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64 Ensino sobre o sofrimento no caminho para Jerusalém, Mc 10.32-34

Ensino sobre o sofrimento no caminho para Jerusalém, Mc 10.32-34 
(Mt 20.17-19; Lc 18.31-34)

32-34 Estavam de caminho, subindo para Jerusalém, e Jesus ia adiante dos seus discípulos. Estes se admiravam e o seguiam tomados de apreensões. E Jesus, tornando a levar à parte os doze, passou a revelar-lhes as coisas que lhe deviam sobrevir, dizendo: Eis que subimos para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas; condená-lo-ão à morte e o entregarão aos gentioshão de escarnecê-lo, cuspir nele, açoitá-lo e matá-lo; mas, depois de três dias, ressuscitará.

Em relação à tradução
   a
     De acordo com os melhores intérpretes, as duas frases desta sentença devem ser aplicadas a dois
grupos diferentes (como fazem a NVI e a BLH): aos doze e aos demais peregrinos que acompanhavam Jesus,
a caminho da festa. Estes também são mencionados em 8.34; 10.1,46; 11.9. A eles o “seguir” aplica-se em
sentido mais amplo (3.7; 5.24; 10.52; 11.9). No meio deles estavam também as mulheres relacionadas em
15.40s. Os dois grupos são identificados separadamente ainda em 10.46.
   b
     Cf 3.34n.
   c
     Sobre o plural, cf. 8.31n.
   d
     Lit. “povos”, que denota no NT no mais das vezes, e também aqui, não povos inteiros mas indivíduos
que não são judeus, de modo que a tradução “gentios” ou “pagãos” é apropriada. Este conceito de valor dos
“povos” remonta ao estilo do AT.
Observações preliminares
1. Contexto. O v. 32 começa com “estavam de caminho” e o v. 52 termina com “estrada fora”, mostrando
que também este ensino sobre o sofrimento forma um bloco junto com os trechos adjacentes (cf. opr 3 a 8.31-33). Com a expressão “tornando a levar”, no v. 32, Marcos demonstra estar muito bem ciente das duas
ocasiões de ensino anteriores (8.31; 9.31). Com a repetição, Jesus e também Marcos queriam dar uma ênfase
especial. Por outro lado, há aqui também uma intensificação. Elementos novos são a menção da cidade de
Jerusalém, a decisão de matá-lo, a entrega aos romanos, que zombarão dele, cuspirão nele e o açoitarão. Seis
verbos descrevem a Paixão aqui.
2. Profecia da morte. O terceiro ensino sobre o sofrimento, usando os verbos no futuro, toma a forma de
profecia (cf. opr 3 a 8.31-33). A profecia vem de Deus (2Pe 1.21), o que, todavia, não exclui uma perspectiva
sóbria do processo histórico. No caso de Jesus também não se trata de “anúncio de tempestades com céu azul”,
mas com o céu encoberto de nuvens escuras (contra A. Schweizer, p 400). Já em 2.7 se formou o juízo
“blasfêmia”, para a qual a pena era o apedrejamento. A mesma pena valia para a transgressão do sábado
(2.23ss; 3.1ss). Jesus arriscou sua vida muitas vezes. Sua relação com os rabinos e o Conselho Superior
tornava-se cada vez mais tensa (1.22; 3.6). O judaísmo tinha de eliminá-lo se quisesse continuar como estava.
Por esta razão as investigações de um processo por heresia já estavam em andamento há tempo (2.24; 3.2,22;
7.1; 8.11); além disso, o destino de muitos profetas, culminando com o de João Batista, apontava em uma
direção bem clara. Vendo que ele se encaminhava diretamente para Jerusalém, os peregrinos todos também
entenderam que seu fim violento se aproximava (v. 32). Jesus estava na situação de um homem cujo paletó
ficou preso nas engrenagens de uma máquina que agora o puxava inexoravelmente (cf. Blinzler, p 423;
Jeremias, ThWNT V, 710s; Theologie, p 269; Stauffer, Gestalt, p 127; Colpe, ThWNT VIII, 446s; Tödt, p
155,178 e outros).
     32     Estavam de caminho, subindo para Jerusalém. Depois do desvio para a região além do Jordão
(10.1), começa agora a última etapa – sem apelação, para a cidade do templo, no alto das montanhas.
As menções anteriores do nome da cidade em 3.22; 7.1 não anunciaram nada de bom. Jesus foi para
o centro do perigo, ou da sua tarefa divina. Ele subiu como que para o seu altar, para santificar a si
mesmo como sacrifício.
E Jesus ia adiante dos seus discípulos. Estes se admiravam e o seguiam tomados de
apreensões. Que um rabino fosse na frente era óbvio. Tanto mais significativo é a referência ao fato
aqui (cf. a direção contrária em 14.28; 16.7). Ela indica que Jesus, exatamente aqui, era totalmente
senhor das suas decisões. Ele sabia do sofrimento e o queria. Ele também era senhor deles, com o
propósito de cuidar deles do modo indizível, como pastor e rei. Seu séquito, porém, hesitou. Foi
ficando cada vez mais angustiado (tempo imperfeito!), à beira do desespero (cf. Jo 11.16). Em vez de
“admirados” (Schlatter), o uso do mesmo termo em 1.27; 10.24 favorece a tradução “assustados”
(BJ). O aspecto de resistência predomina. Horrorizados, eles contemplam sua marcha determinada em
direção à escuridão (cf. Jo 11.7s). Um Messias que sucumbe – impensável (Jo 12.33s)! Vendo sua
figura que avança, seu coração fica paralisado (mas cf. v. 37). Eles tremem diante de um Deus que
age assim a partir do esconderijo. Por isso ele convoca seus discípulos pela segunda vez, para instruí-los. E Jesus, tornando a levar à parte os doze, passou a revelar-lhes as coisas que lhe deviam
sobrevir. O fato de ele separar novamente os doze deve ter relação com o chamado deles em 3.14.
Ele quer que estejam “com ele” especialmente no seu sofrimento, para poder testemunhar dele como
abandonado por Deus.
     33     O “eis” incrementa a atenção: subimos para Jerusalém. Esta vinculação de Jesus com os
discípulos é rara. A partir de agora nem ele nem eles poderiam desviar-se da rota. E Deus fará algo
que é expresso no passivum divinum: E o Filho do Homem será entregue. Como em 8.31, Jesus
menciona os principais sacerdotes e os escribas. Em seguida seis verbos desenrolam o processo. Na
frente estão a singular depravação e infidelidade dos judeus: Condená-lo-ão à morte e o entregarão
aos gentios (cf. At 2.23; 3.13; 7.52; 21.11).
     34     Em conseqüência disso, o Santo sucumbe (três vezes “ele”) num mar de vergonha, repulsa, dores e
escuridão. Hão de escarnecê-lo, cuspir nele, açoitá-lo e matá-lo. Depois, num misterioso tom seco
como em 8.31; 9.31 (cf): Mas, depois de três dias, ressuscitará.
A profecia autêntica alimenta-se da profundeza da Escritura, aqui talvez do Sl 94.21: “Condenam
o sangue inocente”, ou do Sl 22.6,7: “Opróbrio dos homens e desprezado do povo, todos os que me
vêem zombam de mim”, ou de Is 50.6: “Não escondi o rosto aos que me afrontavam e me cuspiam”.
Por outro lado, faltam detalhes históricos importantes dos capítulos da Paixão, como p ex o papel de
Judas e a cruz.
Jesus não queria ser somente um espantalho de horrores, um pesadelo de heroísmo para seus
discípulos transtornados. Por isso ele lançou luz de Deus e da Escritura sobre os eventos, sem, é
claro, disfarçar a amargura inexprimível. Em Jerusalém morre-se de verdade, mas isto não faz com
que a missão desmorone tragicamente. Ela se adensa na certeza final.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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