Pessoas que gostam deste blog

79 O primeiro acontecimento:A entrada em Jerusalém, Mt 21.1-9


O primeiro acontecimento:A entrada em Jerusalém, 21.1-9 
(Mc 11.1-10; Lc 19.38-48; Jo 12.12-16) 

1-9 Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao Monte das Oliveirasenviou Jesus dois discípulos, dizendo-lhes: Ide à aldeia que aí está diante de vós e logo achareis presa uma jumenta, e com ela um jumentinho. Desprendei-a e trazei-mos. E se alguém vos disser alguma cousa, respondei-lhe que o Senhor precisa deles. E logo os enviará. Ora, isto aconteceu, para se cumprir o que foi dito, por intermédio do profeta: Dizei à filha de Sião: Eis aí te vem o teu rei, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de animal de carga, Indo os discípulos, e tendo feito como Jesus lhes ordenara, trouxeram a jumenta e o jumentinho. Então puseram em cima deles as suas vestes, e sobre elas Jesus montou. E a maior parte da multidão estendeu as suas vestes pelo caminho, e outros cortavam ramos de árvores, espalhando-os pela estrada. E as multidões, tanto as que o precediam, como as que o seguiam, clamavam: Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas! 

Em relação à tradução
 
a
     Betfagé = lugar dos figos (Marcos ainda acrescenta Betânia, que era mais conhecida, por onde, porém,
o cortejo de Jesus já tinha passado) é uma aldeia ao lado de Jerusalém, que, segundo a tradição rabínica,
ainda era considerada parte do território sagrado. Deixando essa localidade, Jesus inicia o movimento rumo à
cidade, podendo ser visto a partir do templo.
   
b
     O Monte das Oliveiras é citado pelo nome no AT somente em Zc 14.4. A partir deste lugar começaria o
fim (sem citação do nome, em Ez 11.23; 2Sm 15.30; 2Rs 23.13). De acordo com a tradição judaica, o monte
das Oliveiras possui uma importância singular. Deste monte a pomba teria trazido a folha de oliveira a Noé
na arca. Situa-se aproximadamente 1 km a leste de Jerusalém, separado dela pelo vale do Cedrom.
   
c
     Veja o exposto sobre “imediatamente” em 20.34. Também aqui a expressão tem a finalidade de
apontar para o aspecto milagroso que reside na descoberta do animal de montaria.
   
d
     A citação de Zc 9.9, que se cumpre com a entrada em Jerusalém, fala do animal de montaria na forma
da poesia semítica, descrevendo o animal duas vezes com palavras diferentes. Jesus está montado num
jumento, a saber, no jovem filhote de uma jumenta. Talvez também seja importante, como sugere Mc 11.2,
que antes ninguém havia montado nesse animal. Falando de dois animais diferentes, os evangelhos não
teriam mais entendido essa citação de forma correta.
     Zc 9.9 tem importância na expectativa judaica pelo Messias na medida em que esta contrapunha essa
profecia à profecia de Dn 7.13, passando a esperar o seguinte: se Israel tiver méritos, o Messias virá sobre as
nuvens do céu, se Israel não tiver méritos, ele virá pobre e montado num jumento (Rabino Alexandrai, por
volta de 270, cf. Strack-Billerbeck). Logo, a entrada de Jesus constituiria um indício para os pecados de seu
povo.
   
e
     Aqui o termo “filha” de Sião refere-se, como no AT, à cidade de Jerusalém.
Nesta história Jesus pisa o território sagrado da cidade, no qual se consumará sua trajetória de
sofrimento e vitória. Ele deixará essa cidade somente expulso, com a cruz nas costas. Será posto fora
como um excluído que não pode findar sua vida dentro da área sagrada. Dentro desta moldura de
“entrada e expulsão” insere-se, pois, tudo o que sucede em seguida, entre a entrada daquele que vem
em nome do Senhor Iavé e a expulsão como alguém que foi condenado à morte em nome desse
mesmo Senhor Iavé. Com esta observação já se definiu a característica daquilo que a presente
história relata. A entrada triunfal traz consigo a primeira reivindicação claramente visível de Jesus,
pela qual depois será trazido ao tribunal.
O próprio local torna claro o que está acontecendo. O Messias devia chegar vindo do monte das
Oliveiras (Zc 9.9). Em cada detalhe o cortejo se desenrola da maneira como o profeta o anunciou (Is
62.11; Zc 9.9). Deus mesmo toma as providências para que tudo seja de acordo com o que ele
prometeu. Por isso ele faz com que o proprietário desconhecido do jumento esteja disposto a entregar
o animal. Por isso o jumento tinha de estar amarrado ali justamente na hora determinada. Tudo isso
faz parecer que ocorrem coincidências, porém por detrás de todos esses eventos está Deus que os
providencia. Jesus sabe dessa atuação de Deus. Ele envia os discípulos com base nesse
conhecimento.
“Portanto, Cristo está diante de nós como quem dirige os acontecimentos. Ele não é vítima da
morte, da qual não consegue e tampouco quer se esquivar, mas sim provoca a morte e força-a a
comparecer perante ele. Ele sabe o que os discípulos farão, pois a Escritura precisa se cumprir (Mt
26.54; Jo 13.8). E Jesus cumpre a Escritura.
“Não obstante – numa perspectiva terrena e humana – como é precária essa improvisação! O que
se desenrola ali é mais parecido com a marcha de um arlequim burlesco do que com um evento real.
Um rei sobre um jumento, que nem mesmo lhe pertence, e que ele precisa devolver após o uso
(segundo Mc 11.3, ele manda assegurar isso expressamente ao proprietário)! Um rei sem coroa, sem
cetro, sem espada, sem corte! Seu percurso não está coberto de ricos tapetes, mas das roupas sujas,
cheias de suor dos peregrinos, enfeitado não com belas guirlandas trabalhadas, mas com galhos
rapidamente cortados e punhados de capim arrancado às pressas. Em torno dele grita uma multidão,
na qual se confundem, a esmo, verdades (v. 9) e afirmações erradas (v. 10; cf. 16.14). É uma
multidão que o aclama enquanto imagina reconhecer nele seu ídolo messiânico, e que o condenará
quando descobrir nele alguém que não se enquadra na vontade dela. Não teria Jesus sofrido com esse
júbilo mais do que percebido satisfação? Será que essa entrada triunfal já não foi o primeiro trecho da
via dolorosa, i. é, do caminho da Paixão?
“Deve ter acontecido o milagre do Espírito Santo, quando alguém como o evangelista ouvia por
trás dos gritos de aclamação o louvor a Deus dedicado ao Messias, prefigurado pelo próprio Deus na
Escritura. Somente quem já sabe da cruz, como o próprio Senhor, pode ver que a entrada de Jesus na
cidade preenche com realidade histórica não apenas as palavras, mas também o sentido da profecia
de Zacarias” (cf. Zwischen den Zeiten, 1947 e 1948).
Apesar de tudo, pelo que se relata, a entrada constitui um ato de homenagem. As roupas dos
discípulos servem de xairel para o rei que chega. A multidão espalha suas vestes da mesma maneira
como é relatado acerca da cerimônia de coroação de Jeú (2Rs 9.13). Mas ainda é superada a
homenagem que costumeiramente se presta a um rei. Os ramos fazem parte da festa das Tendas, e
apontam para a presença de Deus, diante da eternidade do qual o povo somente vive em tendas
transitórias.
Originalmente, hosana é um grito de socorro (2Sm 14.4: “Socorre-me, ó rei”), contudo já na
liturgia da sinagoga seu caráter foi mudado. Tornou-se grito de salvação, porque o pedido de socorro
estava ligada à certeza de se obter a ajuda. De modo semelhante aconteceu mais tarde na igreja,
quando o kýrie eleison se transformou de um pedido num anúncio de salvação. Na festa das Tendas o
Hallel tinha um lugar privilegiado, durante o qual se cantava o Salmo 118, e a multidão, em
determinados versos, agitava os ramos em suas mãos. Aquele que vem é título messiânico. O
próprio Jesus usou essa palavra nesse sentido já em Mt 3.11 e depois na pergunta do Batista, em Mt
11.23,29.
Depois de tudo isso, tem de causar admiração que a entrada, que com tanta evidência era uma
proclamação de Jesus como Messias, permanecesse sem conseqüências diretas. Em geral, os romanos
agiam rapidamente contra pretendentes a messias (eram os que reivindicavam ser o libertador
político, o Messias), dos quais não faltavam candidatos no tempo de Jesus (At 5.36). João relata
(12.16) que nem mesmo os discípulos entendiam bem o que tudo isso significava. Entretanto, deve
ser assim que a luz sob a qual nós lemos a história é a luz da Páscoa, quando Jesus foi glorificado, i.
é, quando se tornou claro quem ele era de fato. No momento em que acontecia o evento ainda havia
um véu sobre ele, do mesmo modo como Jesus permaneceu durante sua vida terrena o “Messias”
oculto. O mistério do Messias ainda paira sobre ele, porque ele é o rei que se encontra a caminho da
cruz. Portanto, já o início desse caminho até a cruz está encoberto.
Contudo, muito além da cruz, o fato histórico da entrada triunfal em Jerusalém prefigura a
chegada do Exaltado ao mundo. Cristo retornará com grande poder e glória.
As duas palavras dos profetas apontam para o rei que retornará com grande poder e esplendor. Is
62.11 fala da salvação (referindo-se à salvação escatológica) e do juízo (que é o juízo final). Zc 9.9
indica, na mudança da história, para aquele que vem como rei para a sua comunidade. O rei dessa
comunidade é o vencedor. Ele é quem experimentou salvação. Ainda chega encoberto pela sua
humildade. Porém permanecerá o mesmo quando for exaltado, aquele que se coloca ao lado dos
pobres e miseráveis.
Quanto ele, pois, vier, terá chegado a redenção eterna da qual também os rabinos falavam quando
recitavam com júbilo o Sl 118. Os anjos do céu participam do júbilo dos seres humanos. Os joelhos
de todos se dobrarão, no céu, na terra e debaixo da terra, e finalmente o Vindouro será exaltado como
Rei dos reis e Senhor de todos os senhores.
As pessoas que entre si falam do Vindouro, por fim ainda terão de testemunhar, com pergunta e
resposta, que nele está sendo cumprida a promessa de Deus. O presente e o futuro coincidem.
Não se deve transformar com demasiada rapidez a história da entrada de Jesus em Jerusalém numa
entrada dele em nosso coração. Tal redução a uma dimensão intimista não corresponde à incrível
tensão escatológica da história (cf. Zwischen den Zeiten).

Fonte: Mateus - Comentário Esperança

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Online