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67 A fé do cego Bartimeu, Mc 10.46-52

A fé do cego Bartimeu, Mc 10.46-52 
(Mt 20.29-34; Lc 18.35-43; cf. Mt 9.27-31)

46-52 E foram para Jericó. Quando ele saía de Jericó, juntamente com os discípulos e numerosa multidão, Bartimeu, cego mendigo, filho de Timeu, estava assentado à beira do caminho e, ouvindo que era Jesus, o Nazareno, pôs-se a clamar: Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!       E muitos o repreendiam, para que se calasse; mas ele cada vez gritava mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Parou Jesus e disse: Chamai-o. Chamaram, então, o cego, dizendo-lhe: Tem bom ânimo; levanta-te, ele te chama. Lançando de si a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus. Perguntou-lhe Jesus: Que queres que eu te faça? Respondeu o cego: Mestre, que eu torne a verEntão, Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E imediatamente tornou a ver e seguia a Jesus 
estrada fora.

Em relação à tradução
   a
     No grego, o nome vem depois do nome do pai, o que é incomum (cf. 3.17). Isto se explica pelo fato de
que “filho de Timeu” nada mais é que a tradução de “Bartimeu”. Deste cego, portanto, conhecia-se somente
o nome do pai, que foi explicado para os desinformados. É provável que isto já tenha sido feito antes de
Marcos, pois ele geralmente coloca “que quer dizer” antes de uma tradução (3.17; 7.11,34; 12.42; 15.16,42).
   b
     Para diferenciá-lo de muitos outros que naquele tempo se chamavam Jesus, acrescentava-se ao nome o
lugar de origem (Schaeder, ThWNT IV, 879ss; em Marcos ainda em 1.24; 14.67; 16.6).
   c
     A capa ou túnica (himation no singular, ainda em 2.21; 5.27; 6.56; 13.16; também 11.7,8) não era uma
peça para vestir, mas para colocar por cima da roupa. Consistia simplesmente de um pano mais ou menos
quadrado, que era usado como cobertura para dormir, cavalgar ou viajar. O mendigo estava sentado sobre
ela, com uma parte aberta à sua frente para recolher as esmolas e a outra extremidade cobrindo os seus
ombros.
   
d
     “Rabôni”, forma secundária mais enfática de rabi, com um tom e sentido de mais respeito, que Lc
18.41 traduz por “(meu) Senhor”. O termo só aparece ainda em Jo 20.16, onde é traduzido por “Mestre”,
como Marcos costuma fazer (cf. 4.38n).
   
e
     anablepein precisa com freqüência ser traduzido como “levantar os olhos” (p ex Lc 19.5; Mc 6.41).
Aqui, porém, isto não faria sentido. O cego recupera a visão, o que dá a entender que ele não era cego de
nascença.
   
f
     hypagein não precisa significar “vá embora”, de modo que o ex-cego teria seguido Jesus contra a
vontade deste. O imperativo também podia ter o sentido popular de “avante”. Em Marcos ele indica que um
pedido foi atendido (7.29) e de um modo geral cria expectativa pelo que segue (1.44; 6.38; 10.21; 16.7;
Delling, ThWNT VIII, 507s).
Observações preliminares
1. Contexto. Será que é justificado o título que omite a cura do cego em favor da sua fé? De fato, o relato
nos surpreende com a parcimônia com que menciona detalhes comuns em uma cura (idade do doente, duração
e gravidade do seu mal, processo de cura, admiração dos espectadores). Dos sete versículos, seis são
precedentes à cura, chamando a atenção passo por passo para a atitude de fé do cego. Depois de três palavras
sobre o sucesso da cura, a atenção é voltada logo de novo para o fato de ele seguir a Cristo. Com isto o trecho
se encaixa muito bem no tema do discipulado da divisão principal 8.27-10.52. Ao mesmo tempo ele serve de
fecho marcante. Enquanto Jesus, em seu caminho para a cruz, sofria constantemente a incompreensão dos seus
discípulos (medo, ambição, mal-entendidos), ele aqui recebe um sinal positivo. A fé de Bartimeu funciona
como uma promessa. Jesus não morrerá em vão. Ele terá uma comunidade, mas ela será composta dos
insignificantes, dos esquecidos e desprezados. Os cegos vêem mais que os que têm olhos. Por fim, a história
também tem “caráter de prelúdio” (Kuby). No chamado pelo filho de Davi nos v. 47s todos lembramos de
11.9s. A capa do v. 50 prenuncia as muitas capas colocadas à disposição de Jesus em 11.8.
2. Fontes. Uma comparação atenta com a cura do cego em 8.22-26 desvenda um estilo de narrativa bem
diferente em nosso trecho. Lá Jesus sempre é só “ele”, aqui ele é seis vezes “Jesus”. De qualquer forma, a
menção de nomes destaca este trecho: Jesus, Jericó, Nazareno, filho de Davi, Timeu, Bartimeu; cf. Rabôni. O
trecho deve ser entendido, preservado e interpretado como um todo.
     46     Para todos os grupos de peregrinos que se dirigiam do norte para a festa em Jerusalém, Jericó era
um importante ponto de passagem. E foram para Jericó. A cidade, além de ser um posto de
fronteira e alfândega (Lc 19.2), também era a última oportunidade de abastecimento de provisões e
local de reunião, em que grupos pequenos se organizavam para a viagem em conjunto. Desta forma
protegidos contra os salteadores de estrada (Lc 10.30), os peregrinos partiam deste último oásis no
vale do Jordão para o último trecho de uns 25 km, uma subida íngreme de perto de 1.000 m, através
do deserto acidentado da Judéia até a cidade do templo. Quando ele saía de Jericó, juntamente
com os discípulos e numerosa multidão. Pesch II, p 170,323 sugere que a menção específica de
chegada e partida pode indicar um dia completo de descanso. Os peregrinos tinham de guardar o
sábado.
Bartimeu, cego mendigo, filho de Timeu, estava assentado à beira do caminho. Os judeus
religiosos tinham a obrigação de dar esmolas, especialmente na festa da Páscoa (14.5,7). Os
mendigos podiam contar com isso. Desta maneira a festa se tornava um ponto alto também para eles
que, como deficientes, não podiam entrar no santuário. Eles se posicionavam na saída da cidade,
onde a caravana partia com disposição religiosa para a última etapa. Sobre a cegueira, cf. opr 3 a
8.22-26.
     47     E, ouvindo que era Jesus, o Nazareno. Nesta encruzilhada de estradas Jesus era assunto de
conversa há muito tempo. Sua descendência de Davi, suas intervenções desafiadoras em palavra e
ação e sua caminhada em direção a Jerusalém estavam na boca do povo. Os cegos captam mais do
mundo à sua volta do que este imagina. O ouvir leva ao crer neste homem (cf. 5.27; 7.25; Rm
10.17s). Pôs-se a clamar: Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim! “Filho de Davi” é
repetido no v. 48 sem o acréscimo do nome de Jesus. Nisto está a ênfase. A expectativa judaica de
que o Messias poderia traçar sua ascendência até Davi remonta a 2Sm 7.12-16. Todo judeu, desde
sua infância, clamava por misericórdia três vezes ao dia e pelo restabelecimento do “reinado da casa
de Davi” (14ª declaração de louvor da oração de dezoito petições). Mais tarde foi acrescentado:
“Deixa brotar logo o renovo de Davi e aumenta seu chifre com tua ajuda” (van der Woude, ThWNT
IX, 512s). Se levarmos em conta ainda a interpretação judaica do Sl 146.8: “Quando ele vier curar o
mundo, começará com os cegos” (Schrage, ThWNT VIII, 284), estão dadas todas as condições para a
atitude deste cego como de um judeu com orientação messiânica no seu tempo. De modo que ele se
lança sobre a sua fé, ou a fé cai em seu coração, e ele grita com todas as forças o antigo kyrie eleison
da Bíblia (p ex Sl 123.3; em Marcos ainda 5.19).
     48     E muitos o repreendiam, para que se calasse. De acordo com o v. 49, eles estavam a serviço de
Jesus, portanto devem ter sido discípulos. Será que eles se incomodaram com o volume dos seus
gritos, ou acharam que a confissão aberta do Messias era perigosa (v. 52), ou estão pensando em
ordens anteriores de guardar silêncio (8.30)? O cego pouco se importou com os motivos deles. Ele
cada vez gritava mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim!
     49     O v. 49 é exclusivo de Marcos, marcado pelo uso tríplice da palavra “chamar”: Parou Jesus e
disse: Chamai-o. Totalmente contrário à sua maneira de agir em 8.23-25 e parecido com 3.3, ele
quer que todos testemunhem a cura, que eqüivale ao sinal do Messias. Novamente ele requisita para
isto os seus discípulos, apesar da falta de entendimento que tinham acabado de apresentar, da mesma
forma como por ocasião das multiplicações dos pães (6.35-41; 8.4s) ou da bênção das crianças
(10.13s). O fracasso deles jamais anula a sua escolha. Chamaram, então, o cego, dizendo-lhe: Tem
bom ânimo; levanta-te, ele te chama.
     50     Lançando de si a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus. Sem ajuntar e guardar as
esmolas que já recebera, ele corre imediatamente na direção da voz que chama e se aproxima com as
mãos estendidas de Jesus – totalmente confiança e esperança.
     51     Perguntou-lhe Jesus: Que queres que eu te faça? Lit. “respondeu”, mas sem o sentido
costumeiro (cf. 11.22n), somente dando a entender que Jesus tomou a palavra com determinação. Ele
perguntou como um rei na audiência. O cego se agarra pela fé à oportunidade que lhe foi concedida.
Com isto ele se torna o oposto exato de Tiago e João no v. 37. Eles também “querem” algo, mas a
impressão que ficou foi de constrangimento. Eles queriam enquadrar Jesus no caminho deles;
Bartimeu deixou-se enquadrar por Jesus, como mostrará o v. 52. Respondeu o cego: Mestre, que eu
torne a ver.
     52     Então, Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. Em retrospectiva a conduta do cego recebeu o
nome de “fé”. Como sempre, é fé em Deus na presença de Jesus (cf. 1.15; 2.5; 5.34,36; 9.24; 10.27).
Ela vem de ouvir (v. 47), não retrocede diante de obstáculos (v. 48), segue o chamado deixando tudo
para trás (v. 50) e se agarra ao poder de Deus (v. 51).
E imediatamente tornou a ver e seguia a Jesus estrada fora. “Seguir a Jesus” foi um conceito
central na divisão principal que se encerra aqui (8.34; 9.38; 10.21,28,32), sempre em seu sentido
pleno, nunca como um simples movimento de correr atrás. O imperfeito descreve seu impulso e sua
perseverança “estrada fora”, isto é, pelo caminho até a cruz em Jerusalém (cf. opr 2 à divisão
principal a partir de 8.27). Jesus acolhe Bartimeu em seu séquito, o que ele nunca fazia com quem
tinha sido curado (no máximo em Lc 8.2). Com isto ele aceita a confissão messiânica deste homem e
se aproxima como rei, pronto para ser coroado em Jerusalém.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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