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71 A questão do matrimônio, Mt 19.1-9

A questão do matrimônio, Mt 19.1-12
(Mc 10.1-12)

1-9  E aconteceu que, concluindo Jesus estas palavras, deixou a Galiléia e foi para o território da Judéia, além do Jordão. Seguiram-no muitas multidões, e curou-as ali. Vieram a ele alguns fariseus, e o experimentaram, perguntando: É lícito o marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? Então respondeu ele: Não tendes lido que o Criador desde o princípio os fez homem e mulher, e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe, e se unirá à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Replicaram-lhe: Por que mandou então Moisés dar carta divórcio e repudiar? Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres; entretanto, não foi assim desde o princípio. Eu, porém, vos digo: Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério.
Os dois primeiros versículos são muito significativos em seu conteúdo, pois informam sobre a
última e decisiva ida de Jesus a Jerusalém. Essa ida a Jerusalém representa para o Senhor o caminho
para a sua morte na cruz. Provavelmente ele ainda se encontra alé m do rio Jordão, porque vai
expressamente na direção dos seus inimigos.
A circunstância da ida a Jerusalém confere às palavras seguintes de Jesus uma importância
especial e séria. Jesus dá respostas para três questões importantes, que mostram como deve ser a
atitude de seus discípulos. Nelas verificam-se linhas de ligação com o sermão do Monte, mas agora
elas recebem uma elaboração maior. São as questões do matrimônio, da propriedade, e do agir
humano em relação à graça.
O Senhor da comunidade é o Senhor da vida toda, singularmente do dia-a-dia. É digno de nota que
são justamente os fariseus que propõem a Jesus a pergunta sobre o matrimônio, e que o fazem na
forma de pergunta pelo divórcio. Com ela retomam a questão que Jesus já havia respondido no
sermão do Monte (5.31ss; cf. ali o exposto sobre o assunto, especialmente sobre a prática judaica do
divórcio e suas conseqüências). Essa pergunta leva ao questionamento da importância da lei como tal
e do uso que dela fazia o judaísmo. É a pergunta sobre se podemo s nos tornar justos ou não diante de
Deus cumprindo a lei ao pé da letra. A resposta de Jesus é um não radical a essa pergunta, quando o
judeu piedoso tinha o maior interesse que fosse respondida  afirmativamente. Assim como no sermão
do Monte Jesus já tinha passado do cumprimento formal dos mandamentos para o cumprimento deles
“no coração”, apontando para esse cumprimento como sendo o verdadeiro sentido dos
mandamentos, assim Jesus afirma aqui que o mandamento de Moisés sobre a carta de divórcio
nesse caso nada mais é que uma concessão ao maldoso coração humano, mas que  desde o início não
foi assim. A lei já possui em si a marca de que Deus, desde o dilúvio, desistiu de um verdadeiro
cumprimento de sua vontade. Nesse caso, pois, a lei é uma norma cuja única  função ainda é evitar
que o convívio das pessoas caia numa desordem total. Entretanto, quem pergunta realmente pela
vontade de Deus, precisa ir além dela, reconhecendo: “Deus quer ir até o fundo do coração” (M.
Lutero).
No judaísmo também havia uma compreensão mais rigorosa, a da escola do rabino Shammai, em
contraposição à prática mais liberal da de Hillel. Na primeira a separação do matrimônio era
permitida somente depois de um exame minucioso dos motivos, admitindo como causa da separação
somente o adultério.
Provavelmente por trás da intenção de tentar o Senhor (v. 3) por parte dos fariseus havia o
sentido de que os interrogadores supunham que, por causa das duas tendências distintas no judaísmo
(Hillel e Shammai), os adeptos de uma das linhas com certeza ficariam revoltados com a resposta de
Jesus. Contudo, Jesus vai muito além das duas opiniões, porque rejeita radicalmente um segundo
matrimônio no tempo de vida do primeiro cônjuge, por ser adultério. Isso tinha de causar revolta no
povo, pois parecia impraticável e desmedidamente rigoroso. Com as palavras: Não foi assim no
princípio, Jesus quer expor novamente diante dos discípulos a ordem original. Para eles precisa ser
determinante a pura vontade de Deus, sem fazer concessões e sem considerar leis estatais e civis. – A
diferença entre a palavra de Jesus e a escola rigorosa dos fariseus (do rabino Shammai) está em que
Jesus preserva por princípio a indissolubilidade do matrimônio por ser uma criação de Deus, e em
que considera também a situação em que o divórcio seria concedido como sendo uma  transgressão
da vontade de Deus. Esta transgressão, porém, já aconteceu por ocasião da incontinência, no
adultério. O divórcio tão somente revela que o matrimônio já fo i rompido. Em contraposição, o
judaísmo partia do ponto de vista de que, mesmo quando procedia  com rigor, a possibilidade de uma
dissolução do matrimônio era um princípio legal  instituído por Deus.
As passagens paralelas Mc 10.11s e Lc 16.18 não falam dessa possibilidade do divórcio, mas
designam qualquer separação como adultério. Isso não é uma posição contrária ao texto de Mateus,
nem temos de ver em Mateus um eventual abrandamento. Pelo contrário, o texto paralelo de Marcos
e Lucas ensina que o adultério (a incontinência) não concede uma viabilidade do divórcio, mas que
rompe e destrói a ordem de Deus. Entretanto, se colocarmos ao lado deles Mt 5.28, veremos que o
verdadeiro matrimônio, tal como Deus o planejou ao criar o mundo, está além de nossas capacidades.
Jesus, porém, o proclama como dádiva, dada a nós de forma nova por meio do reino dos céus trazido
por ele.
Em todo lugar onde realmente se cumpre a vontade de Deus, onde acontece o verdadeiro
matrimônio, ali está o reino de Deus, o governo de Deus. Conduzindo corretamente sua vida
matrimonial, os cristãos dão testemunho da irrupção do reino trazido por Jesus.
Segundo a ordem da criação de Deus e a ordem da salvação de Cristo, portanto, o matrimônio é
indissolúvel, razão pela qual não se permite que u ma pessoa divorciada torne a se casar.


10-12  Disseram-lhe os discípulos: Se esta é a condição do homem relativamente à sua mulher, 
não convém casar. Jesus, porém, lhes respondeu: Nem todos são aptos para receber este 
conceito, mas apenas aqueles a quem é dado. Porque há eunucos de nascença; há outros a 
quem os homens fizeram tais; e há outros que a si mesmos se fizeram de eunucos, por causa do 
reino dos céus. Quem é apto para admitir, admita.



A resposta dos discípulos e seu espanto mostram que eles compreenderam muito bem a seriedade
da palavra de Jesus. Do mesmo modo eles se espantam um pouco depois com as palavras de Jesus
sobre a riqueza. A resposta que Jesus lhes dá naquele contexto também poderia ser aplicada à
exclamação dos discípulos nesta questão matrimonial. É verdade, humanamente constitui algo
impossível conduzir o casamento de tal maneira  como Deus o quis, mas assim como para Deus nada
é impossível, um verdadeiro matrimônio também é um presente dele.
O v. 11 refere-se à palavra seguinte e é retomado no final do v. 12. Desse modo já aponta para o
fato de que o v. 12 é uma metáfora. Como tal, não fornece uma regra de validade geral, mas apenas
indica uma possibilidade. Naturalmente um discípulo pode ser conduzido a praticá -la. É a
possibilidade de renunciar por amor ao reino de Deus. Contudo, Jesus não coloca a renúncia como
uma possibilidade limitada no tempo, na qual se pudesse novamente voltar atrás. Ao falar de
castrados [eunucos], entende a renúncia com a mesma radicalidade com que ensinou antes o sim ao
matrimônio como um sim sem restrições, do qual também não se pode recuar. Por conseguinte, essa
última palavra sobre abster-se de casar enfatiza mais uma vez o caráter incondicional do
matrimônio. Essa palavra precisa causar tanto maior  espanto quando consideramos que casar era
uma obrigação para os judeus. De Gn 1.27 eles concluíam que somente no matrimônio o ser humano
se torna aquela pessoa que Deus quer.
Não obstante, o judaísmo já conhecia a possibilidade de que alguém, por amor à lei, podia desistir
do matrimônio. Por exemplo, conta-se que Ben Azzai defendeu sua condição de solteiro com as
palavras: “Minha alma está presa à lei (não resta tempo para o casamento); que o mundo seja
conservado por outros (cf. Strack-Billerbeck)”! Por isso tampouco podemos entender a palavra de
Jesus como uma exigência de ascetismo, mas como menção de que pode ser possível que alguém
renuncie ao casamento, para agir em prol do reino de Deus (não para conquistá-lo!). Foi assim que
procederam o próprio Jesus, João Batista, e mais tarde Paulo. Para o cristão, porém, ambas as
possibilidades estão lado a lado: fazer uso das dádivas de Deus e renunciar a elas. Cada uma delas,
no entanto, precisa ser abraçada integralmente. Assim, renunciar ao casamento será idêntico à
condição de um castrado. “O sacrifício ofertado pelo discípulo, porém, não é de um  penitente, e sim
trazido por amor” (Schlatter).

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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