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74 A questão da recompensa Mt 20.1-16

A questão da recompensa:
Será que cabe, no reino de Deus, a pergunta pela recompensa?, Mt 20.1-16
(Lc 7.40-47)

1-16 Porque o reino de Deus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para a sua vinha. E, tendo ajustado com os trabalhadores a um denário por dia, mandou-os para a vinha. Saindo pela terceira hora viu, na praça, outros que estavam desocupados, e disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e vos darei o que for justo. Eles foram. Tendo saído outra vez perto da hora sexta e da nona, procedeu da mesma forma. e, saindo por volta da hora undécima, encontrou outros que estavam desocupados, e perguntou-lhes: Por que estivestes aqui desocupados o dia todo? Responderam-lhe: Porque ninguém nos contratou. Então lhes disse: Ide também vós para a vinha. Ao cair da tarde, disse o senhor da vinha para o seu administrador: Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos e indo até aos primeiros. Vindo os da hora undécima, receberam cada um deles um denário. Ao chegarem os primeiros, pensaram que receberiam mais; porém também estes receberam um denário cada um. Mas, tendo-o recebido, murmuravam contra o dono da casa, dizendo: Estes últimos trabalharam apenas uma hora; contudo os igualaste a nós que suportamos a fadiga e o calor do dia. Mas o proprietário, respondendo, disse a um deles: Amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário? Toma o que é teu e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti. Porventura não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?
Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos.


Em relação à tradução
a
Literalmente: Pois o reino de Deus é igual… No entanto, essa fórmula, sempre recorrente,
especialmente no cap. 13, não está comparando algo, uma condição de dentro deste mundo, com um estado
do reino dos céus. Pelo contrário, compara-se uma maneira de comportamento, no caso, a do dono da casa. É
o que visa expressar a tradução: “Com o reino dos céus sucede…”
b
1 denário = 1 dracma (grega) = ½ shekel (judaico), um bom salário diário no contexto da Palestina de
então. Conta-se do rabino Hillel que, como trabalhador, ganhou inicialmente ½ denário. Um escrivão de
documentos altamente qualificado ganhava por dia 2 denários. A jornada de trabalho durava do nascer do sol
até que as estrelas começassem a brilhar. Como o trajeto de ida até o local de trabalho era incluído no tempo
de trabalho, o dono da casa tinha de sair de casa muito cedo.
c
A contagem das horas começa às 6 horas da manhã. Portanto, a terceira hora é às 9 horas. A oitava e
nona horas são às 14 e 15 horas respectivamente.
d
Era um direito solicitar o pagamento do salário no fim da jornada combinada (Lv 19.13; Dt 24.15).
e
O tratamento é familiar, talvez um pouco depreciativo, assim como um pai trata a criança queixosa.
f
A dupla negação significa afirmação enfática: Estou procedendo com você dentro do mais rigoroso
direito (Klostermann).
g
O olho mau é o olho invejoso. O olho bondoso sempre é citado em conjunto com o bom coração, e
vice-versa. O olho mau deseja o mal ao outro. Nessa acepção quase se equipara à maldição.
h
A coiné e os manuscritos C  e D ainda trazem o acréscimo dos muitos chamados e poucos eleitos. O
versículo encontra-se, na verdade, em Mt 22.14.
Observação preliminar
“Jesus afirmou muitas vezes que Deus dá uma recompensa: Mt 5.12,46; 6.1s,5,16; 10.41s. Mas do mesmo
modo inequívoco ele declarou que todos os que servem a Deus na intenção de com isso „merecer‟ a bem-aventurança, perderão a felicidade eterna. Quem realiza boas obras por causa da recompensa, somente se
irritará com a bondade de Deus.
“É por isso que muitos judeus, precisamente os que mais se esforçavam para servir a Deus, s e irritaram
com Jesus. Os israelitas foram os primeiros que Deus chamou para o seu campo de trabalho. Em tempos
anteriores eles sabiam que isso era para eles um grande privilégio da graça divina. Porém depois tornaram o
presente da graça cada vez mais um meio para alcançar méritos, segundo o lema: A Torá foi dada a Israel para
que adquirisse méritos por meio dela. Em vão advertia e exortava Antígones de Socho: „Não sejam como
servos que servem ao seu senhor na intenção de receber recompensa, mas sim como os   que se dedicam ao seu
senhor sem a intenção de serem recompensados.‟ Conta -se que dois de seus alunos, por causa dessa afirmação,
ficaram confusos com a doutrina da recompensa, tirando dela a conclusão de que não existe nenhuma
retribuição, nem num mundo futuro. Em conseqüência, teriam se distanciado totalmente da Torá, tornando-se
fundadores do partido dos saduceus.
“A maioria dos escribas defendia a tese: „Conforme o esforço virá a recompensa‟ (Aboth 5.23). Como eles
imaginavam a relação entre serviço a  Deus e recompensa de Deus, mostram as variações da parábola do
empregador que paga o salário, encontradas na literatura rabínica. Vejamos um exemplo:
“Um rei contratou muitos trabalhadores, e houve um que trabalhou muitos dias para ele. Vieram os
trabalhadores para receber seu salário, e aquele trabalhador veio com eles. O rei lhe disse: „Eu o considerarei
de modo especial. Aos que realizaram pouco trabalho para mim, darei pouco salário. A você, porém, darei
uma recompensa grande.‟ Assim os israelitas solicitaram a Deus sua recompensa neste mundo, e os povos
igualmente pedem sua recompensa de Deus. E Deus diz aos israelitas: „Filhos meus, eu considerarei  vocês de
maneira especial. Aqueles povos do mundo realizaram pouco trabalho a meu serviço, e lhes dou pouca
recompensa. Porém a vocês darei uma grande recompensa.‟
“A história é quase igual à narrada por Jesus. Tanto mais claro mostra -se como Jesus, pela guinada que dá
à parábola, desestruturou a posição dos religiosos judaicos. É fácil de entender que eles achavam que Jesus
destruía a justiça de Deus e que não valia a pena ser piedoso, não somente diante da circunstância de que
qualquer um, e na última hora até o mais ocioso ocupante da praça, é convocado ao trabalho de Deus, mas
também que, no final, ainda lhe é paga a mesma recompensa que àqueles que se esforçaram a vida inteira para
cumprir os mandamentos de Deus. É compreensível que eles se incomodassem com a bondade de Deus, e que
muitos deles, como na parábola, de primeiros tornaram-se últimos, ou que o irmão mais velho na parábola do
filho perdido se irou e se excluiu pessoalmente da alegria (Lc 15).
“No entanto, por meio dessa parábola Jesus em primeiro lugar advertiu os seus discípulos. De últimos,
tornaram -se primeiros. Devem cuidar para não voltarem a ser últimos. Pois a bondade de Deus certamente
pode transformar em primeiros aqueles que agora se tornaram últimos, como o jovem rico ou os fariseus. Um
fariseu com o qual isso aconteceu, como promessa para todos e para o Israel inteiro, é Paulo” (cf. W. Vischer,
p. 108ss).
A parábola tem o objetivo de explicar a declaração de 19.30, razão pela qual encerra com a sua
repetição. Assim como a parábola mostrou, os últimos hão de ser primeiros, e os primeiros,
últimos. A ênfase está no v. 8, que mostra a seqüência em que os trabalhadores recebem seu salário.
No contexto da parábola, porém, está sendo mostrado com essa inversão tão somente como a
bondade de Deus se volta contra a reivindicação de recompensa dos primeiros – no diálogo eles são
os discípulos. Explicando a idéia de recompensa há pouco externada (19.29), Jesus a rejeita enquanto
reivindicação de direito. Segundo a compreensão judaica, a idéia da recompensa fundamenta um
tratamento diferenciado, de acordo com o resultado produzido. Essa compreensão Jesus rejeita,
porque ele conecta a idéia da recompensa com a bondade de Deus e porque, aplicando assim a idéia,
de fato a suspende. Isso ocorre com toda a pregação de Jesus (cf. o exposto sobre 5.21). Isso se
evidencia de maneira singular nos textos paralelos Mt 5.46 = Lc 6.32, onde, no lugar em que Mateus
usa o termo “recompensa”, Lucas traz a palavra “graça, gratidão” (todavia, confira também as demais
passagens referidas). Na parábola, a ênfase reside no mesmo pensamento de rejeitar qualquer  direito.
A inversão da ordem de pagamento, portanto, constitui somente uma ênfase extrema dessa rejeição.
A verdade de que os “primeiros” de forma alguma possuem uma prerrogativa diante dos “últimos”
expressa-se no fato de que nem mesmo na seqüência do pagamento recebem seu salário por primeiro.
Por outro lado, essa parábola previne contra uma compreensão da palavra 19.30 = 20.16, de
acordo com a qual a ordem seria  inversa, ou seja, que agora fosse uma vantagem ser “último”,
pecador e publicano. Não será desnecessário destacar convenientemente essa explicação da palavra
também hoje, nas igrejas vindas da Reforma, contra uma inconsciente busca de transformar em
prerrogativa, em vantagem a condição de pecador, ou o reconhecimento de ser pecador. Em todo
caso existe o perigo de que, no lugar do orgulho do fariseu, se coloque o orgulho do pecador, que
secretamente pensa, mesmo que não o diga: “Eu te agradeço, Deus, que não sou como esse fariseu”.
A maneira como primeiros se tornam últimos e últimos, primeiros, será assim que, nem para o
primeiro resulta dessa condição uma vantagem, nem para o último uma desvantagem, porque a
bondade de Deus é maior que todas essas diferenças.
Evidencia-se aqui que todo o pensamento em padrões terrenos não é capaz de captar as palavras
do Senhor Jesus. Os discípulos achavam que, a partir da palavra de Jesus ao jovem rico, podiam
deduzir para si um direito à recompensa. Jesus não o repele integralmente, mas diz: “Sim, vocês
receberão recompensa, porém toda recompensa é graça”. Novamente seria errado concluir: Portanto,
é melhor ser último. Não é o que Jesus afirma. Prevalece o fato de que os primeiros suportaram a
fadiga e o calor do dia. Para as pessoas certamente existem diferenças, contudo essas diferenças não
determinam a aquisição de direitos. Nos mesmos termos Jesus já havia falado de João Batista
(11.11). Por isso é melhor resumirmos o conteúdo da parábola na afirmação de que ele fala d a
bondade e da graça de Deus, diante das quais fracassam todos os nossos critérios (Schniewind).
Entretanto, não deduzimos dela uma total igualdade das pessoas no mundo futuro.
Com alguns aspectos práticos queremos elucidar mais uma vez o sentido da parábola:
Será que o hino do poeta Angelus Silesius foi correto: “Eu quero amar-te sem recompensa…”?
Sim e não! Pois aqui é preciso raciocinar com a dialética bíblica. Jesus “confirma” a expectativa
humana por recompensa, mas ao mesmo tempo a elimina radicalment e. Ele assegura aos seus
recompensa generosa (não apenas neste texto!). Para ele persiste inabalável o princípio de que Deus
não deixa sem compensação nenhum serviço humano. Por isso Jesus pode formular declarações que
aparentemente coincidem integralmente com a mentalidade judaica sobre a recompensa. No entanto,
a presente parábola mostra o limite e a total destruição dessa mentalidade. Você pode esperar pela
recompensa! Mas, no momento em que esperar por ela conscientemente, irá perdê -la. De primeiro
torna-se último. Você não tem direito algum de exigir qualquer recompensa. Toda recompensa nada
mais é que presente da graça. Ela vem da graça soberana e dadivosa de Deus, que é o Senhor
ilimitado. A mensagem da Reforma: “Por graça, aqui não conta o mérito”, pode ser deduzida
claramente dessa parábola.
A pergunta: “Que será dado a nós?” é genuinamente humana. E a resposta é genuinamente divina.
Ela anuncia: Tudo é graça. É graça que você possa trabalhar. E a recompensa também é graça.
Entretanto, a parábola também nos torna participantes de um diálogo entre Deus e ser humano.
Jesus é o único capaz de estabelecer esse diálogo, pois conhece a ambos, Deus e o ser humano. Ele é
o “Filho do Homem” que assumiu integralmente nossa condição humana. Ele sabia o que está dentro
do ser humano (Jo 5.25). Simultaneamente ele é o “Filho de Deus”, que procede do Pai e que, por
isso, tem competência de dizer: ”Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho” (Mt 11.27). Por isso,
porque conhece a ambos, confere ao diálogo esse impacto arrasador. Somente ele pode retratar de
maneira tão convincente a acusação do homem contra Deus: “Tu és injusto comigo”, de maneira que
possamos ver o ser humano concreto, em toda a sua rebelião contra Deus. Ele é o único que pode dar
vitoriosamente à pessoa a resposta calma e nobre: Meu amigo, não estou sendo injusto contigo. Ao
ser descrita a queixa da pessoa, somos levados à presença de Deus. O “pensamento meritório” está
por trás, p. ex., da pergunta: “Que fiz eu para merecer isso?” Quem fala assim, pensa que “merece”
uma recompensa diferente da forma de vida que lhe está sendo imposta. O ser humano acusa: Tu és
injusto comigo. Na nossa parábola está sendo interpelado o homem religioso, não o afastado de
Deus. A esse homem religioso deve ser dito com que facilidade ele se torna último quando levanta
essa acusação (Carl Paeschke).

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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