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66 Ensino dos discípulos sobre governar e servir, Mc 10.41-45

Ensino dos discípulos sobre governar e servir, Mc 10.41-45 
(Mt 20.24-28; cf. Lc 22.24-27)

41-45 Ouvindo isto, indignaram-se os dez contra Tiago e João. Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridadeMas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

Em relação à tradução
   a
     O termo grego dokein, “parecer”, tem um sentido duplo, tornando possíveis duas interpretações. Por
um lado os governadores são reconhecidos como governantes no sentido de que o são mesmo, merecendo o devido respeito. Eles confirmam as expectativas que se tem em termos gerais em relação a quem é governo,
e são aceitos nesta qualidade. Os importantes são assim! Todavia, isto é dito aqui claramente de um ponto de
vista de fora desta sociedade em que isto vale. Como mostra a continuação no v. 43, Jesus se distancia
totalmente destas estruturas de domínio comuns e geralmente aceitas, a partir da sua visão de uma
convivência totalmente diferente. Disto resulta um tom irônico, que Gnilka deixa emergir em sua tradução:
“que parecem dominar os povos” (BLH: “os que se dizem governadores”). Todos os consideram “senhores”,
inclusive eles mesmos, sem terem a mínima noção de domínio de verdade.
   b
     katakyrieuein e kataxousiazein vêm da formas simples kyrieuein, ser senhor e dominador, e
exousiazein, ter autoridade oficial. Nos dois verbos, porém, é acrescentada a preposição kata, contra, para
baixo (em sentido hostil e violento), o que certamente não é desprovido de sentido aqui, no quadro do
paralelismo. A declaração sobre o exercício do poder contém um prenúncio negativo. Ele é usado em
benefício próprio e abusado às custas dos que são dominados. A autoridade se torna autoritária, o poder
descamba para a violência, a posição dá ensejo para a usurpação. O primeiro verbo encontra-se ainda em At
19.16; 1Pe 5.3, enquanto o segundo não aparece mais no NT e também quase nunca na literatura geral. A BJ
faz uma boa correlação entre os dois, traduzindo por “dominam e tiranizam”.
Observações preliminares
1. Contexto. O v. 41 vincula o trecho diretamente com o pedido dos filhos de Zebedeu. O assunto continua
sendo a ambição dos primeiros lugares (“querer”, depois dos v. 35s, aparece agora nos v. 43s). Por outro lado,
não se cogita mais das circunstâncias da “glória”, mas a atenção foi trazida totalmente de volta para a
condição da igreja. Novamente o caminho de sofrimento de Jesus é a medida de todas as coisas (cf. v. 45 com
v. 38).
2. Autenticidade do v. 45. A certeza de que aqui quem fala é Jesus é sustentada por várias constatações:
a. A terminologia aponta para a formação desta declaração na Palestina de fala aramaica. A forma da frase
como era usada pelos primeiros cristãos de fala grega está em 1Tm 2.6: antilytron em vez de lytron, hyper em
vez de peri e “por todos” em vez de “por muitos”.
b. A declaração poderia ter surgido entre os primeiros cristãos da Palestina? Alguns aspectos do conteúdo
falam contra isso. A cristandade em seu começo não incluiu o título de Filho do Homem em suas confissões
de fé, porém falava de “Cristo por nós”. Ela também nunca usou “servir” com o sentido de dar a vida. Esta
palavra de salvação, portanto, por causa do seu estilo e conteúdo, não é típica para a igreja posterior à Páscoa.
c. A afirmação está imersa profundamente nos pensamentos do livro da Consolação de Isaías: de pessoas
como resgate fala Is 43.3s, de uma conversão de ser servido para servir Is 43.22-25, da expiação “por muitos”
Is 53.10-12. De acordo com tudo o que os evangelhos deixam transparecer, Jesus vivia em uma relação
especial com esta parte do AT (cf. p ex 1.2s).
d. Esta declaração tem seu último paralelo em 14.24: “Derramado por muitos”. É nestes termos, portanto,
que Jesus falava da sua missão em momentos de definição. Aqui ele coroa com ela o seu ensino sobre o
sofrimento, fazendo convergir para o seu sentido mais profundo tudo o que foi dito até então.
     41     Ouvindo isto os dez. É só neste lugar que Marcos separa os doze em dois e dez, indicando a
divisão que o pedido dos filhos de Zebedeu causara. Indignaram-se contra Tiago e João. A
exigência destes no v. 37 faz despertar também neles a ambição pelos primeiros lugares (veja a
resposta de Jesus e 9.34). Deste modo os dois, retrospectivamente, mostram que são representantes
dos doze.
     42     Mas Jesus, chamando-os para junto de si. Esta expressão por si só já anuncia a importância
fundamental do que segue (cf. 7.14). Diferente de 9.36, desta vez Jesus trabalha com um exemplo
negativo. Disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob
seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Os discípulos sabem o que no
fundo todo mundo sabe. Os detentores de poder sabem, os dependentes sabem, e cada lado sabe que
o outro sabe. Todos já tiveram suas ilusões quanto a isto desvanecidas. Em todos os lugares as
pessoas já se conformaram de que o mundo é assim, era assim, ficará assim e parece não funcionar
de outro jeito. A primeira preocupação dos que governam não é o bem do povo, mas continuar no
poder – o que, aliás, gostam de colocar como condição para o bem-estar do seu povo. “Os que
exercem autoridade são chamados benfeitores” (ou “se chamam de benfeitores”; Lc 22.25) Esta
descrição é dura demais? É claro que há e já houve detentores de poder conscienciosos. Jesus não
igualou todas as pessoas, mas falava de bons e maus, justos e injustos. Ele também não alimentava
preconceitos baratos contra “aqueles lá em cima”. Aqui, porém, ele não está avaliando indivíduos,
mas estruturas de domínio com sua tendência aos efeitos colaterais semelhantes em todas, como culto
à personalidade, burocracia, etc. O mundo não pode mudar-se como mundo.
     43     A isto aquele cujo reino não é deste mundo (Jo 18.36) contrapõe de forma singela e monumental:
Mas entre vós não é assim.
Trata-se da simples constatação de um fato, ou antes do estabelecimento de uma norma? Ou de
ambos? Voltaremos a esta pergunta na palavra de conclusão, no v. 45. Em todo caso, Jesus diz três
vezes “entre vós” (v. 43s). Ele os declara sociedade de contraste em seu contexto.
“Entre vós” quer dizer: Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva.
Mais uma vez Jesus concorda com o anseio por grandeza (cf. opr 2 a 9.33-37), e ele mesmo chega a
oferecer grandeza. Mas este “ele mesmo” é imprescindível. Sem ele, usadas de forma neutra em
qualquer sociedade, as frases seguintes produzem absurdos, promovendo um bando de lacaios. Estas
palavras, porém, são dirigidas a um grupo de pessoas que está experimentando o senhorio de Jesus.
Neste senhorio Deus se torna Senhor e, em nome de Deus, os necessitados são ajudados, sob
renúncia ao desejo de impor-se. Este Senhor é alguém que se ajoelha diante do seu pessoal e lava os
pés deles, com a toalha em volta da cintura (Jo 13), que anda para cá e para lá entre eles como um
garçom (Lc 22.27). Ser grande sob este serviço de Jesus deve produzir necessariamente uma
grandeza de outro tipo. Do estar-com-ele brota um ser-como-ele e, por isso mesmo, uma grandeza de
feitio especial. Estar junto com Jesus, oculto na vontade de Deus e a serviço dos irmãos, é a maneira
mais elevada de ser humano e senhor. “Se alguém me servir, o Pai o honrará” (Jo 12.26).
     44     Uma afirmação paralela aprofunda a declaração. E quem quiser ser o primeiro entre vós será
servo de todos. A tradução correta é “escravo”, um termo mais forte e inconfundível do que “servo”
como no v. 43. Além disso, a ênfase pode ser intencional: “escravo de todos”, não só “vos sirva”
como no versículo anterior. Neste caso, temos aqui a abertura para o amor a todas as pessoas. O amor
não pode limitar-se às próprias fileiras. O amor só pelo companheiro de fé seria questionável e,
geralmente, logo apresenta sinais de deterioração.
     45     Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida
em resgate por muitos. A princípio sentimos estranheza e escuridão, em contraste com as frases
claras antecedentes: o misterioso “Filho do Homem”, o “servir” profundo, que excede em muito o
serviço à mesa mencionado pouco antes, depois o “resgate” sem mencionar alguém que receba o
pagamento, e os “muitos”, quando se acabou de falar de “todos”. Gnilka está muito certo ao escrever
(p 104): “A frase não pode ser compreendida sem o pano de fundo de Is 53.10-12”. Poderíamos
acrescentar: Is 53 também não pode ser compreendido. Is 52.15 o anuncia como “aquilo que não foi
anunciado” e “aquilo que não foi ouvido”. Então, porém, este capítulo estranho e perdido do AT
recebeu seu par, na vida, no sofrimento e na ressurreição de Jesus. Ficou evidente que o que há de
específico no envio de Jesus é exatamente o que há de específico em Is 53, isto é, a substituição
universal para a salvação do mundo. Desta forma, a Palavra escrita e a que se tornou carne se
atraíram, se explicaram mutuamente e se tornaram compreensíveis. Jesus estava oculto no quarto
cântico do Servo, e isto se torna manifesto em Jesus.
Primeiro, porém, Jesus começa fora de Is 53: O Filho do Homem veio. Este título tem seus
antecedentes inesquecíveis em Dn 7.13,14 (cf. opr 4 a 8.31-33): “E eis que vinha com as nuvens do
céu um como o Filho do Homem, […] e o fizeram chegar até ele (Deus). Foi-lhe dado domínio, e
glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem(!). “Foi esta
visão profética, “eis que vinha”, que se cumpriu. O cumprimento, porém, ao mesmo tempo inverteu
surpreendentemente os papéis descritos pela profecia. O Filho do Homem veio, não para ser
servido, mas para servir. Este Filho do Homem, que era realmente “grande” (v. 42,43) e “primeiro”
(v. 44), não sucumbe à lei comum do egoísmo, como os grandes deste mundo. Ele não está pensando
no couro das suas ovelhas, mas na vida delas, à custa da vida dele. Assim Dn 7.13s é aprofundado
por Is 53. A Escritura explica a Escritura de modo criativo.
Com isto chegamos ao fim e alvo do versículo, que transpira Is 53. “Vindo para servir”
desemboca claramente em dar a sua vida (cf. Is 53.10,12). Por “servir” entende-se aqui menos a
atuação terrena de Jesus e mais a entrega da sua vida, e esta como o verdadeiro sentido da sua vida.
A morte não era o limite do serviço e da existência para Jesus, mas plenitude e ponto culminante. A
morte na cruz tornou perfeita a sua vinda, a transformação em cordeiro a sua encarnação. Este é o
entrelaçamento inexplicável de Dn 7 e Is 53. Não é possível dizer algo mais profundo sobre a sua
missão.
Sua vida é dada em resgate. Is 53.10 usa a expressão semelhante “oferta pelo pecado”, e Is 43.3s
em “resgate”, como aqui. Na Antigüidade a liberdade de prisioneiros de guerra, escravos ou
endividados podia ser comprada. O conhecimento geral desta instituição tornava o termo apropriado
como figura de libertação na proclamação da salvação. No livro da Consolação de Isaías trata-se em
primeiro plano de libertação e partida do cativeiro babilônico, no âmago, porém – e isto Is 53
expressa sem reservas – do êxodo do imenso endividamento para com Deus. É exatamente para isto
que o Deus que ama apaixonadamente interfere, “entregando” substitutivamente seu Servo à
vergonha e à condenação (cf. 1.14). Esta “entrega” era o “núcleo estável” de todos os ensinos sobre o
sofrimento.
O judaísmo, contudo, baseando-se no Sl 49.8s, ensinava que não havia resgate para os pagãos
(Bill. III, 644). Esta limitação é rompida por Is 53, com sua ênfase nos “muitos” (52.14,15; 53.11,12
= cinco vezes). Com sua frase final, este capítulo resume seu conteúdo e sentido no milagre: “Levou
sobre si o pecado de muitos”. Esta expressão é retomada por Jesus: resgate por muitos (cf. 14.23).
Jeremias, ThWNT VI, 537ss, apresentou a possibilidade de que estes “muitos” devam ser entendidos
como a forma semita para “todos”, e os primeiros cristãos foram unânimes nisto; Jo 11.52; 3.16; Rm
5.18; 8.3; 2Co 5.14s; Hb 2.9; 1Jo 2.2. Com “resgate por muitos”, portanto, surge uma mensagem de
libertação para a grande, incontável multidão, para o público em geral e, com isto, uma comunidade
formada a partir dos povos subjugados, que Jesus tinha apresentado no v. 42. Ali ele os mencionou,
não para distanciar-se deles, antes para retornar para todos com a palavra de salvação (cf. 12.17).
O fim do versículo tem jeito de Páscoa. Isto fica evidente quando reconhecemos a referência ao
fim de Is 53: Ele “verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará
nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; […] com o seu
conhecimento, justificará a muitos. […] Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os
poderosos repartirá ele o despojo…” (v. 10-12).
Em retrospectiva, ainda nos interessa o vínculo do versículo com o que antecede: Pois… É
evidente que a idéia é que um modelo atue sobre a consciência e a vontade dos discípulos. Um
mandamento é promulgado. Mas seria cruel constatar com o v. 42 as estruturas injustas inescapáveis
neste mundo, para depois exigir dos discípulos que eles sejam totalmente diferentes em meio a elas.
Mais ou menos assim: “Sejam bons em ambiente mau! Neste “pois” há ao mesmo tempo uma
fundamentação. A morte servil de Jesus criou uma nova base para ser diferente. Submetidas a ele,
nossas sinistras ambições por domínio tornam-se absurdas e o amor fraternal passa para o primeiro
plano. Deste modo, o mandamento está lado a lado com uma oferta a nós. Esta é uma advertência dos
primeiros cristãos: Jamais mostrar Jesus como exemplo sem mostrá-lo também como substituto e
salvador (p ex 1Pe 2.21-24; Fp 2.5-11; 1Jo 3.16).

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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