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76 O ensino de Jesus sobre o Messias, Mc 12.35-37a

O ensino de Jesus sobre o Messias, Mc 12.35-37a 
(Mt 22.41-46; Lc 20.41-44)

35-37a Jesus, ensinando no templo, perguntou: Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi? O próprio Davi falou, pelo Espírito Santo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés. O mesmo Davi chama-lhe Senhor; como, pois, é ele seu filho?

Em relação à tradução
   a
     O texto hebr. do Sl 110.1 que Jesus cita diz assim: “Iavé disse ao meu senhor”. Também a LXX fala do
“Senhor” nesta passagem. Mesmo assim, a versão aqui não procede necessariamente da LXX, mas pode estar
baseada em uma forma aramaica do salmo, como comprovam as descobertas em Qumran. “Isto elimina por
si mesmo os argumentos lingüísticos contra a procedência do ensino do próprio Jesus” (Pesch II, 254).
   b
     O Sl 110.1 continua assim: “Até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés” (BJ), enquanto
no Sl 8.6 há uma expressão como aqui (“pôr sob os pés”), se bem que não dirigido ao filho de Davi, mas
como observação sobre o “filho do homem” (v. 4). Mesclando os dois salmos, portanto, obtém-se uma
relação oculta entre o filho de Davi e o filho do homem. A expressão aberta disto acontece diante do
Conselho Superior em 14.62. Desta maneira Jesus amplia o conceito de Messias e o retira da estreiteza
nacionalista.
Observações preliminares
1. Contexto. Depois da observação do v. 34b não há mais confrontos pessoais; Jesus conquistou o campo
de batalha e passa a ensinar o povo (v. 37b). De uma destas pregações no templo temos um fragmento aqui.
Ele é curto, sem relação com alguma pessoa, recortado de todos os contextos e sem conclusão que o
arredonda. Mesmo assim, olhando de perto, fica claro que ele está bem ancorado na situação daqueles dias.
Cinco linhas precisam ser destacadas:
a. A temática messiânica. Que Jesus era o salvador real e se manifestaria como tal ocupava a mente dos
discípulos desde 8.27, e o público desde a entrada na cidade e no santuário. Todos os quatro debates
precedentes referiam-se de alguma forma a este tema. Ele também perpassa os interrogatórios e ainda é atual
no Gólgota. Se, pois, nosso trecho aborda diretamente a doutrina do Messias, considerando o antes e o depois,
não se pode dizer que se trata de três versículos perdidos, que apresentam sutilezas dogmáticas secundárias.
Pelo contrário, eles colocam um ponto final bem forte no fim da descrição da atividade de Jesus no templo.
b. O título de filho de Davi. No âmbito da temática messiânica em Jerusalém, a principal questão era como
Jesus se portaria em relação aos títulos comumente dados ao Messias. A expectativa pelo “filho de Davi” era
especialmente popular. Sem protestar, Jesus deixou que uma voz isolada dentro da procissão de peregrinos o
chamasse assim (10.46-52), depois todos os seus simpatizantes defronte de Jerusalém (11.1-11; este é o
sentido). Agora ele mesmo esclarece o título. Também desta perspectiva nossos versículos formam o ponto
final de um desenvolvimento.
c. A linha do templo. Já de acordo com 2Sm 7.13, o filho de Davi tem a tarefa de construir uma “casa” para
Deus, um santuário. Por esta razão, a entrada do filho de Davi diretamente no templo em 11.11, seu protesto
em 11.15-17, sua luta com os senhores desleais do templo e seu ensino diário dos visitantes do templo,
também são ações messiânicas. Ao localizar nosso trecho expressamente “no templo”, Marcos está indicando
uma atmosfera altamente messiânica.
d. Polêmica com os sacerdotes. A reivindicação messiânica sobre o templo incluía a afirmação da
dignidade sacerdotal. O filho de Davi real haveria de acumular em sua pessoa também a função de sumo
sacerdote. Aliás, isto também mostra o Sl 110 citado, no v. 4. Portanto, temos aqui a continuação do litígio
com os principais sacerdotes de 11.27; 12.1,12, da qual encontramos ecos ainda em 15.29,38. A citação do Sl
110 certamente também serviu de base para a pergunta decisiva do sumo sacerdote em 14.61 e para a sentença
de morte.
e. Polêmica com os escribas. Bem parecido com 9.11 Jesus pega carona aqui em afirmações dos
professores da lei, enreda suas tradições em contradições e mostra a incapacidade dos supostos professores de
Israel (por último em 12.24,27).
2. A origem davídica de Jesus. Principalmente os comentários mais antigos concluem da pergunta em
aberto do v. 37a que Jesus estava colocando em dúvida sua descendência de Davi. Em vista da situação,
porém, isto é impossível. As árvores genealógicas em Mateus e Lucas já mostram que os evangelistas não o
entenderam desta forma. Toda a cristandade dos começos concordou com eles (At 2.25-31; Rm 1.3; 2Tm 2.8;
Hb 7.14; Ap 5.5; 22.16; cf. Jeremias, Jerusalem, p 324s). Até mesmo os polemistas em Jerusalém não se
atreveram a lançar dúvidas sobre a origem davídica, ao que dificilmente teriam renunciado se tivessem
esperança de sucesso. Cristãos e judeus, portanto, pressupunham um fato aqui, de modo que falta àquela idéia
a base histórica.
     35     Jesus, ensinando no templo, perguntou: Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi?
Em pleno lugar público Jesus aborda a questão da esperança messiânica. Que o salvador viria da
linhagem de Davi está bem comprovado no AT desde 2Sm 7.12-16. Na época de Jesus a esperança
estava bem viva. Que quadro os professores da lei pintavam deste personagem? Ser filho incluía para
eles também o papel do pai. Como seu antepassado, o Messias se envolveria na política como o
“homem forte”, para constituir o grande reino de Davi e conduzir Israel a uma nova era de glórias. A
passagem judaica mais antiga com o título messiânico “filho de Davi” acrescenta: “Aquele que
despedaça os pecadores como potes de barro” (Salmos de Salomão 17.21-28), o que naquela época
era aplicado aos romanos. Pelas circunstâncias do momento, portanto, o filho de Davi seria um anti-César. É em relação a esta messialogia que Jesus toma posição. Ele não coloca em debate a questão
da descendência, mas a interpretação do papel do filho. Ele a considera errônea e sem sentido.
     36     O próprio Davi falou, pelo Espírito Santo. Como Ezequiel em Ez 11.24; 37.1, ou João em Ap
1.10; 4.2; 17.3; 21.10, Davi também teve uma revelação durante uma espécie de êxtase. Ele
contemplou a majestade do Messias, enquanto ouvia uma palavra solene de entronização por Deus:
Disse o Senhor, isto é, Iavé, ao meu Senhor, ou seja, seu descendente messiânico. O simples fato de
Iavé dirigir-se ao filho de Davi passando por cima deste já atesta a relação especial que este tinha
com Deus. Por isso mesmo ele o chama reverente de “senhor”. Em uma família da Antigüidade era
impensável que o filho fosse considerado senhor do pai. Aqui, porém, num piscar de olhos se abre
uma dimensão totalmente diferente do Messias, superior à descendência biológica de Davi. Aqui está
alguém maior que Davi!
A proximidade extraordinária do Messias de Deus também tem efeitos sobre o tipo da sua
entronização: Assenta-te à minha direita, lemos, sem que se mencione uma guerra messiânica. Ele
não chega ao poder por meio de uma guerra, pois o próprio Deus intervirá e exaltará o Messias
manso e sofredor. Aqui devemos pensar nos anúncios da ressurreição a partir de 8.31. E o Messias
não é colocado sobre um trono palestinense, mas à direita de Deus (cf. 10.37), isto é, com honras
iguais às de Deus e sobre o trono do mundo.
Por fim: Até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés. Mesmo depois de exaltado,
ele ainda está cercado de inimigos, porém continua sendo príncipe da paz, esperando por uma
intervenção própria de Deus. Isto faz com que a ascensão ao trono e o domínio sobre todos estejam
separados no tempo (cf. 1Co 15.23-28). Quem, porém, são os inimigos? Do ponto de vista cristão,
todos nós, judeus e gentios, somos inimigos de Deus por natureza (Rm 5.10). Nossa sujeição
acontece no curso do processo missionário ou no fim, quando da volta de Cristo. Fica claro: o reino
messiânico não será simplesmente uma cópia repetida do reinado de Davi, mas sua plenitude. A
interpretação original da Escritura, nascida da proximidade de Deus, lança luz sobre a conduta tantas
vezes incompreensível de Jesus naqueles dias. À luz da Escritura ele anda pelo caminho da
humildade e da exaltação.
     37a     Jesus sabia que estava em harmonia com a Escritura e com o Espírito Santo. O mesmo Davi
chama-lhe Senhor. O próprio Davi já apontara para a função de Jesus superior à história. Como,
pois, é ele seu filho? A interpretação mostrou: a linhagem terrena do parentesco sangüíneo é o
começo, não o alvo. É certo que Deus escolhe famílias, assim como a linhagem de Davi; mas não
para limitar-se a elas e tornar-se um deus familiar. Isto já foi ensinado em 3.31-35. Aqui também o
destaque fica para a ampliação da família de Davi para alcançar a família humana.

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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