Pessoas que gostam deste blog

73 A questão da propriedade, Mt 19.16-30

A questão da propriedade, Mt 19.16-30
(Mc 10.17-31; Lc 18.18-30)

16-22  E eis que alguém, aproximando-se, lhe perguntou: Mestre, que farei eu de bom para alcançar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom, só existe um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. E ele lhe perguntou: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Replicou-lhe o jovem: Tudo isso tenho observado; que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem, e segue-me. Tendo, porém, o jovem ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades.
Para a época de Jesus, a pergunta do jovem não é incomum. Perguntava ele pelo  bem que deveria
praticar além da simples observação das determinações legais. Quer fazer algo espontaneamente por
amor e não apenas evitar transgressões. Quer passar do cumprimento dos mandamentos para ações
positivas, para boas obras excedentes.
A resposta de Jesus segue integralmente os moldes do AT, pois o NT não conhece o nome de Deus
como “o Bom”. Contudo, também no NT o bem sempre é visto em relação com Deus, o Bom. Mq 6.8
é que está mais próximo da palavra de Jesus. Por isso a resposta de Jesus deve ser entendida no
sentido de que ele reformula a pergunta do jovem pelas  “obras do bem” excedentes na pergunta pelo
bem, cuja resposta se encontra na revelação da  vontade de Deus conforme a encontramos nos
mandamentos.
A réplica do jovem evidencia que ele entende a resposta de Jesus no contexto da religiosidade
judaica. Esta havia transformado a lei num enorme número de mandamentos (613), de modo que se
torna compreensível a nova pergunta:  Quais mandamentos?
A resposta seguinte de Jesus deve ser compreendida em conexão com a exigência que ele faz
depois que o jovem assegurou que cumpriu tudo.
Não é cabível que entendamos essa afirmação do jovem simplesmente como uma autoconsciência
falsa, equivocada, como justiça própria, que se engana a respeito de si próprio. De acordo com a
compreensão judaica da lei, era perfeitamente viável cumprir a lei. Os patriarcas e também Moisés
eram vistos como pessoas que conseguiram isso.
O erro do jovem não era que ele não tivesse reconhecido suas transgressões, mas que ele não
compreendeu a interpretação da lei feita por Jesus, tal como se depreende do sermão do Monte. Não
compreendeu que Deus não exige ações isoladas que o ser humano pudesse apresentar, porém quer a
pessoa toda, incluindo seus pensamentos, palavras e ações. Quando reconhecemos essa unidade de
todo o cap. 19, de como Jesus na questão do  matrimônio, e também ao abençoar as crianças, bem
como agora na atitude perante os bens, exige a entrega total a ele como o Senhor, somente então
entenderemos o desafio que ele faz ao jovem. Não sabemos com certeza se o jovem, afinal, descobriu
isso, se ao rejeitar o desafio na verdade está se furtando à interferência de Deus em sua vida, que o
atinge nessa exigência de Jesus. Também é possível que ele simplesmente tenha entendido a
exigência como uma resposta à sua pergunta pela “boa obra” e ficado triste por não conseguir
realizar essa obra. Há uma série de histórias do tempo de Jesus que contam de pessoas que realizaram
ações semelhantes. Contudo, nem elas fizeram o que Jesus tem em mente, quando tinham a idéia de
que assim haviam realizando uma boa obra exterior. Na verdade a exigência de Jesus é uma
referência àquele “grande mandamento único”, ao primeiro mandamento (Schniewind), de amar a
Deus acima de todas as coisas.



23-26  Então disse Jesus a seus discípulos: Em verdade (amém) vos digo que um rico dificilmente 
entrará no reino dos céus. E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de 
uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus. Ouvindo isto, os discípulos ficaram 
grandemente maravilhados, e disseram: Sendo assim, quem pode ser salvo? Jesus, fitando neles 
os olhos, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível.


O empecilho que impediu o jovem de seguir a Jesus, ação pela qual poderia demonstrar sua
dedicação total a Deus, a sua riqueza desencadeia, também diante da evidência do perigo que reside
nas riquezas, o diálogo sobre o perigo das riquezas. No diálogo com o jovem não estava em jogo
inicialmente a riqueza como tal, e sim a  pergunta  de como deveria ser cumprida a exigência de Deus
(o primeiro mandamento). Somente depois que fica claro que a “propriedade” se interpõe a esse
cumprimento, ele ressalta o perigo das riquezas. As duas palavras com que Jesus descreve o perigo
das riquezas (da propriedade) eram especialmente ofensivas para ouvidos judeus, pois possuir bens
era considerado uma comprovação da bênção de Deus, de modo que justamente as pessoas religiosas
se apegavam especialmente às riquezas.
Jesus, porém, tem em vista outro tipo de riqueza. Pois ela não é apenas  dádiva de Deus, prova de
seu amor, pelo qual concede a riqueza, mas – para nós quase sempre em primeiro lugar – algo sobre
o qual nós dispomos, no qual depositamos a nossa confiança, e que, por isso, se interpõe entre nós e
Deus. Foi por isso que Jesus declarou os pobres bem-aventurados, porque sua situação exterior já os
remetia a Deus, tornava-os dependentes dele (Lc 6.20; Mt 5.3). Desse modo os discípulos entendem
Jesus corretamente, quando indagam assustados: Quem, então, pode ser salvo? Nas palavras de
Jesus eles não vêem que ele esteja condenando determinado grupo de pessoas, mas que ele está
combatendo uma atitude que é própria, em maior ou menor grau, de cada pessoa, e que se mostra
especialmente nos visivelmente ricos.
O espanto dos discípulos no v. 25 é uma reação, que sem pre indica que pessoas entenderam algo
da essência da palavra de Jesus e de sua missão, ou seja, que ele fala “com autoridade” (Mt 7.28). É a
presença de Deus que, como relâmpago, através de tudo o que a encobre, se torna visível na sua
palavra e na sua obra. Por isso este espanto foi a reação já de Herodes (Mt 2.3; ali, porém, consta
outro termo grego, usado mais em aparições visíveis de Deus através de seu anjo, p. ex. Lc 1.12, ou
de Jesus como Filho de Deus, p. ex. Mc 6.50; Mt 14.16; Lc 24.38, mas que no  conteúdo significa o
mesmo). Sempre de novo as pessoas se assustam quando Jesus se revela com sua palavra e sua
obra, assim como Adão se assustou ao encontrar Deus após a sua queda.
Jesus confirma que os discípulos têm razão com sua pergunta assustada, assim como também
tinham razão quando concluíram das palavras de Jesus que seria melhor permanecer solteiro (v. 10).
O fato é que não está ao alcance das possibilidades humanas viver assim como Deus planejou. Isso se
mostra na atitude que cada pessoa toma diante da propriedade, assim como também se revela na
posição em relação ao casamento. No entanto, Jesus não veio apenas para nos mostrar essa realidade.
Pelo contrário, ele também nos mostra a possibilidade dada por Deus para viver assim como ele quer.
Porque, em Jesus, Deus vem ao nosso encontro com amor, e não precisamos mais nos fiar nos bens
deste mundo, vivendo na dependência deles. Em 1Co 7.30 Paulo nos mostrou como organizamos a
nossa vida através dessa possibilidade dada por Deus: “Ter como se não tivéssemos!”

27  Então lhe falou Pedro: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos: Que será, pois, de nós?


A resposta de Pedro soa ambígua, e por isso Pedro também recebe uma resposta dupla. Por um
lado a pergunta soa como se Pedro quisesse apontar para o fato de eles o estarem seguindo, de terem
abandonado toda a propriedade como sendo uma obra realizada pelos discípulos. Nesse caso, os
discípulos ainda não teriam feito o que Deus espera, pois entregaram somente algo  – se bem que
muito, tudo – mas não a si próprios. Pois Pedro ainda aponta para esse fato: Veja o que nós fizemos!
Na resposta de Pedro ressoa ainda o louvor próprio, que deve ficar de fora quando a entrega não é
mais nossa obra, mas sim presente de Deus (Rm 3.27; 4.2).
Por outro lado, também podemos compreender a resposta de Pedro como confissão  humilde que
quer expressar: “Senhor, nós nos confiamos  inteiramente a ti, queremos agarrar essa possibilidade
que tu nos concedes”. A isso segue a preciosa resposta de Jesus, que essa entrega na verdade não
ficará sem recompensa. Primeiramente, ao que entrega tudo por amor de Jesus é retribuído tudo na
comunidade: “Irmãos que há muito me faltaram, agora na comunidade me acharam” (Novalis).
Contudo, além disso, o Senhor promete a vida eterna. Essa dádiva é a verdadeira recompensa para o
discípulo.


28-30  Jesus lhes respondeu: Em verdade vos digo que vós os que me seguistes, quando, na 
regeneração, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em 
doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, ou 
irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe [ou mu lher], ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, 
receberá muitas vezes mais, e herdará a vida eterna. Porém, muitos primeiros serão últimos; e 
os últimos, primeiros.



A fim de colocar essa verdade com mais ênfase no centro, Mateus ainda transmitiu a palavra do v.
28, que Marcos e Lucas não apresentam (Lucas tem uma palavra equivalente em outro contexto, Lc
22.28-30). Jesus promete aos discípulos a participação no governo do reino de Deus, caracterizado
como o retorno do reino de Israel.
Significado especial possui nesse texto o conceito de “renascimento”, que nós facilmente
limitamos a um processo interno em cada indivíduo. Sem dúvida Jo 3.3 nos dá o direito de
compreendermos o novo nascimento também como uma processo desses, que se realiza na pessoa
individualmente. Contudo, não seria coerente com o  NT se o entendêssemos como limitado a cada
indivíduo. O termo como tal é encontrado somente ainda em Tt 3.5, mas a questão toda é sempre, no
NT todo como aqui, direcionada para o novo reino prometido por Jesus.  Por um lado, Jesus já nos deu
aqui esse novo ser, por outro lado, ele ainda está oculto para ser revelado na glória (Cl 3.3s).
Desse modo, a vida do cristão sempre se situa sob esse duplo aspecto: o que já nos foi dado como
primeiro sinal (2Co 1.22; Ef 1.14), e o que ainda temos de aguardar. A palavra nos exorta a olhar
para o segundo, a saber, que o que se chama novo nascimento se evidenciará integral, total e
essencialmente no dia da consumação.


Retrospectiva do cap. 19
O cap. 19 de Mateus compõe uma unidade em relação ao sermão do Monte. Ele não afirma nada
diferente do que as palavras correspondentes de lá. Entretanto, ele faz valer a  incondicionalidade
dessas afirmações no diálogo com os fariseus, com o jovem e com os discípulos. Aquilo que se
evidencia aqui para os três casos específicos (matrimônio, ser criança, propriedade) vale de forma
respectiva também para todos os demais mandamentos. Em cada mandamento Deus convoca “a
pessoa toda”. Contudo, ninguém é capaz de cumprir essa exigência com forças próprias. Deus,
porém, concede a possibilidade de realizá-lo.
“A seqüência narrativa do cap. 19 expõe a tolice humana a uma luz penetrante:
“Primeiro chegaram a Jesus aqueles que se admiraram de que não podiam abandonar suas
mulheres.
“Depois chegou um que se admirou porque devia largar o seu dinheiro. Segundo a opinião de
Jesus, um homem não pode “largar” a sua mulher, mas deve ser capaz de “largar” o seu dinheiro.
Com isso ele inverte a opinião vigente entre as pessoas.
“As crianças, que aos discípulos pareciam para nada servir, ele acolheu. O rico ele deixou ir. Com
quanto ele poderia ter contribuído para Jesus e o seu grupo! Também com essa atitude ele inverte o
nosso juízo.
“O conflito entre os pensamentos de Jesus e os nossos tem sua origem sempre no  fato de que a
graça de Jesus está muito acima dos nossos pensamentos. Ele cuida das mulheres porque elas
possuem um coração que precisa de amor e o retribui. Não cuida do dinheiro, porque é um objeto
morto, sem coração. As crianças ele recebeu porque aceitaram com gosto a sua bênção. O rico ele
manda embora, pois era rico, corajoso e grande, um praticante sem mácula da lei divina: “Que mais
farei? O que ainda me falta?”
“O reino dos céus é daqueles que são como crianças. Jesus não se desviou dessa regra. Pelo
contrário, exatamente agora a reconfirmou, ao nos permitir ver de modo tão tocante o que é
perfeição, a que alturas nosso amor pode alçar-se, quanto o amor pode tornar-se livre de qualquer
preocupação. Essa grandeza, porém, não tem nada a ver com nossa orgulhosa autoconfiança. Pois
Jesus acaba de tornar o rico uma criança pobre e frágil, a fim de que encontre o reino dos céus. Até
que ele desmorone, humilhado e envergonhado, sob a carga de seu dinheiro, ele será grande demais
para o reino de Deus” (Schlatter, p. 300).
Jesus respondeu a pergunta de Pedro: “O que será de nós, que deixamos tudo e te seguimos?”,
com uma promessa formidável, maior que qualquer expectativa.  A primeira parte da promessa era
que o Filho do Homem, executado como rei dos judeus, será o rei de Israel  exaltado por Deus. E os
doze eleitos julgarão as tribos de Israel. “Segundo o relato de Mateus (7.21ss; 10.32s; 16.27; 25.31 -46), Jesus julgará pessoalmente, em íntima relação com o Pai. Ele o fará como o Filho do Homem,
que a si próprio se rebaixou e ocultou o seu poder, sendo executado pelos homens. Isso determinará o
seu julgar, quando estiver assentado sobre o trono de sua glória. De acordo com o c ritério de se as
pessoas o aceitaram ou rejeitaram em sua figura pobre, ele lhes concederá entrada na alegria eterna
ou as expulsará para o tormento eterno.
“Considerando que em Mt 25.31s diz que o Filho do Homem separará, da maneira recém exposta,
“entre todos os povos” as ovelhas e os cabritos, poderíamos pensar que, com as palavras de 19.28, ele
incumbe os discípulos da mesma tarefa em relação ao povo eleito. Contudo, não se pode admitir que
ele deixaria para outros justamente a parte mais importante de  sua atividade como juiz. Ele mesmo
levantará o novo Israel. Os doze eleitos são desde já os representantes do novo Israel. Eles, que agora
são os seguidores do rei rejeitado pelo seu povo, e que por isso são excomungados e excluídos do
velho Israel, eles „regerão‟ as doze tribos do novo Israel como ministros plenipotenciários dele.
“Essa é a primeira resposta de Jesus, segundo Mateus, à pergunta de Pedro quanto ao que caberia
aos discípulos por terem largado tudo e seguido a Jesus” (W. Vischer, p. 102).
A segunda promessa que Jesus proferiu como resposta à pergunta de Pedro vale para  cada pessoa
que, por amor ao nome de Jesus, abandonou tudo. “Essa segunda afirmação diz que todo o que, por
amor a Jesus, larga uma propriedade (na listagem são citados os membr os da família um por um,
antes dos bens materiais), não se torna, por isso, mais pobre, mas sim muito mais (Marcos diz: cem
vezes mais) rico. Jesus enfatiza: Quem abandona algo “por causa do meu nome”, i. é, por causa da
minha pessoa, porque eu lhe sou mais precioso do que as pessoas mais amadas e porque aquilo que
eu lhe dou tem mais valor para ele do que tudo o que possui… A promessa não vale para aqueles que
abandonam seus familiares e sua propriedade por causa de uma especulação ou de um ideal ascético,
talvez por menosprezarem as coisas deste mundo ou acreditarem que podem merecer algo para si
sobrecarregando-se com dolorosas renúncias. Com essa palavra Jesus não declarou que as dádivas de
Deus devem ser desprezadas ou que foram dadas para que, renunciando a elas, cheguemos a um
degrau mais alto. Muito pelo contrário, Jesus está afirmando aqui, como em muitas outras passagens,
p. ex. nas parábolas do tesouro no campo e da pérola preciosa (13.44-46), que aquilo que ele traz
com a sua pessoa constitui a dádiva acima de todas as dádivas, e que os que quiserem receber esta
dádiva, em determinados casos, terão de largar tudo o mais” (cf. Vischer).
A pergunta de Pedro: “Que será de nós, que abandonamos tudo e te seguimos?”, recebe, como
encerramento, uma resposta muito séria: Muitos primeiros serão últimos, e muitos últimos
primeiros (v. 30). Pedro olha para o jovem rico que se afastou. Talvez os pensamentos de Pedro
tenham sido formulados assim: “Este jovem rico é um último  – enquanto eu, Pedro, com toda a
certeza pertenço aos primeiros”.
Entretanto, o primeiro tem de cuidar muito bem para que não se torne o último. Não é o início mas
a chegada que coroa a carreira do cristão. Um primeiro pode ficar para trás, e um último pode
avançar na corrida, vindo a ser um primeiro. Nossos olhos ainda  não vêem como será a chegada de
nossa corrida de fé. Tão certo como está fundamentado unicamente na graça soberana de Deus que,
para quem por amor a Jesus renunciou a algo resultará disso o maior ganho, tão certo haverá muitos
decepcionados que esperam por seu empenho algo diferente do que a graça e bondade de Deus. A
parábola seguinte ilustra essa verdade.
Fonte: Mateus - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Online