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74 A pergunta sobre a ressurreição, Mc 12.18-27

A pergunta sobre a ressurreição, Mc 12.18-27 
(Mt 22.23-33; Lc 20.27-40)

18-27 Então, os saduceus, que dizem não haver ressurreição, aproximaram-se dele e lhe perguntaram, dizendo: Mestre, Moisés nos deixou escrito que, se morrer o irmão de alguém e deixar mulher sem filhos, seu irmão a tome como esposa e suscite descendência a seu irmão.      Ora, havia sete irmãos; o primeiro casou e morreu sem deixar descendência; o segundo desposou a viúva e morreu, também sem deixar descendência; e o terceiro, da mesma forma. E, assim, os sete não deixaram descendência. Por fim, depois de todos, morreu também a mulher. Na ressurreição, quando eles ressuscitarem, de qual deles será ela a esposa? Porque os sete a desposaram.      Respondeu-lhes Jesus: Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? Pois, quando ressuscitarem de entre os mortos, nem casarão, nem se darão em casamentoporém, são como os anjos nos céusQuanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido no Livro de Moisés, no trecho referente à sarça, como Deus lhe falou: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ora, ele não é Deus de mortos, e sim de vivos. Laborais em grande erro.

Em relação à tradução
   a
     A palavra grega também está ligada a “ressuscitar”. Os saduceus poderiam expressar assim que a única
ressurreição em que acreditavam era a continuação da vida na pessoa dos descendentes.
   b
     Com esta frase condicional (omitida por alguns manuscritos e versões), os saduceus dão a entender
que, para eles, a ressurreição é um caso irreal, que eles só admitem para efeitos da discussão.
   c
     As expressões fazem uma diferença clara entre homem e mulher. Na maneira judaica de pensar, uma
mulher não pode casar ativamente, só ser desposada.
   d
     Cf 11.25n.
Observações preliminares
1. Os saduceus. Apesar de Marcos mencionar este nome somente aqui, enquanto o grupo rival dos fariseus
é citado nominalmente doze vezes, os saduceus têm importância decisiva para a história da Paixão. Os dois
partidos se dividem na pergunta: Como Israel pode sobreviver em meio às influências pagãs? A isto os
fariseus respondiam: Vedando todas as entradas e não cedendo nem um milímetro das suas tradições de fé! Os
saduceus, por sua vez: Com cuidado, habilidade e propósito, fazer contato com os estrangeiros! É preciso tirar
o melhor da situação para o bem do seu povo. No que tange à tradição, importa ater-se ao essencial, isto é, os
cinco livros de Moisés (sem o que eles consideravam acréscimos neles). Naquilo em que Moisés silenciava,
cabia atender às exigências da época. Os demais escritos do AT eles não consideravam obrigatórios, em
especial os desdobramentos do ensino dos rabinos (“preceitos”, cf. opr 2 a 7.1-13). Do conjunto de crenças
estavam excluídos os anjos, demônios, Satanás, esperanças escatológicas, ressurreição, juízo final. Esta
lealdade muito limitada e aleatória à Escritura fazia os saduceus parecer liberais ou racionalistas. Sua
colaboração diplomática com os dominadores e culturas estrangeiras do momento, que requeria os respectivos
conhecimentos culturais e lingüísticos, fez deles um partido de elite. A classe superior aderira a eles,
especialmente a aristocracia sacerdotal em Jerusalém. O templo se tornara sua base de apoio. Seu nome eles
derivavam orgulhosos da linhagem sacerdotal dos zadoquitas no AT. Com seu interesse político no agora, não
legaram escritos à posteridade. Sua ideologia do Estado centrado no templo sucumbiu com este no ano 70.
2. Contexto. Como segundo grupo mais representado no Conselho Superior, agora os porta-vozes dos
saduceus se apresentam a Jesus. Apesar de nada ser dito sobre uma intenção traiçoeira, a história que eles
usam como exemplo fala por si. Ela deve servir para ridicularizar Jesus, diminuindo, assim, sua popularidade.
– Depois de passagens como 8.31; 9.9s; 10.34; 12.10s, temos aqui o grande parágrafo sobre a ressurreição. Os
saduceus talvez nem tenham se preocupado muito com a questão da ressurreição, mas Jesus sim, dado o seu
caminho claro em direção à morte. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó do v. 27, que ressuscita os que morrem,
era o seu Deus. Por isso este trecho, com a história zombeteira absurda, despertou muita atenção na igreja
quando ela relatava a morte do seu Senhor.
3. O casamento no levirato. Esta disposição (de levir, cunhado) é descrita detalhadamente em Dt 25.5-10.
Moisés ainda pressupunha a convivência em clãs (“Se irmãos morarem juntos”, v. 5). Desta circunstância o
mandamento, que também foi atestado em outros povos, recebe sua justificativa. Importava não só conservar a
linhagem do irmão pela geração de um herdeiro em seu lugar, mas também de preservar as posses coletivas do
clã. Estas estavam em perigo se alguém de outra tribo casasse com a viúva. Entrementes o estilo de vida tinha
mudado. As filhas também tinham obtido o direito à herança (por isso eles falam em “filhos = criança” no v.
19, em vez de “filhos = masculino” como em Dt 25.5). A aplicação se tornara tão complicada que um capítulo
inteiro do Talmude fora necessário para tornar a instrução praticável (Jebamot). Mas os saduceus estão
discutindo apenas a nível acadêmico.
     18,19     Então, os saduceus, que dizem não haver ressurreição, aproximaram-se dele. Desde o
tempo dos macabeus a esperança da ressurreição era uma das convicções mais importantes dos
judeus rígidos na fé, confessada com freqüência, defendida com fervor, mesmo que ridicularizada
pelos saduceus. Apesar disto eles se apresentam aqui lado a lado com os fariseus. Contra Jesus os
adversários antes tão ferrenhos se unem. Como eles vêem que toda a estrutura social deles está sendo
questionada, todos os meios lhes são válidos. Que estes senhores lhes ajudem agora à sua maneira. E
lhe perguntaram, dizendo: Mestre, Moisés nos deixou escrito que, se morrer o irmão de alguém
e deixar mulher sem filhos, seu irmão a tome como esposa e suscite descendência a seu irmão.
Tipicamente judaico, à citação da Escritura segue uma história bem elaborada, para provocar uma
briga teológica.
     20-22     Ora, havia sete irmãos; o primeiro casou e morreu sem deixar descendência; o segundo
desposou a viúva e morreu, também sem deixar descendência; e o terceiro, da mesma forma.
Assim continuou até o sétimo (v. 23b). E, assim, os sete não deixaram descendência. Por fim,
depois de todos, morreu também a mulher.
     23     A pressuposição da pergunta seguinte também é tipicamente judaica (Bill. I, 888). Eles pensavam
que os ressurretos naturalmente retomariam a vida conjugal, e ainda com fertilidade fantástica. As
mulheres dariam à luz todos os dias, assim como uma galinha põe todo dia um ovo. Ao justo são
prometidos 600.000 filhos. Na ressurreição, quando eles ressuscitarem, de qual deles será ela a
esposa? Porque os sete a desposaram. A lógica parece induzir a poliandria, caso haja ressurreição.
Para a sensibilidade judaica, porém, isto seria um absurdo. Saboreando sua zombaria, os saduceus
acham que o empurraram para um beco sem saída. Conclusão: a fé na ressurreição não pode ter lugar
na confissão judaica.
     24     Realmente, eles trouxeram uma prova irrefutável, mas para algo totalmente diferente. Respondeu-lhes Jesus: Vocês estão enganados. “Errar”, na Bíblia, geralmente tem um sentido mais sério do que
uma falha desculpável de percepção. A idéia é de um desvio da fé, de apostasia de Deus. Jesus
continua: Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus?
Quanto mais fluentemente eles papagueiam versículos bíblicos, mais as realidades bíblicas lhes são
distantes e estranhas. O que eles falam soa contrário à Bíblia e longe de Deus.
     25     Jesus passa para o assunto. Primeiro ele se distancia das especulações dos judeus quanto à
ressurreição. Pois, quando ressuscitarem de entre os mortos, nem casarão, nem se darão em
casamento; porém, são como os anjos nos céus. A ressurreição não é uma reconstituição material
do corpo terreno. No livro sírio de Baruque (50.2; escrito depois do ano 70) lemos: “Assim como a
terra os recebe (os mortos), também os devolve, sendo que nada se altera em sua aparência”. Depois
da interrupção pela morte, a vida continua. Falar de “vida após a morte”, porém, soa meio
desajeitado e provém mais da filosofia grega que da Bíblia. A continuação da vida pressupõe que a
morte não seja uma interrupção de verdade, antes uma transição para uma forma de vida superior. De
acordo com a Bíblia, a morte é o último inimigo, um atentado de verdade contra a vida e o Deus da
vida (Sl 30.9s; 115.17; Is 38.18). Se existe ressurreição, trata-se de um milagre do poder de Deus,
mesclando a identidade pessoal com as maiores surpresas: quanto poder, glória, incorruptibilidade,
quanta perfeição! (1Co 15.35-57).
Jesus ilustra um pouco esta novidade total: como os anjos. De acordo com Gn 1.27 não é possível
ser humano sem ser homem ou mulher, nós não seríamos nós mesmos. Mas assim como na perfeição
não há mais morte, também não haverá mais nascimento, casamento e geração. A figura só tem este
sentido (com K. Barth III/2, p 357; contra Oepke, ThWNT I, 785).
     26     Depois do “como” da ressurreição, Jesus esclarece sua realidade. Quanto à ressurreição dos
mortos, não tendes lido no Livro de Moisés, no trecho referente à sarça, como Deus lhe falou:
Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Em contraste com as citações
secundárias e sutis dos fariseus (Bill. I, 893s), Jesus escolhe um documento fundamental de Israel, o
próprio cerne da revelação divina no Sinai, sua auto-apresentação. Do coração da fé da aliança de
Israel brota aqui a fé na ressurreição. Rienecker opina sobre isto (Matthäus, p 299): “Hoje em dia não
podemos imitar a argumentação de Jesus”. Mas por que não?
Na sarça ardente Deus tinha feito um juramento quanto a quem ele queria ser por toda a
eternidade: o Pai dos patriarcas e dos seus descendentes. Ele queria existir para eles; este é o
significado do seu nome Iavé. Por isso não existe um deus em geral, só assim. Separado de Abraão
ou até contra ele não se pode ter Deus. É mais possível que não exista um Deus, do que existir um
povo da aliança abandonado por Deus. Esta promessa tem duração de vida eterna, indo além da
morte dos patriarcas. Deus continua sendo a ajuda destes mortos. Mas como ele poderia sê-lo se eles
continuassem mortos? Portanto, eles não ficarão mortos, assim como Deus quer continuar sendo
Deus. Os patriarcas podem morrer, Jesus pode morrer, os discípulos podem morrer, mas Deus jamais
é um Deus dos mortos no sentido de que fica por isso. Só sob seus protestos eles ainda estão mortos.
Esta revolta da divindade de Deus resulta na ressurreição dos seus seres humanos.
     27     Assim, na sarça Deus se definiu como aquele que ressuscita as pessoas: Ora, ele não é Deus de
mortos, e sim de vivos (Rm 4.17; Hb 11.19). A divindade de Deus é a base da nossa esperança de
ressurreição, não uma eventual substância indestrutível, “imortal”, dentro de nós. A oposição ativa de
Deus espelhou-se também em 5.39, onde Jesus, em face do poder da morte, negou o poder da morte e
pôde dizer que a menina só dormia. Lá Jesus testificou como o Deus que ressuscita é real, sob as
risadas dos circundantes, aqui sob a zombaria dos saduceus. Como eles não faziam a mínima idéia de
Deus, ele encerrou o assunto: Laborais em grande erro! Eles eram professores da lei impossíveis,
por serem falsos.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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