sob a missão de Jesus e em favor desta missão, é o fio condutor
aqui. A pobreza aqui não é uma obrigação imposta ou um ideal exaltado. A pobreza aqui não tem o
valor em si mesma, mas está a serviço da liberdade para o serviço. Existe também a liberdade para a
posse desta ou daquela maneira, quando permitido pela independência do serviço. O padrão é a
orientação concreta. Pedro também deixou a sua casa, mas não a vendeu (1.29), assim como Levi
(2.15). O testemunho bíblico de uma situação específica não pode ser transformado em exigência
geral sem uma análise melhor, mas situações bíblicas podem repetir-se.
O segundo imperativo é: Dá-o (o resultado da venda) aos pobres. Jesus não pode ter considerado
a posse de dinheiro como um mal em si mesmo, senão o homem não poderia ter confiado seu
dinheiro aos pobres. Também fica claro que a entrega dos bens não representa um ganho em virtude,
antes está a serviço do amor ao próximo. De tanto ser amado, ele devia dar amor adiante. E terás um
tesouro no céu. É verdade que esta expressão procede da teologia judaica do mérito (Bill. I,
429ss,817s), mas ela adquire um novo sentido no contexto aqui. O favor de Deus o homem já
recebera, de acordo com o v. 21, pela vida do presente, mas na época futura isto deveria vir à luz.
Mal entendidos na época presente, encobertos por perseguições (v. 30), os amados de Deus um dia
brilharão como o sol.
Finalmente as instruções sobre o discipulado chagam ao fim: Então vem, e segue-me. O
propósito, portanto, não era que este homem se juntasse ao grupo de seguidores sedentários de Jesus
(qi 8g), mas ao grupo menor que andava com ele, que deixara pátria, profissão e família. Para o tipo
de ligação com Jesus, a vontade de Jesus sempre era determinante (3.13). Em 5.18, Jesus mandou um
homem, que fora curado e se ofereceu para ser discípulo itinerante, de volta para a sua terra.
     22     Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste. É verdade que fora o homem quem
procurara Jesus, disposto a converter-se e faminto de vida, mas agora descobriu que ele era bem
diferente do que como o procurara. O “jugo suave” e o “fardo leve” de Jesus (Mt 11.30) ainda lhe
eram pesados demais. Assim, ele voltou, para carregar seu próprio jugo, cem vezes mais pesado. No
entanto, não se voltou indiferente, mas triste, pois já o tocara um sopro da bondade, glória e vida de
Jesus. Dar as costas a isto só pode acontecer na maior tristeza do mundo. Por que será que ele ainda
não estava livre para a liberdade? Confirma-se a interpretação de que ele ainda não amava a Deus
acima de todas as coisas. Um informação adicional, típica de Marcos, explica: porque era dono de
muitas propriedades. Esta circunstância emerge como se estivesse oculta até então. As exigências
que sua riqueza lhe fazia o obrigaram a continuar levando a sua vida vazia. Este “engano das
riquezas” (4.18) deve brilhar com força diante dos nossos olhos. Palavras como “bens, propriedades”
podem perder sua santidade para nós – como se ouro e prata pudessem nos salvar! (cf. 1Pe 1.18)! Até
porque os bens não são algo que nos pertence de eternidade a eternidade, de modo intocável. Eles
mudam de dono de uma noite para outra (Lc 12.20). Eles só nos pertencem para os administrarmos, e
temos de poder sair a qualquer momento da nossa posição de administradores e prestar contas.
     23,24     Isto levanta o problema dos “bens” para os que permanecem. Então, Jesus, olhando ao redor,
sem deixar ninguém de fora, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de
Deus os que têm riquezas! Certamente este “entrar” é um presente de Deus, mas isto não quer dizer
que as pessoas entram sem mais nem menos. A incapacidade humana de compreender o que é divino
é assustadora. Ninguém é uma sumidade diante de Deus, e até os discípulos ficam perplexos: Os
discípulos estranharam estas palavras, de modo muito parecido com o rico justo que ficou triste
com as palavras de Jesus. Eles não estão longe deste. Se um homem como este desiste, então, quem
vai conseguir?! O evangelho é para todos nós uma sobrecarga crônica.
Mas Jesus insistiu em dizer-lhes. Com solenidade especial (cf. 11.22) e repetição ele deixou
marcas profundas na memória dos primeiros cristãos. Filhos, quão difícil é entrar no reino de
Deus! Se no v. 16 era: Só para crianças!, agora é: Só para pobres! Mas quem é pobre? Os discípulos
fizeram bem em sentir que a história do homem rico tinha a ver com eles. Além do rico em bens há
os ricos em inteligência, em virtudes, em caridade, em filhos e tantos outros. E quem não é rico, pelo
menos quer ficar (1Tm 6.9) e, neste sentido, está preso no anzol das riquezas. Filhos, o Senhor diz
com ternura. Mas ele não enfeita nada, pelo contrário, ele descreve a situação deles com cores
berrantes:
     25,26     É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino
de Deus. Intencionalmente ele traça um quadro totalmente absurdo: um camelo diante do buraco de
uma agulha. É óbvio que ele se recusa a dar um passo sequer em direção a esse negócio. Mesmo
assim, ele ainda está em posição melhor do que um rico diante da porta do céu. Eles ficaram
sobremodo maravilhados, dizendo entre si. Apesar de terem Jesus à sua frente, eles se voltam
resignados uns para os outros, como crianças abandonadas. Nos lugares correspondentes sempre se
ouvem conversas muito humanas, distantes de Deus (1.27; 8.16; 11.31; 12.7; 16.3). Aqui eles dizem:
Então, quem pode ser salvo?
     27     Agora a intenção básica cheia de amor transparece totalmente. Jesus, porém, fitando neles o
olhar, disse: Para os homens é impossível. Até aqui vai a introdução; era necessário levar os
discípulos até esse ponto. A afirmação principal é: contudo, não para Deus, porque para Deus
tudo é possível. Quando, na história dos patriarcas, Sara riu sobre si mesma como o camelo diante
do buraco da agulha, Deus disse este mesmo “contudo” (Gn 18.14). A fé de Abraão dependia deste
“contudo” (Rm 3.18-21), assim com a fé de todos os discípulos de Jesus (9.23; 11.24). O poder
absoluto de Deus os convida à confiança irrestrita, contra toda liberdade e preguiça deles mesmos. A
salvação e a vida eterna são totalmente uma questão de desespero humano. Mas ele é limitado pelo
próprio Deus. Seguir a Cristo significa estar pronto para ter sempre experiências de limites. O
chamado é: Você não precisa saber fazer algo, mas você precisa vir!
     28     Foi-nos transmitida uma conversa adicional sobre a questão dos bens. Então, Pedro começou a
dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos. Com este “eis!” ele está apontando para um
milagre. Não estamos somente diante da incapacidade humana da qual o rico justo foi um exemplo
no v. 22, mas também do discipulado operado pelo poder de Deus. Deus faz com certeza o que
prometeu no v. 27. Ele confere poder para tornar-se filho de Deus (Jo 1.12). Marcos tinha claramente
a intenção de acrescentar uma prova à grande palavra do v. 27. É preciso festejar também o que Deus
fez.
De acordo com o texto paralelo em Mt 19.27, Pedro acrescentou: “Que será, pois, de nós?” – uma
pergunta que os intérpretes gostam de denunciar como ganância mesquinha por recompensa. Karl
Barth também a considera uma “queda que dificilmente dá para esconder”. Pedro estaria olhando
arrependido para tudo de que abrira mão, e não estaria longe do rico que amou seus bens mais que
Deus (KD II/2, p 698,700). O Senhor, porém, acolheu a pergunta de Pedro com boa vontade, já que
ele mesmo podia falar sem constrangimento da “recompensa do discipulado”, certamente não no
sentido dos rabinos, mas também não no sentido condenatório da ética filosófica. Como já foi dito,
aqui não segue uma repreensão, mas uma promessa.
     29     Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou
irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos. Já no v. 21 destacamos o que deve ser levado também
aqui: este “deixar” é sustentado por paz e alegria. É um evento festivo, com o conhecimento do
segredo do reinado de Deus segundo Mt 13.44. Não se cogita de ascetismo auto-escolhido e auto-imposto, nem masoquismos ou sadismos adotados a bel-prazer, com o propósito de humilhar e
quebrar a pessoa. As renúncias, pelo contrário, são resultado do chamado amoroso de Jesus: por
amor de mim, e da necessidade prática da missão: e por amor do evangelho. Desta forma, o sinal
positivo está garantido antes do parênteses. Isto, porém, não exclui sinais negativos dentro do
parênteses: cansaço, solidão, dúvidas, seduções, fracassos. É só conscientizar-se sobriamente do
despojamento de uma vida sem o aconchego de um lar, casamento e família, sem inserção na vida
profissional. Como a pobreza se transforma rapidamente em miséria, também para o ânimo e a
personalidade. Na árvore da vida destas pessoas, galhos grossos e serrados se destacam contra o
horizonte. Jesus, porém, continua com a insistência de um juramento (cf. 3.28n):
     30     Que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos,
com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna. A esperança de vida no sentido pleno “no
mundo por vir”, quando Deus for rei sem oposições, não pode faltar aqui. Porém é evidente que a
promessa vale principalmente para a igreja de agora. São-lhe prometidas já para hoje manifestações
do reinado de Deus e, em conexão com isto, manifestações de uma nova vida social. Em 3.35 fala-se
da família de Deus (cf. At 16.15; Rm 16.13; 2Co 6.10; Fp 2.22),”em 10.42-44 da sociedade fraternal
contrastante, sem estruturas de opressão (cf. At 2.45; 4.32,34; 1Co 12.13; Gl 3.28; Cl 3.11).
Exemplos desta nova solidariedade, inclusive em questões materiais, temos não só no século I. “Com
perseguições” e com muita limitação de espaço, sempre de novo abriu-se para a igreja de Jesus uma
plenitude de vida da qual os de fora nem conseguem sonhar, e que as condições da sociedade
predominante não conseguem superar em autenticidade, naturalidade e sinceridade. Ela é uma
antecipação do mundo novo que Deus quer nos conceder.
Este saboreio antecipado cancela os sacrifícios de quem segue a Jesus? A resposta pode ser dada
pela produção “cêntupla” do grão em 4.8,20. Ali não se negam as perdas e decepções. Tantas, talvez
muitas, coisas realmente foram perdidas e são do passado. Mesmo assim, os discípulos colocam seus
sacrifícios incondicionalmente sobre o altar, pois o altar não é de um deus desconhecido e distante
como as estrelas, mas que ama o ser humano. Ele reconhece todas as necessidades (Mt 6.33), ele é a
fonte original da paternidade (Ef 3.15).
     31     Porém, muitos primeiros serão os últimos; e os últimos, primeiros. Este verso aparece nos
sinóticos em contextos variados (em Mt 20.16 e Lc 13.20), recebendo a cada vez uma outra ênfase.
Aqui o tom é de consolo. Quando todas as coisas forem subvertidas um dia, os mortos serão
ressuscitados, os pobres consolados, os famintos saciados, os tristes alegrados, os pequenos
engrandecidos, os doentes curados, os presos libertados, em resumo, os últimos serão os primeiros
(cf. 9.35). Naturalmente isto pressupõe o inverso, que os primeiros serão derrubados da sua posição
elevada. Aqui, porém, a declaração se concentra na reabilitação dos últimos, totalmente no sentido do
v. 30b. Então ninguém mais terá motivos para ter pena de quem agora é desgraçado e prejudicado, e
estes já agora não precisam mais ter pena de si mesmos.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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