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65 O pedido dos filhos de Zebedeu, Mc 10.35-40

O pedido dos filhos de Zebedeu, Mc 10.35-40 
(Mt 20.20-23; Lc 12.50)

35-40 Então, se aproximaram dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos   que nos concedas o que te vamos pedir. E ele lhes perguntou: Que quereis que vos faça?      Responderam-lhe: Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda. Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizado? Disseram-lhe: Podemos. Tornou-lhes Jesus: Bebereis o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que eu sou batizado; quanto, porém, ao assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está preparado.

Observações preliminares
1. Contexto. Esta “aproximação” dos discípulos no começo não dá a impressão de continuação imediata do
v. 34, pois o Senhor acabara de reunir os doze ao seu redor no v. 33. Portanto, Marcos deve ter criado o
contexto por motivos de conteúdo. Ele quer destacar que o caminho de Jesus também determina o caminho
dos doze e, com isto, da igreja. Por isso, nas três ocasiões em que ocorre ensino sobre o sofrimento, segue
ensino dos discípulos, sempre provocado pela falta de entendimento de algum discípulo (8.32; 9.32; cf. opr 3 à
divisão principal 8.27-10.52).
2. Unidade. Apesar de alguns traços surpreendentes e da discussão correspondente com apartes agitados, é
recomendável buscar o sentido positivo e unitário do trecho.
3. Cálice e batismo como figuras. Já J. A. Bengel, no século XVIII, relacionou as duas idéias com Ceia e
batismo de água. Neste caso, porém, qual o sentido da pergunta de Jesus sobre a capacidade dos discípulos, e a
resposta deles: “Podemos”? Está na hora de deixar esta interpretação sacramental de lado. Ela distorce tudo.
Estamos diante de um genuíno par de figuras, em que uma parte sublinha o sentido da outra, devendo,
portanto, ser entendidas como um paralelo. Se a menção do “batismo” tivesse aqui um sentido adicional,
Mateus dificilmente a teria deixado fora. Duplicações como esta são típicas do antigo estilo hebraico. O
paralelismo perpassa todo o trecho: são dois que perguntam, dois lugares de honra, duas perguntas e duas
respostas em forma de pergunta.
a. O cálice é ligado no AT a remédio, lágrimas, destino, sofrimento, sabedoria, morte, imortalidade, punição
ou salvação. A interpretação, porém, não deve ser muito livre. É importante observar que o conceito do cálice
como martírio só aparece em escritos cristãos antigos (Goppelt, ThWNT VI, 153). Outra razão de ele não
encaixar aqui é que a morte no martírio é apresentada como dignificação altamente estimada, como ponto
culminante da comunhão com Deus (p ex Policarpo, 14.2). Jesus, porém, morreu com o grito do abandono nos
lábios. Além disso, nestes versículos a idéia de julgamento paira sobre tudo.
b. O mesmo sentido tem a figura do batismo. Jesus é tanto preenchido pelo julgamento de Deus (beber)
como imerso nele (ser batizado). “Ser batizado” podia ter o sentido de aflição extraordinária na Antigüidade
(Delling, Baptisma, p 242s). Há poucos exemplos literais disto no AT, mas há paralelos marcantes quanto ao
conteúdo. Em 2Sm 22.5, p ex, lemos de “ondas de morte” e “torrentes de impiedade” que caem sobre quem
pertence a Deus (cf. Sl 18.5; 32.1-6; 69.2s; 124.4s; Is 43.2). O Sl 42.8 destaca três vezes que as ondas que
passam sobre o justo vêm do Senhor. A desgraça, portanto, e não tanto a morte física, é a idéia aqui.
     35     Então, se aproximaram dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos
que nos concedas o que te vamos pedir. Este pedido nos causa uma má impressão. Ele nos lembra
de modo constrangedor de 6.22, em que uma dançarina pediu “o que queria”, mas especialmente o v.
43 a seguir: “Quem quiser tornar-se grande entre vós…” O próprio Jesus orou: “Não seja o que eu
quero, e sim o que tu queres” (14.36), e o leproso: “Se [tu] quiseres, podes purificar-me” (1.40), e o
cego de Jericó foi perguntado: “Que queres que eu te faça?” (10.51). Em todo caso, Jesus retoma este
“pedido” questionável dos discípulos em sua resposta em forma de pergunta. Por outro lado, eles não
parecem estar totalmente sem constrangimento. Senão, por que o desvio! Eles querem que, antes que
formulem sua idéia, ele já concorde em não se opor. Desta maneira eles tentam pegá-lo, pois não têm
certeza de ser atendidos.
     36     As respostas de Jesus em forma de pergunta têm o propósito de mostrar que na pergunta em si algo
não está em ordem (cf. 9.33). Que quereis que vos faça? Ele precisa recusar-se a assinar uma folha
em branco.
     37     Responderam-lhe: Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à
tua esquerda. A solicitação comprova que os discípulos não estavam o tempo todo com medo
enquanto subiam para a cidade, como no v. 32. Via-se também a manifestação de coragem diante da
morte e a expectativa entusiasta da “glória” que viria logo (cf. Lc 19.11 e a entrada em Jerusalém). É
claro que Jesus não podia aceitar este sentimento de exaltação melhor do que o medo de antes. Sua
solidão no meio deles tornava-se cada vez maior.
As duas outras passagens que mencionam a “glória”, em 8.38; 13.26, mostram que o termo faz
parte da expectativa da vinda do Filho do Homem. Do Filho do Homem tratam todos os trechos de
ensino sobre o sofrimento (8.31; 9.31; 12.31; 10.33). De acordo com Dn 7.14, porém, o Filho do
Homem haveria de ser manifestado sem luta, para receber de Deus “domínio, e glória, e o reino”
sobre todos os reinos da terra. Dentro deste cenário moviam-se os pensamentos dos discípulos. Não
devemos pensar que eles tinham expectativas bitoladas, nacionalistas e zelotes. Eles conheciam o seu
Senhor o suficiente para saber que ele nada tinha a ver com espadas desembainhadas e campos de
batalha sangrentos. Por isso eles dificilmente aspiravam por posições de ministro aqui, mas por
lugares auxiliares no tribunal do juízo final (cf. Mt 19.28; 25.31). O segundo mais importante ficaria
à direita e o terceiro à esquerda dele (Bill. I, 835; cf. 2Rs 2.19; 22.19; 2Sm 16.6). Os dois queriam
garantir para si, no contexto da promessa geral de Mt 19.28; Lc 22.29s, a preferência em relação aos
outros discípulos (opr 2 a 9.33-37). Estes entenderam exatamente isto.
     38     Para a seqüência, os paralelos nos textos judaicos e cristãos são dignos de nota, pois eles esperavam
que estes lugares estivessem reservados para mártires (p ex Apocalipse de Elias 3.49s; cf. Berger,
Auferstehung, p 123). Os filhos de Zebedeu parecem fazer parte desta tradição heróica. Com
destemor eles querem morrer por Jesus, para depois partilhar a sua glória. Uma segunda pergunta de
Jesus, porém, adia a resposta até o v. 40. Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Ele ainda
não podia responder-lhes porque eles ainda não tinham uma idéia clara da glória dele e do papel
deles. Uma pergunta em que se destaca duas vezes um “eu” muito enfático (“eu, eu mesmo”) deve
arrancá-los da sua ilusão. Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu
sou batizado?
Jesus vê um cálice tremendo vindo em sua direção, que requer uma capacidade especial para ser
tragado e que Jesus “tem de beber” com temor e tremor, pela vontade de Deus. Ele não tem este
desejo, mas o beberá, porque Deus é quem o estende (14.36).
A referência ao “cálice de Iavé” tem uma base ampla no AT (segundo Goppelt, ThWNT VI, 149,
talvez catorze passagens). Todas elas vão além do caráter de mero sofrimento. Este cálice – imposto
como um cálice de veneno ao condenado (Jr 25.28; 49.12) – contém julgamento. De que forma ele se
materializa não está em primeiro plano. Fundamentalmente trata-se de ser entregue à desgraça, de ser
separado de Iavé. Isto também explica o pavor de Jesus. O medo é maior do que aquele que
naturalmente se tem de morte e dor. É o desespero daquele que vive de Deus e se afunda na
escuridão. É o horror daquele que recebeu de Deus o testemunho de ser amado (1.11; 9.7) e que
agora recebe de Deus o cálice do julgamento.
A referência ao “batismo” também não é simplesmente um anúncio eufemístico da morte, mas
aponta para o mesmo âmago da Paixão que o último ensino sobre o sofrimento tinha destacado. De
acordo com Mt 3.11, aquele que haveria de vir batizaria todos os pecadores com fogo, que é o
julgamento de Deus. E agora esta troca incrível de lugar. Ele mesmo é atingido no lugar deles (cf.
1.11; “batismo” em geral opr 3b). É este caminho para dentro de trevas jamais vistas que Jesus
apresenta aos que lhe perguntam. Ele não o faz para dar adeus à sua glória, mas para mostrar em que
ela se baseia. Não se trata da glória em que eles estavam pensando. Por isso ele não pode ser
cúmplice deles. Eles podem partilhar seu sofrimento de condenação?
     39     Podemos! é a resposta – de uma ingenuidade gritante. Pedro diz algo semelhante mais tarde:
Senhor, por que não? “Por ti darei a própria vida” (Jo 13.37; cf. 11.16; Mc 14.29,31). Lá Jesus
respondeu: “Darás a vida por mim?” Vozes como esta também estão misturadas aqui, sem que
fossem pronunciadas. De forma alguma Jesus leva a resposta dos discípulos a sério. Eles não o
compreenderam, pois não prestaram atenção no alarmante “eu, eu mesmo” no v. 38 e insistem em
sua disposição heróica e alegre para o martírio, que os fazia olhar de cima para baixo para os outros
discípulos.
Ao mesmo tempo Jesus revela aqui sua mansidão e fidelidade. Apesar de tudo ele lhes garantiu
um futuro, depois do seu sofrimento de condenação e o esfacelamento deles. Devemos prestar
atenção nas diferenças de tempo: Tornou-lhes Jesus: Bebereis o cálice que eu bebo (agora,
abandonado por vocês!) e recebereis o batismo com que eu sou batizado (agora!). A palavra não
deve ser entendida como o martírio dos dois. Tão pouco como Pedro em 8.29,33 eles nos interessam
como indivíduos, antes são eles representantes dos doze e do novo povo de Deus em geral, tanto na
falta de entendimento como na correção. A todos os seus discípulos, portanto, Jesus promete uma
igualdade com ele, mesmo que não formal, pelo menos essencial. Seu ato de beber e de ser batizado
adquire validade abrangente, que marca toda a existência deles. Ele toma o julgamento sobre si, para
que também eles, sustentados por ele, possam tomar sobre si o mesmo julgamento. Como
cumprimento de 3.14, eles estarão “com ele” no sentido mais profundo, participando dos seus
sofrimentos e do seu poder – a despeito do destino exterior de cada um. Haverá quem o siga no
sentido de 8.34-38.
     40     Só então Jesus se refere ao pedido do v. 37. Quanto, porém, ao assentar-se à minha direita ou à
minha esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está preparado.
Posições privilegiadas no círculo dos discípulos há e sempre haverá, mas elas escapam às aspirações
humanas. O próprio Deus reservou a si a decisão sobre isto. Jesus nem pensa em intrometer-se na
soberania graciosa de Deus. O Filho veio para santificar o nome do Pai. Esta é a sua causa, e ele se
atém à sua causa. – Muito parecido com At 1.6-8, a pergunta por glória é colocada em segundo
plano, atrás de um discipulado com poder.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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