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77 Anúncio do julgamento dos professores da lei, Mc 12.37b-40

Anúncio do julgamento dos professores da lei, Mc 12.37b-40 
(Mt 23.1-36; Lc 20.45-47)

37b-40 E a grande multidão o ouvia com prazer. E, ao ensinar, dizia ele: Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e das saudações nas praças; E das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos primeiros lugares nos banquetesos quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo.

Em relação à tradução
   a
     Nas ocasiões em que Marcos fala de uma grande multidão, ele diz ochlos polys (5.21,24; 6.34; 8.1;
9.14); somente aqui ele usa o artigo definido e inverte: ho polys ochlos.
   b
     blepete como chamado de alerta já apareceu em 4.24; 8.15; como palavra de instrução em
13.5,9,23,33.
   c
     stole pode, como himation (cf. 10.50n), denotar a túnica usada por todos, porém muitas vezes, como
aqui, inclui uma indicação de que a roupa é especial, como a do rei ou do sacerdote; cf. também Lc 15.22.
De acordo com Bill. II, 31s, os professores da lei usavam uma toga de eruditos que ia até os pés, que alguns
gostavam de inclusive arrastar no chão.
   d
     Veja 9.15n. “A pessoa tem de cumprimentar primeiro aqueles que têm um conhecimento melhor da
Torá do que ela” (Bill. I, 384). Do cerimonial fazia parte o respeitoso “Rabi!” ou “Pai!” (Mt 23.7ss).
   e
     Via de regra os professores da lei não se sentavam entre os freqüentadores comuns durante as reuniões,
mas em uma plataforma mais alta diante do armário da Torá, voltados para o povo, ou em bancos que
acompanhavam as paredes laterais (Bill. I, 915s).
   f
     Também em Jerusalém havia uma sinagoga, se não várias (At 6.9; sobre isto, veja Jeremias, Jerusalem,
p 175).
   g
     As refeições principais (deipnon) eram tomadas sentados. Os “lugares de honra” aqui são para deitar, o
que indica uma refeição festiva com motivação religiosa ou particular.
   h
     oikia tem aqui o sentido prático de “propriedade”.
Observações preliminares
1. Contexto. Os debates com os professores da lei (por último nos v. 28,35) se encerram com um anúncio
de julgamento. Nos próximos capítulos, o grupo só aparece em relações. Quanto às palavras contra os
professores da lei, Marcos dá a entender no v. 38a que está fazendo uso de uma seleção (compare com o
detalhamento de Mateus!). Talvez tenha algum sentido o fato de ele escolher exatamente seis acusações. Seis é
o número do que é mau e contra Deus. (Ap 16.16; 22.15 relaciona seis grupos de pessoas condenáveis.)
Intencionalmente Marcos coloca no começo o grupo dos seguidores de Jesus dispostos a serem ensinados, em
oposição aos professores da lei. Prestar atenção na função e forma do parágrafo nos protege contra uma
interpretação moralista.
2. Anti-judaísmo? Será que nestes versículos contra os rabinos judaicos fala um espírito hostil, que só
consegue embrutecer e generalizar? Os próprios professores judeus não advertiam contra essas erupções de
vaidade pessoal (em Grundmann, p 344)? Será que elas não existem em todos os grupos profissionais? Não
temos conhecimento de professores humildes (em Schmithals, p 551)? Num primeiro momento podem surgir
perguntas como estas, mas elas são precipitadas e sobrecarregam em muito estes quatro versículos. Tomando
um pouco de distância, logo veremos nos versículos precedentes um exemplo de que Jesus também conhece e
honra professores da lei sinceros (v. 28-34). Além disso, todo o trecho está colocado sob a ordem “guardai-vos” para os ouvintes de Jesus, o que inclui a igreja depois da Páscoa. Eles não devem tomar cuidado com
certas pessoas, mas com um sistema religioso, e com algo que lhes está muito próximo: Abram bem os olhos!
Vocês estão em perigo!
     37b     E a grande multidão o ouvia com prazer. A nota à tradução mostrou que Marcos falou desta
multidão de modo diferente do que costumava. Ele não a considera um ajuntamento neutro de
pessoas. Prestando atenção de modo qualificado, eles se qualificaram. Seus integrantes podem ter
sido predominantemente peregrinos que tinham vindo para a festa (com Pesch II, 255), aos quais
outros simpatizantes das palavras de Jesus tinham-se agregado em Jerusalém. Eles não eram atraídos
por simples curiosidade, nem por satisfação pelo sermão passado nos integrantes do sistema. A
palavra do reinado de Deus que estava próximo os cristalizou e os tornou em imagem do antigo
Israel. Eles guardavam o lugar do novo povo do templo que o Messias queria criar para si.
     38,39     E, ao ensinar, dizia ele: Guardai-vos! Parte importante do ensino de Jesus não era somente a
revelação de Deus no filho de Davi (v. 35), mas também a revelação do antigo Israel em sua
depravação. Não existe um Israel renovado sem julgamento próprio cuidadoso e sem se desfazer do
“pecado que tenazmente nos assedia (Hb 12.1). Está em questão aqui concretamente o fermento dos
escribas (8.15). Devido à sua posição em Israel (opr 5 a 1.21-28) eles eram representativos como
nenhum outro grupo, razão pela qual são os mais citados por Marcos (dezenove vezes, de 1.22 até
15.31).
A acusação é sêxtupla. Gostam de andar com vestes talares. Jesus não está condenando as
roupas luxuosas, mas o destaque e exibição da posição deles. Eles pairavam no meio das massas
populares como figuras vestidas de branco, ostentando sua atitude de oração e sua concentração na
Torá. No mesmo nível estava a recepção generosa das saudações nas praças, a exigência das
primeiras cadeiras nas sinagogas, onde sentavam na parede frontal da sala, o rosto voltado para a
congregação que sentava no meio; por último, a ocupação automática dos primeiros lugares nos
banquetes. Com isto Jesus não os estava acusando de irem atrás das panelas melhores e mais
abundantes. Contudo, eles sabiam da sua importância, dirigiam a conversa nesta direção e
desempenhavam seu papel determinante na vida social (sobre a reação irada dos rabinos quando sua
honra era ferida: Bill. I, 515; II, 555; III, 296). Nada disto combinava com aquilo que sua boca
expressava diariamente com cadência no xma: Nosso Deus é “o único, e não há outro senão ele” (v.
32). Como era possível edificar ao lado dele um sistema de domínio como este, ainda mais
expressamente em nome de Deus? Para os porta-vozes de Deus não restavam somente os últimos
lugares? Podemos comparar aqui o mundo totalmente diferente do ensino dos discípulos p ex em
9.33-35; 10.42-45.
     40     Ao fracasso em amar a Deus corresponde o fracasso em amar as pessoas. Os quais devoram as
casas das viúvas. Como as viúvas, por serem mulheres, não eram emancipadas perante a lei,
precisavam do auxílio de um homem para administrar legalmente o inventário do marido falecido.
Nestas circunstâncias, naturalmente os professores da lei, versados no direito, estavam na posição de
cumprir a exigência profética de garantir os direitos das viúvas (p ex Is 1.17). Na prática, porém, as
coisas muitas vezes eram feias (Bill. II, 33). Muitas viúvas e órfãos se viam obrigados a mendigar
porque os assessores não podiam resistir às tentações materiais. Assim como as propriedades dos
doentes podem desaparecer nos bolsos dos médicos (5.26), o das viúvas parava nos bolsos dos
teólogos ou de seus seguidores.
A sexta acusação provavelmente tem relação com esta exploração das viúvas. E, para o
justificar, fazem longas orações. No judaísmo orações longas eram muito louvadas, como indício
de religiosidade (Bill. I, 403). Assim, um professor da lei podia, com orações longas – visível a todos
por estar envolto na roupa do cargo (Bill. II, 33) – recomendar-se às mulheres necessitadas como
conselheiro jurídico. “Ambição profana com conduta santa”, resume Lohmeyer (p 264).
Estes sofrerão juízo muito mais severo. “Os mestres haverão de receber maior juízo” (Tg 3.1), e
“Um servo que conheceu a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade
será punido com muitos açoites” (Lc 12.47). Que desespero será quando o Deus de toda paciência
rejeitar alguém! Para onde fugir quando o Cordeiro está irado (Ap 6.16s)!? – O intérprete não tem
por tarefa proporcionar distração e desculpas ao coração humano. Ele tem de deixar bem clara a
advertência: “Guardai-vos!” (v. 38).

Fonte: Marcos - Comentário Esperança

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