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75 A pergunta sobre o maior mandamento, Mc 12.28-34

A pergunta sobre o maior mandamento, Mc 12.28-34 
(Mt 22.34-40; Lc 10.25-28)

28-34 Chegando um dos escribas, tendo ouvido a discussão entre eles, vendo como Jesus lhes houvera respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o principal de todos os mandamentos?      Respondeu Jesus: O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor!      Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua forçaO segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes. Disse-lhe o escriba: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que ele é o único, e não há outro senão ele, e que amar a Deus de todo o coração e de todo o entendimento e de toda a força, e amar ao próximo como a si mesmo excede a todos os holocaustos e sacrifíciosVendo Jesus que ele havia respondido sabiamente, declarou-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E já ninguém mais ousava interrogá-lo.

Em relação à tradução
   a
     Aqui e no v. 34, o escriba e Jesus “vêem” o que só é audível (como em 4.24). “Ver”, portanto, pode ter
um sentido mais abrangente: perceber, vivenciar.
   b
     Cf 8.35n.
   c
     A maioria dos judeus conhecia de cor o xma (cf. 2.7), que começa com esta passagem bíblica, e o
citava diariamente, pronunciando com exatidão cada palavra e letra. Jesus e o escriba (v. 32b) com certeza o
recitaram em hebraico. Diante disto chama a atenção que as palavras, aqui e nos textos paralelos de Mt
22.37; Lc 10.27, não coincidem totalmente nem com o texto bíblico hebr. nem com o da LXX nem entre si (p
ex na questão dos quatro componentes). Não há concordância nem com o v. 32. Isto significa que a
transmissão desta história fora cultivada em círculos onde o xma não era texto litúrgico, ou seja, não era
orado diariamente. Eles transmitiram o versículo livremente, assim como outros textos bíblicos, como nós
também fazemos às vezes. Deles foi que Marcos tomou o trecho.
   
d
     holokautoma, “oferta totalmente queimada”. Há uma correspondência com a primeira parte do
versículo, onde a palavra “todo” (holos) é tão destacada.
   
e
     thysia, “oferta de animais”, se refere a vários tipos de sacrifícios diferentes do holocausto, porque
partes dos animais eram comidos na refeição que seguia ao sacrifício.
Observações preliminares
1. Contexto. Um professor da lei honesto, ansioso por aprender, vem falar com Jesus sem ser pau mandado.
No fim de uma conversa didática séria nos deparamos com admiração mútua. Mesmo assim esta história não
destoa, antes forma exatamente o ponto culminante das desavenças de Jesus com o Conselho Superior. Marcos
esclarece com sua observação final no v. 34b: os adversários estão totalmente refutados. Este companheiro
deles é a prova viva de que o verdadeiro judeu só pode concordar com Jesus. Se ele segue simplesmente a
Escritura e realmente pensa no que ora todos os dias, ele é o candidato ideal para seguir a Jesus. Quando o
contrário é o caso, isto é, que seu desejo é eliminar Jesus, ele condena a si mesmo. Ele está sendo infiel à sua
própria natureza, rompendo com Deus, a Escritura, o maior mandamento e a principal declaração de fé dos
judeus, com sua identificação com Israel.
2. O maior mandamento e o judaísmo. Muitos intérpretes pensam que Jesus, ao formular o mandamento
duplo, realizou um ato “totalmente original” (Schürmann, Worte Jesu, p 227), de “ousadia revoltante”
(Lohmeyer, p 261). Será que esta avaliação tem consistência? É verdade que as duas passagens da Escritura
que Jesus justapôs estão bem distantes uma da outra no AT e não contêm nenhum indício de que deveriam
estar juntas, e também é verdade que nenhum rabino antes dele os ligou desta maneira e que, além dos
evangelhos, nenhum escrito dos primeiros cristãos repete esta formulação. Além disso é verdade que os
professores da lei tinham reservas em resumir a Torá em uma fórmula breve. Eles temiam que a busca de um
mandamento fosse uma desculpa para subtrair-se aos tantos outros. Mesmo assim, a circunstância de que Jesus
e o professor da lei se confirmam mutuamente sem reservas neste ponto deve nos fazer tomar cuidado para
não separarmos Jesus do judaísmo exatamente neste ponto. A necessidade de tornar a revelação da vontade de
Deus mais elementar, isto é, de perguntar por um mandamento maior, mais importante, mais profundo ou
abrangente, é inevitável e já ocupou as mentes no AT (p ex Is 33.15; 56.1; Mq 6.8). O judaísmo tinha ainda
mais razões para ser empurrado nesta direção. Contou-se 613 mandamentos nos livros de Moisés (365 ordens
e 248 proibições) e, com o passar das gerações, a estes foram acrescentados milhares de “preceitos dos
anciãos” (7.3), decisões individuais e instruções preventivas. Quem começasse a estudar este caos imenso,
tomava sobre si “o jugo da Torá”, como se dizia tão apropriadamente. Jesus descreve: “Atam fardos pesados e
os põem sobre os ombros dos homens” (Mt 23.4). Isto realmente produz “cansados e sobrecarregados” (Mt
11.28ss). A religiosidade pode virar loucura, sem vantagens nem para Deus nem para as pessoas. Isto obriga à
reflexão, à pergunta pelo que é essencial em tanta variedade, para encontrar o caminho pelo meio da variedade
a partir do que é essencial.
Temos comprovação de que o judaísmo não se fechou para esta demanda (Bill. I, 357,460,907; III, 36s).
Unir para tanto o mandamento do amor a Deus e o do amor ao próximo talvez já fosse sugerido pelas duas
tábuas da lei. Isto de fato aconteceu, mesmo que – pelas fontes que temos – somente fora dos círculos
rabínicos. O exemplo mais antigo é o “Testamento dos Doze Patriarcas” (escrito talvez por volta do ano 100
a.C. entre os essênios): “Amem o Senhor em toda a sua vida e uns aos outros com corações sinceros!” O
filósofo judeu Filo (até o ano 50) mencionou “duas doutrinas básicas”: “em relação a Deus o mandamento da
adoração e santidade, em relação às pessoas o do amor ao próximo e da justiça” (em Goppelt, Theologie, p
153; umas dez provas em Pesch II, p 246). O fato de faltar uma prova de que esta associação tivesse ocorrido
entre dois textos bíblicos como com Jesus, pode parecer um simples caso, tendo em vista estas expectativas.
Do ponto de vista do conteúdo, a diferença entre Jesus e o judaísmo nesta questão não é tão absoluta. Ela se
refere somente ao grau de clareza e ênfase. O que importa é como Jesus relaciona esta questão com o reinado
de Deus.
     28     Chegando um dos escribas, tendo ouvido a discussão entre eles, vendo como Jesus lhes
houvera respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o principal de todos os mandamentos? Este
professor da lei, marginalizado por seu grupo por pensar diferente, não só caíra sob a impressão da
autoridade de Jesus, mas também deixou-se levar por esta impressão e com honestidade lhe fez a
pergunta da sua vida. Ele perguntou: O que está na frente e tem validade absoluta? Com o que
também eu tenho de começar, para achar o caminho no meio das muitas coisas do meu dia-a-dia? Ele
estava à procura daquele único mandamento, não para esquecer os demais, mas exatamente para
cumprir em todos os mandamentos “o maior” (v. 31). Ele queria realmente ter Deus em sua vida, não
simplesmente comportar-se com religiosidade.
     29,30     Como se Jesus já se tivesse preparado há muito para este homem, ele lhe lança a resposta em sua
vida: O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o
Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de
toda a tua força. A resposta, porém, não consiste em um pensamento novo, próprio de Jesus, mas na
recordação daquilo que todo homem judeu tomava na boca a cada manhã e a cada noite, o xma, que
começa com Dt 6.4s (cf. 2.7). Esta é a grande palavra de unidade, que consegue satisfazer a sede por
unidade da existência humana que está desmoronando e se desfazendo: um só Deus, que proporciona
a cura para um mundo e uma humanidade em obediência universal.
Ao dizer o xma para este homem, Jesus o remete de volta à sua existência como Israel. Isto é de
suma importância ao lidar com os mandamentos. É que eles pressupõem uma base: a vida de Deus e
com Deus e para Deus. Em nenhum lugar a Bíblia diz que os mandamentos criam vida por si
mesmos. Eles pressupõem a vida presenteada na aliança e na eleição, para preservá-la, preenchê-la e
multiplicá-la (Dt 4.1; 6.24; 5.32s; 8.1; 16.20; 30.6,15-19). Primeiro, portanto, Jesus revela a base:
Você é Israel. Você continua sendo Israel, simplesmente por parar para ouvir: Ouve, ó Israel! A
partir disso você vive em uma relação especial com Deus: o Senhor, nosso Deus. Este “nosso Deus”
é o único soberano, que mantém tudo unido no âmago e repele a ruína do mundo. A partir dele
também você recebe a instrução sobre o que fazer. Por outro lado, as formas abstratas que você
imaginou só acabam com você e com os outros.
No mesmo impulso, a confissão continua: Amarás, pois, o Senhor, teu Deus. Também amar
aquele que nos ama – isto estaria no centro da vida que se busca aqui. Mas será que o amor pode ser
ordenado? Neste caso sim, pois neste caso o outro amou primeiro. Quem é amado pode amar. Mais
ainda: Depois que você é o Israel amado, você amará, como deixa claro aqui o tempo do verbo no
grego (seguindo o modelo hebr.). Você não tem mais nenhuma possibilidade de direito, você está
desarmado. Mas já que você pode e vai, você também deve. Isto é lógica bíblica. Tudo o mais seria
agora a vida sem sentido, em desarmonia e decadência.
Quatro instruções descrevem este amor que corresponde, em todas as extensões imagináveis. Ele
espelha a largura e comprimento e altura e profundidade do amor de Deus (Ef 3.18). O coração, o
centro do ser humano, está totalmente ocupado por ele. A alma, todo o seu anseio de vida, se
expressa a favor dele. O entendimento, ou seja, a força da sua razão, mas também qualquer outra
força, seja física ou financeira, são mobilizados por ele. Desta maneira Israel deve ser um espelho
brilhante da bondade de Deus: inteireza responde a inteireza (quatro vezes (“todo”).
     31     A ordem não muda: “Amado, você deve amar!” Mas este amor se volta agora necessariamente para
um outro. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo (Lv 19.18). Será que o amor
indiviso por Deus agora se divide? Alterna? O contrário é o certo: o amor de Deus não se divide,
porém só se completa no amor ao próximo. Ele descobre em Deus, o mais próximo, o próximo, e isto
é um processo que o próprio Deus imprime, dirige e acompanha, que fazia parte do seu propósito
com a eleição de Israel, desde o começo.
Há quem goste de formular que podemos amar a Deus somente no próximo. Mas com isto não se
presta um serviço ao próximo. Ele não é Deus; ele também não se torna Deus se nos apoiarmos nele
como sobre um deus. O mandamento do amor, portanto, é duplo. Não é em vão que o amor a Deus e
às pessoas é descrito de maneiras diferentes. Em oposição à sonora quadruplicidade no v. 30, agora
só lemos: como a ti mesmo. É preciso que seja um amor a si mesmo que não carece de explicação,
que ninguém precisa exigir e para o qual ninguém precisa decidir-se. O pai da igreja Agostinho e
seus seguidores de hoje, que fazem do mandamento duplo um triplo, vendo aqui ainda a exigência do
“amor próprio” (= aceitação de si mesmo), em termos de exegese não podem ser seguidos (se bem
que sua colocação deve ser ouvida). Mais útil parece ser a comparação de Ef 5.29,33. No primeiro
destes versículos Paulo lembra dos cuidados com o próprio corpo, dos quais nenhuma pessoa sadia se
exime: “Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida”. Ninguém
precisa nos ensinar acerca de instintos sadios de sobrevivência. Um bebê já mama, sinaliza dor,
estremece diante da chama ou fecha os olhos quando uma mosca o incomoda. Este cuidado natural,
às vezes inconsciente, pelo próprio corpo Paulo resume no v. 33 na expressão “como a si mesmo”.
As necessidades do próximo não devem estar mais longe de nós do que o bem-estar próprio. Com a
mesma naturalidade e simplicidade devemos existir para o outro. Isto não exclui sentimento e
intimidade, mas estes não são o ponto de partida.
     32,33     Disse-lhe o escriba: Muito bem, Mestre. Uma concordância honesta de razão e emoção se
manifesta (a expressão está ainda em 7.6,9,37; 12.28). Em seguida o aluno repete a instrução do
professor com as próprias palavras. Ao fazê-lo, ele evita usar o nome de Deus, como é típico dos
judeus, enquanto Jesus o usara nos v. 29s,34 e no trecho anterior seis vezes sem constrangimento,
como no AT. Com verdade disseste que ele é o único, e não há outro senão ele, e que amar a
Deus de todo o coração e de todo o entendimento e de toda a força, e amar ao próximo como a
si mesmo. O acréscimo com críticas para o templo também é tirado da Escritura: excede a todos os
holocaustos e sacrifícios (cf. 1Sm 15.22; Sl 39.7; 50.21; Pv 21.3s; Is 1.11; Os 6.6). Mesmo assim,
este agravamento nesta situação soa como submissão à sentença de Jesus contra o sistema do templo
segundo os v. 15ss, que serviu de base a todos os debates. Desde que Jesus entrou no templo em
11.11 cumpriu-se Ml 3.1ss: “De repente, virá ao seu templo o Senhor. […] Ele é como o fogo do
ourives. […] Purificará os filhos de Levi.” Agora ele se impôs. Um israelita em que não há dolo (Jo
1.47) o reconheceu e aceitou.
     34b     E já ninguém mais ousava interrogá-lo. Os debates com as autoridades judaicas estão
encerrados (cf. 15.3-5). Ele fechou a boca dos pseudoprofessores (v. 24,27) e comprovou seu
magistério messiânico (cf. opr 3 a 1.21-28).
     34a     Vendo Jesus que ele havia respondido sabiamente, declarou-lhe: Não estás longe do reino de
Deus. Este versículo precisa ser bem analisado. Ele mostra algumas ligações. Ele expressa o que
estava nas entrelinhas de todo este trecho, na verdade de cada história no evangelho de Marcos: o
reinado de Deus chegou. Na pessoa do Filho do Homem pronto para sofrer, ele se aproximou e agora
está em Jerusalém. Por isso este escriba, por ter concordado com o ensino de Jesus, pode ser
certificado da proximidade do reinado de Deus. Os “que estavam longe” na opinião dos judeus eram
os pagãos (Bill. III, 585s; cf. Ef 2.13,17, At 2.39). Assim, este judeu religioso não é pagão, mas
também ainda não é cidadão do reinado de Deus. Por mais fiel e entendido que ele recite o xma, isto
não é suficiente. O xma é verdadeiro, mas não tem mais validade, porque a aliança em que ele se
baseava foi quebrada. Ele tinha primeiro de ser revalidado pela morte de Jesus na cruz.
Assim, os que estão perto ficam do lado de fora junto com os que estão longe, até reconhecerem o
“mistério do reinado de Deus” (4.11), até que Jesus lhes seja manifesto como Messias rejeitado. –
Com razão Gnilka (II, p 166) pensa sobre o nosso trecho: “Poderíamos esperar um apelo para seguir
a Jesus” (cf. 10.21). Como este parágrafo, porém, não se interessa pela biografia deste homem, mas
tem em vista o resultado dos debates, esta linha não é seguida.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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