Pessoas que gostam deste blog

72 A parábola do julgamento dos vinhateiros maus, Mc 12.1-12

A parábola do julgamento dos vinhateiros maus, Mc 2.1-12 
(Mt 21.33-46; Lc 20.9-19)

1-12 Depois, entrou Jesus a falar-lhes por parábola: Um homem plantou uma vinha, cercou-a de 
uma sebe, construiu um lagar, edificou uma torre, arrendou-a a uns lavradores e ausentou-se do paísNo tempo da colheita, enviou um servo aos lavradores para que recebesse deles dos frutos da vinha; eles, porém, o agarraram, espancaram e o despacharam vazio.  De novo, lhes enviou outro servo, e eles o esbordoaram na cabeça e o insultaram. Ainda outro lhes mandou, e a este mataram. Muitos outros lhes enviou, dos quais espancaram uns e mataram outros. Restava-lhe ainda um, seu filho amado; a este lhes enviou, por fim, dizendo: Respeitarão a meu filho. Mas os tais lavradores disseram entre si: Este é o herdeiro; ora, vamos, matemo-lo, e a herança será nossa.      E, agarrando-o, mataram-no e o atiraram para fora da vinha. Que fará, pois, o dono da vinha? Virá, exterminará aqueles lavradores e passará a vinha a outros. Ainda não lestes esta Escritura: A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angularisto procede do Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos? E procuravam prendê-lo, mas temiam o povo; porque compreenderam que contra eles proferira esta parábola. Então, desistindo, retiraram-se.

Em relação à tradução
   a
     O termo está no plural mas, de acordo com o v. 12, trata-se somente de uma parábola. Será que Marcos
quer dar a entender que escolheu uma de várias parábolas que Jesus contou em Jerusalém? Talvez o plural
também só tenha significado proverbial: ele lhes falava por figuras.
   b
     hypolenion é o tanque que recolhia o sumo das uvas pisadas.
   c
     georgos significa “aquele que trabalha na terra”, e pode aplicar-se a qualquer tipo de agricultor.
   d
     apodemein na verdade implica sair da terra natal (demos), mas não era usado rigorosamente para
viagens ao exterior; todavia, refere-se sempre a grandes distâncias. Lc destaca em 10.9 a duração
considerável da viagem.
   
e
     A palavra rara kephalioun também pode ter o sentido de “cortar a cabeça”; aqui, porém, ela forma um
dos passos da intensificação do v. 3 para o v. 5 e dificilmente significa matar, mais provavelmente infligir
um ferimento com perigo de vida.
   
f
     kephale gonias segue a forma do hebr. rox pinna e significa “o extremo do canto”. O termo identifica,
portanto, “a pedra fundamental no canto exterior, com a qual se inicia uma construção, fixa sua posição e
determina sua direção; como pedra lavrada ela é de qualidade especial e, diferente da maneira moderna de
construir, pouco enterrada, visível”. Por isso também era possível tropeçar nela, como mostra Lc 20.18.
Portanto, a idéia de que seja a “última pedra” na parte superior de um pórtico fica excluída (contra Jeremias,
ThWNT I, 792; com Krämer, EWNT I, 647).
   
g
     haute, feminino, um semitismo (Bl-Debr, § 4.3; 138.2) que neste lugar corresponde a thaumaste.
Observações preliminares
1. Contexto. As pessoas a quem a comparação é dirigida são os líderes judeus, na continuação de 11.27.
Ainda no último versículo fala-se “deles”, claramente para distingui-los da multidão, e no v. 10 os
conhecedores e professores vocacionados da lei são especificamente confrontados. Da mesma forma o motivo
da desavença entre Jesus e eles ainda é o mesmo, ou seja, o templo. Depois de entrar no templo (11.11),
purificar o templo (11.15) e discutir a questão da autoridade no templo (11.27), a parábola da vinha também
gira em torno dele pois, de acordo com escritores antigos, havia por sobre o pórtico do santuário herodiano
uma grande videira dourada (Josefo e Tácito, passagens em Sandvik, p 55). O Talmude também aplicava o
ramo da videira ao templo em Jerusalém (p ex no cântico da vinha em Is 5, que é subentendido aqui; Bill. I,
867). O comentário mostrará que também a citação do Sl 118 nos v. 10s segue a mesma linha. Portanto, os
endereçados são os representantes do templo. O propósito é que eles reconheçam o sentido terrível do seu
“não” contra o último mensageiro de Deus e a pedra fundamental do novo templo. Este “não” deles acabará
causando a destruição deles mesmos, se não derem meia-volta na última oportunidade. Mais uma vez a
história da Paixão mostra que a liderança judaica da época e o povo não podiam ser separados totalmente.
Disto resulta uma ampliação da palavra a todo Israel. De todo modo, esta parábola de Jesus, como todas as
outras, pretende ser redirecionada. Ela acaba se dirigindo aos oficiais do povo de Deus de todos os tempos,
sim, a cada membro da igreja: Será que estamos dando o fruto que Deus procura em nós, com os recursos que
nos foram confiados? Especialmente o texto paralelo em Mateus deixa entrever estes sentidos em 21.43.
2. Alegoria? Sobre o termo alegoria, cf. opr 2 a 4.13-20. Assim como os rabinos interpretaram o cântico da
vinha em Is 5 item por item em termos alegóricos (torre = altar dos sacrifícios no templo, lagar = depósito em
que se guardava o vinho oferecido em libação, cf. Bill. I, 867), J. A. Bengel também fez com nossa parábola
da vinha: a vinha é o povo judeu, a cerca sua diferença com os povos pagãos, o lagar o sacerdócio judaico, a
torre a monarquia judaica, etc. Deste jeito, porém, não se chega a lugar nenhum. O corpo de Jesus, p ex, não
foi desonrado como aqui no v. 8, ficando insepulto. Os assassinos também não foram castigados com
destruição, como a parábola pressupõe, e a idéia da ressurreição do filho morto falta totalmente na parábola.
Jesus, portanto, contou uma parábola genuína com uma idéia central, se bem que – e isto é tipicamente judeu –
misturada com traços alegóricos. Isto acontece especialmente quando detalhes da narrativa tocam trechos do
AT, o que por si já faz com que tenham sentido figurado. Como em todo o Oriente, p ex como a videira com
seus detalhes é uma figura importante no AT (Is 5.1ss; 27.2-6; Jr 2.21; 12.10; Ez 15.6; 19.10; Os 10.1; Sl 80.9-14; cf. Jo 15.1). Podemos comparar também o envio incansável de mensageiros em 2Cr 24.19; 36.15s; Jr
7.25s; 25.4 e a afronta inimaginável que Israel lhes infligiu em 1Rs 18.4; 2Cr 36.16; Ne 9.26,30; Jr 26.20-23
(cf. Lc 11.47-51; 13.34; At 7.52; 1Ts 2.14-16), assim como a decisão do v. 7 com Gn 37.18-20 ou o filho
amado mas não poupado do v. 6 com Gn 22.2,12 (cf. Rm 8.32). Estes contatos com o AT produzem sons
paralelos constantes para orelhas judaicas, e seria difícil provar que Jesus não tivesse esta intenção.
3. A citação do Sl 118. Será que a parábola procede mesmo da boca de Jesus, ou é formação posterior da
igreja? Esta questão é muito debatida. Não podemos investigar aqui todos os prós e contras, mas queremos
analisar neste contexto pelo menos a citação do salmo nos v. 10s. Como Sl 118.22s tinha um lugar firme entre
os primeiros cristãos (p ex At 4.11; 1Pe 2.4,7), muitos pesquisadores consideram pelo menos esta citação um
acréscimo posterior. Todavia, pode ter acontecido exatamente o contrário: foi a igreja que recebeu esta
palavra-chave do seu Senhor. Uma série de elementos mostra como ela está ancorada nas circunstâncias
históricas em volta de Jesus:
a. Em primeiro lugar, era um costume bem judaico aprofundar o sentido de uma parábola com uma
passagem da Escritura (Schniewind, 154);
b. Os contemporâneos de Jesus tinham um interesse vivo no Sl 118, já que ele fazia parte dos cânticos que
os peregrinos entoavam quando subiam ao templo (11.9s), e com ele se encerrava o grande Hallel na Noite da
Páscoa. Ele tinha nuances messiânicas e tinha relação específica com a localidade de Jerusalém;
c. É improvável que Jesus tenha deixado o sentido do seu caminho – do jeito que está indicado até o v. 8 –
sem um sinal positivo. Depois de tudo o que sabemos dele, ele não via seu destino em um campo juncado de
cadáveres – os empregados mortos, o filho morto e, por fim, os arrendatários também mortos. Por mais clara
que fosse nele a certeza da sua morte, com a mesma firmeza ele era sustentado pela percepção de um sentido
divino. Para ele, com esta morte não estava tudo acabado, mas tudo consumado (Jo 19.30). Por isso ele
mesclou seus ensinos sobre o sofrimento coerentemente com declarações sobre sua ressurreição (8.31; 9.9-13,31; 10.33,34);
d. Os próprios escribas gostavam de chamar-se de “construtores” (Bill. I, 876). Esta referência ao Sl 118
não surgiu na cabeça de cristãos posteriores em algum lugar do mundo.
     1     Depois, entrou Jesus a falar-lhes por parábola. Com seu endurecimento incrível em 10.33, os
líderes judeus tinham perdido a chance de uma resposta direta de Jesus. Em lugar disto eles recebem
agora um comunicado velado, que certamente os atinge (cf. v. 12), mas apenas ainda de longe,
abafado por uma viseira abaixada. Jesus respeita também nossas decisões nefastas, no fim até o ponto
de nos deixar quase sozinhos com elas. Sobre esta função das parábolas, veja opr 5 a 4.1,2 e opr 2 a
4.3-9. Entretanto, será que não é sem sentido que Jesus conte uma parábola que ele já podia prever
que endureceria ainda mais os seus adversários? De forma alguma, pois faz parte de uma decisão
judicial completa não só que ela seja pronunciada e executada com força física, mas também que seja
convincente. Isto também serve de ponto de partida para a conversão de pelo menos uma parte dos
seus ouvintes (cf. v. 9). A pregação condenatória também pode gerar salvação, às vezes só ela.
Um homem plantou uma vinha. Os detalhes mencionados a seguir contêm recordações
específicas do discurso condenatório de Is 5.1-7. Cercou-a de uma sebe, construiu um lagar,
edificou uma torre, arrendou-a a uns lavradores. Aliás, compare também a pergunta lá no v. 4
com o v. 9 aqui. Mesmo assim, não temos aqui mais que reminiscências leves. Jesus descreve um
caso bem diferente que Isaías, pois não fala de uma vinha infrutífera que é devastada, mas de uma
vinha bem frutífera mas cujos arrendatários rebeldes são castigados e que é entregue em outras mãos.
Em Isaías não lemos nada sobre um proprietário e seus mensageiros e sobre a morte do seu filho.
Tanto Isaías como Jesus, porém, sabiam que uma vinha como esta é um empreendimento de valor.
Nenhum deles diz somente que uma vinha foi plantada. Ela demandou trabalho duro até ser
arrancada de uma ribanceira. Pedras e cascalho tinham de ser carregados para fora e empilhados à
guisa de muro em volta do terreno, melhorados com estacas e espinhos até formar uma sebe, alta e
fechada o suficiente para manter animais grandes e pequenos fora. Era necessário construir terraços,
escavar degraus, na rocha tinha de ser esculpida uma instalação de tanques: uma cuba superior, em
que as uvas eram amassadas com os pés, e mais em baixo o lagar, para onde escorria o sumo. A
torre mencionada certamente era uma construção firme, não uma cabana qualquer (cf. figura em
LzB, Sp 1441). Isto combina com uma instalação grande, que era utilizada por vários viticultores. A
torre abrigava salas administrativas e locais de pernoite para a época da colheita. Ela também servia
de mirante para ficar à espreita de ladrões.
O que a videira representa? Em Isaías, onde Deus se dirige ao povo todo, ficamos sabendo que “a
vinha é a casa de Israel” (5.7). Naturalmente devemos manter a aplicação a Israel, em concordância
com o AT e o judaísmo, mas aqui temos de olhar mais de perto. Para Jesus, a vinha é algo que tinha
sido confiado prioritariamente à liderança de Israel. Jesus tinha os “lavradores” em mira, os
professores da lei, principais sacerdotes e anciãos do Conselho Superior de Jerusalém. Recorde-se
aqui o que foi dito na opr 1, onde também se pode ver o tema de todo o contexto: em questão estava
o templo em Jerusalém. Este estava confiado especialmente ao Conselho Superior. Paulo diz em Rm
3.2: “Aos judeus foram confiados os oráculos de Deus”, e em 9.4s: “Pertence-lhes a adoção e
também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas; deles são os patriarcas, e também
deles descende o Cristo”. Tudo isto também pode ser resumido como Mateus o faz em seu relato
paralelo (21.43): Israel tinha o privilégio de experimentar o “reinado de Deus”. Para isto o templo se
tornara o centro visível.
Arrendou-a a uns lavradores e ausentou-se do país. É evidente que questões prementes o
levaram ao exterior, obrigando-o a deixar em mãos de outros esta vinha preciosa que custara tanto
trabalho penoso. Isto ia muito além de fazer negócios. Só pessoas de confiança entravam em
cogitação. Portanto, aqui é um amigo que se despede de amigos.
     2     No tempo da colheita, enviou um servo aos lavradores para que recebesse deles dos frutos da
vinha. Cinco anos depois de plantar uma vinha nova é que o proprietário podia fazer a primeira
colheita (Lv 19.23-25) ou – no caso presente – mandar outros colher por ele. É óbvio que ele não
exigiu todo o produto, mas só a parte estabelecida com antecedência, que devia ser paga em espécie.
Os arrendatários tinham o direito de ser recompensados por seu empenho. O proprietário, portanto,
ateve-se ao contrato. Ele ainda era o mesmo como quando da sua assinatura. No outro lado, porém,
deve ter acontecido uma transformação sinistra:
     3     Eles, porém, o agarraram. Eles viraram tudo do avesso. O mensageiro viera para “tomar” (v. 2)
parte dos frutos da vinha como fora acordado, mas eles o “tomaram”, espancaram e o despacharam
vazio. Zombeteiros eles invertem a missão do enviado. Aqui ainda não temos uma explicação para
esta rebelião, que não só quebrou um contrato, mas penetrou fundo nos corações. A princípio o leitor
deve sentir apenas o inacreditável: Traição! Não havia desculpas. Não transparece nada na história de
que os viticultores se sentissem explorados pelo latifundiário estrangeiro. Na seqüência as ações se
intensificam dramaticamente dos dois lados. Por um lado temos as tentativas tocantes do proprietário
de restabelecer a relação de confiança, do outro lado as agressões desvairadas dos arrendatários, com
que comprovam o rompimento total das relações. Podemos até dizer que os dois lados
“endureceram”, o proprietário no bem, os arrendatários no mal.
     4,5     De novo, lhes enviou outro servo, e eles o esbordoaram na cabeça e o insultaram. Ainda outro
lhes mandou, e a este mataram. Muitos outros lhes enviou, dos quais espancaram uns e
mataram outros. Bater – ferir – matar! Assim eles incrementam suas respostas às mensagens do
amigo distante. Este não podia nem queria entendê-los, e enviava sempre de novo pessoas
desarmadas do seu círculo mais próximo. Queria resolver tudo por bem. O que o motivava não era
em primeiro lugar o interesse material. A perda de colaboradores preciosos certamente ultrapassara
há muito o valor da renda. Ele não queria o dinheiro, mas reconquistar a confiança. Ap 2.4 desponta
aqui: “Tenho contra ti que abandonaste o teu primeiro amor”.
E. Hirsch chegou a escrever (em Haenchen, p 399): “O proprietário da vinha agiu como um
louco”. Certamente, foi o que pareceu da perspectiva dos arrendatários. Para eles, ele parecia burro
ou pelo menos covarde, por não acionar nem a justiça nem a polícia; esta possibilidade ele tinha, de
acordo com o v. 9. Outra lógica eles não viam mais na atitude dele. Mundos os separavam dele.
Amor e maldade pensam e agem totalmente separados um do outro. Um não entende mais o outro.
Nesta altura temos de encerrar a simples narrativa da história. O mais tardar aqui os ouvintes
judeus perceberam que duas outras histórias estavam escondidas nas entrelinhas: a história secular de
Deus com seu povo, e a história de Jesus com o Conselho Superior. Era como se um filme fosse
projetado de duas ou três perspectivas diferentes. Jesus está desenhando o contraste entre uma
paciência incompreensível e uma deslealdade e teimosia igualmente incompreensível. Mas a história
ainda não está no fim. Os dois próximos versículos trazem um último ponto culminante. Maldade e
amor se intensificam mais uma vez. A partir de agora o envio do filho e seu destino são a questão-chave. A frase anterior, que diz que o proprietário da vinha enviou empregados até que não tinha
mais nenhum, prepara o significado extraordinário do envio do filho. Depois acabou!
     6     Restava-lhe ainda um, seu filho amado. O judaísmo se ocupou intensamente com a tipologia de
Isaque. Por isso os ouvintes de Jesus não perdiam uma sílaba. Isaque era “teu único filho, a quem
(Abraão) amas”, e a quem o pai “toma” para sacrificá-lo (Gn 22.2). No entanto, também a tipologia
de José se cumpre. José também era o “filho” que o pai “amava mais” que todos os outros. Também
ele foi “enviado” à procura dos seus irmãos. Quando, porém, o viram chegando de longe, decidiram
“de comum acordo” matá-lo. “Tomaram-no” e “lançaram-no” na cova (Gn 37.3,13,16,18s,24). A
suposta morte de José acabou sendo a salvação do clã. Portanto, na parábola nos deparamos com
elementos teológicos que são apelos indiscutíveis em seu vínculo com o AT. Lembramos ainda que
“Abba, querido pai” era o coração evidente da relação de Jesus com Deus, bem como das assertivas
de 1.11 e 9.7. Diante disto deve ser inegável que Jesus sabia ser este “filho amado” e o declarava aos
seus ouvintes.
A este lhes enviou, por fim, dizendo: Respeitarão a meu filho. Por ser o último que Deus ainda
tem, por Deus ter-se dado totalmente nele, derramando tudo o que tem em termos de amor e
paciência, eles têm de ouvi-lo (cf. 9.7; Hb 1.1-3; 2.1-3). Como filho, ele é “a cara do pai” e encarna
sua lealdade pura. Em sua pessoa, a bondade do Pai se mostra no meio da sala, em contraste com
pressão, violência, justiça e polícia. Deste modo Jesus é a mão de Deus, desarmada e que, portanto,
desarma, que Deus nos estende. Ele possibilita a conversão genuína, a obediência espontânea e o
amor verdadeiro, de todo o coração, de toda a alma, de todas as forças de todo o entendimento.
Desta maneira Jesus respondeu à pergunta de 11.28 sobre a sua autoridade. A esperança de Deus:
“Meu filho respeitarão”, é apropriada e a única admissível. Ela é sensata em todos os sentidos. Quem
não haveria de voltar-se para este Jesus e amar, louvar e servir a Deus! Tudo o mais só é imaginável
como possibilidade impossível. Todavia, é exatamente esta outra alternativa que acontece.
     7     Os vinhateiros são capazes de contrapor à lógica clara do seu patrão um raciocínio profundamente
escuro. Um dos diálogos consigo mesmo mais sinistros da Bíblia (Gn 37.19; Mc 2.7; Lc 12.17-19,45;
16.3,4; 18.4,5; Ap 3.17) lança luz sobre os pensamentos deles: Mas os tais lavradores disseram
entre si: Este é o herdeiro. O assassinato, portanto, não é cometido porque não o conhecem, mas
porque o identificaram. Como isto é possível: reconhecê-lo e matá-lo!? Ora, vamos, matemo-lo, e a
herança será nossa! Em termos históricos, o plano se enquadra nas condições legais da Palestina (cf.
Hengel; Jeremias, Gleichnisse, p 72s; Jerusalem, p 313; Haenchen, p 398). Mas olhemos logo para a
história de Israel. Ali encontraremos a fonte do sacrilégio. Israel tinha desvinculado do doador a
propriedade que lhe fora confiada, a “vinha”, e queria ser dono, queria ser como Deus. Isto produzira
a deterioração do seu ser, até se tornar irreconhecível. Aqui cabe a lembrança da sentença de Jesus
contra a hierarquia judaica em 11.17. Da posição que Deus lhes conferira, eles tinham feito
literalmente um negócio, do serviço santo a extorsão, do templo de Deus um esconderijo de
assassinos, da casa de oração uma sede de partido. Com isto se cumpriu também o cântico da vinha
em Is 5.7: “O Senhor desejou que exercessem juízo, e eis aí quebrantamento da lei; justiça, e eis aí
clamor”. A acusação sempre é a mesma contra os sacerdotes de Israel: Jr 2.8; 6.13; Mq 3.11; Sf 3.4;
Ml 1.6–2.9. Especialmente Os 4.4-19 denuncia a negligência do ensino verdadeiro, ganância,
politicagem e libertinagem. “Que ninguém abra um processo e que ninguém julgue! Pois, na
realidade, o meu processo é contra ti, ó sacerdote! […] Porque tu rejeitaste o conhecimento, eu te
rejeitarei do meu sacerdócio” (Os 4.4-6).
     8     E, agarrando-o, mataram-no e o atiraram para fora da vinha. Como possessos, sem dar tempo
para pensar duas vezes, eles agem. Nisto a destruição física não lhes basta (cf. 8.31). A compulsão de
ofender é insaciável neles: eles ainda profanam o cadáver, recusando-lhe o enterro (Is 14.19; Jr 7.33;
16.4; 1Sm 17.44,46).
     9     Nesta altura a parábola é interrompida. Como Is 5.1-7, ela é uma parábola de questionamento, que a
certa altura desafia os ouvintes a terminar a história: Que fará, pois, o dono da vinha? O fato de não
se ouvir resposta pode indicar mais uma vez o endurecimento dos ouvintes. Este silêncio obstinado já
conhecemos de 3.4 e 11.33. Os endereçados não atendem ao apelo de conversão que, conforme o v.
12, entenderam muito bem, mas insistem em marchar em frente em seu caminho. Tolice cega, que
tem esperança no sucesso de um plano que zomba de todas as normas válidas! Então Jesus responde
por eles (cf. de novo Is 5.5): Virá, exterminará aqueles lavradores e passará a vinha a outros.
Pela norma de que o peso deve estar atrás no barco, o mais importante vem no fim: Jesus renova sua
sentença contra a liderança judaica. Desta vez, porém, ele também anuncia a condenação para desviá-la. Para homens como José de Arimatéia (15.43), uma palavra como esta pode ter servido de bênção.
     10,11     Com uma segunda pergunta, Jesus contesta a qualificação dos seus ouvintes professores da lei
(cf. 2.25; 12.24,27; Jo 3.9): Ainda não lestes esta Escritura? É claro que conheciam bem a
passagem seguinte do Sl 118.22s (cf. opr 3b), e praticamente não existia quem superasse sua leitura
sistemática da Bíblia (At 13.27). Mas para este trecho eles tinham um ponto preto na retina: A pedra
que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do
Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos. Esta palavra se enquadra no sentido da regra de José em
Gn 50.20 (cf. 45.5-8). Deus conserta o que as pessoas estragaram. No contexto de At 4.11 a citação
tem o mesmo sentido. O filho rejeitado é honrado por Deus, e o que é feito em um, resulta em
importância salvífica para todos. O filho assassinado se torna pedra angular, fundamental de vida
para o novo templo e para um povo sacerdotal santo de todas as nações (14.58; 15.29,38; 1Pe 2.4-10).
     12     E procuravam prendê-lo. A decisão de matá-lo encontramos já em 3.6. A partir de 11.18 a
questão só era o como. Esta preocupação preencheu os dias em Jerusalém (14.1). O problema para os
judeus era sempre o mesmo: Mas temiam o povo (11.18,32; 14.2). Quanto ao mais, a parábola
cuidara para que houvesse clareza total. Porque compreenderam que contra eles proferira esta
parábola. Eles mesmos o tinham ouvido, como 4.12 pressupunha. Treinados na interpretação de
parábolas, eles sabiam que tinham sido apanhados como os maus vinhateiros. Mas, exatamente como
naquela palavra, este grito de alerta só tinha tornado sua resistência definitiva. A partir de agora eles
se ocupam ainda mais com planos de assassinato. Num movimento brusco, eles vão embora. Então,
desistindo, retiraram-se. Foi o último grande confronto com ele – antes do interrogatório.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Online