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76 A mãe dos filhos de Zebedeu (Tiago e João), Mt 20.20-23

A mãe dos filhos de Zebedeu (Tiago e João)
pede pelos seus filhos, Mt 20.20-23
(Mc 10.35-45; Lc 22.24-27)

20-23 Então se chegou a ele a mulher de Zebedeu, com seus filhos e, adorando-o, pediu-lhe um favor. Perguntou-lhe ele: Que queres? Ela respondeu: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem um à tua direita e  outro à tua esquerda. Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos. Então lhes disse: Bebereis o meu cálice, mas o assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo; é, porém, para aqueles (será concedido àqueles) a  quem está preparado por meu Pai.
Em contraposição a Marcos, a história em Mateus possui uma recordação própria. Não são os
discípulos que pedem a Jesus para receberam lugares de honra ao lado de Jesus, e sim sua mãe que,
conforme Mc 15.40; Mt 27.56, se chamava Salomé e, conforme Jo 19.25, era a irmã da mãe de Jesus.
Será que o pedido se apoia no parentesco próximo com Jesus? Mais tarde, na comunidade, os
parentes de Jesus obtiveram uma posição destacada. Talvez Mateus intentou, com essa alteração,
resguardar os discípulos, que no seu tempo eram as colunas da comunidade (Tiago já morrera como
mártir), porque ele não acreditava que eles próprios tivessem expressado um pedido tão ambicioso,
mas que este fosse antes motivado pelo orgulho materno. Contudo, essa suposição introduz em
Mateus considerações que nós hoje realizamos, a saber, que nesse pedido se revela um orgulho
infundado. Mas na comunidade certamente se admitiam  diferenças. Mesmo a parábola anterior não
quis proclamar uma igualdade geral. Até mesmo quando corrige a disputa pelo poder entre os
discípulos no v. 26s, Jesus não fala de uma igualdade genérica, mas que no seu reino as leis sobre os
primeiros e os últimos são diferentes das do mundo. Portanto, a diferença com Marcos não pode ser
vista como uma consideração benevolente de Mateus, mas simplesmente como resultado de uma
outra linha de recordação que, num detalhe como este, era diferente da de Marcos.
Mais importante é que Mateus não traz a palavra da morte, ou melhor, do batismo de morte, como
Marcos. Segundo Mateus, Jesus fala apenas do cálice do sofrimento. Será que a deixou fora porque
viu nela uma profecia de que morreriam como mártires, cumprida por um lado em Tiago, mas por
outro não em João? Também essa suposição parece não ter base segura. Afinal, Mateus não sabia se
a profecia sobre João não poderia vir a cumprir-se futuramente! Ademais, considerando as rigorosas
ligações que Mateus e Marcos possuem cada qual com a sua tr adição, nunca podemos levantar mais
do que hipóteses para descobrir motivos para divergências narrativas entre eles. Também neste caso é
melhor constatarmos simplesmente uma diferença na recordação, sem indagar ou pesquisar por
motivos.
O diálogo trata mais uma vez de conseqüências que resultam da palavra de Jesus em 19.28. Assim
como Jesus abordou em 19.1ss a questão do divórcio de forma concreta no diálogo (demissão da
mulher) e assim como tratou em 19.16ss da questão da propriedade neste mundo, assim ele é forçado
pela pergunta da mãe dos filhos de Zebedeu a abordar a questão da recompensa de forma concreta, i.
é, diante de um pedido bem específico por recompensa. De certa forma o pedido é idêntico ao que os
discípulos apresentam em 19.27. Lá eles indagam: “Que receberemos nós por isso?” Aqui a mãe
pede pelos filhos: “Concede-lhes por isso que no teu reino se assentem um à tua direita e outro à
tua esquerda”. O pedido é tão definido porque Jesus prometeu que os discípulos terão participação
no seu reinado (19.28). A resposta de Jesus em forma de contra-pergunta pronuncia um pensamento
que retorna em João, de que seu sofrimento significa ao mesmo tempo sua exaltação (Jo 3.14; 8.28;
12.32). Pelo fato de que, na crucificação de Jesus, se mostra e se confirma sua separação do mundo, a
saber, que ele não é deste mundo, a crucifixão representa ao mesmo tempo sua exaltação, i. é, que ele
pertence ao Pai. O evangelho de João vê incluídos nisso t ambém os discípulos, pois o ódio com que o
mundo os persegue (Jo 17.14) é destinado a ele, o Senhor (15.21)! Essa é a compreensão por trás da
palavra de Jesus: ele pode conceder essa participação em seu reinado (Marcos usa neste lugar o
termo “glória“) na  medida em que for participação no seu sofrimento.
A resposta breve e, portanto, segura de si, dos discípulos, requer uma correção. De forma alguma
ela é precipitada e presunçosa, como a declaração de Pedro de que não negaria o Senhor (Mt 26.35).
Tiago comprovou essa resposta com a sua morte e João o fez de forma semelhante como “irmão e
companheiro na tribulação e no reino” (Ap 1.9). – Também aqui deve ser observado o paralelo entre
“tribulação” e “reino”!
O erro dos discípulos não era que falaram demais, mas que entendem o sofrimento de modo
errado. No judaísmo, desde os tempos dos macabeus (2Mac 7.37) e mais tarde no terrível desfecho
da guerra judaica, houve martírio e disposição para o sofrimento, mas o martírio era entendido como
“realização”, assim como mais tarde, novamente, na igreja dos primeiros séculos. A resposta dos
discípulos revela um orgulho pela própria realização. É o orgulho pelo que produziram com esforço,
pelo que depois esperam recompensa, porque a idéia de realização sempre vem acompanhada da
idéia de que a pessoa merece uma recompensa.
São esses os pensamentos que Jesus precisa rejeitar mais uma vez, lembrando os discípulos de que
toda recompensa é recompensa por graça. Por isso não lhes é dada a resposta esperada: “Vocês,
portanto, também estarão sentados ao meu lado na glória”, mas eles recebem a instrução de que
devem contentar-se com a graça de Deus (2Co 12.9).

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

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