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73 A pergunta sobre o imposto do imperador, Mc 12.13-17

A pergunta sobre o imposto do imperador, Mc 12.13-17 
(Mt 22.15-22; Lc 20.20-26)

13-17 E enviaram-lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para que o apanhassem em alguma palavra. Chegando, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e não te importas com quem 
quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens; antes, segundo a verdade, ensinas o caminho de Deus; é lícito pagar tributo a César ou não? Devemos ou não devemos pagar? Mas Jesus, percebendo-lhes a hipocrisia, respondeu: Por que me experimentais? Trazei-me um denário
 para que eu o veja. E eles lho trouxeram. Perguntou-lhes: De quem é esta efígie e inscrição? Responderam: De César. Disse-lhes, então, Jesus: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E muito se admiraram dele.

Em relação à tradução
   a
     Lit. “o rosto”; a expressão se explica pela saudação reverente dos orientais, em que a pessoa curva o
rosto humildemente ou até se ajoelha, à espera de que o outro levante o seu rosto e olhe em seus olhos, em
sinal de boa vontade (p ex Gn 32.21). No caso de um juiz, porém, este olhar poderia causar favorecimentos e
turvar a jurisprudência incorruptível. Neste sentido Deus não olha os rostos, isto é, não faz acepção de
pessoas (p ex Gl 2.6; Rm 2.11; Lohse, ThWNT VI, 780).
   b
     Diferente de phoros em Lc 20.22, palavra que abrange vários tipos de imposto, aqui está o
estrangeirismo do latim para imposto, kensos, que identificava o imposto pessoal pago específica e
diretamente ao imperador. Manuscritos posteriores substituíram a palavra sem problemas por “imposto por
cabeça” (epikephalaion). Este era recolhido anualmente com o mesmo valor para cada pessoa e com uma
moeda específica, a “moeda do censo” (Mt 22.19), o denário (cf. nota d).
   
c
     O denário de prata que o imperador Tibério (14-37) mandou cunhar estava difundido até na Índia e tem
sido encontrado em grandes quantidades. Seu diâmetro é de 18 mm, seu poder de compra correspondia a um
dia de trabalho (Mt 20.2-13). A frente traz o imperador representado como um deus, com a inscrição:
“Imperador Tibério, filho do divino Augusto, digno de adoração”. O verso continua a lista de títulos:
“Supremo sacerdote”, e a rainha-mãe está sentada em um trono divino, como encarnação da paz celestial.
   
d
     Provavelmente tem algum sentido no fato de que Jesus não fala em dar, didonai, o imposto pessoal,
como no v. 14, mas em apodidonai, devolver. O termo pode, apesar do prefixo, ter o mesmo sentido da
forma simples, mas também pode ter o sentido ampliado de cumprir o dever ou uma obrigação, ou receber
um direito: vingar, restituir, devolver; veja as passagens claras como Lc 7.42; 9.42; 19.8; Mt 5.26; 1Co 7.3.
Paulo também captou este sentido ao retransmitir a instrução de Jesus: “Pagai a todos o que lhes é devido: a
quem tributo, tributo… […] A ninguém fiqueis devendo coisa alguma” (Rm 13.7s; com Stauffer, Lohmeyer,
Grundmann, Pesch; contra Bornkamm, p 112).
   
e
     kai tem aqui um sentido adversativo: “Mas também e especialmente a Deus o que é de Deus!” A
ênfase se desloca para a segunda metade (com Hengel, em Pesch II, p 227), de modo que não se forma um
equilíbrio exato, uma distribuição igual para duas áreas de deveres.
   
f
     ekthaumazein, aumentativo de thaumazein em 5.20; 6.6; 15.5,44, só aqui no NT.
Observações preliminares
1. Contexto. “Eles o compreenderam e se retiraram” (v. 12) continua em seguida: “E enviaram-lhe…”
Portanto, eles não tinham ido embora para desistir dele. Suas percepção não causara a conversão, apenas
fortalecera sua única preocupação: eliminar Jesus! Com este objetivo, uns após outros os fariseus (v. 13-17),
os saduceus (v. 18-27) e os professores da lei (cf. v. 38-40) se apresentam diante de Jesus para o debate. (O
escriba dos v. 28-34 pertencia claramente a outro contexto.)
2. A introdução do imposto pessoal na Judéia. Greves contra o pagamento de impostos sempre havia, mas
no v. 14 a pergunta, feita em uma região específica e com determinados antecedentes, tinha seu peso próprio.
Em conseqüência da sua política servil a Roma, Herodes o Grande tinha obtido para a terra judaica a posição
de reino “amigo”. Diferente de províncias conquistadas, ali não havia forças de ocupação, o sistema judicial
era próprio, a administração dos impostos autônoma e seus moradores não eram obrigados a pagar o imposto
pessoal, o tributo dos súditos. Depois da morte de Herodes no ano 4 a.C. as regiões que ficaram sob o governo
dos seus filhos tinham privilégios semelhantes. Somente Arquelau, em seus domínios constituídos de Judéia,
Samaria e Iduméia, governou de maneira tão terrorista que Roma o depôs depois de 10 anos (ano 6), e a região
inquieta passou a sentir o gosto da forma mais severa de dependência de Roma. Ela foi submetida a um
procurador romano (BJ: governador) e perdeu os privilégios citados. Isto incluiu a instituição do imposto por
pessoa, que tinha de ser pago com a mesma moeda de prata do restante do império (cf. v. 15n). Exatamente
este item, porém, cresceu até se tornar um problema imprevisto na Judéia. Primeiro temos de lembrar do valor
simbólico do dinheiro na Antigüidade. A área de validade de uma moeda refletia o poder do rei que a cunhara.
Na frase: “Sua moeda saiu para todo o mundo”, “moeda” substitui o conceito de “domínio” (Bill. I, 884). Esta
idéia tinha de ser especialmente dolorosa na questão do imposto pessoal. Ela conscientizava drasticamente
cada judeu que ele pessoalmente era súdito do imperador pagão, o que ele conseguia ignorar mais ou menos
quando pagava impostos indiretos. Pagar era um gesto de submissão. Além disso, o denário do imperador
concorria diretamente com o imposto do templo, também pessoal (cf. Mt 17.24-27). Por meio dele, cada judeu
no mundo todo declarava sua ligação com o templo de Jerusalém e com Iavé. Por isso o antigo conflito de
Israel – governo de Deus/governo estrangeiro – que não se acalmara desde a servidão sob o faraó, vinha
novamente à tona. Um obstáculo adicional era causado pela proibição de fazer imagens de Êx 20.4s,23).
Como o ser humano fora criado à imagem de Deus, para os judeus religiosos toda representação humana era
blasfêmia. Além de tudo isso, a efígie no denário de prata tinha forma e inscrição de objeto de culto, portanto,
era idolatria descarada. Por isso se disse de um religioso que “durante toda a sua vida ele nunca olhou uma
moeda” (em Kleinknecht, ThWNT II, 385). Estes fatores conjugados provocaram no ano 6 uma revolta de
conseqüências graves.
3. Os zelotes. Os judeus fiéis à lei não conseguiram chegar a uma posição unânime em relação ao imposto
pessoal. De um lado diziam todos os fariseus: “Paguem, com toda a humilhação que isto causa! Violência
contra Roma eqüivaleria a violência contra o próprio Deus, pois ele nos impôs este governo estrangeiro como
castigo, pois nós falhamos em nossa fidelidade à lei. Só o que podemos fazer é nos arrepender, ser obedientes
à lei e orar contra Roma.” Do outro lado, homens decididos se separaram dos fariseus e passaram a chamar-se,
seguindo exemplos do AT e do judaísmo, de “zelosos por Iavé” (zelotai). Para eles, pagar o imposto pessoal
era alta traição do Deus da aliança. Quem pertencia a Iavé tinha de se negar a pagá-lo, tomar a espada e
levantar-se contra os sem lei. Importava forçar a vinda do Messias por meio de atos de fé e de martírios, pois
Deus não poderia deixar de enviá-lo. Deste modo, os zelotes incendiaram um messianismo religioso-revolucionário (cf. 13.22,23).
Os romanos afogaram esta revolta em sangue (At 5.37) e impuseram o imposto pessoal na Judéia. Os
zelotes, porém, se tornaram clandestinos. Com emboscadas e atentados eles mantinham os romanos ocupados.
Abasteciam-se pelo roubo. No meio do povo eles conquistavam cada vez mais adeptos e simpatizantes. Quem
se unia a eles, “tomava a sua cruz sobre si” (cf. 8.34), ou seja, esta forma de execução esperava por ele em
caso de prisão, e ele tinha de contar com isso. Esta era a situação quando Jesus entrou em cena. Uma geração
mais tarde eles conseguiram arrastar todo o povo para uma revolta, até os fariseus. A Guerra Judaica durou de
66-70, até que a máquina de guerra romana arrasou tudo e destruiu Jerusalém e o templo. Os últimos zelotes
se suicidaram três anos mais tarde na fortaleza de Massada. A partir dali o judaísmo religioso seguiu
novamente a direção antiga e relativamente apolítica dos fariseus. Veja At 5.35ss: O próprio Deus vai agir!
4. Jesus e os zelotes. Este tema requer uma visão geral dos evangelhos. Procuremos somente provas diretas.
Na verdade são só três passagens. Entre os discípulos é contado um antigo zelote: Lc 6.15; At 1.13; Mc 3.18
(aqui a forma aramaica “cananeu”). Na verdade aqueles que se mantinham à distância dos zelotes costumavam
usar outro termos para estes guerrilheiros subversivos. Josefo, o partidário de Roma, sempre os chamou de
“ladrões” (lestes, Lutero: “assassinos”), mas também alguns rabinos falam deles assim, e o termo injurioso
chegou ao grau de identificação própria orgulhosa (Rengstorf, ThWNT IV, 263ss; Hengel, p 30,265,347;
Stauffer, Jesus, p 123ss,169ss). Sob estas circunstâncias o material direto se multiplica. “Ladrões”, para os
evangelistas, nem sempre são salteadores comuns de estrada, como quando Jesus foi preso “como um ladrão”
(14.48), colocado ao lado de um “ladrão” (Jo 18.40) e crucificado entre dois “ladrões” (15.27). A multidão
com tendências zelóticas sempre de novo tentara empurrar Jesus para este papel por bem, a liderança judaica
por mal, da mesma forma como Jesus provou sua lealdade defendendo-se deste conceito errôneo. No fim o
capuz lhe foi enfiado pela cabeça contra a sua vontade. Na inscrição sobre a cruz, Pilatos registrou este mal-entendido: um messias zelótico executado! (15.26).
     13     E enviaram-lhe alguns dos fariseus e dos herodianos. Os herodianos desempenhavam na Galiléia
um papel semelhante aos saduceus em Jerusalém, ou seja, abriam alas para os romanos (cf. 3.6). Eles
estão na cidade como acompanhantes do seu senhor, que viera para a festa (Lc 23.7). O fato de Jesus
ser cidadão da Galiléia explica sua competência aqui. Estranha é somente sua harmonia com os
fariseus, que não tinham nenhuma simpatia pelos romanos (opr 3). Contudo, a hostilidade contra
Jesus uniu muita gente (Lc 23.12). Para que o apanhassem em alguma palavra. Eles sabiam uma
pergunta que não tinha saída. Qualquer resposta seria um laço. Com isto eles evidentemente adotam
outra tática. Não perguntam mais diretamente por sua autoridade para ensinar (v. 28; 11.28), mas o
reconhecem como “mestre” (v. 14,19,32), para comprometê-lo com o que ele disser.
     14     Chegando, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro. Na consciência dos inimigos
mortais a verdade também brilha. Eles, porém – diferentemente de Nicodemos em Jo 3.2 – não se
sentiam comprometidos com este conhecimento. Há pouco, em 11.33, eles tinham dito de cara limpa:
“Não sabemos”. Não te importas com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos
homens; antes, segundo a verdade, ensinas o caminho de Deus. Assim Jesus ouviu os “hipócritas”
(v. 15) louvar seu amor incondicional pela verdade e encorajá-lo a não deixar que seja turvado. A
hora é realmente sombria quando pessoas que só esperam o momento propício para colocar as
algemas incentivam a vítima: Sinta-se à vontade, aqui você pode falar livremente!
É lícito iniciava entre os judeus um debate sobre a vontade de Deus em determinada questão:
Deus permite? (cf. 3.4). Deus poderia proibir o que a lei do estado ordena. Pagar tributo a César ou
não? A opr 2 esclareceu que os judeus apresentaram aqui o ferro mais quente da política do
momento. Jesus parecia estar perdido numa armadilha sem saída. Se ele se pronunciasse contra o
imposto pessoal, ele estaria praticamente convocando para a revolta política e os romanos teriam
agido imediatamente. Este com certeza era o resultado objetivado pelos inquiridores. Ainda em Lc
23.2 se vê que eles sempre de novo tentaram empurrá-lo nesta direção, para livrar-se dele pelas mãos
de Pilatos. Se, porém, Jesus fosse a favor do pagamento, as multidões, favoráveis aos zelotes, teriam
retirado sua proteção e o abandonado. Então, seria fácil agarrá-lo e fazê-lo desaparecer. A pergunta,
portanto, fora muito bem elaborada. Devemos ou não devemos pagar? Sem misericórdia eles
apertam mais fundo.
     15     Mas Jesus, percebendo-lhes a hipocrisia. Esta era mais que fingimento subjetivo, mas alienação
objetiva: membros do povo de Deus atuam como servos do Tentador (7.6n). Por que me
experimentais? Na tentação deles (ainda em 8.11; 10.2) ele sentia o bafo do Tentador que o
perseguia como uma sombra e queria atraí-lo do caminho do Filho do Homem sofredor para a estrada
do Messias zelótico (1.13; 6.45; 8.32; 14.38; 15.29-32; cf. Jo 6.15). Assim armado espiritualmente,
Jesus encara a questão: Trazei-me um denário para que eu o veja. Concluir disso que Jesus era
pobre e não tinham nem um denário (Grundmann, p 327) ultrapassa os limites do texto. No caixa
comunitário pelo menos uma vez parece ter havido 200 denários (6.37). Nesta altura, porém, é
importante que os próprios que fazem a pergunta tenham um consigo. Da mesma forma Jesus não
está dizendo que gostaria de conhecer a tal moeda. Ele a conhecia muito bem, mas sua intenção era
que eles aprendessem algo, aprendessem a conhecer a si mesmos.
     16     E eles lho trouxeram. De modo natural ele estava presente, sempre à mão. Há muito tempo o
denário ocupara seu lugar no comércio e na economia da Palestina. Os trabalhadores o recebiam
como salário diário (Mt 20.1-10), hóspedes pagavam suas contas com ele (Lc 10.35), fregueses seu
pão no mercado (6.39), e os cambistas os aceitavam no pátio do templo (11.15). Quando se tratava de
negócios, as pessoas viviam com a moeda e com o imperador. Milhares de vezes, portanto, ele já
tinha sido reconhecido como soberano. De repente, porém, na hora de pagar o imposto pessoal, eles
se lembraram que pertenciam a Deus, e ficaram com problemas de consciência. Na continuação, a
questão também não era se Jesus sabia ler, mas que eles o pronunciassem com os lábios, que seus
próprios olhos os condenassem. Em Jesus havia algo do estilo demonstrativo e didático dos profetas
do AT. Perguntou-lhes: De quem é esta efígie e inscrição? Cabisbaixos, quase mudos, ou fervendo
de raiva, eles pronunciaram uma só palavra (em grego): De César. Com isto seus pés tinham sido
trazidos de volta para o chão. Eles não precisavam mais acreditar em seu próprio discurso de “não
podemos mais nos calar” diante do imposto do imperador e “temos de protestar”. Eles sabiam muito
bem calar, participar e lucrar. Depois de desta maneira limpar a mesa, Jesus começa:
     17     Disse-lhes, então, Jesus: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Jesus continua
diretamente da resposta deles, “de César”, começando uma frase lapidar: “O que é de César…” Ao
mesmo tempo, porém, está claro como ele generaliza: tudo o que é de César. Ele não se limitou à
moeda do imposto, mas falou de um reconhecimento fundamental do imperador como governante do
país. Acima de tudo, porém, a ênfase dentro da afirmação famosa recai sobre a segunda parte. É
verdade que este toca em um assunto sobre o qual Jesus não foi perguntado, mas que revela seu
verdadeiro interesse. A partir deste acréscimo Jesus abriu o problema que lhe fora colocado. Ali
também começamos com o comentário.
A Deus o que é de Deus! Só sete palavras, das quais duas são “Deus”. Os fariseus também
falavam muito de Deus. Mas quando eles diziam “Deus” e quando Jesus dizia “Deus”, eles não se
referiam ao mesmo sentido. “Jesus não ensinava como os escribas” (1.22). Para eles Deus era uma
grandeza distante. Anjos e demônios, pessoas e natureza lhes estavam mais próximos. Deus estava
muito lá em cima e lá na frente. E no presente, não havia nada palpável de Deus e seu domínio?
Havia, uma só coisa: a lei. Fora este “você deve/você não deve”, nada havia a experimentar e ter de
Deus. A relação com Deus se esgotava no cumprimento da lei. É claro que o judaísmo sabia algo
sobre a graça, mas isto ficava para mais tarde, na hora de fazer as contas com as obras da lei. No
momento importava ter mais de 600 mandamentos e proibições na ponta da língua e também na
ponta dos dedos. Não havia como escapar disso.
Ser religioso, portanto, significava esforçar-se sem ter tempo para tomar fôlego. A pessoa
religiosa estava sempre sobrecarregada. Como ninguém lhe dava nada, ele também não dava nada a
ninguém. Todo erro dos outros era anotado e retribuído. O pecador não podia se safar! Nestas
circunstâncias, o amor ao próximo tinha muita dificuldade para se desenvolver. De tão carregados,
ninguém podia assumir mais nada. No fundo todos na sociedade tinham uma atitude hostil, sempre
prontos para a luta, poucas vezes prontos para fazer as pazes, sempre se protegendo dos outros.
Jesus ensinou Deus totalmente diferente: “O reinado de Deus chegou”, pelo menos o batalhão de
vanguarda. Ele estendera sua mão desarmada bem à frente. Quem encontra a Jesus, toca nos dedos de
Deus e, com isso, a libertação, a reconciliação, a recriação e o envio. Esta mão de Deus pode ser
desprezada, empurrada para o lado ou até ferida – e como foi ferida! – mas ela nunca se fecha para
esmurrar, continua sempre estendida no mundo humano: Reconciliem-se com Deus!
É nesta proclamação que devemos inserir a exclamação de Jesus: “ A Deus o que é de Deus!” O
que pertence a um Deus como este? Acima de tudo, isto: não se fechar à sua luz, crer em seu amor,
seguir seu Filho. E todo o nosso mal deve ir para as suas mãos. Devolvam a Deus sua condição de
Deus em suas vidas!
Sobre esta base também tem validade a frase anterior: Dai a César o que é de César. Isto agora é
dito a pessoas que se tornaram totalmente em novas criaturas. Por terem aceito o amor, agora
também aceitam a sensatez, passam a entender e perceber a condição deste mundo. Tensões
religiosas, ideológicas ou nacionalistas se soltam, sentimentos e críticas saram. Elas se tornam
capazes de respeitar o direito do Estado. As autoridades nem sempre agem direito, mas elas têm seu
direito. Elas são de necessidade elementar para o bem coletivo. Sem elas valeria a lei do mais forte e
a sociedade começaria a se devorar.
Em questão está agora bem mais do que o pagamento de impostos em si, que no mínimo era feito
também pelos fariseus. Importava, p ex, fazê-lo sem ranger os dentes, sem dor na consciência, sem
ser calculista, e conscientemente. Importava pagar a quantia certa, não por estratégia ou medo, mas
“por dever de consciência”, como Paulo escreve em Rm 13.5. Ele não escreveu isto na inocência,
pois tinha sofrido muita maldade na mão das autoridades. Estas experiências, porém, não anuviaram
seu raciocínio claro. Não havia nenhum tom de amargura e raiva nas suas palavras. Como ele era um
homem cheio do Espírito Santo e tinha aprendido de Jesus, ele era bem objetivo: Não fiquem
devendo nada a ninguém! Nem ao Estado! Os discípulos de Jesus estão inseridos em situações não
ideais e tensões e conflitos desgastantes, como testemunhas do bom reinado de Deus.
Jesus rejeitou a tendência de ver o diabo no Estado tanto como a de divinizá-lo. Demonizar
pessoas ou instituições humanas sempre é injusto, pois não há criatura ou grupo do qual Deus se
tenha retirado totalmente. Se uma pessoa fosse essencialmente má, o apelo à conversão para ela não
faria sentido. E então o evangelho também não existiria mais para todos.
Assim, Jesus falou realmente de modo franco e aberto sobre a questão (v. 14), mas
experimentando ajuda de cima (cf. Mt 10.18-20). Por isso o plano certeiro dos adversários fracassou.
Eles também perceberam que ali havia mais que mera habilidade humana para debater. Sentiram o
sopro da verdade, que os atingiu no âmago. E muito se admiraram dele.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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